Snowflake

1 Uma noite de neve


Notas iniciais
Independente do que você achar, foi uma experiência incrível quase falecer pra escrever isso. Nesse amigo secreto ganhei dois presentes ♥

As ruas estavam brancas e macias, a neve embranquecia o cabelo de Lucca que caminhava com certa dificuldade. Sua perna direita doía e o tempo o dizia para voltar, mas estava decidido.
Chegou à casa de Kris ofegante e precisou parar no jardim antes de pensar em entrar. O irmão mais velho do namorado o atendeu e o deixou subir, embora Kris não estivesse lá. Ele não estava lá a dois meses.
Lucca entrou no cômodo ainda bagunçado, a cama por fazer e as roupas espalhadas pelo chão e móveis o faziam pensar que, fechou os olhos, Kris acordara tarde naquela mesma manhã. Que ele comera qualquer coisa que encontrou na cozinha às broncas do irmão pelo atraso. Que ainda naquela manhã mandara um "Dia" por mensagem e que em algumas horas estaria no seu quarto de novo, pronto pra ir embora com sua mochila surrada. Mas dessa vez Lucca estaria lá para saber o porquê. Respirou fundo e reabriu os olhos, encarando a realidade.
Achou o último álbum lançado de Kris no chão, quebrado e ao lado da lata de lixo lotada de presentes e cartas de fãs que Lucca nem imaginava existirem. Kris era só mais um artista independente lutando por espaço no cenário do entretenimento, certo? Quando foi que começou a ter tantos fãs? Distraído, Lucca bateu a perna direita na cadeira da escrivaninha e precisou se sentar para se recuperar da dor.
Ele lembrou de quando Kris conseguiu um contrato com uma pequena gravadora. Eles ainda não namoravam, mas Lucca foi o primeiro a saber. Kris telefonou para ele logo que pôde e se encontraram num café no centro da cidade. Lá, com aquele jeito meio inexpressivo no rosto e na voz, mas cheio de paixão no olhar Kris contou que seu sonho estava começando a se realizar e Lucca sentiu como se fosse o seu próprio sonho ganhando forma.
Mais acima estava seu notebook desbloqueado. Nas abas abertas estavam vídeos de várias coreografias e partituras complicadas e seus respectivos tutoriais. Lucca imaginou que Kris estava treinando dança, canto e suas habilidades com instrumentos quando começou a frequentar a empresa em quase todo seu tempo livre, mas não imaginou nada tão complexo. Na pasta de vídeos havia pequenos filmes de Kris praticando, um para cada dia desde que entrara na gravadora e em quase todos ele parecia exausto, embora também parecesse feliz nos mais antigos. Nada que não fosse relacionado às habilidades de dança, canto e composição foi achado no computador, nem no histórico do navegador. Lucca percebeu então o quão duro estava sendo para Kris. Se arrependeu amargamente das brigas que começou pelo distanciamento dos dois. Kris nunca fora o tipo de compartilhar os problemas e Lucca sabia disso, ele sentiu que deveria ter notado. Que talvez tivesse culpa pelo o que aconteceu.

Ele sentou na cama de volta, pensando no que viu e na culpa que sentia. Chegara a pensar que estava sendo traído, como é possível que uma empresa possa abusar tanto assim de um "funcionário"? Nesse momento ele viu uma lata de spray vazia ao lado da cama. Era relaxante muscular. Seguindo a trilha de embalagens de comprimidos achou uma caixa cheia de medicamentos para dor física e lesões leves. A raiva e a tristeza lhe consumiram por um momento e ele socou a cama. Ele deveria ter vindo antes, mas não pôde.
Ao levantar meio cambaleante, notou um poster de Kris das promoções de seu álbum colado atrás da porta do quarto. Ele estava amassado e tinha furos e rasgos por toda sua extensão. Lucca quase conseguia ver Kris na sua frente agredindo o poster. Deus, por que ele tinha de ser tão teimoso? Por que não contar à Lucca?
Chega! Ele havia cansado daquele Kris que sofria em silêncio e que escondia seus machucados, ele queria ter sabido disso antes, tê-lo ajudado antes. Aquele idiota não merecia nem precisava passar por tudo aquilo sozinho. Lucca encontraria Kris nem que fosse a última coisa que fizesse.
Procurou avidamente por pistas de onde Kris poderia ter ido, mas só encontrou uma foto dos dois na gaveta do criado mudo e suas antigas composições que quase o fizeram chorar.

Cumprimentou o irmão de Kris e saiu, decepcionado. Não fazia ideia do próximo passo e o frio que maltratava seu joelho direito não ajudava a criar um plano. Mesmo assim, com algum esforço, conseguiu pensar em algo. No dia seguinte iria ligar para todos os parentes de Kris de novo e para os mais distantes que havia ignorado, afinal dois meses é tempo suficiente para atravessar o país. Mas por que Kris atravessaria o país? Argh! Não entendia mais nada sobre ele, pareceu-lhe até que nunca estiveram num relacionamento.
Lucca chegou em casa, sentou na calçada, ergueu a barra da calça e apertou o joelho direito esperando a dor passar. Quando se conheceram Lucca jurava que era odiado por Kris. Ele era o único do grupo de amigos que sempre tentava iniciar uma conversa com ele, as vezes forçar. Mas mesmo sob a suposto desaprovação de Kris ele insistia, afinal não importa o quão forte somos é impossível que consigamos suportar tudo sozinhos. Um dia, num amigo secreto, Kris o presenteou com um livro que queria e disse que era muito grato por todas as conversas que tiveram. Mais tarde Lucca perguntou se ele realmente era grato e se não o odiava, surpreendendo-se novamente com a resposta dele: “Minha cara é assim mesmo. Eu gosto muito de te ouvir”. Foi quando cada sorriso que esboçava tornava-se um troféu para Lucca.
Algo caiu na neve e ele levantou a cabeça. Era Kris.
Ao lado de uma árvore enorme, a prótese que tanto machucava o joelho de Lucca fez Kris largar a mochila velha e surrada para entender o que estava vendo. Logo depois, começou a chorar.
Lucca sorriu-lhe, abaixou a barra da calça e foi até ele mancando. Lá, o abraçou.

Notas finais
Espero que tenha gostado ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!