Slytherin Past
9 Patrono
Quando me juntei a Alicia Spinnet para praticar o patrono, eu não esperava encontrar outros bruxos que também não sabiam fazer o feitiço. Mas estava errada, aparentemente era uma mágica avançada e difícil de executar. Os patronos são feitiços que exigem muita concentração e, vejam a ironia, uma memória específica muito forte.
Claro que tinha que ter alguma coisa que me impedisse de conseguir fazer o feitiço com perfeição. É óbvio que o universo não podia cooperar comigo por um segundo, quando foi diferente?
— Vocês têm que se concentrar em uma memória muito feliz. Ela tem que tomar conta de vocês, pensem nela e mais nada. De preferência, a memória mais feliz que tiverem e depois falem "expecto patronum", com esse movimento. — Alicia demonstrou e uma luz saiu da ponta de sua varinha, se transformando em um cavalo grande e robusto. Cavalgando entre nós, o animal parecia a própria encarnação da bondade e felicidade e eu imediatamente entendi porque eles eram eficazes contra Dementadores.
A única vez que tive contato com um, foi quando o diretor teve a grande ideia de guardar Hogwarts com os Dementadores, quando um assassino fugiu de Azkaban. E ainda falam que a escola é o lugar mais seguro do mundo bruxo. Sério, contem outra. De qualquer forma, eles estavam em todos os lugares e eu, como exploradora nata do castelo, vivia me encontrando com aqueles fantasmas encapuzados.
Apesar de ter alguns rancores, eu não desejaria o encontro com um Dementador a ninguém. É como se eles sugassem toda a sua energia e alegria de uma vez nada, deixando um vazio que te faz querer até sentir tristeza, para te lembrar como é sentir alguma coisa.
Então, vendo aquele cavalo feito de luz nos entretendo, eu consegui imaginar um Dementador sendo derrotado e sorri melancólica, desejando poder executar um patrono. Lembrei do que a Suzanna tinha escrito, de que minhas memórias viriam a tona já que Dumbledore estava morto e que se eu me esforçasse, eu conseguiria. Mas ela não sabia das excruciantes dores de cabeça e do mal-estar que eu sentia se tentasse muito.
Era muito mais fácil esperar que elas aparecessem sozinhas, porque era como se fossem vir de qualquer forma, eu não precisava forçar.
Só que a conjuração de um patrono exigia exatamente isso. Que eu forçasse. Que eu caçasse uma memória feliz. A mais feliz. Mas todas as que eu tinha da minha infância eram mentiras. Das férias que eu passei com a minha familia, dos parques de diversão que meus pais me levaram, o zoológico, os amigos de infância...
Como eu podia me concentrar em uma mentira? Como isso ia funcionar?
Suspirei e vi os outros bruxos tentando conjurar o patrono, enquanto eu ainda pensava em que memória escolher. Talvez alguma de quando já estava em Hogwarts? Claro que não funcionaria, eu tive um tempo miserável naquela escola, sendo a única sonserina sangue-ruim. E no único ano que alguma coisa boa aconteceu, vieram trezentas ruins para acompanhar, inclusive descobrir que sou sobrinha do pior bruxo de todos os tempos. Ótimo.
Então, como imaginei que aconteceria cedo ou tarde, minha cabeça começou a doer, suplicando para que eu cedesse a memória que estava tentando se formar.
"Era um dia antes do meu aniversário de onze anos, no fim de fevereiro. Eu estava empolgada porque sabia que assim que completasse onze, poderia ir para a escola de magia que tanto tinha ouvido falar. Rabastan sempre me dizia que era para eu me preparar e que Hogwarts era super segura, pois o diretor era o bruxo mais poderoso da atualidade.
Mas eu não acreditava nele. Porque esse bruxo era o mesmo que tinha apagado as minhas memórias e me tirado de casa quando eu tinha apenas oito anos.
— Eu odeio ficar no caixa! — gritei, rabugenta para a porta dos fundos.
— Você quer sua mesada ou não?! — ouvi de volta e bufei, revirando os olhos. — E amanhã é o seu aniversário, eu preciso que compre aquela poção de sempre.
— Como o meu aniversário passou de um dia de comemoração para um de escravidão? Estou tentando me lembrar como exatamente eu deixei isso acontecer... — murmurei e peguei uma pequena bolinha vermelha que se desfazia como areia e voltava ao normal logo depois.
— Pra que você acha que a poção serve? Para você recuperar suas memórias idiotas. E se você praticasse mais, não teria nenhum problema em lembrar de nada. — Rabastan provocou. Eu não era muito esforçada em tentar recuperar minhas memórias, mas a verdade é que as coisas mais importantes eu já sabia. Todo ano, Rabastan me dava uma poção nojenta no meu aniversário que me fazia lembrar. Com isso, eu já sabia dos meus pais verdadeiros e dos meus tempos no orfanato.
— Tanto faz! — berrei e deixei a minha cabeça cair nos meus braços, sentindo o tédio tomar conta de mim. Nada acontecia na Travessa do Tranco em fevereiro e nenhuma das crianças, filhos e filhas dos donos dos negócios vizinhos, moravam na loja como eu. Eles visitavam periodicamente, o que me fazia uma criança infeliz na maior parte do tempo.
— Vou na Gambol & Japes, ver se o Jake já voltou. — informei, vencida pela falta do que fazer e esperança de que talvez um de meus amigos estivesse trabalhando meio período. Estava prestes a sair, quando Rabastan saiu do estoque e me olhou feio.
— Preciso te falar uma coisa importante antes.
O encarei com desdém e cruzei os braços. Sempre que ele dizia que queria dizer algo importante, era algo sobre o Lorde das Trevas ou algo assim e como deveríamos nos manter escondidos e manter segredos e blá-blá-blá.
— Já sei, já sei. Vou usar meu outro sobrenome...
— Não é isso. — ele grunhiu, sem paciência. — Vem aqui, pirralha.
Pela primeira vez em muito tempo, obedeci.
— Eu demorei muito para encontrar isso aqui. — Rabastan disse, me mostrando o que parecia ser uma pérola empoeirada. Era como as esferas que os clarividentes usavam para fazer profecias, mas menor e negra. Algo naquele objeto me intrigou e fascinou ao mesmo tempo. Meus olhos de criança brilharam e eu queria tocar e desvendá-lo.
— O que é isso? — perguntei, quando meu tutor puxou a pequena esfera para longe de mim, fazendo cara feia.
— Eu quero que preste muita atenção, Lizzie. Você está prestes a fazer onze anos e, em setembro, vou te levar para Hogwarts e é bem provável que Dumbledore, o mesmo homem que apagou a sua memória antes, apague-a de novo e implante uma nova. — ele parecia mais sério de que costume, seus olhos estavam focados e seus lábios não estavam torcidos em um meio sorriso irônico, como sempre.
Seu tom de voz calmo e devagar me pegou desprevenida. Nunca tinha ouvido ou visto Rabastan tão sério. Então prestei atenção. Parei de brincar com a bolinha de areia e o encarei.
— Por que ele faria isso? — perguntei.
— Para te proteger. Se o Lorde das Trevas achar que você está viva, ele vai... Você vai ter problemas. Com memórias falsas, vai ser mais fácil esconder a sua existência, já que nem você vai saber quem é você. — ele respondeu honestamente. — Mas não era isso que eu precisava falar. Eu demorei muito tempo para encontrar esse objeto. Ele foi feito pela sua avó e só o seu sangue pode manejá-lo.
Tentei pegar a esfera de novo, mas ele apertou-a longe de mim.
— É um objeto muito raro e, nas mãos erradas, pode causar uma guerra. — ele afirmou, agora segurando um dos meus ombros. — Lizzie, escuta. Essa é a única coisa que pode te ajudar a encontrar os seus pais. Você precisa lembrar disso.
Acenei.
— Eu não vou esquecer. — afirmei, com toda a certeza do mundo."
Quando abri os olhos, estava olhando para o céu azul e sentia a grama me pinicando. Fiquei surpresa por ter desmaiado com a memória, eu já tinha aprendido a controlar isso. Felizmente, ninguém pareceu se preocupar tanto, já que aparentemente o patrono realmente consumia muita energia.
— Ah, você acordou, que bom! — Alicia disse, ao me ver levantando devagar. — Não se preocupe, é difícil pegar o patrono de primeira. Da próxima vez, tenho certeza que vai conseguir.
Dei um sorriso fraco e ela voltou a atenção a outro bruxo que estava quase conseguindo dar forma à luz de sua varinha. Minha mente não podia estar mais longe dali.
Eu finalmente tinha lembrado do que Rabastan queria que eu soubesse. A memória que me ajudaria a encontrar os meus pais biológicos. Senti um nó no estômago, eu finalmente estava tendo progresso, finalmente estava caminhando para algum lugar.
Mas assim como vieram muitas respostas, muitas perguntas também surgiram. O que exatamente era aquela esfera e como ela me ajudaria? E o pior, onde estava?
Levantei e encarei os bruxos praticando. Percebi, com um suspiro, que eu não pertencia ali. Eu não podia ficar e participar da resistência. Lutar e ajudar os trouxas e mestiços. Não podia participar do Potterwatch e dar esperança aos que estavam sobrevivendo. Eu tinha a minha própria jornada para seguir. E por mais que eu quisesse ficar, fazer amigos e ganhar a guerra com honra, eu não podia.
Eu tinha que manter minha promessa a Rabastan. Eu precisava descobrir onde estavam meus pais e porque era tão importante encontrá-los.
Quis contar tudo imediatamente para Suzanna e CeCe e esse desejo me fez perceber que a memória feliz que eu estava procurando estava dentro de mim afinal. Era a memória de minhas amigas, as únicas que me acolheram como eu era em Hogwarts, que me ouviram, que mentiram por mim e me protegeram até o fim.
Eu não precisava lembrar de coisas que ainda não tinham surgido. Podia lembrar dos momentos que não eram tão solitários em Hogwarts, que eu me sentia acolhida e amada. E isso foi real.
Me concentrei e lembrei da primeira vez que CeCe ganhou um jogo de quadribol e passamos a noite comemos guloseimas que tínhamos trazido de Hogsmeade. Foi quando ela nos contou do falecimento do irmão dela e Suzanna se abriu, dizendo que estava confusa com a sua sexualidade. Foi naquela noite que eu soube que nosso vínculo não iria ser quebrado. Que o que contamos ia ficar conosco para sempre e que eu sempre poderia contar com aquelas duas meninas para qualquer coisa.
— Expecto patronum! — exclamei e uma pequena luz saiu da minha varinha. Ainda não era um animal, mas era um começo. Pelo menos soube que a memória estava certa.
Sorri comigo mesma, me sentindo um pouco patética, e continuei praticando, até a luz aumentar.
De tempos em tempos, Alicia passava nos oferecendo chocolate, o que não era motivo de reclamação para ninguém. Eu achei que ela estava apenas sendo legal ou tentando se livrar das sobras da páscoa, mas depois descobri que o doce era bom para recuperar as energias.
Sempre soube que chocolate era salva-vidas.
— Queria continuar praticando, mas precisamos ir. Lee já voltou do turno da manhã. — ela disse e todos se preparam para a patrulha.
Quem me dera se eu tivesse esse tipo de autoridade.
Já estávamos prontos para formar as equipes e nos espalhar, quando eu vi Jesse de longe, entrando na nossa cabana, em suas mãos estava um envelope grande com um grande selo, que imaginei ser de sua família. Toquei o bolso da minha calça para ver se a carta que eu iria mandar para Suzanna ainda estava lá e suspirei aliviada ao perceber que sim.
Então o que era que Jesse estava enviando? E para quem?
Seria um relatório sobre as atividades da resistência? Ou um relatório detalhado sobre mim? Eu não poderia deixar aquele envelope sair do acampamento sem eu saber de seu conteúdo. Se minhas suspeitas por Jesse já estavam grandes, agora estavam ainda maiores.
De fininho, eu aproveitei a movimentação dos grupos para a floresta para quebrar a formação que Alicia tinha feito e sair. A patrulha podia esperar, eu precisava saber se estávamos sendo traídos. E se o dragão de fogo tinha sido conjurado pelo próprio Jesse.
A mais silenciosa que pude, o que devo dizer que não é muito, eu me posicionei na porta da cabana, desejando mais do que nunca ter uma daquelas capas de invisibilidade fajutas que vendiam na Zonko's e só funcionavam por cinco minutos.
Tentei ao máximo escutar qualquer coisa que indicasse que Jesse não estava sozinho e estivesse mandando Héstia fazer algo, mas não consegui. Eu precisava de um plano melhor do que esse. O que tinha acontecido com a Liz que consertou o armário Semidouro e fez com que os Comensais da Morte invadissem Hogwarts?
Pensando bem, eu não queria ela de volta.
Mas de qualquer forma, um pouco do meu sangue sonserino iria ter que ajudar. Sem pensar muito, fiz a mesma coisa que fiz quando o Comensal invadiu a minha casa. Me transformei em uma gata. Eu não sabia exatamente como isso funcionava, só sei que conseguia desde o quarto ano e sempre adiantou muito.
Agora muito mais discreta, consegui entrar na cabana sem que ele percebesse e o vi de costas, escrevendo ainda mais coisas no envelope. De onde eu estava e com meus olhos aguçados de gato, consegui ver o selo. Era o símbolo dos Comensais da Morte.
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