Smother

8 I didn't ask to be born


Notas iniciais
Pra mim, esse é o melhor cap até agora. Espero que vocês gostem tanto dele quanto eu :D

E mais uma vez acordei de madrugada do nada, o que é uma coisa que acontece frequentemente quando você é vizinho da Emma Adams. Dessa vez eram gritos.
Cocei os olhos e fui até a janela, sonolento. Eu provavelmente não deveria escutar as discussões alheias, mas a curiosidade foi maior. A janela dela estava fechada, mas mesmo assim não abri muito a minha pra espiar ou ouvir melhor.
“Você nunca se importou, por que de repente começou a se importar?”, ouvi Emma gritando.
“Eu não sabia disso! Não sabia que...” A Sra. Adams não terminou a frase, apenas deixou ela morrer no ar.
“Que tipo de mãe você é? Você nunca se importa com NADA! Você finge que sim só pra enganar... e acaba enganando você mesma”, ela retrucou. “Desde que o papai morreu isso começou! E a culpa é de quem? SUA!” Eu conseguia ouvir em seu grito os indícios de que ela estava prestes a chorar. “Você ficou aí, só se importando com você mesma. Ah, ele está tão errado. Ah, perdi meu marido. Ah, o que será de mim? Ah, foda-se se a minha filha está sofrendo muito mais do que eu por causa disso e a culpa é TODINHA MINHA! E você SE MUDOU daqui, o lugar que eu amava, o lugar que nasci, o lugar que vocês nasceram, TUDO estava aqui, mãe! Tudo. E você simplesmente decidiu ir embora. Você é uma puta de uma egoísta.” Depois disso, ouvi uma porta batendo.
Fiquei meio sem reação, tentando processar tudo que havia escutado. Não sabia se deveria comentar algo sobre em outro dia porque ela poderia ficar brava por eu ter escutado uma parte da discussão.
Vi a Sra. Adams saindo de casa rapidamente, entrando no carro e indo embora. Me perguntei pra onde ela estava indo, e só depois que percebi a oportunidade de falar com a Emma quando ela mais precisava. Então simplesmente vesti algo e pulei a janela.

Bati na porta e esperei. Esperei. Esperei... Como naquele outro dia. Ouvi passos nas escadas, como naquele outro dia. Ouvi Emma hesitar e dizer baixinho com a voz de quem está chorando: “Charlie?” e eu respondi com um sussurro: “Emma”. Não sei exatamente por que, mas ela abriu a porta devagarzinho e eu meio que fiquei surpreso. Emma parecia tão frágil, tão pequena, tão sensível. Seu rosto estava cheio de lágrimas, com uma expressão magoada. Eu não disse nada, apenas a envolvi com os meus braços, como naquele outro dia.
Anteriormente ela estava como um pássaro de penas eriçadas, irritado. Agora ela havia virado um passarinho frágil e perdido, a procura de seu ninho.
“Desculpe por ter escutado, eu acordei sem querer”, explico, falando baixo. Ela chora sem fazer muito barulho, com a cabeça no meu ombro e os braços me apertando fortemente.
“Não, tá... tá tudo bem”, ela murmurou.
“Quer falar sobre isso?”, perguntei. Ela sacudiu a cabeça negativamente, então apenas continuei a abraçar ela. “Se quiser ou precisar, não hesite.” Ela assentiu.
Depois de um tempo abraçada à mim, ela se afastou lentamente, e só então percebi que meus braços já estavam começando a ficarem doloridos de tanto tempo que ficamos ali, quietos, nos abraçando.
Ela enxugou o rosto com a manga da blusa, e reparei em seus olhos. Eram extremamente bonitos, sem dúvidas, mas eram olhos tão tristes. Era facilmente reconhecível a tristeza que Emma guardava em seu olhar e que tentava esconder.
Ela se sentou no sofá e suspirou profundamente. Fui até a cozinha e peguei um copo d’água para ela.
“Obrigada, Charlie”, ela agradeceu, ainda com a voz num tom baixo.
“Não quer mesmo desabafar? Não vai me incomodar. Mas só faça se quiser”, ofereci. Ela abaixou a cabeça e mordeu o lábio inferior.
“Quando eu começo a falar, realmente falo. Bastante”, ela disse.
“Não me importo, pode falar.” Ela deu mais um suspiro profundo, fechou os olhos por dois segundos e bebeu um gole de água. Me encarou por dois segundos. Voltou a olhar para o chão, por dois segundos. E começou a falar.
“Meu pai e minha mãe nasceram aqui nessa cidade. E eu também. Eles meio que não deviam ficar juntos, mas ficaram. Fugiram de casa, e juntos construíram essa casa. Tudo estava contra eles, mas eles não se importavam. Eu lembro de quando meu pai me contava essa história, e de como eu ficava feliz por ouvir ela, por mais que já tivesse ouvido muitas e muitas vezes. Eles fizeram a casa, e tudo estava bem. Eu nasci, saudável, e segundo meu pai, alegrei ainda mais a vida deles, apesar de eu acreditar que só alegrei ele. Cresci, vivi muitas coisas boas com ele. Eu era sua garotinha, sua... florzinha. Ele me chamava assim às vezes. Passeávamos por lugares bonitos daqui, a pé mesmo. Ele lia livros pra mim, comprava doces, pelúcias, me dava flores, desenhava comigo. Me levava pra tomar sorvete, mesmo que não tivéssemos jantado ainda. Ele deixava até eu maquiar ele. Brincava comigo. Me deixava subir nas suas costas e saía andando, enquanto eu morria de rir em cima dele. Mas aí tudo acabou. E foi tão de repente, Charlie, eu nem acreditei. Tudo estava feliz, tudo estava bem, no dia anterior tínhamos feito muitas coisas juntos... Ele me desenhou, ele comprou coisas pra mim, ele fez uma borboleta pousar em seu dedo e isso me fez sorrir, ele colocou uma flor no meu cabelo, ele me encheu de beijos e abraços. Ele era o melhor pai do mundo inteiro, e não existia melhor do que ele. Era aquele tipo de pai que faz tudo pela filha. Tudo. Se ele tivesse que passar dias sem comer por minha causa, passaria. Se tivesse que mergulhar em lava, ele iria. Se tivesse que fazer qualquer coisa, ele faria. Ele me ensinou muitas coisas. Ele me ensinou a desenhar, ele me ensinou a cantar, ele me ensinou a tocar violão, ele me ensinou a ser gentil sempre. Ele me ensinou que a vida tinha que ser aproveitada, que eu não devia desistir. Ele me ensinou que o amor de um pai é uma das coisas mais profundas do mundo. E eu o ensinei que o amor de uma filha por um pai como ele era a mais profunda. Enquanto ele me ensinava coisas boas, me fazia uma criança feliz que futuramente seria um motivo de orgulho pra ele, minha mãe reclamava. Naquele dia nós voltamos de um passeio muito agradável, e eu estava nas costas dele, com um balão amarelo flutuando acima de mim, um desenho que ele fizera de mim, uma florzinha no meu cabelo e o maior sorriso do mundo no rosto. Então chegamos aqui, e eu fui pro meu quarto, muito feliz ainda. Mas comecei a os ouvir discutirem... Minha mãe dizia que ele passava o dia todo fora comigo e que eu já nem ligava mais pra ela. Ele retrucou que era ela que não queria ir junto com a gente, e era verdade. Mas ela dizia que eu também era filha dela, e se ela não queria ir andar, simplesmente não queria, e tinha direito de passar um tempo com a sua filha. Eu achei bobagem, porque eu também passava um tempo com ela, só que eu não gostava tanto. Aquela discussão começou a ficar séria, e eles gritavam um com o outro. Até que ela gritou pra ele sumir daqui. E ele foi, mas prometeu voltar, e eu sabia que ele estava magoado. Não irritado. Ele a amava, até porque se não amasse não teria feito tanta coisa por ela. Eu desci as escadas correndo, mas minha mãe não me deixou ir atrás dele. Fiquei acordada o esperando. Mas ele não voltou.” Lágrimas escorriam por seu rosto, mas Emma continuou falando. “Minha mãe estava dormindo, e o telefone tocou. Eu atendi, e estavam me disseram que meu pai tinha morrido. Simplesmente isso. Do nada. Um dia feliz se transformou no pior dia da minha vida. Eu acordei a minha mãe, sacudindo ela enquanto ela resmungava. Você não tem o direito de reclamar agora, eu gritava, chorando. Depois expliquei tudo, chorando descontroladamente, e ela ficou paralisada. E de repente minha rotina toda tinha mudado. Nada mais de passeios. Nada mais de doces. Nada mais de desenhos. Nada mais de carona nas costas. Nada mais de risadas, de brincadeiras, de cócegas. Nada mais. Algum tempo depois, minha mãe simplesmente me mandou pegar todas as minhas coisas porque íamos embora. Eu sabia que ela se sentia culpada, e eu fui uma babaca fazendo ela se sentir pior, porque achava que ela merecia pra caralho... Se bem que ainda acho isso às vezes. Tipo agora. Enfim. A gente se mandou rapidinho. Eu mal tive tempo de me despedir desse lugar que eu amava por causa dele. E minha vida de repente virou uma merda, e passei esses cincos anos culpando a minha mãe. Mais coisas aconteceram, é claro. Mas tudo girava em torno da falta gigantesca que eu sentia dele. Eu sei que eu devia superar, mas era mais difícil do que qualquer outra coisa. Eu nunca superei. Até agora não superei. E eu me odeio tanto por estar me esquecendo dele. Eu não lembro mais do som da sua risada, não lembro mais do brilho dos seus olhos, não lembro mais de quando eu ficava passando a mão na sua barba, falava que ela coçava a mão e ele colocava uma flor nela, me fazendo rir. Não lembro mais de algumas coisas. Coisas importantes, que foram se apagando da minha memória com o passar dos anos. Eu não quero esquecer nada, eu não posso esquecer nada. Ele me fez ser o que eu sou hoje, e eu sou tão grata por isso. Não sou grande coisa, eu sei, mas pelo menos o que eu era. Uma criança extremamente feliz. Feliz com coisas simples. Ele nunca precisou me levar pra fora da cidade pra que fosse uma viagem incrível. Ele nunca precisou ser um desenhista profissional pra me fazer sorrir ao ver os desenhos dele das paisagens, de mim, de tudo que eu pedia pra ele desenhar. Ele nunca precisou saber tocar violão perfeitamente pra fazer melodias bonitas e letras inventadas na hora. Ele só era ele... Simples. Mas era o melhor. Eu imagino como eu seria hoje se ele estivesse vivo, sabe? Tudo seria tão, tão diferente. Eu não estaria desse jeito. Eu não fumaria. Eu não teria vontade de sumir. Eu não... Eu acho que não seria tão idiota. Porque é o que eu sou. Egoísta do caralho. Não é só a minha mãe. Como eu pude virar as costas pra ela? Eu não parei pra pensar no quanto aquela notícia destruiu ela também... Mas pensando bem, ela não se importou comigo. Ela virou uma estátua, o dia todo parada, sentada, deprimida, murmurando. Ela nem queria saber como eu estava. Me ouviu chorando tantas vezes e nem sequer veio perguntar por quê. No quesito de mãe, dou uma nota 3 pra ela. Ela pensa que só porque foi dela que eu saí, ela já fez MUITO por mim. Não pedi pra nascer. Ser mãe é muito mais do que simplesmente parir. Meu pai foi mais minha mãe do que a própria. Ele me contava que quem cuidava de mim era ele. Sempre. Parece que, na verdade, depois que eu nasci, amargurei a vida dela. Tava ótima aquela vidinha com o meu pai, mas ele queria ter filhos. Isso é tão contraditório, né? Mas eu nasci. Ele feliz, ela não. Talvez tenha até se recusado a cuidar de mim. Com o passar dos anos, simplesmente aceitou que estaria completamente sozinha sem mim, e aí ela começou a se aproximar mais. Só que eu obviamente não queria saber. Por isso eu sou tão insuportável com ela, e eu me arrependo de não conseguir parar de culpá-la, de ser assim com ela. Parte de mim quer acreditar que sim, existe uma partezinha na Jane Adams que é uma boa pessoa. Mas parte de mim também a odeia, a culpa pela morte dele. Eu sou uma pessoa horrível por isso. Mas não consigo não fazer isso, sério.”
E então ela parou de falar. Respirou fundo e me encarou. Ela tinha chorado enquanto falava, mas sem demonstrar isso na voz e etc. Quando eu ia abrir a boca pra falar algo, ela me interrompeu.
“Não fale nada”, ela disse, pegando minha mão. “Obrigada por ouvir”, agradeceu, e em seguida me abraçou novamente.
Eu sinceramente estava sem reação. Ela tinha falado bastante, mas eu tinha certeza de que ainda havia mais. E eu a convenceria a desabafar, porque é isso que faço quando estou mal, e sempre resolve. Ou pelo menos um pouco.