O liquido desceu pela sua garganta causando-lhe uma agradável sensação. A luz da lua invadia a escura e silenciosa cozinha, apenas se podia ouvir o som dos ponteiros do relógio e a respiração da garota de cabelos prateados e olhos acinzentados que pararam observando o vinho dentro da taça. Não conseguira dormir. Dumbledore e sua visita inesperada havia misturado todos seus pensamentos em um redemoinho. Remexeu na cadeira ao ouvir passos na escada da sala, que logo se iluminou. A figura de roupão e rolos no cabelo surgiu na porta, sonolenta. Mary Jane encarou Annabeth que desviou o olhar.

– Como você está?

– Sem sono. – respondeu de forma vaga.

– Deve ser muita coisa na sua cabeça. – Mary Jane abriu a geladeira buscando o jarro de leite, pegou um copo que estava sob o balcão da pia e sentou-se na mesa – Queria poder te proteger de tudo isso como prometi a sua mãe, cuidar de você como prometi a ela. E não posso.

– Só me prometa que vai aceitar ficar sob a proteção de Dumbledore. – Annabeth e a tia se encararam por um momento, Mary Jane hesitou – Eu não posso voltar e fazer o que deve ser feito, seja lá o que for, se você não estiver bem. Não posso aceitar que fique exposta.

Mary Jane assentiu.

– Se isso te deixar mais tranquila. Amanhã mesmo vou até a loja e peço demissão. – concordou Mary Jane.

Annabeth encarou a tia por alguns segundos.

– Me desculpe. Eu não esperava colocá-la em risco. – suspirou pesadamente – Se eu tivesse uma alternativa, eu juro que...

– Por favor Annabeth, não é culpa sua. – Mary Jane cortou a sobrinha – Aquele, de certa forma, também é o meu mundo e estou pronta para voltar para ele. Mas não é por mim que você não quer voltar, não é? O que te aflige?

– Eu ainda não preciso de analista, tia. – disse secamente – Quando decidi deixar o Mundo da Magia era para ser definitivamente.

– Deve ser muito difícil ser uma bruxa. – a voz de Mary Jane era quase amarga.

Annabeth rolou os olhos, inquieta. Levou a última dose de vinho aos lábios. Colocou a taça sobre a mesa e ajeitou-se ereta na cadeira.

– Não é ser uma bruxa, porque eu não era apenas uma bruxa. – ela explicou sem um pingo de emoção ou ânimo – Eu era uma aberração.

– Não diga isso. – Mary Jane disse de imediato.

– É o que diziam. Todos diziam. – ela pausou pensativa – Ou a grande maioria, todos com medo do que poderia acontecer em um descuido.

– Você se negou a controlar o que você é. Se tivesse feito diferente... – Mary Jane ia dizendo, mas foi interrompida.

– Não era tão simples. E não será. Se nem Albus Dumbledore sabia o que estava me acontecendo na época, como eu saberia? E controlaria? – Annabeth disse.

– Mas agora ele vai ajudar e tudo vai acabar bem. – Mary Jane disse com otimismo.

Annabeth suspirou. Como queria pensar que as coisas seriam fáceis! Se ainda fosse só treinar os poderes descontrolados seria fácil, mas havia Voldemort. Dumbledore tinha certeza de que ele iria procurar por ela e o mago não costumava errar.

– Também não gosto da ideia de morar no castelo sem ter utilidade por lá. – mudou de assunto.

– Falando nisso... O rapaz que você citou hoje mais cedo, o que achavam que havia entregado os Potter para você-sabe-quem... – Mary Jane começou.

– Sirius Black?! – Annabeth concluiu franzindo a testa.

– Foi seu namorado, não foi?

Annabeth gargalhou com vontade.

– Não foi namoro. Nem perto disso. – ela disse parando de rir – E na verdade nunca fomos amigos, devo ter estuporado ele algumas vezes, ficar lá está fora de cogitação. E mesmo assim não resolveria o problema. Pensei em pegar minhas economias para fazer cambio no Beco Diagonal.

– Já sabe quando? – perguntou Mary Jane.

– Quando tudo estiver pronto. – respondeu Annabeth levantando-se e indo até a pia onde lavou a taça antes de guardá-la, olhou por um momento para fora onde o céu ia aos poucos mudando de cor com os primeiros raios de sol do dia – Amanhã vou ver o que fazer quanto a questão do dinheiro. Agora vou tentar descansar. – atravessou a cozinha colocando a mão sobre os ombros da tia antes de seguir até a porta.

– Annabeth, não sei se você faz isso intencionalmente ou inconscientemente... – sua tia disse antes que ela deixasse a cozinha, fazendo-a se deter – Mas está se apegando unicamente a questões pequenas, se preocupando com o desnecessário.

– E o que, segundo você, seriam questões pequenas? – perguntou virando-se para Mary Jane.

– Sabe que vai ter que contar a Dumbledore o que aconteceu? – perguntou ganhando um olhar gélido da sobrinha.

– Um problema de cada vez. – disse friamente antes de sair.

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O cheiro de mofo e poeira inundou seu nariz, fazendo-a espirrar. Sua tia tinha razão, aquele porão precisava de uma limpeza ás vezes. Descia a escada com cuidado, suas mãos deslizando pela parede atrás do maldito interruptor. Estava tudo muito escuro. Suas mãos acidentalmente encontraram algumas teias de aranha. Finalmente achou a chave e ligou a luz. Torceu o nariz com a visão. As paredes descascadas, mofadas e manchadas. O lugar estava cheio de caixas. Ela já nem sabia mais o que guardava ali. Apenas reconheceu a caixa das decorações natalinas – era algo que elas usavam todo natal, então era a caixa com a aparência menos “abandonada”. Caixas com coisas dos seus pais, principalmente da sua mãe, boa parte do que era pertence de Richard não havia saído jamais da mansão Lestrange embora ele, Violet e a filha morassem em outra casa. Coisas da sua tia também. Ela nunca havia saído da França até se mudar para cuidar da irmã. Teve um casamento fracassado e pouco sucesso nos negócios. A vida se tornou melhor para Mary Jane quando decidiu ir para Londres – embora por um motivo não tão bom. Annabeth andou por entre as caixas atrás de um pequeno baú que ela não via há... quase vinte anos?!

Coçou a cabeça olhando para todos os lados com muita atenção. Não foi fácil, mas ali estava o baú no fundo do porão, com algumas sacolas e quadros velhos amontoados sobre ele. Quando finalmente colocou as mãos sobre ele, confirmou que ele estava fechado a chave. Era um baú trouxa, comum. Logicamente ela nem imaginava o que havia acontecido com a chave. Fazia muito tempo. Mas ela tinha uma solução trouxa para isso. Trazia um martelo consigo. Mirou bem o cadeado e acertou fazendo todo o esforço possível, com toda a força que pudesse. Por sorte, o cadeado “que não era dos melhores” cedeu na quinta tentativa. Ela bufou, tirando os cabelos do rosto. Largou o martelo sobre uma das caixas e abriu o baú.

A primeira coisa que encontrou foi uma bandeirinha verde e prata, que usava para torcer pelo time de quadribol da sua casa nos jogos. E há quanto tempo ela não via um jogo de quadribol? Não lembrava-se do último que havia visto. Não tinha talento para jogar, isso sim era um fato. Tinha talento para poções, inclusive ganhara uma medalha – que ela acabara de achar – numa pequena competição feita professor de poções, Slughorn, no seu quarto ano. Claro que só ganhara porque apenas os alunos que queriam participavam, ela foi a melhor dos que se escreveram. Se não fosse por isso, seria facilmente derrotada. Penas antigas e pergaminhos rabiscados, algumas antigas anotações, miniaturas de alguns livros e talvez uma dúzia de fotos. Ela não desperdiçou tempo nessas coisas. Sua mão vasculhou o baú a procura de uma caixa escura e comprida, porém pequena. Olhou-a por algum momento deixando todas as memórias lhe alcançarem. Memórias do dia em que se despediu do seu mundo. Sem esperar mais, abriu a caixa e encontrou seu conteúdo intacto. Ali estavam as duas partes da mesma varinha. A sua própria varinha. Uma varinha de cipreste, núcleo de pelo de unicórnio, 23 cm, inflexível. Ainda lembrava-se de quando encontrou na loja de varinha acompanhada pela mãe e como Olivaras havia sido rápido para encontrar a sua companheira perfeita.

No dia em que se mudaram definitivamente, Annabeth partiu a sua varinha em dois pedaços. Era preciso – embora muito difícil – pois se, por algum motivo, Annabeth a usasse para algum feitiço poderia ser exposta. Havia gente da confiança do lorde das trevas no Ministério. E todos os feitiços, principalmente realizados no mundo trouxa, ficam registrados. Tocou na madeira da varinha sentindo a magia acumulando-se na ponta dos seus dedos. Depois de um breve momento, voltou a fechar a caixinha. Seu olhar foi de imediato ao convite do baile de formatura do seu sétimo ano. Seus olhos tornaram-se frios, duros, indiferentes. Mas todos os seus pensamentos fugiram no momento em que teve a impressão de que a luz fraca do porão estava falhando. Ela franziu a testa e piscou algumas vezes levantando o rosto para a lâmpada que nem mesmo piscava. Esfregou a testa, cansada. O dia havia sido exaustivo. Com a visita de Lupin e Dumbledore no dia anterior havia mudado tudo. Naquela noite quase não conseguiu dormir. Ela e a tia haviam passado boa parte da madrugada conversando sobre tudo aquilo. Sua tia estava convencida de que o melhor era Annabeth estar logo junto a Dumbledore. Violet tinha uma profunda amizade por ele, então Mary Jane acreditava que Annabeth não tinha o que temer. Annabeth não temia voltar, mas não queria voltar. Não pela guerra, mas por realmente ter se desligado da magia. O que soa quase insano para muitos, mas ela tinha seus motivos. Ela havia pedido alguns poucos dias para deixar tudo em ordem. No seu intimo, relutava em aceitar.

Para piorar, quando finalmente pegara no sono logo nas primeiras horas da manhã, tivera um pesadelo. Um mais normal – ou quase normal – a palavra normal não se aplicava, definitivamente, com nada em sua vida. Mas sonhara com o incidente que lhe impedira de seguir dando aulas de música no conservatório londrino. Sua culpa, dolorosamente. Já passara vinte e quatro horas desde a visita de Albus Dumbledore. Não havia dado aulas. Pegou suas economias no banco – poderia trocá-las no lugar certo lá no Beco Diagonal. Juntou alguns pertences, os poucos que levaria. A tia chegou a considerar se não seria uma boa ideia vender a casa, mas não chegaram a um acordo. Mesmo com tudo quase pronto algo lhe fazia recuar naquela ideia de voltar. Novamente olhou para o convite dourado antes de voltar a guardar todas as coisas no baú. Fechou-o e se pôs de pé, sentindo-se subitamente com sono. Deu dois passos entre as caixas e de novo viu tudo ao seu redor escurecer por breves segundos. Parou. O silencio de repente era exagerado. Nem mesmo sons de automóveis – muito embora Logan Place não fosse um lugar movimentado. Nem estalos, nem o vento, nem os gatos que constantemente saíam a passear pelos vizinhos. Nada. Nem um ruído – por um breve momento.

E em seguida a parede manchada e a escada sumiram. Havia apenas uma profunda escuridão. Um animal guinchou de forma aguda e atormentadora. Annabeth forçou os olhos por instinto tentando visualizar algo ao seu redor. Aos poucos a claridade de uma lareira iluminou um pouco uma porção de imagens desfocadas, confusas. Seus pés pareciam não tocar no chão. O ar parecia ter sumido de seus pulmões. Então uma só imagem se fez clara. Uma tigela de barro redonda, dentro dela as entranhas de um animal, algumas folhas, sangue... Gotas de sangue que pingavam uma a uma. E não precisava muito para entender que se tratava de magia das trevas. Ela sentiu como se seu próprio sangue inundasse sua boca. Era repugnante. E de repente ela sabia que a sua localização já não era um segredo.

– Tragam-na para mim. – soou uma voz fria, causando-lhe um arrepio.

Um turbilhão de imagens e vozes brotaram na sua mente. E a parede do velho porão reapareceu. Uma pressão de ar lhe atingiu, como um tufão furioso de vento. Ela viu o ar saindo de suas narinas como vapor de gelo, quase palpável. Sentiu seus pés firmes outra vez e de imediato correu subindo as escadas. Quando chegou a sala Mary Jane estava sentada no sofá assistindo algum programa de auditório, pois soaram risos e fortes aplausos vindos da televisão. A mulher levantou o olhar para a sobrinha e viu o rosto da jovem assustadoramente pálido. Sua mão segurou firme o controle da TV e abaixou o volume.

– Annabeth? – chamou a mulher, levantando-se, olhando-a nos olhos – Annabeth? Está me ouvindo?

Annabeth acordou do quase transe.

– Eles estão vindo. – ela encarou a tia – Os Comensais, eu acho que eles estão vindo. Acho que estão atrás de mim.

– O que? – o assombro da mulher foi imediato – Mas como?

– Eu vi, eu acho que vi. – ela disse um tanto confusa – E ouvi. Acho que ouvi a voz do lorde das trevas na minha visão. Eu não sei se temos tempo.

– Visão? – Mary Jane estava atordoada – Como visão? Você disse que não tinha mais visões, Annabeth!

– Sim, eu não tinha. – ela estava mais presente agora, pareceu irritar-se um pouco ao ser questionada – Não tenho visões há algum tempo, apenas sonhos.

– Sonhos? Que tipo de sonhos? – indagou Mary Jane.

– Desfocados. Pelo menos até agora. – não estava com vontade de entrar em detalhes e nem sabia se tinham tempo para isso – Eu acho que o lorde das trevas fez um tipo de feitiço. Acho que deu certo e ele me encontrou. Ou irá me encontrar. Talvez ainda não tenha se concretizado. Temos que sair logo daqui.

Mary Jane estava em choque.

– E o que fazemos?

Annabeth pareceu se controlar ao ver a expressão de choque da tia. Precisava manter a calma. Talvez não tivessem muito tempo. Ou talvez fosse uma visão falha. E isso já havia acontecido algumas vezes no passado. Dumbledore... Ele precisava saber. Mas como?

– Arrume suas coisas. Só o mais necessário. Depois daremos um jeito de buscar algo mais. – Annabeth disse, sua tia assentiu – Preciso pensar em um jeito de avisar ao professor Dumbledore.

– Vamos para o castelo? – indagou Mary Jane apreensiva.

– Não, não se pode aparatar nos terrenos de Hogwarts. – Annabeth concluiu.

– Aparatar? – Mary Jane disse desgostosa, ela odiava aparatar e por ser um aborto, a coisa não funcionava tão bem para ela que para os bruxos.

– É a única solução que eu vejo. – disse Annabeth.

– Lá? Para onde? – quis saber Mary Jane acostumando-se com a ideia de aparatar.

– Largo Grimmauld, número 12. – disse Annabeth – É o endereço da mansão onde moravam os Black, segundo Lupin, é a sede da Ordem agora. Eu costumava ir até lá quando bem pequena, com meus pais. Eu sei onde fica. E aparatação é o meio mais rápido de chegar até lá, acredite.

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O quarto de paredes azuis estava pouco claro. Annabeth achou melhor não chamar a atenção para a casa enquanto não saíam dali. Espalhados pela cama estavam alguns objetos de uso pessoal que levaria consigo, também estavam por ali os objetos que antes estavam no baú – não sabia o que ia acontecer, mas não poderia arriscar que um trouxa encontrasse aquelas estranhas fotos que se movem – além de bem poucas peças de roupas. Tentava colocar tudo em uma mochila média. Depois de fechar com muita dificuldade o zíper, ouviu passos no corredor e encarou a porta. Era apenas sua tia, entretanto. Relaxou.

– Annabeth, filha. – Mary Jane entrou hesitante no quarto da garota com uma bolsa pequena nas mãos – Eu tenho uma coisa que eu acho que pode ajudar.

Annabeth franziu a testa quando sua tia buscou alguma coisa na superfície da bolsa. Mary Jane estendeu um objeto em direção da sobrinha – e a mesma encarou aquele objeto com estranheza – era uma varinha. Annabeth reconheceu-a de imediato.

– A varinha...

– Da sua mãe, sim. – Mary Jane completou enquanto a sobrinha pegava a varinha – Ela me pediu para guardar caso fosse necessário.

– Achei que ela houvesse quebrado. – Annabeth comentou.

– Ela ia, ela me disse. Ia quebrá-la após da derrota de você-sabe-quem. – explicou – Mas me pediu para guardá-la. Ela disse que, caso algum imprevisto acontecesse, eu a entregasse a você já que havia quebrado a sua. Espero que não fique brava.

Annabeth ficou em silencio. Sua mãe havia garantido que havia destruído a varinha depois da noite em que o lorde das trevas atacara os Potter. Não havia razões para a sua mãe ainda guardá-la. Elas haviam se desligado daquele mundo. Ou era isso que Annabeth acreditava. Mas outra coisa surgiu em sua mente.

– Brava? Por que estaria? – sua voz era fria – Só me pergunto por qual razão não me entregou-a quando aquilo aconteceu?!

– Se está falando do que aconteceu no conservatório...

– Do que mais estaria? – interrompeu ela, impaciente.

– As coisas se resolveram, ninguém nunca te culpou. – Mary Jane apressou-se para dizer.

– Eu me culpei! – retrucou ríspida.

– Não foi sua culpa. – Mary Jane estava apreensiva – Eu iria fazer isso. Iria entregá-la. Mas tudo se resolveu. Tudo ficou bem. Achei que já não levava esse peso. – elas se encararam por alguns segundos.

– Não vou discutir isso agora. – Annabeth sem paciência, tentando manter o foco no que importava.

Aquele episódio marcara sua vida. E de uma forma sombria. Tratou de tirar tudo que voltava a sua mente com fúria. Concentrou-se na varinha. Era uma varinha de abeto com núcleo de espinho de ouriço – se Annabeth bem lembrava – os núcleos e ás vezes, a madeira das varinhas mudam de acordo com a região onde o bruxo mora. No caso da sua mãe, a França. Annabeth empunhou a varinha e uma ardência surgiu de leve em sua pele. A madeira se tornou pesada – mais do que deveria.

– Droga. – grunhiu Annabeth.

– O que foi? – Mary Jane encarou a varinha e em seguida a sobrinha.

– A varinha me rejeita. – concluiu Annabeth – Deve ser muito fiel a minha mãe ou não foi com a minha cara. – ela guardou a varinha no bolso do casaco – Temos que tomar cuidado com ela, só usar caso seja necessário. – Mary Jane assentiu – Já estou pronta.

– Eu também estou. – a mulher baixou a cabeça para a bolsa em suas mãos – Juntei o básico.

O vento soprou um pouco mais forte fazendo os galhos do carvalho do quintal bater no vidro da janela. Annabeth encarou as sombras sentindo-se arrepiar, quase como instinto. Lá fora, o portão rangia freneticamente. Annabeth deu alguns passos até a porta do próprio quarto, encarando o corredor escuro de painéis de madeira. A porta da sala pareceu abrir-se lentamente. Annabeth virou para sua tia, Mary Jane estava um pouco aflita com o que quer que estivesse acontecendo, a garota levou o dedo a boca fazendo sinal de silencio e Mary Jane assentiu.

– Fique ai. Não faça nenhum ruído, me ouviu? – sussurrou para a tia, entregando a ela sua mochila e buscando a varinha de sua mãe no bolso.

A varinha reclamou fazendo sua mão arder, mas Annabeth segurou firmemente. Foi dando passos quase em câmera lenta, evitando ao máximo fazer a madeira do piso do corredor ranger. Chegou ao topo das escadas observando a escura sala a sua frente. A porta estava aberta e a luz da sala – e da iluminada rua devido aos postes – invadia o cômodo sem cerimonia. Annabeth desceu um degrau, dois. E parou quando bem na sua frente, em uma fração de segundos, apareceu uma figura encapuzada com uma varinha nas mãos.

– Estupe...

– Protego!

Annabeth pronunciou o feitiço que, ao invés de ir em linha reta, bateu no espelho da sala quebrando-o em pedaços e acertando a lateral do homem que girou no ar e caiu, Annabeth arregalou os olhos. Em um estrondo, outro homem entrou pela porta com um brilho letal nos olhos presos nela. Logo o primeiro já estava de pé. A sala pouco iluminada, de paredes claras, agora brilhava em luzes coloridas que eram rastros dos feitiços que saíam das varinhas. Um dos feitiços conjurado por um dos Comensais acertou-a no braço, jogando-a contra a moldura quebrada do espelho e ela cerrou os dentes sentindo as pontas do espelho perfurando bruscamente alguns locais das suas costas. A varinha queimava na mão dela. Annabeth sabia que um feitiço mais forte seria perigoso. A varinha simplesmente não a obedecia. A garota ficou com os feitiços de proteção, se arriscou uma ou outra vez, mas era perigoso demais usar aquela varinha. Os dois homens vestiam roupas pretas e mascaras que cobriam o rosto. Eram bons, muito bons. Mas por algum motivo nenhum dos três tentou alguma maldição contra ela.

– Ora Annabeth, você já foi mais sociável. – um deles disse, a voz dele era familiar – Isso não é jeito de receber o seu tio.

O sarcasmo da voz dele era claro. E ela sentiu repulsa de imediato. Obviamente a voz lhe era família. Era Rabastan, o mesmo tom debochado e exagerado de sempre.

– O que quer? – forçando-se para concentrar toda a sua raiva nos movimentos que fazia com a varinha, a voz de Annabeth saiu como um grito agoniado.

– Apenas conversar. – Rabastan parecia despreocupado, para dois Comensais duelar com uma menina descontrolada e aparentemente com a varinha danificada chegava a ser ridículo – Não sei por que essa recepção.

– Não tenho nada a falar com você. – ela disse controlando melhor a voz.

– Tenho certeza que sabe que as coisas não são bem assim. – ele disse – Você só tem a ganhar se nos ouvir.

Annabeth ergueu o queixo, mas não respondeu. Continuou se protegendo dos feitiços que ambos conjuravam contra ela. O outro homem era mais alto que Rabastan. Mas ela não imaginava quem seria. O confronto continuava. Os objetos iam voando pelo ar, caindo no chão em mil pedaços. Annabeth se protegeu do feitiço do outro homem e fez uma nuvem densa de poeira subir entre ela e os Comensais, em seguida correu para a cozinha e parou atrás da mesa. Era inútil, claro. Isso não a manteria a salvo.

– Não vamos brincar de esconder agora, querida sobrinha!? – Rabastan rangeu seus dentes com irritação.

Quando os homens lhe alcançaram, ela só conseguiu pensar em uma coisa. Talvez o que melhor funcionaria dada a situação da varinha.

– Bombarda Maxima! – Annabeth exclamou mirando a parede da cozinha que ficava para o quintal, mas o flash de luz rebelde atingiu o teto de gesso que despencou sobre os homens, o cômodo do segundo andar que ficava sobre a cozinha também foi a baixo.

Ela correu de volta para a sala e começou a subir pela escada com passos firmes. Sua tia então grunhiu em algum lugar do corredor fazendo Annabeth falsear. Era óbvio que alguma coisa também estava acontecendo. Ao alcançar o topo da escada viu sua tia presa pelas mãos de outro Comensal. Esse apontou a varinha para Annabeth.

– Você tem duas opções. – pausou o Comensal apontando agora a varinha para Mary Jane – Não acho que vai escolher a mais dolorosa para a sua tia.

O terror estava estampado nos olhos de Mary Jane. Annabeth encarou o homem por alguns segundos e lentamente começou a abaixar a varinha. Quando a mesma estava na altura do joelho, ela girou-a em sua mão. Por impulso pronunciou rapidamente.

– Sectumsempra!

O homem caiu sem ter tempo de se defender, soltando Mary Jane que tremia de um jeito frenético. A primeira ferida foi no joelho do homem, mas outras foram abrindo-se em todo o corpo. O sangue começou a sair do corpo criando um poço. E um quarto homem subiu logo atrás de Annabeth. Ela girou nos calcanhares com sua varinha firme na mão. Encarou o quarto Comensal que primeiramente não encarou-a, seu olhar foi em direção ao outro homem jogado no chão esvaindo em sangue. Então ele levantou o olhar até ela. Um olhar frio e cortante. Annabeth prendeu o ar e começou a dar passos lentos para trás em direção da sua tia. Não tirou os olhos do Comensal da Morte que, para a surpresa dela, começou a abaixar a varinha lentamente. Ele não fez nenhum movimento. Apenas encarou-a. E ela sentiu algo agitar-se dentro do seu estomago. Talvez fosse a adrenalina. Quando alcançou a mulher, segurou seu braço com firmeza. O homem não ia detê-la? Ela não quis pagar para ver. E aparatou.

Ou ele a deixou aparatar?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.