Notas iniciais
Olá, essa é minha primeira fic que eu decido postar então deem um desconto vai >.<'
Aceito críticas, sugestões, beijos, abraços e etc.

Estava sentada embaixo de uma árvore lendo meu livro, eram aproximadamente seis da tarde. Os últimos fios de sol de um outubro chuvoso estavam sumindo. Quando tirei os olhos das páginas e observei em volta, a praça central estava quase vazia. A não ser por duas garotas sentadas num banco a uns dois metros de mim. Me olhavam como se eu fosse um fantasma. Minha calça skin preta com suspensório de tachinhas e minha blusa de ombro caído do AC/DC eram normais, nada de “nossa eu nunca vi aquilo antes”. Meu all star preto com caveirinhas, meu cabelo vermelho picotado com uma tentativa inútil de alisamento e minha maquiagem preta “pesada” também eram normais. Mas talvez a combinação de tudo isso fizesse o normal se tornar chamativo. Fitei-as por um momento. As duas eram loiras, olhos azuis, e vestiam uma blusa tomara que caia e um shorts “tomara que me coma”. Típicas garotas falsas, gostosas e sem cérebro que, infelizmente, hoje em dia era a coisa mais fácil de se encontrar. Eu as encarava e elas me encaravam de volta, agora com expressão de nojo.

- Que garota estranha – resmungou uma delas.

- deve ser uma vadia drogada – disse a outra, propositalmente alto pra que eu ouvisse. É melhor eu ir embora antes que arranque todos os fios de cabelo fedendo a água oxigenada daquelas ali, e certamente iria parar na delegacia, chamariam meu pai e ele iria me ver nestas roupas, nada feito. Fechei meu livro com um baque surdo, e peguei minha mochila de estimação.

Sai da praça e já estava escuro, minha desculpa da vez seria “pai, estava na biblioteca” o livro eu já tinha. Meu pai era do tipo que odiava punks, emos, roqueiros e derivados. Não era apenas não curtir o estilo e sim odiar, se ele estivesse num restaurante e entrasse um ser de preto, olho pintado e camiseta de banda ele ia embora na mesma hora. Segundo meu pai, esse “tipo de gente” eram desocupados, satanistas, drogados e mais um monte de barbaridades. E eu, claro, cresci com essa idéia equivocada. Não gosto nem de imaginar a cara dele se me visse nessas roupas, talvez nem me reconhecesse. Por isso na frente dele eu me vestia extremamente normal, roupas claras, sem maquiagem ou maquiagem leve, cabelo amarrado, óculos e sempre com um livro enfiado na cara. Eu tinha duas personalidades, como o Batman, um dos meus personagens favoritos.

- E ai emo gostosa, tá perdida? Deixa eu te levar pra minha casa – disse uma voz no meio de um bando de caras fedendo a álcool. Olhei para o projeto de Dom Ruan e quase o fiz engolir meu dedo do meio. Penso ter ouvido um “sem educação” a distância, sem educação? Esse ser me passa uma cantada nojenta e ainda quer educação? Ah vá se ferrar. Dobrei algumas ruas, ouvi mais algumas cantadas baratas, mostrei alguns dedos e vi um mini-mercado aberto. Hora da última coca-cola do dia, meu pai era tão fanático que proibia até refrigerante, a coisa era extrema.

Tive que pagar R$ 2,50; ontem era R$ 2,25, cada dia sobe mais o preço dessa praga. Mas foda-se, é coca-cola. Sai tomando e apreciando o gosto do meu amado elixir negro. As ruas estavam silenciosas, Porto Alegre a noite podia ser confundida com uma cidade de filme de terror. O barulho das árvores balançando misturado com o vento gelado e a ausência de qualquer som eram muito boas. Dobrei uma esquina onde havia uma sinaleira e de repente eu estava no chão sentada e com todo meu refrigerante virado por cima da minha querida blusa. Algum filho da puta teve a gentileza de esbarrar em mim.

- Me desculpe eu nem te vi – disse uma voz masculina aveludada.

- Se tivesse me visto não teria passado por cima que nem um trator – falei sem olhar para ele enquanto tentava limpar minha blusa.

- Não é minha culpa se você fica se esgueirando pelas esquinas sem fazer barulho – rebateu ele, me estendendo a mão. Ignorei-a e levantei sozinha.

- Claro, da próxima vez vou dobrar a esquina anunciando com um megafone – disse sarcástica. Pela primeira vez o encarei, meu deus ele era enorme! Tive que levantar a cabeça para olhar em seus olhos, incrivelmente azuis. Seu cabelo era preto e desfiado um pouco abaixo do queixo contrastando com a pele pálida.

- Não seria uma má idéia. Aproveita e usa um colete fluorescente pra eu te ver também – falou debochado. Tá foi maldade caçoar da minha altura, e muito mais pra ele que deve ter uns dois metros. Me senti diminuída no meu 1,58.

- Vai se ferrar – disse e sai andando. Pelo canto do olho vi quando ele veio atrás de mim. Apertei a latinha vazia de coca na minha mão, é eu ainda estava com ela.

- Não te deram educação não pirralha? – ele me puxou pelo cotovelo e me encarou nos olhos.

- Não tenho educação com quem derruba minha coca e me chama de anã – disse entredentes. Me desvencilhei da sua mão e o fitei por alguns segundos. Ele vestia uma calça de couro rasgada com vários cintos e fivelas de metal, uma blusa preta de gola V e uma jaqueta também de couro – e pirralha é sua avozinha – joguei a latinha nele que bateu acima do peito e saiu quicando pela calçada. Para minha felicidade ainda tinha um pouco de refrigerante dentro dela, que ficou na camiseta do estranho a minha frente. Ele olhou para a camiseta e olhou pra mim, olhou pra camiseta e olhou pra mim novamente.

- Feliz? – perguntou. Muito feliz. Comecei a rir e sai andando, deixando ele pra trás. Segundos depois não precisei olhar pra saber que ele andava ao meu lado.

- Pra onde vai baixinha irritada? – perguntou ele.

- Me prostituir na BR – baixinha é sua avó!!!!!!!!! andei mais rápido, que droga porque ele tava me seguindo?

- Não precisa ir até lá, já estou aqui – ele estava rindo, instintivamente olhei pro seu rosto, que cara safado!

- Vai pro inferno!

Dobrei mais uma rua e ele ainda estava atrás de mim, tinha que me livrar desse cara antes de chegar perto de casa.

- Eu cheguei aqui hoje, tava dando umas voltas pra conhecer a cidade. Eu tenho uma banda, mas estamos de férias. Você já ouviu falar de... — Me virei pra trás repentinamente, ele parou a centímetros de mim.

- Eu tenho cara de twitter pra você ficar me seguindo? – falei.

- Não, e falando nisso qual o user do seu twitter? – começou o estranho debochado, pegou o celular e me encarou esperando.

- Não vou te dar!

- Vai sim – ele sorriu com malícia. Eu tava sentindo que tinha muita encrenca escondida naquele sorriso perfeito. Eu disse perfeito?? Apaga, deleta.

- Olha só, não dá pra mim chegar em casa com você na minha cola igual cachorro abandonado. Então vai vazando – disse apontando o caminho de volta. Estávamos próximos a uma grande parede que se estendia até o final da rua, ele apoiou um braço nela e jogou o corpo pro lado.

- Então me dá seu telefone – nunca! Jamais!

- Não – falei firme.

- Então eu vou com você até sua casa – chantagista do capeta!!!!!! Olhei para os lados, suspirei e voltei a encará-lo com uma cara de ‘por favor’. Ele repuxou os cantos da boca num sorriso fechado, seus olhos azuis cintilavam no escuro. Eu não ia dar meu número pra esse estranho, não mesmo. Peguei o celular da mão dele e digitei um número qualquer. Alguém vai receber uma ligação, mas pelo menos eu estaria livre desse encosto. Devolvi o celular.

- Pronto. Agora, tchauzinho – disse abanando a mão esperando ele virar as costas e sumir da minha frente.

- Até parece – revirou os olhos. Com rapidez ele segurou meu braço e discou o número. Merda!

- Meu celular tá em casa! – falei desesperada demais.

- Claro, e isso aí no seu bolso é uma arma – a ironia em sua voz era quase palpável. Realmente o volume no meu bolso traseiro tinha formato de um celular, e era.

- Motel Tigresa, boa noite – disse uma voz sensualmente feminina do outro lado da linha. Eu quase engasguei. Que caralho! Com tanto número por aí eu fui chutar logo o de um motel! Ele começou a rir e desligou o telefone.

- Safadinha – falou apertando sugestivamente o meu braço. Credo! Eu hein, sai pra lá!

- Não sabia que era o número de um... – engasguei na última palavra. Não era um boa idéia começar a falar de motel, não era lá muito seguro.

- motel – completou ele. Assenti com a cabeça.

- Tá legal engraçadinha. Me dá SEU número – ele deu ênfase na palavra. É, não tinha escolha. Peguei novamente o celular e digitei MEU número. Quando ele ligasse era só ignorar. O estranho me olhou com cara de insegurança apertando os olhos e discou o número. Em dois segundos meu celular começa a berrar com a música “Perfect Weapon” do Black veil brides. A expressão dele mudou de desconfiança pra surpresa 100%.

- Gosta de Black Veil Brides? – perguntou como se fosse a coisa mais absurda do mundo.

- Algumas músicas – dei de ombros. Ele desligou o celular e me encarava surpreso.

- Não notou nada de estranho aqui não? – perguntou com um tom de óbvio que me deixou boiando.

- Sim, você é estranho. Agora some – falei forçando um sorriso.

- Não animal, eu sou o Andy Sixx!! – falou com o mesmo tom de óbvio. Realmente ele me parecia conhecido, foi ai que caiu a ficha. Eu tava na rua jogando conversa fora com Andy Sixx.

- Tá e daí? – perguntei normalmente. Eu tava pouco me lixando, ele podia ser até o papa. Andy pareceu desconcertado, abriu a boca pra falar alguma coisa, mas não saia som algum.

- O trato era você evaporar se eu te desse meu número – cruzei os braços esperando. Ele franziu o cenho.

- Ainda não sei seu nome – falou sério.

- Melanie Lockwood – disse. Andy assentiu, mas ainda estava parado na minha frente, comecei a bater o pé e suspirar, bem sutil.

- Bom, então tchau – disse ele. ALELUIA! ALELUIA! Eu podia fazer uma dancinha agora se não fosse tão constrangedor. Acenei e ele virou as costas. Esperei que dobrasse a esquina e disparei feito uma bala pra casa. Um quarteirão antes da minha casa tinha um banheiro público. Entrei correndo e já fui tirando a roupa, nunca havia ninguém lá então não me importei. Tirei todas as peças que podiam me denunciar e joguei dentro da mochila onde tinha minhas roupas normais. Vesti uma saia marrom desbotado abaixo do joelho, uma blusa de manga ¾ rosa bebê de abotoar na frente, uma sandália cor de creme e amarrei o cabelo num coque. Tirei toda a maquiagem com desmaquilador e passei base e uma sombra rosa claro. Dei uma última olhada no espelho, que era grande, do banheiro. Estava tudo ok. Peguei minha mochila e coloquei nas costas usando as duas alças, eu sempre usava apenas uma alça dependurada no ombro. Quem me visse agora não acreditaria que eu era aquela garota de cinco minutos atrás.

Fui andando pra casa e trocando o toque do meu celular para o perfil “casa” onde o toque de chamada era Beethoven. Parei em frente ao meu lar odiado lar. Era uma casa de dois andares. Paredes azuis, telhado, janelas, portão e portas brancas. Em resumo: centro de opressão e humilhação da personalidade alheia.

Entrei limpando as sandálias no tapete marrom escrito “welcome”.

Marta, nossa empregada e minha babá, estava descendo as escadas e levando consigo um cesto de roupas sujas.

- Demorou chica, já são oito horas da noite – Marta era mexicana, seus cabelos longos e pretos na pele bronzeada denunciavam isso. Fora o sotaque. Ela vestia o uniforme azul claro com babados brancos e uma touca nos cabelos presos num coque. Marta tinha 38 anos, mas aparentava bem menos.

- Desculpe, eu estava na biblioteca. Perdi o horário – respondi. Ela riu parando com uma mão na cintura.

- Certo certo – eu disse levantando as mãos – um garoto me parou e ficou enchendo o saco, acredita que ele me obrigou a dar meu número pra ele? Que droga! – bufei. Marta era a única que sabia da minha identidade dupla, podia dizer que éramos bem amigas.

- Como ele era? – perguntou ela atravessando a sala em direção a lavanderia.

- Sabe o Andy Sixx?

- Nem me fale! Minha filha não fala em outra coisa, é Andy Sixx pra lá Andy Sixx pra cá – ela fez cara de tédio – pelo menos ele é bonito. Mas o que tem haver o Andy Sixx?

- Ele mesmo – o queixo dela caiu como se pesasse cem quilos.

- Me conta tudo! – disse pulando em cima de mim e pegando nas minhas mãos.

Contei tudo pra ela que ficou mais empolgada que eu, aliás eu não estava nem um pouco empolgada. A idéia de um rockstar atrás de mim era terrivelmente perigosa. Eu não queria ir para um colégio militar extremamente rigoroso como aconteceu com Brawian. Ele era seis anos mais velho que eu, e quando tinha 17 anos apareceu em casa com uma calça de couro, camiseta dos Beatles, cabelo alisado, maquiagem preta e um piercing de argola no nariz. Preciso nem dizer que meu pai pirou né? Deu uma briga desgraçada e eu ouvia tudo atrás da porta. Dois dias depois meu pai mandou Brawian pra um colégio militar no Japão, dois anos depois ele morreu. No primeiro ano em que ele passou no Japão me mandou essa mochila dos Beatles, meu pai quis queimar, mas minha mãe protestou dizendo que era um presente então eu fiquei com a mochila. É uma das únicas recordações que tenho do Brawian, essa mochila é como um tesouro pra mim.

- Mel, seus pais chegaram. Já vamos jantar – disse Marta batendo na porta do meu quarto. Meus pais tinham ido a uma festa beneficente de uma empresa afiliada e chegaram as nove. Papai era dono de uma empresa de advocacia, e exercia esse trabalho também. Diziam que ele era o melhor, não perdia um caso. Podia por em liberdade um bandido que foi condenado a pena de morte, mas cobrava uma fortuna. Minha mãe era cirurgiã de uma respeitada clínica, a melhor. E a base dos Lockwood era essa, ser sempre os melhores no que fazem, mas eu ainda estava em dúvida. Meu pai queria que eu fizesse advocacia, mas eu sempre desviava o assunto. Na verdade eu queria ser produtora, mas qualquer coisa relacionada a mídia é considerado irracional nessa casa, e meus pais são racionais, até demais. Então, idéia descartada. Levantei da cama, e ajeitei o vestido salmão na frente do espelho. Era uma das regras daqui de casa trocar de roupas para jantar e almoçar. Coloquei meus óculos de armação preta e fiquei com cara de nerd. Ótimo. Desci as escadas com um sorriso forçado.

Meus pais se dirigiam para a mesa.

- Boa noite Mel – disse minha mãe sorrindo ao me ver.

- Boa noite princesa – disse meu pai.

- Boa noite, pai, mãe – olhei-os em ordem. Meu pai sentou na ponta da mesa, mamãe de um lado e eu do outro.

- Querida, depois do jantar eu e seu pai gostaríamos de falar com você – disse ela olhando para meu pai que balançou a cabeça em afirmação.

- Claro – respondi. Algo me dizia que era algo que eu não ia gostar.

Notas finais
E aí? Muito ruim? >.<'