Smile Danger
3 Cara de paisagem
Kagura parecia um javali selvagem, vulgo Inosuke, com muita raiva. A pirralha gorila não queria aceitar a derrota e ficou carrancuda.
— Acho que ela ficou chateada — mencionou Kyuubei ao lado de Imai e Pirako.
— Você está de cara fechada só porque perdeu? — retrucou a ruiva para a China.
— Claro! Fui perder logo para aquele coala. Isso não vai ficar assim. — Deixou claro.
— Você quer bater nele? — indagou Imai. — Eu posso ajudar segurando.
— Como a mais velha entre nós, eu te proíbo de ajudar a Kagura a bater no Okita. — Yagyuu advertiu.
— Ah, é uma pena. Eu já estava imaginando em segurá-lo por trás enquanto a Kagura batia nele.
Kyuubei sentiu um arrepio na espinha. Nobume pode ter pensamentos violentos de vez em quando. Felizmente a pequena ruiva estava concentrada demais emitindo energias negativas para o loiro que nem percebeu o que a de olhos carmesim havia dito. Quando cansou de fazer isso, procurou por Soyo e não a encontrou.
— Vocês viram a Soyo?
— Ela estava nos assistindo na arquibancada, mas deve ter saído — respondeu Kyuubei procurando por ela superficialmente.
— Ah... — Espreguiçou-se. — Vou procurar por ela. Até o intervalo!
— Até! — Pirako acenou dando um sorrisinho.
Kyuubei se preparou para ir até o vestiário na companhia das outras duas, mas parou de andar para ouvir a Nobume.
— Eu vou tomar água, então... não precisam esperar por mim.
As garotas assentiram, retomando os passos e Imai foi para o bebedouro perto dali. A água escorria fria pelo filtro, batendo nos lábios macios dela. Nobume estava concentrada naquilo.
— É uma pena que vocês tenham perdido a partida — Alguém comentou com um ar de zombaria.
Ela ergueu a cabeça, virando-a para olhá-lo, afastando-se abrupta e veloz. Parecia ter visto uma assombração. O garoto gargalhou de sua reação de forma aguda, o que de certo modo não agradou Imai, por consequentemente estar chamando a atenção.
— Foi divertido — disse, fazendo-o parar de rir.
— Isso é verdade! — Ele aproximou-se. — Você gosta de competir?
— Digamos que sim.
Perpassou em sua mente a dúvida sobre se dava ouvidos para o Yato ou se saia dali o mais rápido possível, mas Kamui parecia obstinado em puxar conversa.
— Ah, deu para perceber isso hoje. Podemos jogar outra partida para desempatar o jogo de hoje, o que acha? — falou sugestivo.
Mas claramente ela não estava se importando com o que aconteceu na partida de mais cedo.
— Não estou afim — respondeu.
A expressão tranquila dele desapareceu, tornando-se desanimada. Ele acreditou que sua resposta seria positiva. Sem dar nenhum aviso, a garota deu as costas para Kamui e começou a andar deixando-o para trás.
— Só um momentinho — Correu para alcançá-la. — Poderia me passar o seu número para podermos conversar mais e quem sabe, sermos amigos? — Pediu de maneira gentil.
Não é que ela não quisesse dar o seu contato, Nobume raramente recebia esse tipo de pedido ainda mais tão repentinamente e ficou sem saber o que fazer. Além do mais, a insistência do Kamui e todo esse carisma a assustava. Portanto, cogitou que a coisa mais sábia a se fazer era não respondê-lo e saiu em disparada para o vestiário.
Com a demora dela para chegar ao lugar, Kyuubei e Pirako já haviam se trocado quando a garota apareceu, e obviamente que elas queriam explicações.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Kyuu-chan.
— Não. Só esbarrei em um gorila durante o caminho — respondeu, enquanto pegava seu uniforme padrão.
A feminista do grupo pegou a referência no ar e esboçou um leve sorrisinho. Mas a ruiva não entendeu de quem ela havia se referido.
— De quem você está falando?
— É do Kamui. — Antecipou a morena.
Pirako é doida e comunicativa, pode ser um pouco possessiva também, entretanto, nada supera seu gênio curioso.
— Vocês conversaram? — indagou com muita empolgação como se aquilo fosse o máximo.
Nobume assentiu, estava quase terminando de se vestir.
— E sobre o que vocês conversaram?
Kyuubei foi até ela, beliscando-a por ser tão curiosa.
— Acho que isso não é do nosso interesse, certo Imai? — retrucou.
— Ele pediu o meu número — declarou concentrada nos seus cabelos.
As outras duas ficaram boquiabertas, porém Chin ficou mais vibrante que o normal e não segurou a língua.
— E você deu?! — Pareceu uma afirmação vinda da ruiva.
— Não.
— Não? — Kyuubei indagou com a voz esganiçada.
E mais uma vez ela assentiu. Isso foi suficiente para que a ruiva surtasse. Por sorte, Yagyuu impediu que ela começasse a gritar desnecessariamente para Nobutasu, puxando-a para o corredor em direção a sala de aula. No recinto, nossa protagonista sentiu falta da presença da Otae e resolveu perguntar para Kyuubei sobre a outra.
— Você conseguiu falar com a irmã do Shinpachi?
A resposta foi negativa.
— Ela mais uma vez disse que viria e não apareceu. Shinpachi me falou que ela poderia ter perdido o horário novamente.
Uma mulher de aparência excêntrica e sensual, com os cabelos lisos de tonalidade lilás, entrou na sala terminando de colocar seus óculos de bordas vermelhas. Seu nome é Ayame Sarutobi ou Sa-chan como prefere ser nomeada pelo Gintoki, por quem ela tem uma "leve" e "discreta" paixão. (Cof, cof)
— Hoje vamos iniciar o assunto de Genética. É um assunto longo, que pode cansar muitos de vocês, principalmente aqueles que gostam de dormir durante as aulas — Sarutobi lançou um olhar para Okita, que desta vez estava acordado. — O que vocês entendem quando falamos sobre genética? — Afinou a voz, deixando-a num tom apaixonado, unindo as mãos. — Além daquela história que contei sobre querer que meus filhos herdam a genética do Gintoki-sensei.
Como ninguém respondeu absolutamente nada pela menção desnecessária, ela recobrou-se do seu devaneio, virando-se para a lousa, começando a escrever como se não tivesse dito nada de errado. Após a explicação cheia de duplo sentido, quase todos envolvendo os desejos sexuais dela, sobretudo com o professor de química, Sarutobi passou alguns exercícios de fixação.
— Imai...
A garota parou de escrever e olhou para a sua frente.
— Qual seria o motivo da honra de ter sua presença nada ilustre por aqui? — indagou com curiosidade.
Okita sorriu de forma cínica.
— Não entendi o assunto, poderia me explicar?
Os olhos de Imai piscaram duas vezes rapidamente e voltou a perguntar, só para ter certeza.
— Você está bem?
— Estou ótimo. Agora vai me explicar o assunto ou não?
— Não tenho certeza se você está pedindo ajuda ou só impondo alguma coisa... — Ela estreitou os olhos tentando enxergar através da cara de paisagem dele.
— Okay, ficarei esperando aqui — declarou. O que deixou Imai com uma pulga atrás da orelha.
— Sougo, eu posso explicar para você. — Shinpachi se ofereceu, esboçando um sorriso complacente.
— Não, obrigado. Acho que você poderia ajudar a Tsuu. — Lançou um olhar para a garota que senta logo atrás dele. A de cabelos arroxeados parecia estar rabiscando o caderno ao invés de fazer os exercícios. E tão gado quanto o Baam com a Rachel, o quatro-olhos foi até a garota para socorrê-la.
Sougo, que possuído pelo espírito do deboche permaneceu em pé, atrapalhando a visão de alguns alunos e desafiando a autoridade da Sa-chan.
— Sai da frente! — reclamou Kyuubei para Okita que suspirou a contragosto e se agachou ao lado da Nobume que logo foi ajudá-lo, mas ao perceber que ele só queria fazê-la perder tempo, desferiu-lhe um cascudo no meio do cocuruto para tomar vergonha na cara.
...
No intervalo, Nobume pegou seu celular e andou pelos corredores concentrada enviando mensagens para seu pai. Para ter mais privacidade, foi até o térreo indo para uma velha parte do colégio próxima ao ginásio, onde ficavam os antigos banheiros e que agora serve como "lixão das carteiras e cadeiras inutilizadas". Quase ninguém vai para lá por causa dos boatos sobre ser assombrado, mas é meio óbvio que ela não tem medo dessas coisas. As paredes estão sujas e com musgos. O corredor não é muito diferente, retendo algumas poças d'água advindas das infiltrações do teto instável. Os feixes de luz que advém das janelas permitem a visão da poeira pairando pelo ar e das teias de aranhas que tomam conta de quase todo o recinto. É praticamente o background de animes de terror.
— Você quer mais, hein? — Ela ouviu e ficou estática, analisando o corredor. A voz que ouviu era familiar, mas estava diferente, soava louca e afobada.
— Por que não me responde mais, seu merda? Você não queria brigar?! — gritou o dono da voz. Logo depois pôde ouvir alguns socos.
Imai guardou seu celular e caminhou sorrateira, parando próxima ao local de onde vinha a voz. Sua respiração ficou pesada e recusou-se a olhar a situação. Perguntou-se o porquê de ainda não ter ido embora, suspirou e virou-se para partir.
— Há quanto tempo está aqui? — Ele perguntou num tom que nunca ouvira antes, um tom intimidador. Imai olhou sobre o ombro, para o outro.
Suas mãos e seu uniforme estão sujos de sangue. Seu olhar estava inquieto, o ruivo está claramente agitado. Ela vira o restante do corpo em sua direção, encarando-o serenamente.
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