Snowing In Paris
1 One Shot
Notas iniciais
“Maybe my song isn't happy enough but I"
Egito, 46 a.C.
— Está frio aqui ou é impressão minha? Você podia se deitar ao meu lado... Para me esquentar, óbvio.
A mulher deu um riso travado que contradizia as lágrimas em seu rosto e o sangue impregnado em suas vestes.
Ela deitou ao lado do parceiro e começou a acariciar seus cabelos negros. Ele parecia fraco: seu corpo lutava, com determinação, contra a infecção que o consumia. Mas aquela era, infelizmente, uma batalha perdida. A morte de Anúbis estava certa.
"— Deve haver um... Um poder! Os Miraculous podem fazer mil maravilhas! Por favor, deve haver um jeito de salvá-lo...
— Sinto muito, não podemos fazer mais nada por ele."
— Por que está chorando?
— E-eu não posso... Não quero te perder...
— E não vai. Serei eternamente seu. — A voz do homem estava mais fraca, como se estivesse se esvaindo de sua garganta enquanto falava. — Eu te amo, te amei e sempre te amarei. E se os deuses forem bons, nos veremos de novo.
Os olhos verdes se fecharam e a máscara preta que cobria o rosto do seu dono, desapareceu.
"I see it take flight with the snowflakes above me"
Bélgica, 1917
— Deixe-me ver.
— Não! Esqueça isso! Foi só um arranhão. — Ela disse em voz alta.
— Por favor... — Suplicou.
E quem poderia resistir a um pedido daqueles olhos azuis?
Se libertando do traje de gato preto, a mulher bufou e o soldado sorriu enquanto examinava a ferida no ombro da colega. Limpou o sangue seco e enfaixou o ferimento, com cuidado.
— Você parece cansado.
— Todos estão. A enfermaria está um caos, a cada dia que passa, mais de nossos profissionais estão sendo mandados para as trincheiras todos os dias... Sinceramente, não sei se...
— Nós vamos sair dessa. — afirmou, com convicção.
— Nós vamos?
— Juntos.
Os soldados se olharam intensamente e demoraram para perceber a neve caindo a sua volta. Cada encontro, cada conversa, poderia ser um último adeus e coisas tão simples, como ver a neve fresca cair, pareciam cada vez menos triviais.
Eles voltaram ao trabalho, mas nenhuma arma, nenhum ferimento e nenhum outro sentimento parecia tão forte quanto a única coisa que lhes tinha restado; nada parecia tão certo quanto aquela promessa de amor.
"My coffee gets cold as I'm staring enthralled
At the snow that keeps falling outside"
Pompéia, 79 d.C.
— Eu falhei... Se.. se tivéssemos... Eu... Argh!
Angústia se enraizava dentro do homem ao passo que a tristeza virava raiva. Lágrimas caíam contra a sua vontade, criando rastros em seu rosto manchado de cinzas.
Um par de mãos delicadas tocou-lhe a face subitamente.
— Eu sei... Mas nós não perdemos tudo. — disse a dona das mãos. — Posso ter perdido minha casa, mas lar, para mim, é onde você está. Vai ficar tudo bem, eu prometo.
Então, por um momento, o homem se permitiu esquecer as cinzas que caíam a sua volta, focando somente na máscara vermelha e preta e no par de olhos azuis a sua frente.
"And traveling light is a curse and a blessing
For someone like me, whose heart has gone missing"
França, 1794
Por muito tempo ele achara que amor era uma fraqueza, que impedia o indivíduo de alcançar o objetivo desejado.
E ele estava terrivelmente enganado.
No amor, achou poder.
No amor, teve refúgio.
No amor, encontrou apoio.
No amor, deu e recebeu.
No amor, salvou um país.
No amor, descobriu o melhor de si.
Infelizmente, ainda existiam coisas tão fortes quanto o amor: a obsessão de um homem que buscava poder, por exemplo.
E, porque o amor é forte e volátil, o dito Homem transformou o amor que tinha por sua nação em ódio e desconfiança.
Toda uma revolução, antes baseada em igualdade, liberdade e fraternidade, agora podia ser resumida em uma palavra: Terror.
Terror este que matou todo o resquício de amor que um dia vivera e lutara para sobreviver naquela terra.
Ele tentou fugir, para salvar o seu Amor, mas não foi rápido o suficiente para escapar do sinistro Terror.
Ele estava prestes a ver uma guilhotina matar seu Amor e destroçar seu coração. Aquilo o destruía por dentro, pois nada que fizesse mudaria o futuro.
Um par de brincos em sua mão era a única coisa que lhe restava.
Isso, e a promessa de que o Homem não encontraria o poder que desejava, assim como ele não amaria de novo.
"And see you in London"
Grã-Bretanha, Século V
— Morgana não descansará até trazer à Bretanha o mal e a destruição. Só de pensar no poder que ela pode possuir... Não podemos falhar. É uma questão de vida ou morte...
— Eu sei. Mas eu também sei que não iremos falhar. Aqueles homens — Lancelot apontou para o grupo de cavalheiros, escolhidos a dedo pelo rei com quem conversava — são mais do que capazes de nos ajudar a vencer essa guerra.
Lancelot segurou o punho cerrado de Arthur e, mirando seus olhos, continuou.
— Merlin nos escolheu por um motivo. Iremos cuidar do reino com a ajuda dos Miraculous e nem mesmo Morgana poderá impedir o triunfo de Arthur Pendragon, rei prometido da Bretanha.
"Berlin will be waiting"
Fronteira entre Bélgica e Alemanha, 2 de setembro de 1945
— Nós conseguimos... A-a-acabou... Você sabe o que isso significa? Nós-nós vamos poder... voltar! Você ouviu?? ACABOU! VAMOS VOLTAR PARA CASA!
O soldado ao seu lado disse alguma coisa que fora abafada pelo barulho: os sons da cidade sendo acudida por militares felizes com o fim da Guerra era muito alto para conseguir entendê-lo.
— O que você disse? — a mulher perguntou.
O soldado deixou de lado o traje de gato que usava na batalha, revelando o uniforme igual a de seus companheiros de tropa. O homem se aproximou do ouvido da mulher, abraçando-a fortemente e lhe falou:
— Com você, eu já estou em casa.
Naquela frase, ambos viram uma promessa silenciosa, e quase infinita, sendo refeita: onde quer que estivessem, seu lar sempre estaria com eles.
"Or maybe in Paris
And so will be Rome"
Itália, Roma, 1630
Assustada e cansada, a mulher se levantou da cama e andou em direção à janela do quarto. O medo parecia consumir cada fibra do seu ser.
As imagens de seu pesadelo passavam em loop, como se estivessem acontecendo naquele exato momento. Homens e mulheres queimando até a morte por uma ordem de homens que se consideravam bons.
Seu coração acelerado sofria antecipadamente por uma visão que poderia nem se tornar realidade.
— Outro pesadelo? — Perguntou o homem, que caminhava lentamente até sua esposa.
Ela não respondeu. Do que adiantaria? Ele já sabia a resposta.
— A Igreja nunca descobriria a verdade...
— Mas, e se?
Era a vez do homem de ficar calado. Os dois olharam a cidade, pela janela. A esmagadora maioria daquelas pessoas não pensaria duas vezes antes de entregar seus "heróis" nas mãos dos opressores, para morrerem na fogueira, sendo considerados bruxos.
— O que nós fazemos não é fácil, mas precisamos continuar. Assim que recuperarmos os outros Miraculous, eu prometo, iremos para a Inglaterra, ou talvez para a França, tanto faz... Iremos para longe daqui e viveremos sem medo.
— Aqui, França, Espanha, Inglaterra... O lugar não importa, só... Prometa que não vai me deixar?
O homem arregalou os olhos ao ouvir o pedido da amada.
— Prometo. Nunca vou te deixar.
"And maybe I'll see you again when it's snowing in Venice"
Mar Jónico, 7 de setembro de 1571
A batalha não fora fácil. Quando a Liga Santa colidiu com as forças do Império Otomano, uma batalha violenta se desenrolou.
O Mar Jónico estava vermelho com a quantidade de sangue derramado. Inclusive, com o sangue de sua recém parceira, morta com um tiro de mosquete que atravessou o coração.
Miguel tinha reconhecido a figura, que parecia muito com a de um gato, na batalha. Os dois possuíam uma ligação importante, Tikki o havia dito.
"— Vocês foram escolhidos por uma razão. Estão destinados a lutarem juntos contra o mal desse mundo.
— Como vou saber que a encontrei? Haverão muitos outros no meio da batalha...
— Você vai saber..."
Não que um dia ele fosse entender o significado dessa ligação.
A moça estava morta, não havia mais o que fazer.
"Leve meu anel", disse um pouco antes da morte, "cuide bem dele".
Essa foi a única coisa que o jovem a ouviu dizer.
Ainda assim, lutar, depois daquela insignificante morte, tinha sido mais difícil do que o esperado. Era quase como se uma parte de si estivesse perdida.
E, então, aconteceu: um barulho audível, mas não perceptível em meio a tantas outras vozes e sons. A dor aguda no ombro esquerdo.
Miguel foi capturado pelas tropas otomanas, mas não era como se aquilo fosse realmente fazer diferença.
Afinal, a batalha do jovem havia acabado antes mesmo de começar.
Dessa vez apenas, a promessa não foi cumprida. Até porque ela não teve a chance de ser feita.
"And I will be on my way home"
França, Paris, 2022
Coração de Pedra marcou o início de uma nova era para os Escolhidos. Com um novo mal a solta, era necessária uma nova dupla de heróis que pudessem usar seus Miraculous para o bem.
Então, mais uma vez, dois civis foram escolhidos para proteger a humanidade: Marinette virou Ladybug e Adrien, Chat Noir.
Assim como todas as outras gerações passadas, os dois jovens tiveram dificuldades, mas não importava o que acontecesse, eles estavam juntos, uma equipe quase perfeita, pronta para defender Paris de todo o mal imposto por Hawkmoth.
Contudo, um dia, o mal que assolava a cidade foi derrotado.
— Chat? — Marinette chamou o parceiro.
O garoto estava sentado no telhado de um prédio qualquer, observando o alvoroço por toda Paris, uma onda de felicidade preenchia a cidade, todos os cidadãos comemoravam por estarem seguros mais uma vez.
Todos, menos Chat Noir.
— Adrien... — Tentou mais uma vez.
— Ele nunca foi um bom pai. Mas ele era meu pai... — Marinette podia ver as lágrimas escorrendo com voracidade pelo rosto do jovem. — Ele era a única família que me restava e agora... — Ele suspirou. — Agora, estou sozinho.
Uma solidão e tristeza excepcional tomavam conta do jovem. Em épocas diferentes, Adrien poderia até mesmo ter sido akumatizado.
— Não, você não está. — Ladybug abraçou o amigo, que retribuiu a ação. — Você nunca vai estar sozinho.
E aquela promessa foi cumprida. Ladybug e Chat Noir eram mais do que simples parceiros no combate ao crime: eles eram uma família, destinados um ao outro. Somente juntos estavam completos. Juntos cumpriam uma promessa de gerações.
Adrien sentiu um toque em seu ombro e virou-se para ver Nino, Chloé e Alya.
— Não deveriam estar comemorando na cidade? — Chat Noir perguntou, sem maldade ou sarcasmo.
— Queríamos ver como você estava e, bem... — Carapace começou.
— Eu tive a brilhante ideia de comprar pizza! — Rena entregou as três caixas quadriculadas para a amiga vermelha e preta. — Por conta da Chloé.
Bom, talvez a família tenha aumentado pelo caminho.
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