Smile For Me...
1 Prólogo
Notas iniciais
Percorri os corredores brancos com o olhar firme.
Minha mão tremia de leve com a idéia de ver aquela pessoa. Mas eu sabia que não podia voltar atrás, à hora chegará e bem... Eu ainda tinha uma promessa a cumprir.
O cheiro de morte circulava ao meu redor, um odor que não era ruim, porém imprescindível. Algo que tememos ou odiamos apenas por saber que dele não podemos escapar. Era assim que aquele lugar cheirava, era assim que aquele quarto limpo e simples deveria cheirar.
Travei meu olhar no vidro da porta do quarto 241. Respirei fundo. Cerrei o punho. E sem mais protelações, adentrei.
Sorri de lado para a pessoa no único leito do lugar. Ela não era mais a mesma que eu conhecera há seis meses. Seu sorriso, seu cheiro, seu olhar, seu toque, sua alegria, sua tristeza, seu amor, sua compaixão, sua amizade, sua dor... Tudo que era daquela pessoa, já não estava mais ali.
–Você...veio... – O ser tentou sorrir diante minha presença, mas não havia nada em seus olhos.
–Eu falei que viria – Comentei me sentando numa pequena poltrona perto da cama. Segurei sua mão, agora esquelética, sem cor, e tremula. Tentei sentir novamente aquela sensação de calor, aquele sentimento que muitos chamam de amor e que se apossará de mim quando conheci tal pessoa.
Naquela época, eu amei e fui amado, mas isso não durou muito, ou melhor, poderia ter durado mais caso tantas desavenças e confusões não houvessem ocorrido. Não posso dizer que tenho inteira confiança no futuro ou em minhas escolhas, ainda hoje me pergunto como seria minha vida caso aquilo não tivesse acontecido, como eu estaria hoje e bem... Quem estaria ao meu lado.
Mas isso é passado. E bem o presente já está complicado o bastante para eu ter preocupações com o passado.
–Sor...ria – Saiu de meu mundinho ao som fraco de sua voz. Sua mão tentava chegar ao meu rosto para um afago, gesto que eu tanto adorava – Não... se... preocu...pe... Eu....que...ro... ver... você....feliz.
Novamente tais palavras. Aquela não era a primeira vez que alguém a beira da morte me falava aquilo.
–Mas eu estou feliz! – Sorri da forma mais natural possível, não quero trazer mais preocupações para sua mente., porém sentido uma dor imensa em meu peito, a dor da perda.
–Não... minta....para...mim... – Baixei a cabeça, sentindo as lagrima queimarem em meus olhos – eu... sei...de...tu...do...
“ Você..não... pre...cisa...mais...mentir...
Enfim, deixei as lagrimas que há tempos eu vinha segurando mancharem meu rosto e apertei sua mão. Desejando que tudo aquilo fosse apenas um pesadelo, que minha vida não fosse assim. Quem eu não tivesse conhecido-os naquele lugar, daquela forma, naquela situação.
–Eu queria não ter... – Falei entre lagrimas, sem conseguir olhar para seu rosto – conhecido vocês...
–Eu sei...que ...você...não...queria... – Por um instante aquele velho sorriso misterioso preencheu novamente seu olhar – mas...não...pode...mos... mudar... nosso... desti...destino.
“Eu te conheço, mas você não me conhece... E se duvidar um dia desses você vai me odiar...”
As primeiras palavras que me dissera naquele dia, vieram à mente. Naquela época, pensei que você fosse apenas uma pessoa louca, mas vejo agora, que nunca conheci ninguém mais inteligente que você... Ou melhor , que vocês.
Há vezes que me arrependo de tudo. Há vezes que me repreendo por pensar assim, mas ao final de tudo vejo apenas que o que eu penso ou desejo de nada velem e que nada mudaria. Ainda assim, eu sou o único que conheço essa história. Eu que vi os passos dolorosos dessas pessoas. Eu vi eles matando. Eu vi eles sofrendo. Ouvi de suas bocas a razão de tudo. Fui o único que os conhecia de verdade. Fui o único que os amou com tanta intensidade. E sou também o responsável... Pelo fim disso tudo.
–Nunca...se...culpe... – Eu ainda chorava e nada me fazia parar – Lembre...se...de...tudo....
“Esse...será...seu...casti...go... por....me... recusar...
Ri de leve, lembrando de algumas coisas.
–Você guarda muito rancor. Espero que não volte para me assombrar...
–É...claro...que...vou...voltar...eu...prome...ti....que....que...que...cuida....ria...de... você....
–E eu que ficaria para sempre ao seu lado... Mas não posso...
Suspirei, limpando os olhos e me preparando para sair dali.
–Eu...sempre...soube...
–--
De forma geral, essa é uma história triste, começou com a morte e acabará com a morte. Mas para aqueles que ainda quiser ouvir estou disposto a contar como tudo começou.
Direi a verdade. Nada de cortar cenas, nada de tentar bloquear algo doloroso, quero apenas a verdade. Quero me redimir para aqueles me foram tão importantes. Ambos amei e ainda amo, mas eu não fazia ideia naquela época de que meus sentimentos confusos poderiam influenciar tanto o caminho de alguém. E tudo começou...
Numa manhã ensolarada, num cemitério, seis meses atrás...
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