Sleeping Smile
17 The Tape Man
Agora
Storybrooke
Corria. Corria nem mesmo sentindo as pontas dos meus pés tocarem no desgastado asfalto da cidade. De forma desvairada adentrava pelas ruas da pequena Storybrooke como um descontrolado feixe de luz energizado, mantinha todo o pensamento focado apenas em Henry e na maldita ligação.
Os batimentos cardíacos estavam tomados pela adrenalina do desconhecido, tateando fortemente minhas mãos. Meus olhos analisavam cada canto da cidade em alerta, nem mesmo parando quando escutava Hook ou Mary pronunciar meu nome numa tentativa falha em me alcançar.
Por muito tempo desde que cheguei naquela cidade, um sentimento antigo e esquecido se apossou de mim assim que avistei Henry pela primeira vez,- sentando no banco do parque central numa noite fria, as mãos versando as folhas do livro para lá e para cá, expirando inocência- era um sentimento que vinha contorcendo meu estomago e alegrando meu peito com pequenas e nocivas borboletas que com o tempo se multiplicaram como um vírus perverso. As histórias contadas, as saídas frequentes para os “super“ cafés da manhã na frente do rústico e movimentado “Granny’s”, o sentimento de culpa em não o dar um pedaço de meu chocolate que comia solitária em cima da cama... As noites mal dormidas. Tudo isso era um bilhete de lembrete do passado batendo a porta de que eu sou mãe e que uma criança, assim como o Henry, podia estar precisando de mim. Henry era a encarnação da lembrança diária de que um dia eu já fui fraca. O sentimento antigo- deixado tempos atrás trancado numa cimentada sala de presídio com uma maca azul em seu centro- que vinha sentindo pelo menino era de uma mãe. Uma desesperada e entorpecida mãe. Meus olhos se arregalavam conforme eu decifrava os meus sentimentos enigmáticos e embolados, desmoronando de vez minhas barreiras. Sinto meus braços sendo fortemente puxados para trás. Meus passos são freados bruscamente.
—Nós precisamos de um plano, Swan. — dizia a voz atrás de mim. Sabia que era Hook sem mesmo o olhar, o perfume já o entregava. Tentava ainda relutante, puxando de leve o braço, em continuar na infindável busca pelo garoto. — Você precisa se acalmar loira. Nós vamos o encontrar. — A voz do pirata chega carregada de serenidade e conforto como as lambidas ternas das ondas do mar.
Sinto um objeto metálico tatear minha pele, segurando firme minha cintura. Naquele momento sinto minhas pernas se cederem e minha estrutura enfraquecida ter a sensação de nem mesmo aguentar todo o peso do meu corpo sobre ela. Eu precisava ser forte e minhas barreiras estavam destruídas. Esparramadas ao asfalto como pó corroído. Ordenava mentalmente que eu me afastasse dele, que catasse o que havia restado do que uma vez foi minha barreira. Reconstruí-la fortemente como sempre faço. Mas a única coisa que realmente faço é levar minha cabeça a se escorar sobre seu peito como um animal indefeso. O ritmo constante do pulsar de seu peito fazia com que aos poucos a sensação de medo fosse substituída pela de segurança.
— Iremos o encontrar, love— Repetiu o pirata com a voz abafada pelos meus cabelos.
— Nós temos que encontrar, pirata. — Lágrimas corriam por todo meu rosto obstruindo de leve meu campo de visão. Sinto os leves e finos lábios do capitão encostar em meus cabelos e sinto como se estivesse de volta ao antigo terraço, me fazendo estremecer e se afastar de Hook já esfervecendo de raiva, mas não dele, de mim.
— Nós temos que falar com uma autoridade, não é mesmo? -Olho para o lado me sentindo perdida. Esperava pela resposta de Killian para saber o que fazer.
— Seria assim se você estivesse ainda em Boston, loirinha- A voz era serena, quase como se escolhesse as palavras para não me machucar. Hook sorri de canto pondo as mãos em meus ombros. Arregalei meus amedrontados olhos franzindo a testa. Estava me sentindo perdida e aquela não era uma resposta que melhoraria meu quadro.
— O que você quer dizer? –Pergunto, mas no fundo sabia a resposta.
— Você sabe muito bem, Emma- Uma voz no fundo surge. Mary Margaret havia finalmente me alcançado, sua respiração falha e esgotada fazia seus ombros descerem e subirem em respectivo momento. -Regina tem todos os estabelecimentos nessa cidade nas mãos dela...E o esquadrão policial...- Ela ri, mas não um riso aliviado, mas sim que traspassava nervoso e nojo. -Bem, o esquadrão policial é o seu cachorrinho de estimação.
— Você acha que ela seria capaz de fazer isso com o próprio filho?
— Henry nunca foi filho dela!
***
Tinha prometido a Mary que não pisaria no escritório policial da cidade, mas as circunstancias não me deram outra escolha.
— Você simplesmente não pode ir lá, Emma! — Sua atenção alternava hora para mim e hora para as roupas de cama que ela teoricamente tinha de arrumar. Em um grande avanço de sua atividade diária, a morena tira os resquícios do café “amigável” na cama.
— Espera ai...- Disse David sentado no sofá. Sua mão segurava seu queixo pensativo. -Henry sumiu? Ele estava ontem mesmo com a gente... Isso é possível?
Pego o café que jazia em cima do balcão de mármore da cozinha me sentindo extasiada assim que sinto a cafeína descer para meu estomago. O relógio acima do fogão esverdeado marcava meio dia... O que era uma tortura, o tempo estava passando e não havíamos feito nada. Desejei mentalmente que as engrenagens do tempo na cidade voltassem a ficar enferrujadas.
— Às vezes perdemos pessoas em segundos. – Seus olhos me observavam de forma vazia e melancólica, quase me lembrando de quando nos conhecemos. Ela parada na frente da pensão da Granny, os olhos vazios e desesperado para um abraço...Desesperados por mim. Tento sorrir para Mary enquanto colocava minha jaqueta vermelha.
— Eu prometo que vou ficar longe da delegacia Mary. – Talvez essa tenha sido a mentira mais boba e ao mesmo tempo a mais dolorosa de toda a minha vida.
Permanecia relutante parada enfrente a porta da tão questionável delegacia, os ventos vindos das docas tateando minha pele faziam aquele entediante ambiente parecer um convite aconchegante para adentrar. Não seria novidade para mim já que grande parte de minha vida estava ligada à delegacias: Ou estava dentro das celas contando os dias para minha liberdade ou no comando pedindo mentalmente para ter uma cara nova para socar. Esperava muito que, no fim das contas, eu tivesse o comando dessa merda.
Abro a porta paulatinamente tentando vencer seus incontestáveis chiados. Um entremeado de vozes quase caladas por causa da distancia e o barulho funcional reconfortante de uma cafeteira me acompanhavam enquanto cruzava o estreito e longo corredor branco. Nada havia no local além de quadros de flores e fotos de antigos policiais, tentando- numa tentativa muito falha- harmonizar o ambiente monótono. Continuo em passos curtos à caminhar em direção a porta de madeira entreaberta, as mãos suando por causa de tanta precisão e os olhos delatados totalmente em alerta.
— Você não entende! – Dizia a voz agora claramente audível. – Não era para ser assim.... Não soube noticias dele desde ontem
— Não sei o que fazer exatamente, Sr.ª Prefeita- Permanecendo de espreita na porta, observo que Regina, com seu mesmo sem graça terninho, conversava exaltada com um rapaz de barba com estrutura forte e voz rouca, segurava nas mãos um pequeno copo de café do “Granny’s Dinner” com semblante levemente irritado. Talvez fosse o xerife Graham que sempre visava nas esquinas das ruas principais de Storybrooke e flertava com Ruby nas horas vagas, ela nunca deu muita confiança para ele... Dizia que não “dava bola” para capacho de víbora. –Nesses últimos cinco anos o numero de fugas desse moleque espoleta cresceram consideravelmente para não me importar muito com essas constantes queixas.
— Eu ainda posso acabar com você, xerife. – As mãos da prefeita dançam de forma ígnea e perigosa por debaixo do queixo barbudo do homem, que apenas a observava com os seus olhos calados. Havia ali uma linha tênue entre o perigo e a sedução.
— Desculpe atrapalhar o momento entre a “rainhazinha” e o Sherlock Holmes, mas acredito que o assunto Henry é mais importante do que flertes incabíveis. –“Rainhazinha”, a voz ecoa em minha cabeça como se um passado- não muito distante-quisesse me atormentar. Por uma breve fração de segundos me levo a enxergar que sentia falta das incontáveis histórias de Henry, de como versava as folhas com os olhinhos brilhando esperançosamente... Sua indagação em desvendar o mistério que só ele enxergava; o livro aberto e sorriso escancarado: Era isso que o marcava em meu pensamento. Sinto minhas bochechas ruborizarem com tamanha a raiva que havia aglomerado em minhas veias, me fazendo, com súbito ímpeto, atravessar irradiante o pequeno escritório repousando as mãos sobre a mesa metálica em seu centro. – Onde está o garoto, xerife? — Estávamos hostilmente próximos, por debaixo de minha sobrancelha podia estudar todas as cores que compunham os seus olhos. Verdes com nuances amarelados. Arquejava fervorosamente sobre seu rosto esperando sua resposta.
— Você acha que se eu soubesse a prefeita estaria me incomodando desse jeito? –Disse ele simples e claro.
—Não sei, querido- Um sorriso toca de leve meus lábios esbouçando sobre eles uma paradoxal ironia, que assim como chegou, se esvaeceu com o ar tenso que pendia sobre aquele lugar. –Mas sentado aqui relaxado que você não vai o descobrir. Não recebe um salário para manter a ordem e segurança na cidade? Que tal gastar finalmente essas solas lustrosas do seu sapato e procurar o garoto?
Sem desviar o olhar, Graham, muito provavelmente pensando alguma resposta, cruza os seus braços na altura de seu peitoral, mordicando de leve seu lábio inferior intrigado, e se distancia da cadeira. Sinto os olhos de Regina pesarem sobre mim.
— Quem sabe ele está com você, Srtª. Swan... – disse ela- Ele nem mesmo é seu.
Meus olhos se fecham e dou um longo e falho suspiro. Meu punho se encontrava cerrado em contato com a mesa, podia já sentir minhas unhas afundarem sobre a carne. Viro-me para ela com os olhos tangente à sobrancelha. Um sorriso doentio se forma sobre seus lábios para me enfurecer ainda mais, entretanto era perceptível, no fundo dos seus olhos negros, o quão desesperada ela estava. Ela podia ser a mulher mais maligna da face da Terra, mas antes disso... Ela era mãe.
— Com todo respeito, Sr.ª Prefeita, não é meu problema se você se importa ou não com o seu próprio filho. Não é meu problema se prefere passar suas horas vagas em motéis com funcionários ao invés de aproveitar o tempo com quem realmente te ama. Mas quando eu recebo a ligação de uma criança pedindo por socorro, completamente desamparada, é meu dever gastar a merda da sola do meu sapato e salva-lo. Não importa se ele é meu filho ou não, só quero que fique bem claro que eu atropelarei quem quer que seja que estiver atrapalhando meu caminho.
— Ele ligou?!- Seus olhos se arregalam e sua expressão transforma repentinamente. Aquela mulher de figura absoluta que eu conhecia desde o início de minha estádia na cidade se desmonta somente sobrando a imagem de uma mulher assustada. Seu nariz constantemente empinado desce para o chão como se demostrasse decepcionado, os ombros que sempre demostraram nela a imagem de força, descem curvados revelando todas suas vulnerabilidades, os fios negros de seu cabelo que eram sempre tão perfeitamente penteado e alinhados se desmontavam em uma cachoeira desorganizada de friz. Agora, ali na minha frente, Regina se demostrava humana...Uma mulher normal desmoronada pela fatalidade do mundo e suas regras. Seus olhos marejavam gotículas imperceptíveis de água.
— A pergunta é: E você se importa? — Era minha resposta final.
Regina lança um olhar para mim que demarcava raiva. Ela depositava suas mãos sobre a cadeira, suas unhas tingidas de um recente vermelho batiam incessantemente na base metálica do assento. Estava muito derrotada para continuar a esfarpelar. A mulher, bufando raivosa, sai da sala desfilando seus barulhentos saltos sobre o chão. O homem com quem antes eu discutia tempestuosamente sobre uma mesa, a segue como um pobre cachorrinho de estimação. Observo cerrando os olhos suas imagens virarem meros borrões esmorecidos e os estalos dos saltos da mulher uma insignificante nada.
— Oh Deus, eu achei que eles nunca iam embora...- Uma voz feminina surge de subitamente um pouco atrás de mim.
Sinto minhas veias saltarem do meu corpo e meu coração palpitar cada vez mais forte contra minha pele. Minha mente se arrastava assustada com tudo o que estava acontecendo e no momento só pensava no meu menino... Naquele moleque de 10 anos que me amarrou de jeito em seu coração. Ele estaria passando fome? Ou mesmo estaria ainda respirando? Eram essas perguntas que me faziam trancar meu ar no pulmão por demorados minutos e não querer de novo um minuto a mais de vida. Coloco a mão sobre meu peito com uma sensação de que meu coração iria explodir a qualquer momento.
Como numa miragem que surgiu do nada, ela apareceu. Ruby estava sentada sobre a cadeira com seus lábios sorridentes e seus cabelos presos numa maria-chiquinha perfeita.
— Com que...- Tento perguntar.- Você quase me mata de susto!
— É, sou boa em me esconder- A menina solta um pequeno sorriso tranquilizador e volta a ficar séria.- Sabe? É o que faço para despistar das regras da vovó.
— Ela é uma boa vó, garota.- Cruzo meus braços a observando, ela apenas desvia o olhar e balança a cabeça assentindo.
— Já que estamos dando conselhos gratuitos por hoje...- Merda! Devia fazer um lembrete para não fazer esse tipo de coisa com essa garota espertinha, sempre dava um jeito de reverter a situação. Olho para a menina franzindo a testa esperando o que ela aprontaria dessa vez. Ela girava a cadeira e me observava de maneira analisadora, olhando de cima para baixo.- Você parece que não dorme tem uns 4 dias, já conhece o objeto mágico chamado “cama”?
***
— Hmmm, então você quer que eu acredite que você ainda não está transando com o Jones? – Estávamos deitadas sobre uma cama confortável que se encontrava abaixo de uma janela veneziana. O quarto, embora estreito, era harmonioso e tinha um estilo próprio, muito melhor dos quartos desconfortáveis que eram oferecidos para os hospedes. Quando o sol visita a janela através das finas cortinas, o que estava escondido aparece. A cama de ferro, nem macia nem dura, exala o bege assim como os travesseiros. O piso, um cinza esverdeado, passa a esfriar menos os pés desde que eu havia chegado. Havia ali também um computador de cor preta que eu julgava ser da época da pedra e abaixo dele uma preguiçosa mesa que tem espessos sinais de poeira e por isto parece chorar emudecido, no silêncio do esquecimento. Alguns tênis e saltos altos fazem fila, junto ao armário notavelmente feito por improviso. As partes do armário encaixam-se perfeitamente nos flancos da cama, como que desenhados em perfeição. Na direita, duas portas. Não lhes ouso questionar a menina para abrir por elas inspiravam estar a guardar a inquietude de uma alma em completa desorganização. As paredes que compunham o todo do espaço eram quase uma poética antítese contra toda a florida pousada, sobre os papéis de paredes florais que compunham todas as paredes do estabelecimento encontravam-se inúmeros pôsteres que instauravam aquele lugar o ar de graça e rebeldia da menina Ruby. Há fios à mesa. As canetas, joysticks, livros, cd’s e caixas de som se amontoavam sobre um canto isolado da cama de solteiro em que nos encontrávamos enquanto os talentos até então desconhecidos permaneciam esquecidos ao chão. Uma peruca do melhor estilo Black Power espera a chance de ser usada- à espera do Halloween talvez? -E um copo de água deixava o móvel úmido. Um abajur exótico e futurista apagado ansioso para afastar a negrura eventual. E em minha frente alguém sem motivo para ser descrito refletia a centímetros de um espelho deslustroso, havia a imagem de duas mulheres, a segunda delas, a mais velha, se encontrava esparramada desajeitadamente, os cabelos loiros de forma sinuosa sobre os lençóis que compunham a cama, segurando uma depressiva garrafa de rum, a outro por sua vez estava sentada com um sorriso cuidadoso no rosto. E enfim, ao olhar para cima com meus olhos desesperançosos, vejo um objeto artesanal bem elaborado pender do teto. Suas linhas se cruzavam dando um contraste quase mágico para a madeira escura que formava sua estrutura. Um apanhador de sonhos. Um maldito apanhador de sonhos.
— Terra chamando Emma- disse Ruby arremessando sobre mim uma de suas almofadas coloridas e customizadas.
—Eu não estou nem mesmo ficando com aquele paspalho.- Digo balançando os pés. Realmente não queria descansar, sua cabeça ainda pensava no menino e na ligação. Esperava que ligasse novamente, pois sabia que era assim que funcionava toda essa merda, mas precisava dormir se não iria atingir o limite de sua sanidade, e Ruby não lhe dava outra escolhe. Tudo o que queria no momento era falar sobre suas fraquezas...E o pirata a maior delas.- Pode ficar tranquila, é todo seu.
Um risinho incontido se forma na boca de Ruby que bate nas próprias pernas para parar.- Emma, você acha que se eu pudesse ter algumas noites com o Capitão Gostosão eu não teria? Faça-me o favor, né amiga? Assim você até me insulta! –Ela revira os olhos e continua- Ele só pensa em você, pode até fazer cantadas para algumas mulheres, mas nunca passa disso. Meu Deus... O que você fez com meu gatinho sedutor?!
Aquela confissão me deixa pasma e claramente a garota percebe e começa a dar outra série de risadinhas conseguintes. Bebo mais do rum enquanto meu nome é alvo de piadas e implicâncias bobas. Ruby além de uma confidente amiga havia virado acima de tudo uma espécie de irmã mais nova, sempre quero a proteger de tudo e de todos, até mesmo de Killian.
— Você sabe que, apesar de todas as conversas e zoações, meu pensamento está com o Henry, não é?
—É eu sei.- Seus lábios ficam em uma linha perfeitamente reta e sua expressão muda abruptamente para algo mais sério, seus olhos desviam para a janela e a fina neblina que podia ser vista através dela.- Apenas estava tentando te animar.
—Com assuntos sobre o Hook? Quer me animar ou me fazer vomitar?
— Até agora não vomitou, então acho que está excitada.- Ela sorri de canto sem tirar os olhos da camada fina e frugal lá de fora.- Entenda como quiser.
—Sei.- Sorrio acompanhado seu olhar.- Como você consegue ser tão invisível em lugares movimentados?
— Sempre gostei de estar na solidão e ao mesmo tempo presente, é como se fosse um instinto.- Sua cabeça abaixa e pousa em meu ombro.- Como que está Mary Margaret? Nunca perguntei sobre ela, acho que por medo da resposta não ser tão boa.
— Pois você devia ter perguntado- Digo- Ela que cuida mais de mim do que eu dela. Não sei como ela foi parar num manicômio. Isso é estranho...
— A cidade toda é uma coisa estranha, maninha.
— Então qual seria a definição de loucura para esta cidade?
— Algo muito, muito, muuuito doidão e insano mesmo- a menina arregala os olhos manejando a cabeça enquanto encarava ainda a imensidão do lado de fora.- Tipo uma merda muito obscura e fumada.
Lá em baixo, sobre as gramas esverdeadas da entrada da pensão, um gato corria em círculos e surto saltinhos enquanto sua pequena cabeça se esticava para que suas pupilas em um filete se encontrassem com meus olhos. Meus olhos se arregalam abaixo de uma franzida sobrancelha: Era Cocky.
— Acho que preciso ir- Digo- Cocky está no frio de novo.
— Você nem mesmo dormiu- advertiu ela
— E acha mesmo que eu conseguiria?
***
Estava cada vez mais difícil de manter aquele gato por perto e seguro. Numa hora estava em minha cama se enrolando e brincando por baixo de meus lençóis, em outra simplesmente sumia como um nevoeiro em tempo chuvoso. No início me preocupava tudo isso, não devia comer quase nada e estava sempre sujeito e impensáveis acidentes. Passei a trancar todas as portas e janelas possíveis e imagináveis da casa de Mary Margaret, mas estranhamente os constantes sumiços não só continuaram como aumentaram. Parei de me importar quando via que ela estava bem e bem gordinha por sinal. Era um gatinho muito do independente e espoleta, não me assustava o fato de ter me escolhido como sua fiel escudeira.
Ele continuava a seguir sua caminhada sem mesmo se importar a hesitar em nenhum momento, nem mesmo quando desci igual uma desesperada as escadas da pensão gritando seu nome. Quanto mais eu corria para alcança-lo, mais se colocava para correr. Estávamos subindo uma interminável ladeira na Royals St. quando posso ouvir o gorjear relaxante das gaivotas. Sentia o vento do mar me acariciar a face e sinto o cheiro do sal impreginar minhas narinas e conseguinte todo meu pulmão. Reconheci o lugar assim que chego em seu topo e minha memória me faz lembrar de Henry e as vezes inexplicáveis que passamos por ali. As areias ainda tinham marcada nossas ultimas pegadas, estavam quase apagas por causa da ação do vento, mas ainda estavam ali e o inacabado castelo lembrava de todas nossas brincadeiras e conversas que tínhamos ali. Ainda podia ver Henry, com seus olhinhos brilhando ao me ver chegar segurando lanches que somente conseguiria de mim, ele gritava me nome dando pulinhos exaltados e voltava a fingir que era um cavalheiro do seu livro de histórias. Ah claro que não me esqueci do livro, estava ali também, perto de seus pés e sobre a plataforma de madeira pronto para ser lido pela milésima vez, numa tentativa falha de me fazer acreditar. E em às vezes eu quase acreditava. Sorrio.
Cocky sobe a mesma plataforma me fazendo ver que estava alucinando uma verdade que agora era distante. Me aproximo dela quando inesperadamente um grito ecoado por entre a cidade chega ao meus ouvidos de forma estridente como uma onda sonora de pura dor.
— Emma!!!!- Ele estava apavorado! Apavorado! — Socorro, Emma!
Meus olhos olham ao redor procurando meio ao nada um sinal de vida. Respirava de forma falha enquanto gotas saltavam de meus olhos seguidos por um grunhido interno que mais parecia como um grito. Meus olhos estavam arregalados e meus braços estagnados junto ao meu corpo inerte. Não conseguia sair do lugar, estava em choque. Tento olhar de canto para Cocky, mas ele não estava mais lá, assim como ninguém. Estava sozinha, assim como sempre fui por toda minha vida.
— Henry! -Grito não dando a mínima para minhas cordas vocais, que estavam preguiçosas. Sinto uma mão encontrar meu ombro e minha respiração aumenta seu ritmo. Filetes de suor começam a descer por todo o meu corpo enquanto sentia que minhas pernas iriam desabar ao chão. Segurava com força a corrente que carregava religiosamente envolta do pescoço.
— Love! Você está bem? -A familiaridade da voz faz alivio descer meus ombros e minha respiração cada vez mais vai se acalmando.
—Não sei bem.- Sorrio.- Acho que estou ficando louca.
— Você sempre foi louca, Emma.- Ele sorri. Viro para ele e mesmo que me esforçasse para esbouçar um sorriso no rosto e afastar de mim as lágrimas que desciam ainda, permanência com a mesma cara assustada que tinha a segundo atrás. As mãos cravadas ao pingente como se fossem um só.- Você sabe que me preocupo com você e essa sua cara não está ajudando em nada.
— Talvez eu queira nesse momento que alguém se preocupe comigo.- Ele sorri de canto e leva sua mão boa para acariciar levemente meu rosto. Logo volta a sensação que sentia quando os ventos trazidos do mar me acariciavam a pele, uma sensação calmante e de segurança. Algo distantemente familiar. Olho para ele por debaixo de minhas sobrancelhas e observo com o coração saltitando seu rosto se aproximar. Esbouço um sorriso, mas nessa vez ele era verdadeiro. Quando nossos lábios se encontravam a milímetros de distância, sinto uma mudança rustica de seu olhar sobre mim.
— Emma? — Sinto sua mão descer por meu pescoço e segurar o pingente que pendia sobre uma corrente metálica. Nunca o deixava à amostra.- Como é possível?
— Do que você está falando, pirata? — Podia estar mesmo confusa com todos os fatos e suas formas, mas no fundo eu já havia entendido.
— Esse colar é meu- Ele diz franzindo as sobrancelhas e emoldurando os olhos cerrados abaixo dela, substituindo depois todo o semblante confuso por um sorriso sincero e cheio de alegria.- Já disse que você é a menina mais imprevisível de todas, “Milady”?
Sorrio ainda o olhando nos olhos. Queria rir, mas meu coração não deixava.- Já disse que odeio que me chame assim.
— E eu nem me importo com nada com o que você teima
Ele, pegando seu rosto com ambas as mãos de um jeito cuidadoso, me traz para mais perto e encontra seus lábios aos meus, saboreando o beijo que ali se iniciava, se dissolvendo em meus lábios. Seu gosto, seu cheiro e seu calor, pairam na lembrança de jovem e se reintegra na ação; essa, sim; indissolúvel; como se agora se perdurasse um beijo, sem trégua para a respiração. Como almas se tocando ao íntimo, o seu beijo, um portal para outro mundo.
— Onde você...- Minha voz é interrompida abruptamente pelo mesmo estrepito de grito ecoado que agita as arvores e causa em minha mente uma perturbação. Precisava o salvar, era real...Era real.
— Emma!!!!- Ele estava apavorado! Apavorado! — Socorro, Emma!
— Está escutando? Ele deve estar com frio, com dor...- Minha respiração volta a ficar pesada.
— Emma, não estou escutando nada.
Meus olhos arregalados vão de ao encontro com seus olhos azuis do mar, estavam confusos e perdidos. Precisava salvar Henry, sabia que era real, sabia que não estava perdendo sua sanidade, ou pelo menos esperava. Começo a correr seguindo o som que se propagava cada vez mais forte pela cidade. Adentrava rua, adentrava casas. Não me importava com os olhares de desaprovação sobre mim ou com os cochichos de que eu estava ficando louca. Podia estar ficando, porém continuaria lutando por ele até meu fim. Ninguém lutava por ele ou se importava em lutar por ele, nem mesmo sua mãe – que o amava de uma maneira somente dela. Mas amava – Era meu dever lutar por aquele menino, pois sabia como era não ninguém para te proteger contra a maré impiedosa do mundo. Dos olhos assustados das famílias quando invadia suas casas, a respiração ofegante por não parar um segundo e o cabelo completamente desgrenhado sobre a cabeça, vejo as risadas perigosas da floresta. Hook estava atrás de mim, gritando meu nome, me acompanhando na busca gritando o nome de Henry mesmo que julgasse isso loucura. Somente eu escutava seu grito que estava em todo o lugar.
— Emma, ele não está aqui.- Disse ele enquanto caminhávamos desviando das inóspitas arvores que compunham o bosque da cidade. Não podíamos correr na trapaceira floresta. Chovia forte sobre nós e meu campo de visão tinha sido se obstruído.- Assim como não estava na casa do Sr. Gold, na casa do xerife Graham ou nos fundos da farmácia da cidade.
— Espere, nós vamos o achar.
Continuo a procurar um sinal de vida em meio a tantas arvores e verde, não desistiria nunca daquele menino. No meio de densa floresta uma arvore robustas de troncos e caules largos se destacava dentre as demais Na mais baixa ramificação desta pendia um “walkie talkie” na cor azul com a série de mensagem já conhecida por muito bem por mim. Como esse som conseguiu expandir por tantos quilômetros?
— Emma!!!!- Repetia de forma quase insana — Socorro, Emma!
Olho para Killian que toca o objeto com o semblante também transpassando total confusão. O que estava acontecendo?
—Finalmente nos encontramos, salvadora- Dizia uma voz rouca cheia de insanidade. Atrás de mim um homem alto e cabelos desgranados segurava o garoto nas mãos. Ele estava chorando, mas nenhum sinal de tortura compunha seu corpo, somente alguns arranhões que foram conseguidos bem antes. O rapaz vestia uma cartola grande demais para a própria cabeça e um Olhos amendoados amedrontados transpassando para ela um ar de insanidade alta.
Com o sangue entrando em combustão em minhas veias pego de minha bota meu revolver e com os dedos no gatilho mirando para o idiota de cartola a minha frente. “Largue-o”, era o que formava em meus lábios de forma fervorosa sem formar som algum.
— Não, não, não...- Ele se mexia inquieto enquanto dava curtos socos na própria cabeça- Tudo errado, tudo errado.- Sem pestanejar ele tira do bolso uma pontuda tesoura e encosta sua ponta na fina pele que compunha o pescoço de Henry. Abaixo a arma sentindo meu coração pulsar forte dentro de meu peito.
Com a cabeça levantada podia ver – como se quisesse em desespero que eu notasse – uma fita de cetim rosada surrada envolta de seu em volta de seu pescoço. Henry se inquieta em seus braços e com as mãos peço que se acalmasse, qualquer movimento era perigoso com aquele homem. Como se me atraísse a atenção, não tiro os olhos da fita um segundo.
Com um sorriso no rosto ele diz- Obrigada por me salvar- e logo depois um suspiro- Cortem a cabeça.- Com a mão livre ele segura a fita rosa e arranca em instantes. Sua cabeça que estava se encontrava sob o pescoço cai ao chão em percurso rápido por conta da gravidade. Em meio as folhas verdes que pairavam no chão engolidas pela vívida camada de sangue que cobria o local, encontrava-se seu crânio já sem vida. As orelhas caídas e deformadas, empapadas em sangue e os olhos amendoados abertos suplicantes quase como uma maldição, não muito distante a cartola assinalava como uma assinatura macabra coberta por terra ao chão lamacento. Corro para Henry que estava em choque tampando com minhas mãos seus olhos.
—Está tudo bem, não olhe.
Não sabia o que estava acontecendo. Olho para Killian que tinha o mesmo olhar perdido e confuso sob o chão analisando o corpo despendido e tudo o que acontecera naquele dia louco.
—Emma! -Hook me chama assustado. Olho para a o crânio que jazia ao chão lançava filetes cintilantes de luz enquanto balançava e oscilava o chão de forma suavemente como o convés de um colossal navio. Um pássaro se molda através dos indícios encontrado ao solo e voa para o céu sem pestanejar. Um colorido e grande pássaro.
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