Não era a primeira vez que isso acontecia, mas era sempre desfocado até então. Nada além de um borrão em movimento. E então ela acordava suando frio, com a pele tão gelada quanto possível. Era uma sensação terrível. Mas passava. Sempre passava. Já fazia um bom tempo que o sonho não se repetia, entretanto. Até aquela noite. Tudo então se tornou claro. Toda a névoa se dissipou. E lá estava o que antes não passava de um estranho borrão. Uma enorme cobra rastejando em um terreno árido. Como um animal poderia ter olhos tão assustadores? Ás vezes ela podia ver de relance, eles eram vermelhos como o sangue. Depois havia literalmente um rastro de sangue. E no céu a marca negra surgia triunfante, desenhando o céu com relâmpagos verdes. Um som de trovão. E um grito, quase abafado, quase agonizante. Seu coração pesou. Ela acordou-se de sobressalto com uma sensação de pânico. Sentou-se na cama tocando sua pele e constatando que, como das outras vezes, o frio estava ali. Por sorte a luz estava desligada e a única claridade no quarto vinha das lâmpadas fracas nos postes da rua que atravessava a cortina branca. Ela não queria – nem por descuido – ver os próprios olhos no espelho. Levantou-se da cama quando sua respiração se acalmou. Deu passos incertos até a janela, observando a rua deserta e silenciosa. O céu estava escuro e as nuvens carregadas, ela pode observar. Um raio cortou o céu no próximo instante. Ela poderia jurar que deixara um rastro rápido de luz verde – mas era só o fruto da sua imaginação, ela concluiu. Tudo estava bem naquele mundo. E no outro.

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Sem ritmo. Aquilo já estava lhe irritando. Ela pegou um copo de água lutando contra o pensamento de que o garoto era, de fato, um caso perdido. Depois de um semestre de aula o garoto ainda conseguia errar os acordes mais simples. Mas ela não gostava de desistir. Desafios eram extremamente atrativos. De qualquer maneira, já estava impaciente. Era apenas um garoto de classe média que estava ali mais por vontade dos pais que por sua própria. Aprender piano parecia sinônimo de classe e educação. Se surpreenderiam com a quantidade de vagabundos que poderiam tocar qualquer sinfonia de Beethoven perfeitamente – e ela conhecera alguns. Voltou para a sala e sentou-se na poltrona enquanto o garoto voltava a confundir os dedos e as teclas, os seus olhos fixaram-se de forma rápida na janela da sala. Já era final de tarde. Levou o copo a boca e umedeceu os lábios, ouvindo o garoto bufar e levantar-se irritado.

– É oficial! Eu não consigo. – concluiu resignado.

Annabeth suspirou.

– Você já memorizou todos os passos dessa canção. Já repassamos isso. – ela notou que sua voz soara entediada demais, se queria passar alguma gota de confiança para o garoto deveria melhorar aquilo, então levantou-se – Só precisa de motivação e de muita concentração, Gregory. Você já tem as ferramentas. Use-as. Mas você apenas não consegue se concentrar no que sabe.

– Fala como se fosse fácil. – Gregory Bizzano tinha apenas onze anos, era um garoto inquieto e falante demais.

No principio ela pensou seriamente ela colar seus lábios com alguma cola bem forte. Ele falava mais que a ouvia. A interrompia mais do que prestava atenção. Claro que ela não faria isso de fato, mas foi algo divertido de se imaginar. E ela não costumava ser má com os alunos, apenas não tinha a paciência como uma de suas qualidades. A grande verdade é que já tivera bons alunos, que agora estavam em boas escolas de música e tinham um futuro. Outros... Bem, nem todos nascem com talentos. Alguns possuem a garra de aprender mesmo quando esse talento não é natural. Outros não passam de imposição ou desejos passageiros. No caso de Gregory, imposição.

– Eu jamais disse que seria fácil. Estamos aprendendo aos poucos. Mas não iriamos ficar eternamente na teoria. A prática requer muito de você. Requer que se esforce e você simplesmente não está se esforçando. – Annabeth olhou Gregory nos olhos, o garoto parecia quase não prestar atenção nela, afobado por alguma resposta que lhe fosse mais convincente – Estamos tentando tocar Twinkle Twinkle Little Star, não uma ópera. Gregory se acalme.

Gregory baixou o olhar e encarou as próprias mãos, imitando os movimentos que costumeiramente repetia no piano de ébano da casa de sua professora. Annabeth o observou pelos segundos seguintes. Quando o garoto ergueu o rosto parecia estar um pouco mais calmo.

– Acha que eu consigo, professora?

– E você, acha que consegue? – ela lhe devolveu a pergunta, séria.

Ele balançou a cabeça afirmativamente e voltou-se ao piano. Suas mãos deslizaram pelas teclas e procuraram pelas certas. Não foi um pleno sucesso, obviamente. Ainda estava sem ritmo, mais acertou muitas mais notas. Annabeth franziu a testa. Talvez o garoto não fosse um completo desastre, mais ainda não estava concentrado como se esperava. Suas emoções eram muito óbvias. Raiva, frustração, ele sucumbia a elas. E com a idade dele, ela estava...

Balançou a cabeça afastando tal pensamento. E justamente esse pensamento tornou tudo o que aconteceria a seguir muito irônico. Uma batida na porta levou Annabeth a olhar para o relógio redondo na parede. Mary não era – sua tia chegaria pelo menos em uma hora. Gregory parara de tocar, interessado. Não havia a possibilidade de se tratar dos pais dele, pois o garoto morava naquela mesma rua. Só se alguma coisa tivesse acontecido. Não havia outros alunos para aquela tarde. Ela aproximou-se da porta e abriu-a com curiosidade. E se arrependeu de ter feito isso. Arrependimento que de imediato se misturou com uma emoção estranha, dentro da sua própria pele. E boa. Muito boa. Boa de um jeito que ela jamais admitiria naquele momento. Sabia quem era o homem a sua frente. E não conseguia pensar muito no motivo. Os olhos azuis acinzentados de Annabeth encontraram o azul celeste, cristalino, escondidos atrás dos óculos meia-lua, da figura que ela conhecia como Albus Dumbledore.

Uma figura bastante curiosa. A barba branca, grossa e pontuda. O chapéu incomum, na cor cinza – quase prateado – que era da mesma cor da roupa grossa e pesada que ele usava. Suas feições, no entanto, eram doces. Já fazia muito tempo que não o via. Quase duas décadas. Não imaginava que iria vê-lo outra vez, honestamente. Por sua própria vontade ela nem faria força. Uma decisão tomada era uma decisão tomada.

– Professor Dumbledore! – ela finalmente soltou as palavras em tom de surpresa, e tirando o olhar do velho amigo notou outro homem logo atrás, ela sabia quem ele era e isso deixou-a um pouco mais surpresa – E Remus!

– Espero não estar atrapalhando. – disse Dumbledore, então Annabeth abriu enfim o caminho para os dois entrarem – Estava resolvendo uns problemas e decidi pedir a Remus para me acompanhar. Poderia ter avisado. Mas preferi... – ele fitou-a – Fazer uma surpresa.

Ela não o receberia se avisasse, ele não tinha duvidas. Annabeth recuperou-se um pouco do choque, piscando os olhos e focando-se no piso da casa por um momento e voltando-se aos dois. Era algo tão inimaginável.

– Não se preocupe. – ela disse.

– Você não mudou nada, Annabeth. – Lupin disse simpático, ela encarou o antigo colega – Está exatamente como no dia da nossa formatura. Está ótima.

Remus Lupin era um velho conhecido. Não poderia chamar de amigo. Eles foram do mesmo ano – eram contemporâneos – mas estavam em grupos opostos, em casas rivais. Mas de longe, Lupin era o menos irritante naquele grupo, em seus tempos de escola. Conversaram algumas vezes. Ela inclusive dançou com ele, na festa do sétimo ano. De qualquer jeito, era confortável vê-lo outra vez.

– Você também está. – ela sorriu com sinceridade – Fico feliz em vê-los.

– Não sabia que tinha filhos, Annabeth. – a voz de Dumbledore fez com que ela então lembrasse a presença de Gregory.

O menino tinha redondos e curiosos olhos castanhos direcionados para a cena. Ela voltou a ficar séria, assumindo a postura de professora que ele já estava acostumado.

– Oh, não. Gregory é meu aluno. – Annabeth explicou – Você está dispensado. Faça o que combinamos tudo bem? Nos vemos na próxima aula.

Gregory assentiu, cumprimentando os desconhecidos timidamente. Quando o aluno saiu, Annabeth fechou a porta.

– Então leciona? – Dumbledore fitou-a curioso.

– Piano. – disse ela – Estou dando aulas particulares agora, mas já dei aulas em uma escola de música. – contou – Nada muito interessante.

– Música é sempre interessante. – sorriu o velho bruxo;

Annabeth sorriu também.

– Sentem-se, por favor. – ela mostrou o sofá voltando finalmente a sentir os pés no chão – Querem alguma coisa? Chá, café, mousse de limão talvez?

– Não, obrigado. – respondeu Lupin educadamente.

– Eu aceito o mousse de limão. – disse Dumbledore – Adoro as sobremesas trouxas.

Annabeth voltou rapidamente com uma taça com mousse de limão. Quando o velho bruxo levou uma garfada da sobremesa na boca, pareceu entrar em êxtase como uma criança. Ela sentou-se diante dos dois, com os olhos curiosos. Mas as perguntas que seguiram não saíram da sua boca, mas sim da de Lupin.

– Você ainda mora na casa que era da sua mãe, segundo Dumbledore. – Lupin olhou em volta, a decoração discreta e elegante, os moveis de madeira todos em ébano, os sofás de um tecido aveludado e claro – É uma belíssima casa.

– Sim. Estou morando com a minha tia agora, Mary Jane. Era a irmã mais nova da minha mãe, se mudou para cá quando minha mãe adoeceu. Ajudou-me no que pode até o fim. Foi um período difícil. Minha mãe sofreu bastante. E eu fico agradecida ao apoio que recebi da minha tia. Ela é a única família... Com quem eu posso contar. – Annabeth contou, sentia um profundo carinho pela tia e isso era claro em cada uma de suas palavras, assim como a saudade ao falar da mãe.

– Sinto muito pelo que aconteceu com a sua mãe. – lamentou Lupin, Dumbledore ainda tinha a maior parte da sua atenção voltada ao doce, mas sua expressão era doce e compreensível agora – Teria vindo vê-la, dar meu apoio, não duvide. Mas soube do ocorrido um pouco depois. E foi numa época conturbada.

Annabeth sentiu-se um pouco desconfortável agora.

– Não se preocupe, Remus. Eu realmente agradeço. – suspirou – Mas está tudo bem agora. Temos nos virado. Minha tia trabalha numa loja aqui perto. E eu dou aulas. E como eu disse, fazemos companhia uma à outra. Inclusive, professor Dumbledore, o mousse é uma especialidade dela.

Ele engoliu a última garfada do doce.

– Está maravilhoso. O melhor que já provei. – ele disse com entusiasmo – Dê meus parabéns a ela.

– Provavelmente ela já deve estar saindo do trabalho. – Annabeth encarou o relógio por um momento.

Ela esperava – porem – que aquela fosse uma visita rápida. Não que não gostasse de estar com eles. Mas não... Não queria aquele contato com o mundo mágico.

– Ela é uma bruxa, presumo... – Lupin indagou.

– Não, trouxa. – respondeu, em seguida acrescentou – Na verdade, um aborto. Mas a visão da minha família materna sobre estas questões era bem diferente da do meu pai. Elas nunca se separaram. – pausou brevemente com o desejo de mudar o rumo da conversa – Não posso me queixar de nada, essa casa fica numa das melhores áreas de Londres. Tenho minha tia, meus alunos, a música... – parou mais uma vez, buscou um jeito de preencher o vazio daquela frase, mas não encontrou nada mais.

– Não duvido disso, é claro, mas... – Dumbledore se deteve para observá-la, vendo Annabeth ficar muito séria e firme de repente.

– Não acredito que o senhor tenha vindo a Londres apenas para me visitar. – ela foi direto ao ponto.

– Eu adoro passear em Londres, muito mesmo. E estou feliz em vê-la outra vez. Mas não foi por isso que resolvi vir até aqui, você tem razão. – os olhos azuis a fitaram por cima das meias-luas – Precisamos conversar.

– Sobre?

– Sobre o mundo que você deixou para trás. – concluiu ele, analisando-a.

Annabeth levantou-se dando a volta no sofá. Atônica, nervosa. Não costumava ser um poço de transparência, mas Dumbledore sabia o quanto aquilo lhe atingira.

– Professor Dumbledore... – pausou – Eu não sei do que o senhor está falando. Não sei de nada sobre isso. Quando eu decidi sair de lá...

– Você se desconectou totalmente, sim, eu sei. – ele completou calmamente – E na época lembro de ter apoiado a sua decisão. Era o melhor para se manter a salvo de tudo o que estava acontecendo ao mesmo tempo e que, cedo ou tarde, te alcançaria. Entretanto, agora sua decisão não é adequada.

– Não entendo a comparação. – ela estranhou – Por que não é adequada?

– Por que... – ele parou quando a porta se abriu.

Uma senhora baixa, de cabelos claros e encaracolados, entrou e sobressaltou com a presença dos dois homens. Mary Jane era uma mulher bastante parecida com Violet – se a memória de Dumbledore, que já não era tão jovem, não falhava – embora com alguns traços diferentes. Os olhos eram castanhos, como os da mãe de Annabeth. O rosto, entretanto, era meio quadrado. Violet era alta, com cabelos dourados como o sol – um tom mais vivo que os de Mary Jane. Annabeth havia puxado muito mais do físico da sua família paterna.

– Professor, Lupin... Essa é a minha tia Mary Jane Fouché. – Annabeth apresentou-os tentando manter a voz natural e despreocupada, a senhora apressou-se para ir até os homens e estender a mão, cumprimentou os homens que haviam se colocado de pé – Tia, esse é Remus Lupin, um antigo colega. – apresentou o homem mais jovem e voltou-se ao mais velho – Esse é Albus Dumbledore, diretor de Hogwarts.

A mulher abriu bem os olhos, incrédula. Albus Dumbledore, já ouvira esse nome. A verdade é que embora fosse um aborto e houvesse nascido na França, nunca afastou-se do mundos bruxo inteiramente – não até a morte de Violet.

– Prazer em conhecê-la, senhora Fouché.

– Imagina, o prazer é todo meu! – ela definitivamente estava nervosa, afinal, era um dos maiores bruxos do mundo quem estava diante dela – Posso lhe oferecer alguma coisa...?

– Eu acabei de provar uma de suas especialidades, uma deliciosa taça de mousse de limão. Annabeth disse que o mérito é todo seu. – o bruxo disse simpático.

Mary Jane corou.

– Nada demais, apenas uma receita de família. – ela ajeitou o cabelo atrás da orelha e sorriu – Posso lhe presentear com a receita. O faria de bom grado.

Dumbledore sorriu.

– Eu adoraria. Embora não ache que ficará igual. – ele disse – Mas pedirei que os elfos adicionem ao meu cardápio assim que chegar a Hogwarts. Sente-se conosco, se quiser.

Mary Jane concordou, notou então o olhar inquieto de Annabeth.

– Aconteceu alguma coisa? – olhou de Dumbledore para a sobrinha, o clima outra vez se tornara mais sério – Digo, há tanto tempo que a Annabeth não tem contato com o Mundo da Magia...

– Na verdade, aconteceu. – respondeu Dumbledore dando uma longa pausa, como se procurasse as palavras certas, porém decidiu ser direto – Voldemort. Ele retornou.

Um som de interrogação soltou-se de uma Mary Jane em choque. Annabeth estreitou o olhar, procurando entender. Até onde ela sabia, ele havia partido. Sumido. Nunca mais se ouviu sobre ele. Annabeth deixou o Mundo da Magia acompanhada da mãe durante a primeira guerra, logo após se formar. E tinha bons motivos. Era preciso se manter distante, principalmente, dos Comensais da Morte. Elas foram morar de vez no mundo trouxa, protegendo a casa com um bom feitiço. Dois anos depois houve a queda de Lord Voldemort. Ele foi derrotado por um bebê, na noite em que seus pais foram mortos – Annabeth, claro, os conhecia. Lilly e James Potter. A notícia chegou a elas junto a liberdade. Mas Violet já estava doente. Não demorou muito para que a deixasse. Desde ai não sabia muito mais sobre o mundo que abandonara. De repente aquele mundo lhe batera na porta. Dumbledore estava ali contando sobre o menino-que-sobreviveu, Harry Potter. Em particular, os detalhes do ano anterior, em que o garoto presenciara pessoalmente a volta do bruxo mais maligno que já existiu. Assim que acabou de contar sobre o regresso daquele-que-não-deve-ser-nomeado durante o Torneio Tribuxo do ano anterior, Dumbledore notou que Mary Jane estava assustada e Annabeth ainda assimilava a história. Pigarreou, apreensivo.

– É isso. O Mundo da Magia está novamente se tornando um caos, embora esse caos fuja do olhar do Ministro. – ele continuou – Pelo menos por enquanto, mas a minha opinião pessoal é que será por bem pouco tempo. Não demorará para que o caos e a insegurança alcancem a totalidade. Voldemort não costuma contentar-se com ser um rumor, apenas. Embora o Ministério da Magia negue esse retorno e mantenha tudo em silencio, estamos reagrupando a Ordem da Fênix. Não podemos, é claro, ficarmos totalmente desprotegidos esperando que o Ministro reaja.

– Ordem da Fênix? – Mary Jane saiu do seu silencioso estado de choque.

– Um grupo que lutou contra o lorde das trevas durante a primeira guerra bruxa. – a explicação veio de Lupin – Do qual eu faço parte, entre outros bruxos.

– Deve haver um jeito de matá-lo de vez. – Mary Jane disse com a inocência de quem ao contrario de Dumbledore, não conhecia bem a essência do lorde das trevas.

– Receio que não seja tão simples. – seu olhar automaticamente foi até Annabeth, a garota mantinha o rosto inexpressivo, qualidade Slytherin que causava um pouco de inquietação ao bruxo – É por isso, Annabeth, que você deve voltar ao nosso mundo.

– O lorde das trevas acabou de retornar e então o senhor me quer de volta no olho do furacão? – ela franziu a testa.

– Não por mim ou pela Ordem, temo por você principalmente. – respondeu no tom calmo de sempre.

– Por mim?

– Você sabe Annabeth, sabe perfeitamente do que eu estou falando. – o tom direto a atingiu fazendo-a se mexer desconfortavelmente na poltrona – Seria loucura ficar no mundo trouxa e continuar ignorando o que está acontecendo.

– Eu me mantive bem por todos esses anos, mesmo na época eu consegui me manter a salvo. Não creio que seria importante logo agora. – ela mordeu os lábios, buscando a calma.

– Sua mãe protegeu você, não permitiu que eles te achassem. – ele pausou com seus olhos cravados nela, vendo o quanto aquele assunto lhe pesava – É o tipo de magia que só uma mãe pode fazer por um filho. E ela conseguiu mantê-la a salvo. Não que eles não tenham tentado, minha criança. A grande questão é que um outro assunto acabou chegando aos ouvidos de Lord Voldemort e sua atenção voltou-se aos Potter. Agora há muito mais em jogo. Eles te procurarão, eu estou certo disso. E tentarão te recrutar.

– Eu recusarei. – ela cruzou os braços.

– Não acredito que Voldemort lide tão bem com recusas. – Dumbledore disse como se fosse óbvio e Annabeth sentiu-se uma criança ingênua, de repente – Eles levarão você, caso te encontrem, mesmo que você não queira.

– Como pode ter tanta certeza? – ela estreitou o olhar.

Dumbledore ficou alguns segundos em silencio – e Annabeth teve certeza – o bruxo estava analisando muito bem o que diria a seguir.

– Você é um trunfo. É especial... – Dumbledore buscou o olhar dela, que estava tão obscuro quanto poderia ao som daquelas palavras, ele tocara na ferida – Suas visões, elas são frequentes?

– Não, não mais. – Annabeth era sincera sobre isso.

Desde que Harry Potter triunfara sobre Voldemort nunca mais tivera visões. Mas os sonhos, esses eram frequentes. O último ela tinha certeza que tinha a ver com ele. Havia sido há um mês, provavelmente. Mas não ia falar sobre isso com o bruxo.

Dumbledore ficou quieto por um tempo.

– Você está desprotegida agora. Tenho certeza que sabe que mesmo que se esconda, eles te encontrarão, pois os mais leais seguidores de Voldemort carregam o mesmo sangue que você. Existem laços. Seria questão de tempo e de um bom feitiço. – disse o bruxo com um cuidado maior, analisando-a – Você é uma Lestrange, querida. É uma bruxa sangue-puro com grandes poderes. Poderes que precisa controlar. Esses poderes podem ser muito uteis. Mas nas mãos erradas, estaríamos perdidos. Eu não quero te pressionar. Muito menos quero que seja uma obrigação. Essa decisão é só sua. Mas quero que entenda que se manter na inercia será perigoso para todos.

Annabeth desviou o olhar. Sorriu amargamente. Estava tudo acabado? Sua paz, sua sanidade, sua vida normal. Tudo havia mudado. Dumbledore tinha razão – e embora ela estivesse com uma raiva do diretor nesse momento, seria ridículo discordar. Ela era filha de Richard Lestrange, irmão mais velho de Rodolphus e Rabastan. E não se engane, Richard não era nenhuma exceção. Ele em nada era diferente dos irmãos. A família Lestrange era muito tradicional e se orgulhava do seu sangue. O casamento com Violet foi bem visto por todos, pois Violet era uma bruxa sangue-puro, educada e a herdeira de uma fortuna no mundo bruxo. Annabeth durante a infância estava acostumada a estar em festas da elite, misturando-se com os Malfoy, os Black, tantas outras famílias da alta sociedade bruxa, com os mesmos ideais de pureza. Mas tudo começou a mudar quando o Richard descobriu-se infectado com uma doença bruxa quando Annabeth tinha nove anos de idade. Foi rápido e silencioso. Richard perdeu todos os poderes, toda a magia. E todos se afastaram. Uma guerra começava e ele não teria serventia. Por isso nunca se tornou, de fato, um Comensal da Morte. Annabeth perdeu o pai quando tinha quinze anos, já estava em Hogwarts, já era – como já era esperado – uma Slytherin. E também já sabia, desde o terceiro ano, que não era só uma bruxa. Dumbledore descobriu que ela era um tipo muito raro de bruxa com um tipo muito raro de magia. Mas aquilo a assustava, ela rejeitou aquilo. E Violet temia pela filha, naqueles dias tudo era muito delicado. Tentando conviver com aquilo até o fim dos estudos, Annabeth decidiu depois que iria deixar o Mundo da Magia. E tinha outros motivos naquela altura. Motivos que Dumbledore entendeu e respeitou, até porque ele temia pela fraqueza de Annabeth. E ela tinha uma – ele bem sabia – que poderia entregá-la para Voldemort numa bandeja de prata. Ela e a mãe continuaram a viver distante do covil dos Lestrange, no mundo trouxa. Protegidas. Annabeth deixou o mundo ao qual pertencia para não ser vista. E para não ver.

Annabeth mordeu o lábio com força, antes de quebrar o silencio.

– Eu realmente não sei o que fazer. – olhou para a tia de forma rápida, Mary Jane a observava com apreensão – Eu não tenho mais nada no Mundo da Magia. Para onde iria? Para a mansão Lestrange, talvez? – perguntou com ironia.

– Tem A Toca. – disse Lupin, que esteve calado observando a conversa – Eu tenho certeza que Molly ficaria feliz em recebê-la. E a Sede da Ordem, que é a antiga casa dos Black, agora é de Sirius.

Annabeth arqueou a sobrancelha.

– Sirius? – ela indagou – Não estava preso?

– Estava, inocentemente. – disse Lupin – Quem traiu os Potter e entregou ao lorde das trevas a localização do esconderijo foi Peter Pettigrew.

– Pettigrew? – ela franziu a testa, surpresa – Achei que ele fosse um completo inútil.

Inevitavelmente Remus Lupin ficou sem graça. No passado, algumas coisas haviam acontecido. Em diversas vezes ela e Lupin estiveram de lados diferentes. E no frescor da juventude talvez algumas atitudes bobas tenham deixado magoas. Perguntava-se se Annabeth guardava alguma.

– Haverá tempo para contar os detalhes dessa historia. – cortou Dumbledore, a sua voz fez os outros voltarem a dar-lhe atenção – Sim, existem essas possibilidades. Eu acho que Annabeth ficaria bem acomodada tanto com Molly Weasley quanto na casa de Sirius... – se dirigiu a Annabeth depois – Mas eu preferia que você viesse morar em Hogwarts, entretanto. Hoje estive no Ministério, por alguns motivos penso que poderei me dedicar a te ajudar.

– Me ajudar? – ela perguntou encontrando o olhar azul do bruxo, profundos, quase paternos.

– A resgatar o que você perdeu de si mesmo. – ele disse – E se aceitar o meu convite verá que não só a sua vida ganhará novos horizontes.

Ele quase sorriu. Quase. Teve que se conter. Ela, claro, não havia entendido. Mas ela ia entender. Annabeth suspirou. E voltou a olhar para a tia, depois para os homens.

– E a minha tia? Seria perigoso deixá-la a mercê dos Comensais, professor. Poderia ser usada para tentar saber a minha localização. Ou torturada. E também não posso viver de favor em Hogwarts. – Annabeth comentou contrariada.

– Não se preocupe comigo, Annabeth, – Mary Jane tratou em dizer, depois voltou-se para Dumbledore – Realmente não se preocupe comigo, ficarei bem. Tudo que peço agora é mantenha a minha sobrinha sã e salva.

– Entendo totalmente a sua preocupação com a sua tia. Podemos protegê-la se ela estiver disposta a voltar ao nosso mundo. Não seria um problema. – ele disse – E já sobre o seu problema de dinheiro, daremos um jeito nisso. Pensarei em alguma coisa para ajudar a resolver todas as questões. E não se preocupe, senhora Fouché, eu vou proteger a sua sobrinha da melhor forma possível. – finalizou, deixando Mary Jane mais tranquila.

– Tenho certeza que o senhor já tem muitos problemas para se preocupar com mais um. – bufou Annabeth.

– Você não é um problema, criança. Mas sim a solução para alguns. – Dumbledore sorriu paternalmente – É muito mais do que acredita, Annabeth. Só peço que confie em mim.

E ela, estupidamente, confiava em Dumbledore.

Notas finais
Algum erro? Me puxe a orelha.