Smoothie
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Essa é uma one que eu tinha escrito já faz algum tempo, mas estava esperando terminar outras histórias para conseguir postar!
Contém gatilhos envolvendo aborto e violência hospitalar contra pessoas grávidas.
O foco dessa fic é o aborto na Irlanda, então eu pesquisei bastante antes de escrever e eu espero que gostem apesar de ter um climinha bem tendo hehe
Dedicado ao desafio #2020daDiversidade. MAIO: feminismo, história e tudo relacionados ao(s) movimento(s)(menos a vertente radical).
Aqui falamos sobre o feminismo interseccional :)
LEIAM AS NOTAS FINAIS!
Mallory nunca pensou que estaria ali, na porta de uma clínica de aborto. Sua cabeça parecia explodir só de pensar na situação atual, todos os pensamentos que rondavam sua mente desde que descobriu que estava grávida.
Há dois anos atrás, ela havia marchado pelas ruas de Dublin com cartazes e faixas incansavelmente pedindo ao Referendo da República Irlandesa que legalizasse o aborto dentro do país e abolisse a Oitava Emenda. Ela havia gastado todo o seu fôlego pedindo por direitos, usado cada gota energia de seu sangue irlandês para gritar à República Irlandesa, para obrigar que o Governo começasse a tratar melhor suas mulheres.
Quando Mallory tinha 6 meses, em 1996, ela ainda vivia com a mãe em uma instituição Magdalene. Mallory passou 6 meses lá, sua mãe passou mais de um ano. As instituições Magdalenes eram um motivo de vergonha para toda a nação irlandesa que passou décadas fingindo reabilitar mulheres, mas que na verdade as puniam, as escravizavam. O próprio Governo irlandês chegou a pedir desculpas por isso e dissolver cada uma, mas as histórias que se passaram ali até que a última em 1996 fosse dissolvida, essas histórias eram traumas dentro da cabeça da mãe de Mallory e de muitas outras irlandesas.
Eram tantas coisas erradas na Irlanda, tantas coisas que a faziam querer ter nascido homem em seu próprio país só para não ter todas as dificuldades e desigualdades... As únicas vezes em que se sentiu patriota de verdade foram em feriados nacionais ou quando ela havia ido para o exterior. Quando tiveram que sair de Dublin pela saúde da sua mãe.
Foi lá que ela conheceu Alex, foi lá que ela conheceu Magnus, Samirah e Amir, foi lá que ela conheceu TJ... Foi lá que ela esbarrou em Mestiço Gunderson.
Suas mãos foram para a barriga um centímetro mais inchada que o normal, aquele bebê era de Gunderson, ele não sabia da existência do bebê, Mallory não havia contado porque ela já sabia que não queria mantê-lo, ela não queria engravidar, talvez adotasse algum filho quando tivesse com mais de 34 anos, mas não naquele momento.
Gunderson estava em algum evento da Universidade de Dublin, terminando uma última pesquisa para o seu artigo de Mestrado em Literatura Medieval Inglesa, ele não sabia de nada, ele não saberia de nada até que estivesse feito. Céus! Gunderson achava que ela estava com, no máximo, uma intoxicação alimentar, uma virose, nem sequer desconfiava de gravidez, porque Mallory tinha dito que estava menstruando quando não estava. Ela se sentia péssima em mentir para Gunderson.
Mallory estava tão perdida em pensamentos confusos e lembranças que só despertou de seu torpor quando Alex acariciou seu braço.
"Mal? Está tudo bem?" Alex perguntou. Mallory sabia que a amiga odiava hospitais e seus derivados, então Mallory só sorriu corajosamente e deu o primeiro passo para entrar.
Tudo dentro da clínica lembrava um hospital, havia cartazes sobre aborto em todos os cantos, um cheiro de produto químico que fazia o nariz coçar e uma sala de espera com uma televisão ligada em algum programa de TV desinteressante. Ao lado das cadeiras de espera, um móvel repleto de revistas de fofocas, e à frente delas, a recepção, onde a mulher que atendia parecia mais séria do que deveria ser. Mas Mallory sabia que se trabalhasse naquele ambiente de tensão, também não conseguiria ser sorridente, então apenas mantinha esse pensamento para não julgar ninguém injustamente.
Mallory foi até o batente da recepção, a mulher que a atendia a olhou como se fosse um verme. Pediu por seus documentos e que preenchesse a ficha, ela disse que Alex também teria que preencher uma ficha para ser identificada como acompanhante.
Alex e Mallory pegaram suas fichas e foram preenchê-las sentadas nas poltronas, como pedido pela atendente. As mãos de Mallory suavam e ela percebia que mesmo rodeada de mulheres, ela não conseguia sentir um mínimo sentimento de compreensão, era como se uma julgasse a outra por estar ali. Mallory se perguntou se essas mulheres estavam nas marchas do dia 25 de março há dois anos atrás, ou se estavam escondidas em suas casas recobertas e coagidas por todas as palavras do Governo e da Igreja.
Pouco a pouco, ela respirou fundo. Pouco a pouco, ela respondeu toda a ficha, deixou os documentos à mão e entregou à moça da recepção, Alex estava atrás dela para fazer o mesmo. A moça pegou a ficha de Mallory e analisou seus documentos, digitou algo no computador, imprimiu um documento, pediu que Mallory assinasse e lhe disse que a chamariam por nome completo quando chegasse a sua vez. Mallory ficou com um recibo de que havia estado ali e uma promessa de triagem pré-cirurgia.
Sua cabeça estava rodando, ela não conseguia parar de pensar que algo a incomodava, não o fato do aborto, mas talvez toda a situação que parecia humilhação. Talvez fosse o ambiente ou a maneira como se sentia julgada ali, ela era a mais nova entre as mulheres, podia perceber, e as mais velhas ali a olhavam como se ela fosse suja e sem princípios. Em outras circunstâncias, Mallory teria explodido, mas ali ela só queria pedir para que o tempo fosse mais rápido e a fizesse acabar com isso de uma vez.
"Bom, está escrito aqui que eu sou mulher, porque eu sou uma mulher." Ela voltou à realidade quando a voz de Alex chegou aos seus ouvidos, esse tempo todo Mallory tinha estado de costas, encarando um pôster idiota perto do banheiro.
Quando Mallory olhou para Alex, ela viu a amiga em sua clara cara de frustração, como se estivesse prestes a dar violentamente na cara de alguém.
"Seus documentos estão dizendo que você é homem, senhor Alex–"
"Não ouse terminar esse nome!" Alex rosnou baixo, suas últimas gotas de compostura escapando pela boca. "Se eu digo que meu nome é Alex e que meu gênero é feminino, quem sabe mais é um pedaço de plástico ou eu?"
"O pedaço de plástico, obviamente." A mulher tem a audácia de dizer. "Senhor Fierro, peço que complete novamente sua ficha, e dessa vez corretamente."
"Eu sou uma mulher, minha ficha está correta." Alex explodiu. "Eu claramente quero manter a compostura dentro desse estabelecimento, mas se precisa que alguém lhe diga com todas as palavras, eu digo! Eu sou uma pessoa trans, me identifico como mulher, qualquer insistência em me tratar da maneira errada pode te causar um processo por transfobia e danos morais."
A mulher ficou vermelha. Alex também parecia querer esganá-la.
"Eu só estou acompanhando minha amiga que quer fazer a droga de um aborto, será que tem como você me dar uma droga de cartão de acompanhante sem ser mais desrespeitosa?" Alex perguntou.
A moça o olhou raivosa.
"Vou chamar os seguranças se continuar a insistir, senhor."
"E eu vou chamar seu chefe e ligar pro meu advogado se continuar a me desrespeitar." Rebateu. "Eu não queria ser grossa, mas se quer ser grossa, eu também posso ser."
A mulher parecia em alerta, Alex também, e eu poderia garantir que se Alex precisasse de mim, eu esganaria essa mulher sem pensar duas vezes.
Eu poderia interferir à qualquer momento que passasse do ponto, por Alex eu assumiria qualquer briga, ela sabia bem disso, mas ela mesmo já havia dito que me daria um sinal quando precisasse que eu entrasse entre ela e alguém transfóbico. Eu olhava para ela apenas esperando o sinal.
O sinal não veio, porque meio segundo depois, a mulher imprimiu uma etiqueta e entregou a Alex. E ela havia imprimido a etiqueta corretamente, então não haveria mais batalhas.
Alex sorriu feroz, colou a etiqueta na blusa azul e, quando passou por mim, caminhamos juntas até as cadeiras de espera.
Eu segurei a mão de Alex e a apertei.
"Obrigada por vir comigo." Eu disse.
"Eu faria qualquer coisa por você, Mal." Riu. "Uma mulher forte reconhece outra."
"Você está bem? Sobre a transfóbica de merda bem ali?"
Alex assentiu.
"Estaria melhor se eu tivesse socado ela, só não soquei, porque você ainda tem coisas pra fazer aqui."
Eu sorri compreensiva.
"Obrigada. Quando eu terminar a cirurgia, a primeira coisa que eu vou fazer é dar um soco na cara dessa mulher." Revelei.
"Eu tiro foto do soco e depois você tira foto do soco que eu vou dar nela?"
"Fechado." Sorri.
Silêncio. Por dois minutos ficamos em silêncio, as mãos entrelaçadas, dividindo forças ali dentro.
"Na sua ficha tinha a opção 'outro'?" perguntei.
"Tinha."
Silêncio.
"Imagina se você tivesse colocado 'outro'?" ri da possibilidade.
Alex riu também.
"A cabeça dela teria explodido." Ela disse com um tom divertido. "Como será que ela conseguiu o emprego? Ela não parece a pessoa mais compreensiva do mundo e esse é o tipo de espaço que precisa de pessoas compreensivas ao redor."
"Eu não queria julgar ela..." disse.
"Bom, já pode julgar, eu também não gosto de julgar ninguém, mas no momento em que ela te olhou como verme quando você entregou a ficha e quando tentou falar meu nome morto, naquele momento eu desejei não ter assuntos aqui só pra dar um socão na cara dela."
Eu ri. Alex estava certa, deveria sim existir sororidade feminina acima de tudo, mas se a atendente não era capaz de respeitar as escolhas e o gênero de outras mulheres, ela ainda não estava apta para pedir por sororidade. Sororidade significava respeitar e defender mulheres e minorias acima de tudo, mas se não fosse ação mútua, ela ainda não estava apta para tal ato.
Enquanto eu e Alex falávamos sobre alguma série nova da Netflix para comentar em nosso podcast amador, uma voz chamando meu nome interrompe a conversa. Por um momento, toda a minha barriga gela e revira desconfortavelmente, minha mão começa a suar e eu começo a pensar que é hora da cirurgia, que ela chegou rápido demais, mas rapidamente ouço Alex me relembrar:
"É a triagem, calma. Tudo vai dar certo."
Eu levanto da cadeira e a atendente transfóbica aponta para a saleta do outro lado do banheiro. Eu tento respirar fundo discretamente enquanto eu entro, minha respiração está agitada e eu não consigo parar de pensar que a triagem é uma preparação para a cirurgia, que a cirurgia está próxima.
Quem me atende é uma mulher de cabelos escuros e olhos claros, ela está com a minha ficha no computador aberto, eu vejo meu nome ali e algumas poucas informações que eu havia escrito mais cedo na ficha, em sua mão está uma prancheta. Ela me faz perguntas sobre o aborto, por quê quero abortar, como está minha alimentação. Ela mede minha pressão e ouve meus batimentos cardíacos e meu pulmão, suas últimas perguntas são sobre o período de gestação e doenças crônicas. Eu dou meu melhor para responder, mas minhas mãos não param de tremer. Ela olha aquilo. Quando eu termino de assinar, ela segura minha mão e me dá um olhar de conforto.
"Mallory, uma última pergunta." Pede. "Você está com medo?"
Eu assinto, porque eu estou, eu sempre odiei hospitais e seus derivados assim como Alex, eu sempre odiei o cheiro deles e minha respiração sempre parecia mais curta naquele local, eu vinha segurando uma possível crise de ansiedade ou ataque de pânico desde a porta do local, em meus maiores medos estavam engravidar e abortar, porque os dois envolviam sangue, dor e hospitais. Eu odiava os dois. Simplesmente não suportava estar perto disso.
E eu estava dentro daquela clínica há uma hora, eu quase sentia todos os músculos do meu corpo passarem por vários estados físicos em segundos.
A enfermeira largou minha mão e abriu os braços.
"Posso te dar um abraço?" e eu acenei com a cabeça.
Ela me abraçou forte e disse que milhares de mulheres nessa situações precisam de um abraço, que elas eram guerreiras e que a primeira batalha fora ganhar o direito ao aborto e a última batalha era abortar, porque por mais que seja certo e legal, ainda tem muita discriminação, principalmente num processo tão novo.
Eu segurei minhas lágrimas, apesar de só querer chorar.
Quando voltei à sala de espera, Alex já não estava mais olhando a televisão como estava antes quando eu havia entrado na sala, ao invés disso, ela olhava para o pôster de Savita Halappanavarcom mensagens de força e luto. Alex não conhecia a história porque estava nos Estados Unidos na época, alheia à qualquer notícia, dentro de um centro de reabilitação por conta de uma forte crise de bipolaridade.
Alex parecia tentada a pesquisar o nome de Savita no celular, mas a clínica não tinha sinal de rede, como já havíamos percebido antes.
"Oi." Eu disse me sentando ao lado dela.
"Deu tudo certo?" quis saber, eu apenas sorri fraco, confesso, e acenei com a cabeça. Isso foi o suficiente para Alex mudar de assunto.
Das muitas semelhanças entre mim e Alex, uma delas também era o fato de que quando algo bem grande emocionalmente falando acontecia entre a gente, um sorriso diferente era uma mensagem suficiente para dizer "agora não".
"Quem é essa mulher no pôster?" Alex perguntou mordendo o lábio.
Eu olhei o rosto de Savita aberto em um sorriso, a fotografia era dividida em dois na diagonal, uma parte estava em preto e branco, a outra parte estava em cores, mas o trabalho de arte mostrava que aquela metade do rosto era um desenho de um conjunto de "YES" escritos e dimensionados para parecer o rosto de Savita. Acima da fotografia do pôster, a frase "Nunca esqueceremos Savita." prevalecia; Abaixo da fotografia, "Não deixaremos acontecer de novo."
Aquele pôster em especial me fazia querer não olhá-lo, agora eu estava em um lugar onde Savita nunca pôde estar e isso apenas me quebrava por dentro.
Mesmo assim, respirando fundo, eu o expliquei para Alex.
"A lei para a legalização do aborto só aconteceu depois de março de 2018. A Irlanda sempre foi muito conservadora, eu já tinha te falado isso, por muito tempo a Igreja interferia no Estado e nas leis do país, e tinha a Oitava Emenda que dizia que o peso da vida do feto era o mesmo peso da vida da mulher que o carregava, então abortos só eram realmente permitidos em situações onde o feto não estivesse mais tendo nem mesmo batimentos cardíacos." Expliquei relembrando da mesma história que repassou em todos os canais possíveis entre a Irlanda e o mundo. "Em 2012, quando a gente ainda não se conhecia, tinha essa dentista indiana que morava em Galway, Savita Halappanavar, ela tinha 31 anos na época e tinha gravidez de risco. Ela chegou no hospital dizendo que estava sentindo dores nas costas e os médicos até falaram que ela teria aborto espontâneo, mas como ainda tinha batimentos cardíacos do feto, eles se negaram a fazer o aborto antes e salvar pelo menos a vida da Savita. Tudo isso por conta de Oitava Emenda que restringia muito o aborto e quem fosse pego burlando essa emenda, era tipo 14 anos de prisão fácil."
"E o que aconteceu com a Savita para ela ter um pôster num lugar como esse?"
"Ela sofreu o aborto espontâneo, durou uma semana, a gravidez de risco fez a saúde da Savita não ser das melhores, ela acabou em processo de choque após o aborto e depois de um tempo morreu de infecção generalizada, ou sepse. Ela tinha 17 semanas de gravidez, numa flexão da Emenda, poderiam ter salvado a vida de Savita, mas ela morreu e virou notícia em todos os lugares do mundo."
"Tudo isso em 2012?"
"Uhum." Concordei. "Dava pra sentir a vergonha do caso espalhada em toda a nação irlandesa, quer dizer, primeiro as instituições Magdalenes e pouco depois esse caso, a Irlanda estava envergonhada do mundo divulgar o quanto eles odiavam as mulheres do país. Daí em 2018, em março, teve marchas pedindo que acabasse a Oitava Emenda, que legalizasse o aborto, e a Savita se tornou um rosto da causa, uma maneira de dizer 'vocês deixaram ela morrer porque são uns conservadores de merda.'"
"E ganharam."
"Sim."
Silêncio, Alex apertou minha mão e respirou fundo, eu fiz o mesmo. Não muito tempo depois, aquilo se tornou um abraço, a presença da nossa irmandade e força. Quando terminamos de nos abraçar, meu nome foi chamado para a cirurgia, Alex me acompanhou até a porta, mas depois disso eu tive que seguir o resto do caminho sozinha.
Eu coloquei o avental hospitalar, amarrei meu cabelo e coloquei minhas roupas num saco que a enfermeira guardou, uma pulseira foi colocada no meu pulso direito e disseram que eu tinha que esperar na maca com mais duas mulheres ao meu lado.
A mulher mais perto parecia ter mais de trinta anos, nenhum julgamento passando pela sua cara, mas havia aquele sorriso que dizia que ela estava passando por aquilo mais uma vez, do outro lado havia uma pessoa, quando eu perguntei, a pessoa sussurrou depois que era um garoto trans. Mais uma vítima de transfobia naquela merda de clínica.
Eu já odiava aquele estabelecimento bem mais do que quando tive que entrar nele.
Parecia que a hora nunca chegava, a mulher de 32 anos, Gunilla, continuava a falar coisas e nos perguntar sobre as nossas vidas. O rapaz, Blitzen, disse ter 24, que tinha engravidado de um cara que foi horrivelmente preconceituoso com ele, e que aquela gravidez era algo que ele não podia sustentar por motivos psicológicos, incluindo coação e chantagem. Eu desabafei, contei que não queria ter engravidado, que aquele era um dos piores cenários da minha vida. Em algum momentos, nós três começamos a chorar, chorar por medo do que ia acontecer, pela pressão ao nosso redor, por tudo.
Dentro daquele cubículo, prestes a passar pelo pior momento da minha vida, eu segurei na mão de estranhos que passavam pelo mesmo que eu, em situações sociais e internas diferentes, mas eu segurei na mão deles e por aquele segundo eu senti que tudo daria certo.
Um pouco antes da anestesia fazer efeito, eu me ouvi murmurar:
"Por Savita."
(...)
Quando eu acordei, eu já estava em uma outra sala, deitada em outra maca, Blitz e Gunilla ao meu lado novamente.
Tudo havia dado certo. Tudo poderia voltar ao normal.
Um doutor apareceu e disse que todas as cirurgias tinham dado certo, ele deu uma prescrição para cada um sobre o procedimento pós-cirurgia, os cuidados e a alimentação em específico. Tinha algumas orientações sobre dor também e um panfleto para uma instituição comunitária que disponibilizava terapia para quem precisasse sem cobrar nada.
As minhas roupas foram entregues quando o médico assinou a alta. Eu me vesti e peguei os números de Blitz e Gunilla, depois convidei eles para um lanche e os apresentei à Alex.
Meu estômago pedia por um sorvete de frutas vermelhas, ou um smoothie de morango. Eu estava pronta para começar uma nova etapa, e talvez eu até contasse para Gunderson em algum momento antes do fim do ano.
Mas quando eu saí do edifício onde ficava a clínica, o carro dele estava estacionado em frente ao local, e ele estava encostado no capô olhando pro nada, vestindo um casaco grosso e com algo na mão.
Eu caminhei até ele sem saber como ele havia parado ali em específico. Alex e os outros se mantiveram nas escadas como se soubessem que aquele seria provavelmente um momento tenso.
"G?" eu chamei. "O que você está fazendo aqui?"
"Alex contou para Magnus que estaria aqui, Magnus deixou escapar para TJ, que não foi avisado de que era um segredo, então ele me mandou mensagem perguntando quando você saía da cirurgia." Gunderson explicou, ele não parecia com raiva, ou ferido, ele parecia só querer saber como tudo tinha corrido. "Eu tive que enrolar para ele contar toda a história, mas quando ele acabou, eu só dei um jeito de conseguir o endereço e te esperar aqui pra saber se tudo havia dado certo. Te comprei um smoothie de morango no caminho."
Ele estendeu a bebida e eu peguei dando o primeiro gole. Bom, nossa, eu estava mesmo precisando!
"O que são esses papéis na sua mão?" Ele quis saber. Na minha mão direita ainda estavam todos os papéis da alta e da prescrição para combinar com a pulseirinha que eu havia usado para abortar.
"São alguns documentos para comprovar a legalidade do aborto e algumas ordens médicas."
Sua testa se enrugou.
"Que ordens médicas?"
Antes que eu pudesse entregar os papéis, eles já estavam em sua mão, meu corpo encaixado perfeitamente no dele num abraço onde ele lia os papéis pelas minhas costas. Era algo habitual que estivéssemos encaixados numa pose de relaxamento, mas por algum motivo, eu entendi que aquilo era muito mais, que era um suporte.
Quando eu saí do conforto, eu vi a imagem aliviada de Gunderson.
"Nada aqui consta os ingredientes desse smoothie, então tudo certo."
"Você estava preocupado com isso?"
"Eu vejo o plantão médico! Todo mundo sabe que a comida errada depois de uma cirurgia pode te mandar pra cima de uma maca, e dessa vez sem escolhas." Ele rebateu "E como foi tudo? Eu sei que você odeia estar em ambientes hospitalares."
Eu dei de ombros.
"Poderia ter sido pior."
Ele riu e me beijou. E foi o suficiente para saber que ele não iria insistir em saber mais.
"Fiz alguns amigos durante a cirurgia," Comecei apontando para as pessoas que estavam nos esperando de pé na calçada. "estávamos indo comer um lanche, quem sabe eu possa pedir algo para acompanhar esse smoothies. Quer ir?"
"Claro, alguém vai ter que comer as batatas fritas por você."
"Alex já ia fazer isso."
"A gente pede batatas extras."
Uma hora depois e nós cinco estávamos na lanchonete de Amir falando sobre os planos para o futuro. Um sentimento de satisfação, empolgação e alívio me deixando mais forte.
Notas finais
Quem ficou interessado em algum easter egg da fic, comenta aí que eu mando alguns links!
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Até a próxima!
xx
Lah ♥
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