O trem parou e fomos para as carruagens. No meio da multidão, procurei uma pessoa em especial, mas parecia que todas as cabeças se confundiam, todos estavam andando rápido demais, era impossível distinguir uma pessoa sequer. Mesmo assim, eu sabia que se ele estivesse ali, eu o veria, eu sempre o vejo, sempre. Então onde ele estava?


— Vocês viram ele? – perguntei para as meninas a minha frente. Elas acenaram negativamente com a cabeça e eu olhei para trás, tentando encontrar aqueles cabelos loiros que acompanhavam o par de olhos acinzentados que me tiravam a concentração.

— Você tem que parar com isso Liz. – Su advertiu-me enquanto subíamos na carruagem.

– Com o que? – perguntei sem entender. Virei a cabeça novamente, nem sinal dele. Para a minha infelicidade, a carruagem começou a andar e eu perdi a multidão de vista.

— Com isso! – ela disse – Você sabe que ele é…

— Su!. – Cece a interrompeu acenando com a cabeça para o lado, revelando Pansy Parkinson.

Suzanna não falou mais nada, nós três sabíamos como Pansy se sentia em relação a ele.

— Se vocês estão falando de Draco, podem continuar, pelo que eu vi, esse ano ele vai estar insuportável. – ela murmurou nos surpreendendo e fazendo Cece pular.

Eu virei o rosto e fingi que não havia escutado, enquanto Su e Cece a fitavam perplexas. Afinal, não haviam chances de Pansy achar Draco insuportável, era óbvio que ela só estava falando aquilo para me provocar. Bom, conseguiu, é claro, ela sempre conseguia. Eu a odiava tanto, ela não merecia a presença de Draco, nem merecia que ele olhasse pra ela.

Tá aí, pronto, esse é o meu único motivo para gostar de vir para Hogwarts: Draco Malfoy. Eu gosto dele desde, vejamos, o primeiro ano. Não é brincadeira, eu realmente gosto dele, quer dizer, não posso falar em amor, mas é algo bem forte, que eu não posso controlar. E isso me assusta, porque cá entre nós, ele não é muito o tipo que você deve se apaixonar…

Enfim, não posso fazer nada, meu coração que manda. De qualquer jeito, esse ano vai ser diferente, vou provar pra ele que não sou só uma sangue-ruim, como ele me chama. Vou, com certeza, fazer com que esse ano valha a pena, cansei de ser a Liz-boazinha com a vida tediosa.

— Quando é que ele não está insuportável? Você é a única pessoa no mundo que consegue aguentá-lo, mas mesmo assim, ele nunca vai olhar para você, Pansy. – ralhei virando o rosto. E esse foi o começo da minha rebeldia, quer dizer, a Liz do quinto ano nunca responderia Pansy assim, nunca responderia a ninguém assim. Mas essa era a Liz do sexto ano e ela gostava de ser má… Ok, mentira, aquilo não era pra mim, eu me arrependi assim que disse aquilo e vi a expressão de Pansy ao se levantar e os queixos caídos de Cece e Su.

Uma opção descartada, a Liz do sexto ano não seria má, ela podia ter um ano legal sem ser má, decidido. Ela podia ter um ano bom sendo ela mesma, isso.

— O-o quê você disse? – Pansy perguntou incrédula. – Sua sangue-ruim nojenta! Nunca mais fale assim comigo, entendeu?!

Me encolhi e olhei para o outro lado novamente, afinal, o que eu poderia responder? Não queria arranjar brigas no primeiro dia de aula, ainda mais com ela. Eu sempre me dei bem ignorando-a, não seria diferente naquele dia.

– Ei, não precisa falar assim Pansy. – Su falou ainda com os olhos arregalados. – Tenho certeza que a Liz não quis dizer nada de ruim, não é Liz? – e me lançou um olhar fulminante.

Cece deu um sorrisinho e me deu umas cotoveladas discretas, me incentivando. Essa era a Cece, sempre gostou de uma boa confusão.

— Sim, claro. Desculpe Pansy. – eu disse a contra gosto, deixando Cece decepcionada.

— Bom mesmo! Veja se aprenda a respeitar os bruxos de verdade! – ela berrou sentando-se novamente.

— Não liga pra ela Liz, você é muito mais bruxa que ela. – Cece cochichou para mim. Como se aquilo ajudasse, eu já estava acostumada com aquele tipo de xingamento, não valia a pena brigar por aquilo mais. Eu sorri agradecendo-a.

Olhei para ela e vi a luz da lua refletindo nos seus cabelos extremamente loiros. Diferente de mim, Cece era maravilhosa, ela era esbelta, mas tinha curvas nos lugares certos. Seus cabelos loiros eram compridos, e possuiam cachos que se formavam lindamente nas pontas. Seus olhos eram do mais claro verde que existia, com certeza ela era uma daquelas meninas que provocava suspiros em todos os meninos que a viam.

Por isso e por outros motivos que não vale a pena dizer, Cece nunca deixou de ter um namorado, todos os anos ela estava com um diferente, era impressionante. Seu jeito extrovertido e engraçado atraia a todos.

Já Suzanna era mais contida, mais tímida, o que a fazia uma pessoa muito amável, ela era simpática e estava sempre certa, sempre. Ela também era bonita, não como Cece, claro, mas tinha a sua beleza. Tinha um belo corpo que escondia atrás de seus uniformes largos, pois nunca teve paciência de arrumá-los. Seus cabelos eram pretos e lisos, o que em qualquer outra menina, seria sem graça, mas nela, ficava fofo, porque combinava com seu par de olhos azuis, que se destacavam através de seus óculos.

Eu tenho certeza que se Su usasse as roupas certas, arrancaria suspiros dos garotos também. Quem me dera se eu tivesse os olhos de Su, ou o cabelo de Cece. Mas não, eu apenas tinha cabelo castanho e olhos cor de mel. Sim, essa era eu, mais sem graça impossível, certo?

Enfim, esse era o nosso trio, nós nos completávamos, por isso sempre fomos amigas, desde o primeiro ano. E apesar de tudo, eram elas que me salvavam do tédio completo. Bem, elas e o Draco, mas tanto faz, ele não estava lá mesmo, e nunca gostaria de mim.

Perdida em meus desvaneios, não notei quando a carruagem parou e quando percebi, estava sozinha, com Cece e Su me chamando. Já mencionei que sou muito distraida? Pois é.

Desci rapidamente e fomos para o salão comunal, nas masmorras. Ah, está ai mais um problema em ser eu, sou da Sonserina. Não que ser da Sonserina seja ruim, mas ser dessa casa, sendo sangue-ruim, é. Quer dizer, os sonserinos normalmente valorizam muito a raça, eu realmente não sei o que estou fazendo nessa casa. Eu provavelmente devo ser a única sonserina sangue-ruim na história, se o chapéu seletor fosse uma pessoa, eu o machucaria seriamente.

— Liz, vamos. – Su disse quando notou que eu não havia me mexido desde que chegamos no salão.

— Não.

– Eu não acho que ele vá chegar tão cedo. – Cece disse antes de um bocejo.

– Podem ir… Vou ficar por aqui. – falei enquanto sentava em uma das poltronas. Elas se entreolharam e Suzanna levantou os ombros.

— Você está louca? – Cece perguntou. – Snape vai te matar se você perder o discurso de Dumbledore.

Ignorei-a, apenas acenei com a cabeça e ambas sairam, derrotadas. Elas iam ver, ele ia chegar, ele sempre ia para o dormitório antes de ir para o Salão Principal, não iria ser diferente naquele ano.

Eu perdi totalmente a noção do tempo, não sabia se haviam passado horas ou minutos perdidos sentada ali, apenas olhando para a porta do salão. Aquilo tudo era patético, eu sei, mas era tradição, eu tinha que vê-lo todo começo de ano, era a minha motivação para continuar, apesar dele me odiar.

Já estava prestes a me levantar e quando a porta abriu e eu o vi. Finalmente.

– Boa noite Draco. – o cumprimentei tentando ser indiferente, mesmo com todos os fogos de artifício no meu estômago.

Ele não me respondeu, obviamente, apenas passou por mim com aquele ar superior e entrou no dormitório masculino. Cara, como ele tava bonito aquele ano, muito mais do que no ano passado pelo menos, quando eu nem o via direito porque ele estava ocupado demais infernizando a vida de Harry e seus amigos com a Brigada Inquisitorial.

De qualquer jeito, eu não devo mais falar de Draco Malfoy. Esse ano não vai se basear nele, esse ano vai se basear em mim. É. Eu vou fazer ele ser menos tedioso, talvez até dê um jeito de me envolver em alguma aventura contra o Lorde das Trevas. Brincadeira, brincadeira. Mas definitivamente vou me envolver em alguma coisa

Com a minha mente a mil, fui até o Salão Principal e me sentei junto de Su e Cece na mesa da Sonserina. Como sempre, o chapéu seletor cantou, designou os novos alunos para a suas respectivas casas e Dumbledore fez seu discurso de costume. Quer dizer, mais ou menos, já que ele falou claramente que Você-Sabe-Quem voltou e que forças ocultas estavam tentando penetrar no castelo naquele exato momento. Ás vezes eu não entendo os métodos do diretor para nos mantermos calmos. Ok, muitas vezes.

Descobrimos que Snape finalmente teria o cargo que queria faz muito tempo, isto é, de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, e um tal de Slughorn ocuparia o seu antigo cargo, em poções.

Eu olhei de canto para Draco e vi como ele estava tenso, mais do que o normal. Talvez se assustou com o que Dumbledore disse, como todo mundo. Ignorei, como eu disse, aquele ano não seria sobre Malfoy, não mesmo.

Após a ceia, eu levantei rapidamente e olhei para a mesa da Grifinória, era ali que eu pertencia, por que eu não estava lá? Não, ao invés disso, estava na Sonserina, mesmo sendo sangue-ruim, como se isso ao menos fosse possível e…

— Miller. – ouvi uma voz fria e familiar me chamando e interrompendo minhas reclamações. – Elizabeth Miller.

Virei o rosto e me deparei com o rosto fino e pálido de Severo Snape. Qual era a daquele cara afinal?

— Sim?

— O diretor te espera no escritório dele. – ele falou indiferente. – Acidinhas.

Acidinhas?

— Prof. Snape? O que o senhor quis dizer com… ?- mas ele já havia saído, simplesmente havia virado e ido.

O que ele quis dizer com Acidinhas? Eu não fazia a menor idéia do que aquilo significava, e mais, por que raios Dumbledore iria me querer no escritório dele? Aquilo era totalmente contra os meus planos, era para eu causar confusão no meio do ano, não logo no começo.

Apesar do medo, a curiosidade era maior, eu realmente queria saber o que ele queria comigo.

Demorei um tempo até achar o escritório do diretor, eu nunca havia ido lá, tive que perguntar para pelo menos uma dúzia de pessoas até saber que ficava atrás de uma gárgula. Muito conveniente, como eu abriria aquilo?

Eu bati umas cinco vezes, como não teve nenhum resultado, tentei empurrar, usar feitiços de abrir trancas e nada. Então me lembrei…

— Acidinhas. – disse, quase rindo de mim mesma por achar que aquilo iria funcionar.


Para a minha surpresa, funcionou, a gárgula moveu-se e revelou um lance de escadas que era em espiral, bem a cara do diretor mesmo. Eu subi hesitante, esperando que algo acontecesse.

Ao chegar em cima, vi a porta, bati fraquinho e esperei. Admito, eu estava aterrorizada. Eu não havia feito nada de errado, muito menos algo notável.

– Entre. – eu ouvi a voz de Dumbledore dizer, provocando um frio que percorreu toda a minha espinha.

Entrei, quem sou eu para desobedecer Alvo Dumbledore, não é mesmo? Era um escritório enorme, muito bonito. Diferente de todos os outros onde eu já entrara. Não vou entrar em detalhes, mas posso dizer que era digno de um diretor de Hogwarts.

— Boa noite Elizabeth. – ele disse calmo.

– Bo-oa noite, diretor. – respondi com a voz falha.

– Sente-se, sente-se. – ele pediu com um sorriso.

Sentei. Eu sentia absolutamente todas as partes do meu corpo tremerem, estar na presença de um dos melhores bruxos de todos os tempos era muito para eu aguentar. A única pessoa famosa que eu conhecia de fato era a mãe da Cece que trabalhava no Profeta Diário, e ela nem era tão famosa assim.

– Srta. Miller, preciso esclarecer algumas coisas.

Aquelas palavras me pegaram de surpresa, o que Dumbledore tinha para me dizer que precisava ser pessoalmente, naquela hora da noite? Provavelmente, meu terror estava visível no meu rosto, porque ele disse alguma coisa como “Acalme-se”, mas eu não consegui assimilar a informação.

— Desculpe, senhor. – eu pedi sinceramente. Aquilo era patético, eu não podia ficar nervosa toda vez que fosse conversar com o diretor, já que naquele ano eu o veria muitas vezes se tudo desse certo. Isso se eu não fosse expulsa naquele momento. Porque, cá entre nós, eles finalmente poderiam ter percebido que eu não servia para Hogwarts.

Quem me dera se fosse isso. Eu mal sabia que aquela conversa mudaria a minha vida para sempre.

Notas finais
Oooi, ta aí mais um capítulo ^^

Espero que gostem, mandem um review com a sua opinião, seja negativa ou positiva (:
Falando nisso, obrigado a todos que mandaram reviews no Epílogo *-*

Beeijos :*