Profundos.

Momentos profundos.

Profundos, fundos olhos, fundos. Profundos. Olhos, seus olhos passam aos meus, sua melanina tão comum à minha, tua aura tão como a minha. Eu só quero você novamente.

Daqui de dentro o mar parece mais profundo, sim, daqui de dentro. O mar é a única coisa que nunca acaba, daqui de dentro parece que nada tem peso, aqui dentro você pode voar parado e respirar o nada.

- Apenas feche os olhos, sinta e recite.

De todas as palavras que sua voz mansa me disseram, apenas essa frase composta por 6 fizeram minha cabeça afundar. Afundar como me afundo, afundada como estou agora. Um curta-metragem de 3 meses que pareciam 3 milênios, quatro pernas sem rumo, duas pessoas no mesmo caminho. Era outubro, quase o fim do mês, eu não tinha rumo e nem para onde correr. Eu estava cansada, minhas pernas doíam e meus músculos pareciam atrofiar, era quase fim de outubro e nascera uma nova Alexa.

Meu mundo acabara de desabar no dia vinte e um de outubro, acabo de achar minha mãe morta numa banheira de gelo e água. Seu corpo esguio parecia ainda mais magro, branco e delicado, era como vê-la feita da mais pura cera, a torneira estava ainda ligada e a água escorria sobre meus pés, o gelo que caía de cima do corpo parecia derreter num tempo mais rápido. Aquela água gelada era a sensação de sentir sua morte, sentir seu frio e sentir o breu dos seus olhos. Dei 5 passos à frente, passos lentos e delicados pois qualquer movimento parecia a fazer quebrar, desliguei a torneira sem tirar os olhos do corpo nu que se revelava pouco a pouco cada vez que o movimento da água parava. A desliguei por completo, apenas vi a água que transbordava a banheira se despedindo daquele cenário sem olhar para trás, sem ver seu estrago.

Estava frente à frente comigo mesma e nem imaginava o porque daquilo, e o mais estranho era que eu nada sentia e nada pensava. Era como estar leve, me sentia culpada por não sentir nada por ver meu todo ali jogado e morto. Suas longas pernas pareciam galhos de uma árvore no fim do inverno, apenas observava sua leveza, pareciam levitar e saírem andando sozinhas e totalmente sem o resto do corpo. Pernas de mulher independente. Eu cheguei mais perto de seu rosto e me sentei à beira da banheira, aproximei-me um pouco, as pontas dos meus cabelos pareciam cair pouco a pouco sobre a água como se estivessem em câmera lenta. Ao chegar quase 7cm entre a água e o rosto enrugado dela o ar frio que exalava da água arrepiou-me a pele, era como sentir sua respiração novamente. Eu apenas a observei, olhei cada detalhe, mas ainda não sentia nem pensava nada apenas fiquei com a mesma expressão morta que estava à minha frente.

Vi as pontas dos meus cabelos se juntarem com às dela, pareciam que estavam dançando, pareciam estar se entrelaçando para se juntarem novamente e se tornarem um. Vi seus olhos lentamente se abrirem, suas pálpebras pouco levantam e seu corpo à boiar continua, seus olhos dão uma leve virada. Chego mais perto, levanto a cabeça e penso em alguns instantes, volto a olhar pra ela e vejo seus olhos se fecharem e de repente se arregalarem, agora senti algo: medo. Estava nervosa, senti minha pele arrepiar, estiquei os braços com cautela e ao ver o corpo dela se levantando rapidamente eu a empurrei de volta, devolvendo-a para seu estado de vegetação, senti as pontas dos meus cabelos se jogarem às minhas costas nuas, continuei-a segurando no fundo com toda força que me restava, estava sem consciência alguma, estava ainda mais morta que a própria, eu não a queria ali. Eu a segurei, minha pele se arrepiava mais pouco a pouco e eu a firmava ainda mais. Ao sentir seu corpo novamente levitar, ainda com os olhos bem arregalados, eu a soltei e a deixei subir, caí de joelhos ao chão com o que tinha feito, apenas a observei de uma melhor visão. A ponta de seu nariz estava pouco fora d’água, eu a vi piscar pela última vez duas vezes e lentamente, levantei com cuidado enquanto a água se mostrava inacabável enquanto se debruçava no chão e saía da banheira. Ela piscou duas vezes, na última fechou os olhos e vi suas lágrimas quentes se tornarem bolhas frias. Sentei-me no chão e saí me arrastando para longe, parei ao lado da porta de vidro que me separava do quarto dos meus pais e eu a olhei, seus mamilos estavam duros e seu corpo emerge da água. Ela estava boiando.

Não tive outra alternativa, tive de fugir, eu não aguentava ver aquilo e precisava ficar longe. Eu precisava ter voz para gritar, precisava de pernas para correr e de vida para viver, pois notei que eu apenas existo, não vivo. Levantei-me num pulo, saí correndo por toda a casa sem olhar para trás, mas dava pra sentir que a água ainda escorria da banheira, eu continuei a correr e a deixei para trás, minhas longas pernas pareciam não sair do lugar e o ar parecia estar em movimento. Às vezes acho que o ar está parado e quem se move somos nós, é como se fôssemos um moinho gigante que faz o ar se dividir, mas agora, correndo... parecia imóvel. Eu também me sentia morta.

Eu apenas corri sem expressão, sem pensar e muito menos sentir nada, eu era uma sacola de plástico num mundo de fibra. Eu apenas saí, minhas pernas se moviam, meus músculos se dissolviam, meus braços se chacoalhavam e meu pescoço estava encharcado de suor frio, saí rua à fora sem rumo. Eu me lembro de cada detalhe, de cada cena que vi e de cada movimento que fiz, só de lembrar ainda sinto a grama em meus pés nus, no meu suor se misturando com o ar e com meus cabelos se soltando do coque leve que fiz depois da cena. Eu estava presa na liberdade, uma frase que definiria o momento seria uma de Sartre: somos obrigados a sermos livres.

Eu me sinto a pior das pecadoras por tê-la deixado daquele jeito, mas as coisas andavam tão difíceis que eu a queria libertar. Uma coisa que eu notei é que a única forma de sermos livres é através da dor, do sofrimento, não há outra forma. A felicidade pode ser plena e boa mas não é eterna, infelizmente é assim, mas também há suas contradições.

Caí de joelhos quando cheguei atrás dos muros de um bar que parecia muito antigo, suas paredes eram amarelas em baixo e um tom (creio que antes de sujarem) era branco, estava descascado e em algumas partes daquele muro interminável dava para ver os tijolos de barro (que por ventura estavam sujos também). À minha direita estava a rua e mais adiante um terreno baldio que precisava aparar sua flora, a terra era seca e não havia grama, apenas mato crescido e árvores com frutas que caíam sobre a calçada, a maioria amassadas, pois as pessoas pisam naquilo como se não ingerissem (às vezes indiretamente, como sucos de saquinho ou iogurtes). Decidi me sentar em um dos bancos de madeira velha que tinham no parque a poucos passos à minha frente. O parque não era um dos mais belos, estava quase sempre vazio e não era muito grande, a grama cheirava tão doce que dava vontade de deitar sobre ela e viver ali, havia um brinquedo de subir, tiraram o escorregador e dava pra ver sua marca quadrada na terra que estava constantemente úmida e havia também um balanço quebrado e uma pista que estava molhada e suja de barro. À frente da pista e 6 passos de lonjura do brinquedo, haviam 4 bancos, e entre os bancos haviam árvores pequenas que estavam recentemente plantadas ali, e perto do primeiro banco (quase à frente) haviam degraus que levavam a um pequeno morrinho, como se fosse o fim da linha. O meu caminho era esse: o fim, o mesmo que o de minha mãe.

Mas eu decidi não prosseguir.

Eu decidi parar, sabe por quê?

Porque eu o vi. Porque eu o ouvi. Porque eu o senti.

Era tão simples, tão sereno, de uma beleza tão bruta que chega a ser sensível... tão vivido...

Tão meu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.