Smoke
1 Smoke
O barulho entorpecido lá fora lhe atingiu rapidamente, como um raio caindo na terra. Ela fechou a janela no segundo seguinte e se sentiu zonza pelo som agudo, porém nem tanto quanto já estava. O pequeno apartamento era pouco mobiliado, contudo uma única fonte de fumaça branca inundava aquele sítio. Resolveu caminhar até o banheiro e tomar um banho quente depois de um dia agitado, o qual o chefe mais uma vez despejou suas reclamações e defeitos feitos por ele mesmo em si.
Parou em frente ao espelho, um pouco detonado pelo tempo, e olhou o próprio reflexo de maneira penetrante, como se fosse uma escolha que deveria acatar. Suspirou pesadamente enquanto desenhava cada detalhe do rosto com o olhar e então reparou naquelas olheiras densas e vermelhas, que denunciavam noites sem dormir bem. Depois ergueu os olhos até a testa, que se encontrava com marcas nítidas de expressão, resultantes do ambiente de trabalho, onde a tensão era imensa e o estresse era máximo. Por fim, deu atenção as madeixas negras que pouco a pouco esbranquiçavam na raiz do couro cabeludo, devido à genética familiar, a qual amaldiçoava baixinho os pais e os ancestrais condenados a terem cabelo branco tão cedo. Com certeza para ela, 29 anos ainda era cedo.
No final de toda a análise facial, tomou o tão esperado banho que levou algumas de suas preocupações e tensões das horas passadas embora, sentindo apenas as gotículas de água descer pelo ralo do chuveiro e vendo o vapor da água quente consumir o Box do banheiro.
Acabado o banho, vestiu seu pijama favorito que consistia em uma calça moletom preto e uma blusa cinza também do mesmo material. Dirigiu-se a sala novamente, local onde esteve ao fechar a janela e pegou a embalagem que repousava em cima da mesinha de centro. Aquela era a parte favorita do dia dela. Por mais que negasse aquilo contido dentro da embalagem, pois sabia que estava fazendo mal a sua saúde sendo que era jovem, esquecia mais uma vez dos seus problemas e simplesmente abriu o pequeno pacote, enquanto sentava no sofá com assento para uma pessoa.
Acendeu o objeto com o isqueiro e começou a suspirar. A cada trago se sentia melhor, cada sopro era um alívio. O estresse acumulado se desvanecia naquele pedaço branco de papel enrolado em algo que desconhecia, mas lhe conhecia intimamente. Sempre se perguntava por que continuava com um vício que a fazia tão bem e tão mal, ao mesmo tempo. Sabia que não devia, porém continuava. Aquilo era mais forte e atraía de uma maneira que nem uma pessoa a atraiu antes.
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