Snowboarding With You
2 Capítulo Dois
Notas iniciais
Assim que Reki avistou o azulado se aproximando, ele não pôde deixar de sorrir.
Como de costume, o ruivo estava esperando na frente de casa. Os dois fizeram o cumprimento do infinito e seguiram o caminho até Crazy Rock, onde ocorria o S.
Mais uma vez, eles seguiram o caminho em silêncio. O único som que se fazia nas ruas era o do atrito entre as rodas dos skates e o asfalto.
Assim como na noite anterior, a lua brilhava intensamente no céu. E, como sempre, Reki ficou corado, observando como aquela luz natural parecia ressaltar os cabelos claros e os olhos cristalinos de Langa.
Mas não demorou muito para que o vermelho percebesse que aquele belo olhar azulado parecia distante.
Em meio à rua vazia, Reki começou a fazer algumas manobras, tentando chamar a atenção do azulado.
Mas ele não reagiu.
Reki então tentou puxar assunto.
— No fim, ontem eu acabei nem te perguntando sobre os trucks novos. O que você achou deles?
Não houve resposta.
Langa estava aéreo. Ele mantinha a cabeça baixa, olhando para o chão, enquanto sua mente estava bem longe dali.
— Langa? — o ruivo aumentou o tom — Ei, Langa? Cê tá aí?
Num susto, o azulado voltou à realidade.
— Ah, desculpa. Não ouvi o que você disse.
Reki o encarou.
— Você tá legal, mano?
Langa pareceu ficar constrangido por um momento.
— Não é nada demais.
O ruivo analisou a expressão do canadense, tentando entender o que se passava em sua mente. Ele realmente estava estranho.
***
Apesar de demorarem mais do que o habitual, eles finalmente chegaram em Crazy Rock. Os dois mostraram seus broches e os portões do S se abriram para eles.
Como em todas as noites, o local estava cheio de pessoas diversas, com idades, aparências e estilos totalmente diferentes. Apesar das diferenças, todas tinham algo em comum: a paixão pelo skate. Reki sempre amou ver tantas pessoas juntas pela mesma paixão, mas ele suspeitava que nenhuma daquelas pessoas realmente amava o skate tanto quanto ele.
Reki e Langa pararam de andar assim que ouviram o som de alguém fazendo bastante escândalo em algum lugar perto deles.
— Shadow — os dois confirmaram em uníssono.
O grandalhão se aproximava a toda velocidade em seu skate. Ele usava sua maquiagem de sempre, que assustaria qualquer um que não o conhecesse. Ele parou o skate bruscamente, quase atropelando os garotos. Fez um sinal de Rock n’ Roll com a mão, colocando a língua para fora, exibindo o seu piercing.
— Fala aí, molecada!
Miya chegou logo atrás dele, vestindo seu clássico capuz com orelhas de gatinho.
— Olha só, um slime. Achei que vocês não iam mais aparecer.
Antes que alguém pudesse falar mais alguma coisa, um grupo de garotas próximo deles começou a gritar.
— É o Cherry Blossom!
— Ai! É o Joe!
Os garotos olharam na direção dos gritos. Joe e Cherry vinham à toda velocidade em seus skates, vestidos com seus trajes característicos. As garotas tentavam apostar em qual dos dois seria o vencedor.
— Carla, calcule o ângulo.
O skate do rosado fez um som e brilhou em um tom roxo com a resposta da inteligência artificial.
— Vire a um ângulo de 67º, mestre.
Cherry então, realizou a última curva, com uma precisão extrema, ultrapassando Joe. Porém, o esverdeado usou sua técnica especial, se jogando contra as paredes de pedra e depois se impulsionando para a frente com os pés.
Logo, os dois adultos cruzaram a linha de chegada, exatamente ao mesmo tempo. As fãs apaixonadas cercaram os dois, enquanto a multidão gritava.
— Independentemente do resultado — disse Cherry em um tom calmo, cruzando os braços e dando as costas para Joe —, todos sabem que fui eu que obtive o melhor desempenho aqui
— Ah, conta outra, seu merdinha!
Os dois ficaram cara a cara, ambos com ódio no olhar. Ou, pelo menos, eles queriam que parecesse ódio.
— Humanos têm mais habilidade, seu gorila energúmeno!
— Cala a boca, seu filho da…
— Papai! Mamãe! — Miya interrompeu os mais velhos fazendo uma voz forçada de bebê. Os dois se viraram para ele, que voltou à sua expressão normal de sarcasmo — Já pararam com a briguinha?
Cherry e Joe se recompuseram. Então, se aproximaram e cumprimentam Shadow e os garotos.
Miya se espreguiçou.
— Chega de papinho. Eu vou andar de skate. — ele lançou um olhar sugestivo para Reki e Langa — Algum dos slimes quer vir comigo?
Reki olhou para o azulado, que estava sentado no chão, segurando seu skate com ambas as mãos, observando o desenho do vermelho e a palavra “fun”, com um olhar distante.
— E aí, cara? — Reki o cutucou com seu cotovelo — Vamos andar de skate?
O canadense saiu de seus pensamentos apenas o suficiente para olhar para o ruivo e responder:
— Acho que hoje eu vou só assistir, Reki. Mas você pode ir com o Miya, se quiser.
Todos se entreolharam, estranhando a resposta do azulado, e em seguida olharam para Reki, curiosos.
O ruivo fez um gesto para que o grupo se afastasse e se sentou ao lado do canadense.
Em outras circunstâncias, ficar sentado assim, lado a lado um com o outro, em silêncio, com o ar frio da noite contra seus corpos e sendo iluminados apenas pelas luzes de cor âmbar do S, poderia ser reconfortante, talvez até romântico.
Mas havia algo incomodando Langa. E se havia alguém que poderia ajudar, era Reki.
— Aí, cara… Você tá totalmente fora do ar hoje. O que foi que aconteceu?
O canadense o olhou atentamente. Seus olhos azuis cristalinos mostravam que sua mente estava a mil, tentando processar a pergunta do vermelho e formular uma resposta.
Então, ele apenas abaixou a cabeça, melancolicamente, e suspirou. A resposta veio em um tom baixo e suave.
— A minha mãe quer viajar para o Canadá.
O ruivo ficou surpreso, mas também confuso. Ele sempre soube que algum dia Langa visitaria seu país natal novamente, mas ele não entendia porque algo assim o deixaria tão mal.
— E… você não quer viajar pra lá? Tipo, é o lugar onde você cresceu.
Langa continuava observando seu skate, cabisbaixo.
— Eu tenho medo de encarar tudo de novo. Sabe, as coisas que eu deixei para trás.
O vermelho colocou a mão no ombro do azulado, como Joe costumava fazer para confortar os mais novos. Rapidamente, o canadense pareceu se sentir mais relaxado e confortável.
— Eu cresci no Canadá. E a minha vida sempre foi aquilo: praticar snowboard com o meu pai nas montanhas. Aquilo sempre fez o meu coração acelerar — ele colocou a mão em seu peito, sentindo as batidas de seu coração — A voz do meu pai rindo, o vento soprando o meu cabelo, o sorriso da minha mãe quando a gente finalmente voltava… Isso tudo sempre fez eu me sentir como se eu estivesse exatamente onde eu deveria estar.
Reki o ouvia atentamente.
— Mas aí, quando… Quando o meu pai… — ele olhou para Reki, que balançou levemente a cabeça em um sinal de compreensão — Bom… quando aconteceu, parecia que tudo tinha virado de cabeça para baixo. Eu ainda lembro do dia em que eu tentei praticar snowboard sozinho. Naquele dia, tudo parecia vazio e sem sentido. Era como se não houvesse mais nenhum sentimento. Eu não sentia a mesma coisa que antes, mas também não conseguia me sentir triste. Eu só não sentia nada.
Ele passou os dedos mais uma vez pela palavra “fun” em seu skate.
— É por isso que eu tenho medo de voltar. Eu quero poder me lembrar só das coisas boas, de como elas eram antes. Eu tenho medo de que, se eu voltar pra lá, tudo esteja vazio de novo, e o que sobrou daquela época acabe perdido para sempre.
Ele voltou seu olhar novamente para o ruivo. Sob as luzes âmbar do S, seus olhos curiosos pareciam brilhar.
— Além disso — ele sorriu —, tudo que eu tenho de mais importante está aqui em Okinawa.
Reki ficou mais vermelho que o próprio cabelo.
Ele piscou algumas vezes enquanto seu cérebro tentava processar tudo o que tinha acabado de ouvir. Langa nunca falava muito sobre o Canadá. O ruivo sempre achou isso estranho, mas pensava que era só porque o azulado não era de falar muito. Ele não imaginava que tudo isso estava acontecendo, mas agora entendia o motivo de todo esse desânimo.
Ele também sabia que Langa nunca havia conversado sobre isso com ninguém, e se sentia feliz por ter a confiança dele.
— Caralho… — foi tudo o que o ruivo conseguiu responder.
— Eu não sabia que a minha mãe queria tanto voltar para lá. Mas eu não posso evitar isso para sempre. Uma hora ou outra eu vou ter que voltar.
De repente, a conversa dos dois foi interrompida por um som estranho. Reki se levantou para ver o que era e deu de cara com o resto do grupo, bisbilhotando a conversa. Assim que viram o ruivo, tentaram disfarçar, mas era tarde demais. Seu rosto ficou vermelho.
— Aí, vocês não têm respeito não?! — ele falou do seu jeito explosivo de sempre, — A gente tá conversando sério aqui! Não é pra ficar xeretando, ô!
— Eu não faço ideia do que você tá falando, slime — Miya fez cara de paisagem, olhando para o nada.
Todo aquele clima melancólico se quebrou imediatamente. Langa riu. Mesmo com uma coisa tão simples, Reki e os outros sempre conseguiam animá-lo.
Cherry Blossom limpou a garganta.
— Já que estamos aqui, me permite dar minha opinião, Langa?
— Lá vem o manezão se intrometer — Joe riu.
— Cale a boca!
— Claro, Cherry — Langa respondeu.
O rosado se aproximou.
— Bom, você tem medo de lidar com o seu passado. Isso não é algo de que precise se envergonhar. Você teve que lidar com muitas coisas em um tão tenra idade, então é perfeitamente natural sentir medo de trazer todos os seus sentimentos antigos à tona. Porém, isso faz parte de quem você é e, como você mesmo disse, você não pode fugir disso para sempre.
— Vai direto ao ponto — apressou Joe, que foi imediatamente fuzilado pelo olhar do rosado.
— Mas não pude deixar de notar que você comentou sobre não querer se afastar de Okinawa. Bem, neste caso, creio que possa haver uma possibilidade de te ajudar com seus conflitos.
Langa e Reki se entreolharam. Os dois jovens ficaram confusos.
— Como assim?
— Bom, parece que temos dois problemas em questão. Por um lado, Langa tem medo de voltar para o Canadá por causa das memórias que possui de eventos traumáticos. Por outro lado, se afeiçoou a Okinawa e não quer se afastar dos laços que criou aqui, principalmente com você, Reki. Então eu acredito que, talvez, fosse mais fácil para você, Langa, se o Reki te acompanhasse nesta viagem.
Os dois garotos pularam.
— O quê?!
Reki sempre soube que o Canadá era uma parte essencial de Langa e que, algum dia, ele poderia voltar para lá. Mas nem mesmo imaginando um milhão de cenários diferentes, ele teria se imaginando viajando junto com o azulado.
Os olhares dos dois garotos se encontraram. Ambos estavam confusos, mas ao mesmo tempo, era como se uma faísca tivesse sido acesa em seus corações.
A atenção de Reki foi instantaneamente capturada ao ver o brilho surgindo novamente nos olhos de Langa. Dava pra ver claramente que toda a sua angústia havia desaparecido. Ele estava genuinamente alegre. E isso deixou o ruivo alegre também.
O azulado sorriu.
— Isso seria incrível!
— E, caso vocês queiram — Cherry continuou —, todos nós poderíamos acompanhá-los nesta viagem. Creio que isso poderia ser muito bom para todos nós. Esta experiência poderia nos agregar muitos conhecimentos culturais.
— Intercâmbio, é? — Miya já parecia animado com a ideia — Eu gostei.
— Como meus negócios com caligrafia geraram um lucro exponencial acima do previsto neste ano, posso ajudar a financiar os custos da viagem para todos — sua expressão mudou rapidamente para um olhar de ódio, direcionado a Joe — Menos para você, é claro, seu brutamontes nojento!
Joe bufou de raiva.
— Ah, é?! Repete isso na minha cara, seu merdinha!
Cherry se recompôs.
— Mas, então, o que vocês dizem?
Todos olharam uns para os outros.
— Por mim pode ser — Joe concordou, cruzando os braços.
— Eu sempre quis fazer intercâmbio — Miya riu, dando de ombros.
Eles olharam para Reki. Ele ainda permanecia calado, tentando processar tudo aquilo.
Uma onda de pânico tomou conta de si. Ele nunca havia feito nada do tipo. Nunca havia andado de avião, muito menos viajado para fora do país.
Eles estavam falando de acompanhar Langa em uma viagem à sua terra natal. Isso era realmente importante para o canadense e, ali estava ele, contando com Reki para acompanhá-lo. O ruivo tinha medo de não corresponder às expectativas, de não ser bom o bastante.
O ruivo conseguia ver a expectativa no olhar do azulado. Ele tinha seus medos, mas se seus amigos o acompanhariam, então seria mais fácil.
Ele observou atentamente os olhos azuis de Langa e não pôde deixar de notar, mais uma vez, como eles eram lindos. Seus medos não importavam. Isso era por Langa. Então, não importava qual era a situação. Ele estaria lá pelo azulado, sempre. Até o infinito.
Ele sorriu.
— Beleza. É óbvio que eu vou com você!
Langa se aproximou alguns centímetros.
Reki sentiu seu coração acelerar. Mais uma vez, ele podia sentir a proximidade dos dois. Ele acabou desviando o olhar. Por mais que aqueles olhos azuis fossem maravilhosos, ele não podia deixar de notar aquele sorriso lindo. Aquele era mesmo o garoto que ele amava. O ruivo faria de tudo por ele.
Mais rápido do que qualquer um poderia imaginar, o canadense o abraçou com força. Reki demorou um pouco para se dar conta do que estava acontecendo, mas logo o abraçou de volta. Ele fechou os olhos. Aquela era uma sensação única. Ver o quanto aquilo era importante para Langa, o deixava extremamente feliz de poder estar ao seu lado e fazê-lo sorrir.
Ele pôde sentir a respiração calma do azulado. Aquela era uma sensação que o ruivo amava. Como sempre, tudo parecia certo e incrível quando estava com Langa. Ele queria poder ficar daquele jeito para sempre.
De repente, algumas risadas chamaram sua atenção, o lembrando que os outros ainda estavam lá. Então, separou o abraço, antes que a situação ficasse constrangedora demais.
— Se for do agrado de todos, podemos passar o Natal lá — Cherry propôs — Acredito que comemorar esta data de acordo com as tradições norte-americanas possa ser uma experiência gratificante. Podemos convidar o Oka também se vocês quiserem. E, é claro, Reki e Miya precisam conversar com seus pais primeiro, para conseguir as autorizações. Eu posso ajudar vocês a cuidar de toda a documentação necessária.
— Obrigado, mamãe — Miya agradeceu num tom levemente sarcástico.
— Então, se todos concordam — o rosado concluiu —, acho que já podemos fazer os preparativos.
Todos sorriam. Porém, o clima foi quebrado instantaneamente por Shadow.
— Que negócio é esse de todos?! — como sempre, ele gritava — Eu é que não vou pro Canadá, mas nem a pau!
Miya lançou um olhar acusador.
— Não vai me dizer que você tem medo de avião?
— O quê?! — ele ficou histérico — Eu não tenho medo de nada!
— Então por que você não quer viajar com a gente?
— É que… bom, eu… — ele ficou envergonhado e deu alguns passos para trás.
Eles começaram a discutir, junto com Cherry e Joe que entraram na conversa, deixando Reki e Langa praticamente à sós, sentadinhos um ao lado do outro.
O ruivo cutucou o azulado com o cotovelo e riu.
O canadense riu de volta. Ele olhou o vermelho nos olhos, como se estivesse olhando diretamente para sua alma.
— Ei, Reki. Obrigado. De verdade. Isso é muito importante para mim.
Ele devolveu o sorriso.
— O prazer é todo meu, Langa.
Todo clima tenso e angustiante de antes havia passado totalmente. Ambos estavam felizes com a presença um do outro. Tudo parecia calmo e certo agora. Eram apenas os dois. E nenhum deles poderia estar se sentindo melhor.
***
Depois de algumas horas, Reki e Langa se despediram dos outros e voltaram para casa.
Normalmente, era sempre Langa quem acompanhava Reki até a casa dele primeiro. Mas, desta vez, foi o vermelho que quis levar o azulado até sua casa.
Na quietude da madrugada era relaxante, eram apenas Langa e Reki na rua. Eles não estavam fazendo nenhuma manobra elaborada, nem nada do tipo. Naquele momento, apenas estarem um com o outro, já era suficiente.
O canadense agora estava muito mais aliviado.
Ele sempre pensou na vida que teve no Canadá e na que criou em Okinawa como duas coisas totalmente separadas. Mas, pela primeira vez, a barreira que existia entre esses dois mundos poderia se desfazer.
É claro, Langa sabia que as coisas no Canadá nunca seriam as mesmas. Mas ele sentia que, se estivesse com Reki, ele tudo poderia ser melhor.
Seu coração estava acelerado novamente. Não era medo ou de ansiedade, mas sim alegria.
O azulado se sentia incapaz. Ele queria poder expressar o que realmente sentia. Mas não haviam palavras, em japonês, inglês, ou em qualquer idioma, que fossem capazes de expressar o quão grato ele era por ter Reki ao seu lado. Não apenas naquele momento, mas em todos. Ele era, sem dúvidas, a melhor coisa que já acontecera em sua vida.
— Reki… Você acha que os seus pais vão te deixar viajar?
Por um breve momento, o ruivo ficou com uma expressão pensativa. Mas rapidamente voltou ao seu olhar energético de sempre.
— Ah, se for com você, acho que eles deixam. Eles gostam de você.
Langa ficou levemente envergonhado, mas sorriu.
— E a sua mãe? — Reki perguntou — Será que ela vai mesmo ficar de boa se a galera toda for junto?
— Acho que sim. Ela também gosta de você.
Desta vez, foi o ruivo que ficou envergonhado.
Os dois sorriram um para o outro, e seguiram caminho.
***
Na manhã seguinte, o azulado foi conversar com sua mãe.
— Mãe?
— Sim, querido? — ela respondeu, sem olhar para ele, enquanto preparava o café da manhã.
— Eu fiquei pensando naquilo que você disse anteontem. Sabe, sobre… voltar para o Canadá.
Nanako parou imediatamente o que estava fazendo e olhou para o filho, com um ar preocupado. Ela deu um sorriso acolhedor e fez um gesto para ele se sentar com ela, na mesa da sala de jantar.
— Pode falar, meu amor. — o tom dela era extremamente calmo e suave — Tem algo te incomodando, não tem?
Ele desviou o olhar para um quadro ao lado, onde estava emoldurada uma foto com ele, seu pai e sua mãe, segurando pranchas de snowboard em uma montanha nevada.
— Eu… tenho medo de voltar para lá.
Nanako ficou surpresa. Langa sentia que estava tirando um peso enorme de seu coração ao dizer aquilo. Ele não queria desapontar sua mãe, mas sabia que ela precisava saber.
— Tudo ficou tão diferente depois que o papai morreu. Era como se tudo também tivesse morrido com ele. A nossa casa parecia vazia e nada tinha mais a mesma alegria. Principalmente o snowboard.
Ele parou, respirou fundo e tentou retomar o que estava dizendo.
— Eu sinto falta de tudo. Mas eu quero continuar me lembrando de como as coisas eram antes. Eu tenho medo de voltar e tudo estar do mesmo jeito que estava quando a gente saiu.
Sua mãe enxugou uma lágrima.
— Ah, querido! Obrigada por ter me contado isso. Nós nunca chegamos a conversar direito sobre isso, não é?
Ela segurou as mãos de Langa nas suas e abriu outro sorriso acolhedor.
— Eu sei bem como é. Eu me senti do mesmo jeito. Foi por isso que eu quis vir para Okinawa. Eu pensei que seria mais fácil tentar recomeçar aqui do que continuar lá. E eu sei que deve ter sido ainda mais difícil pra você lidar com tudo isso.
Ela enxugou outra lágrima e respirou fundo.
— Eu queria voltar porque sinto falta do Oliver. Muita falta. E eu achei que, talvez, pudesse me sentir um pouco mais próxima dele se estivesse lá. Mas eu te entendo, querido. Se você não quer voltar, não tem problema. Se for para manter as memórias que nós ainda temos, então está tudo bem.
— Mas é justamente sobre isso que eu queria falar — ele começou, com o coração disparado. — Eu conversei com o Reki e os meus amigos sobre isso e… bom, eles me fizeram perceber que talvez valesse a pena voltar. Eu não quero que isso tudo sejam só memórias distantes. Eu quero poder sentir isso de novo. Eu quero…
— Poder construir novas memórias lá? — Nanako completou.
— Sim.
Langa abriu um sorriso agridoce, que sua mãe retribuiu.
— Então, você quer voltar? — ela perguntou — Tem certeza disso, filho?
— Eu quero. Mas… tem um pequeno detalhe.
De repente, ela ficou com uma expressão que Langa não soube identificar. Ela sorriu, mas um sorriso que quase chegava a ser uma risadinha.
— Você quer saber se o Reki pode ir junto, não é? — ela adivinhou.
O azulado ficou vermelho. Ele tentou dizer alguma coisa, mas as palavras não saiam de sua boca.
— Ah… como… como você sabe?
— Eu sei como ele é importante para você. Assim como o seu pai era.
— Então, tudo bem se ele viajasse com a gente?
O olhar no rosto dela expressava sua alegria.
— Eu adoraria, querido.
Não dava para medir o tamanho do sorriso que o garoto tinha em seu rosto.
— E os meus outros amigos podem ir junto também?
Isso a pegou de surpresa. Ela riu.
— É claro! Ah, eu nem acredito que finalmente vou poder conhecer os outros amigos do meu filho! — ela exclamou em seu tom exagerado de sempre.
Langa retribuiu a risada.
— A gente pode passar o Natal lá?
— Se os pais dos seus amigos concordarem, seria perfeito. Eu vou conversar com a mãe do Reki. Graças a vocês, agora somos melhores amigas!
Os dois começaram a gargalhar.
— Obrigado, mãe. De verdade.
— Eu que agradeço, Langa.
Ela segurou o rosto do filho afetivamente com uma das mãos.
— Ah — ela parecia ter tido uma ideia — Sabe… de repente, você poderia ensinar o Reki a andar de snowboard.
— O quê?
— Bom, ele te ensinou a andar de skate. Agora você pode ensinar ele a praticar snowboard.
— Eu não tinha pensado nisso.
Sua mãe o abraçou forte e logo se recompôs.
— Bom, agora vamos tomar café da manhã. Temos um longo dia pela frente!
Ela levantou e voltou a preparar as coisas. Langa também se levantou, sorridente, e se aproximou do quadro com a foto da família. Ele o segurou e ficou observando a imagem de seu pai com o snowboard.
Ele ainda tentava processar tudo isso.
— Eu vou voltar para o Canadá.
Ele se virou para seu skate, no canto da parede.
— Nós — corrigiu, pensando no ruivo — vamos para o Canadá.
***
“Então se todos concordam”, a voz de Cherry era emitida pelos televisores, “acho que já podemos fazer os preparativos.”
A imagem do grupo conversando era exibida em uma sala cheia de monitores, cada um mostrando a visão de uma câmera diferente do S.
A fumaça proveniente do cigarro se espalhava pela sala pequena.
— Ah... Então quer dizer que o pequeno Snow e seu grupinho vão viajar para o exterior? Isso não é… — o homem que assistia se levantou de sua cadeira e começou a sapatear — excitante?
Ele abriu um sorriso malicioso.
— Tadashi, faça os preparativos. Nós vamos viajar.
O outro, que estava parado mais ao lado, ficou surpreso.
— Mas, senhor Ainosuke, tem certeza que é apropriado realizar uma viagem para fora do país agora?
— Ah, Tadashi! Não se preocupe com isso. O pequeno Langa vai viajar e eu não perderia isso por nada.
Adam deu uma última tragada em seu cigarro.
— Então, comece logo os preparativos! — ele se virou para Tadashi, sorrindo — Nós também vamos para o Canadá.
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