Sleeping Smile
5 The Pirate
Antes .
Boston – 1999
Dizem que a noite é uma criança, mas eu discordo completamente. A noite é assombrosa, carregada de pesadelos esquecidos e de mortes iminentes. Debaixo de mim, estão os destruidores de vidas e da inocência. Nesta cidade, crianças se perdem para os demônios da noite, assim como os meninos perdidos se perdiam para Peter Pan. Não que eu esteja dizendo que Pan seja mau, quem sou eu para dizer? Mas as histórias da Disney não me convencem e nunca me convenceram. Peter Pan está nessa cidade, voando pelas ruas e pelos inacabados prédios que a cerca. Peter Pan é a noite, ele mata a inocência. Peter Pan nunca falha.
A lua pairava no céu e iluminava todo o grande telhado em que Killian e Emma estavam. Emma fecha os olhos na tentativa falha de dormir, estava com medo e com frio... Talvez ter fugido do orfanato não tenha sido uma ideia tão brilhante assim.
Seus olhos abrem repentinamente assim que ouvi um barulho. Queria sair daquela cidade, não gostava de admitir, mas Emma estava morrendo de medo. Ela abraça a si mesmo em tentativa falha de não chorar.
– Hey... O que foi?- Diz Killian chegando perto da menina.- Amanhã de manhã podemos ver outro lugar para ir.
– Nós?!- O que mais a assustava? O fato de que está em perigo ou ter que confiar em alguém que conheceu a dois dias? Emma não sabia responder.- Bem... acho que já passei em milhares de orfanatos de Boston, vai ser difícil achar um local que eu não esteja sendo procurada.
– Depois vemos isso- Sentado nos limites do telhado do alto prédio, Killian namorava a conturbada Roxbury.- Não precisa temer Milady, eu te protejo.
Um sorriso forma no rosto de Emma. Como ele era insistente, porque não havia já desistido dela (como todo mundo)?.- Já disse para me chamar de Emma, é menos estranho “pirata”.
– Bem “Milady”.... E eu acho que já disse para me chamar de Killian, não sou um pirata.
– Hmmmm.- A loira leva a mão ao queixo pensativa... ou tentando parecer.- Pirata combina mais com você.
– Que garota implicante- Ri ele.
– Oh- diz Emma em meio a risos- você não viu nada... Pirata.
***
Nos momentos seguintes eu quase morri, talvez esteja exagerando... Não, não estou exagerando. Eu quase morri! Só o que sinto é as mãos do Killian em meu corpo . Apesar dos meus protestos, ele começou a fazer cócegas pelo meu corpo inteiro, me fazendo gritar desesperadamente a cada toque de brincadeira. Okay... Talvez eu esteja exagerando um pouco, mas eu fiquei sem ar e ao ver o riso vitorioso de Killian, pulei em cima dele fazendo o mesmo.
– Agora é hora da vingança paspalho!- Levo minhas mãos a sua costela... e nada. Levo minhas mãos a suas pernas... e nada. Levo, já com o semblante irritado, minhas mãos ao seu áspero pescoço... e nada, somente no fim dessa tentativa falhada que me dei conta do obvio.
–Não vale! Você não sente cosquinha, isso é uma injustiça contra minha pessoa.
– Eu não acho loirinha.
Aquele garoto me tirava do sério. Começo a rir desesperadamente e sento ao seu lado analisando junto a ele as ruas daquele bairro assustador. O bairro estava em penumbra total, me fazendo conseguir ver algumas formas andando por ela. Talvez demônios da noite seja um nome forte para eles... Garotos perdidos soava melhor.
Lembro imediatamente de uma noite na casa dos meu primeiros pais adotivos, conheci lá a maioria dos filmes da Disney e dentre deles estava o Peter Pan, sinceramente esse filme nunca me persuadiu completamente. Para mim Pan era o demônio da noite. Era ele o motivo de corromper a infância. E Pan estava perambulando através de cada canto daquele bairro: Voando entre os prédios, na neblina da noite e no húmido sereno que tomava conta das ruas conturbados daquele bairro. Tudo isso para se alimentar da infância de meninos perdidos. Pan era o bairro. Pan era a morte. Pan nunca falha e é por isso que precisa ser mais que um menino perdido.
– No que você está pensando?- Diz Killian dispersando meus pensamentos.
– Pensando... Nos caras que andam lá em baixo- Não queria contar aquilo para ele, então mudo de assunto.- Você me disse que era de um outro mundo. Me conte sobre ele, não consigo dormir.
–Bem acho que você não iria acreditar, mas conto sim.
Killian me puxa para me por no seu colo de forma delicada e doce, fazendo em que minha cabeça fique em seu definido ombro e o resto de meu corpo dispersado pelo chão e pelas suas pernas. Eu juro que tentei relutar mas parece que meu corpo não me obedecia e então ele levou a sua mão ao meu cabelo, nunca tinha recebido um carinho antes e gostei da experiência, por mais que ela me assustasse. Sorri; e pela primeira vez, eu sorri de verdade.
– Meu mundo é bem diferente do seu, para começar há magia. Magia que até eu desconheço completamente. Mas as vezes a magia não é algo bom de se ter já que até mesmo lá tem pessoas más com más intenções. Meu irmão disse que meu pai nos deixou por causa dessa droga...
–Você também foi abandonado?- Meu coração acelera e olho para seus profundos e misteriosos olhos azuis. Ele era como eu: Um órfão.
– Sim fui e nem sei bem o motivo- Continua ele- A única coisa que me lembro do meu pai foi o colar... Bem, na verdade eu não lembro meu irmão que me disse.- Sinto ele se mexer. Ele estava tirando dois colares que havia sido escondido pela sua estranha roupa colonial.- Ele me disse que uma mulher poderosa, uma feiticeira, havia dado para ele há anos atrás. Eu não sei o porque dele me dar mas não consegui tirar, mesmo que ele tenha nos abandonado. Desde que ele fizera isso, meu irmão cuidou de meu crescimento e minha educação, cuidamos um do outro para falar a verdade.
Meus olhos estava já lutando para se manter abertos mas mesmo assim eu sentia uma adrenalina em meu corpo que eu não sabia descrever, mas foi quando somente ele tirou seu casaco grosso de algodão e pois em mim que eu decifrei. Decifrei ao sentir seu toque percorrer meu corpo e arrepiar minha espinha. Decifrei a séculos atrás ao olhar em seus olhos penetrantes azuis. Como eu era tola e ingênua! Eu estava me apaixonando por aquele “pirata” de olhos azuis cativantes e sedutores. Não devia... Ficar...com ele....devia me afast....Tudo fica escuro e flutuo por horas em meus sonhos, em meu mundo.
***
Oh quem manda dormir tarde da noite. Tento em uma tentativa falha de abrir meus olhos, parecia que eu tinha levado uma pancada na cabeça.
Ponho as mãos a cabeça em tentativa de fazer com que a dor diminuísse, porém nada acontece, por algum motivo nem forças para separar minhas mãos eu tinha. Mesmo com uma dor estrondeante, me forço a ser forte, afinal de contas eu só tinha dormido tarde.
Consigo em fim abrir aos poucos os olhos sem que a cabeça doesse tanto. O ambiente estava desfocalizado e somente conseguia ver borrões, fazendo-me reclamar da dor com um grunhido.
–Killian- chamo sem nenhuma resposta.- Killian?!
De repente a dor de cabeça sumiu e tudo voltou a ficar bem claro. Killian havia fugido. Como eu era idiota em acreditar que podia me dar o luxo de confiar em alguém.
– É hora de crescer Emma... É hora de crescer...- digo para mim mesma.
Sinto alguém vir até mim por trás. Estava tão perto que podia sentir a respiração bufar por trás de meu pescoço. Meu coração para e fico com meu corpo congelado.
–Ora, ora, ora... Depois eu que sou o louco do outro mundo! Pelo menos não falo sozinho comigo mesmo.
Posso até ouvir minha respiração sair pelo nariz com tom de alívio, até aquele momento não tinha percebido que tinha prendido minha respiração.
– Seu idiota, não faz isso comigo- Rindo vou bater nele que sorri.- Aonde você estava?
– No meio de noite eu voltei inexplicavelmente para meu mundo e... Bem, voltei! Tentei trocar algumas mercadorias para podermos comer, mas parece que não estavam feliz com um cordeiro em troca.
Rio- tente algo mais verde como... Dinheiro.- Reviro os olhos- Mas não tem cogitação de conseguirmos isso. Vamos ter que conseguir alimento de um método mais difícil.
***
– Quando eu disse que não era pirata eu não estava brincando.- Eu podia sentir seu nervosismo daqui. Seu coração estava pulsando até mais que o meu.
– Eu sei “pirata”, mas é o único jeito de nos mantermos vivos e.... Bem eu não como a três dias.
–Parece justo- Vitória! Sorrio com minha vitoriosa.- O que devemos fazer?
– Siga-me.
De fato nunca tinha roubado nada, no máximo uma barra de chocolate de uma mulher descuidada, mas nunca de uma loja. Meu coração pulsava e me sentia insegura, mas era preciso, daqui a pouco eu podia virar zumbi e desejar comer cérebros e com esse estomago gritando de fome, isso não ia demorar muito para acontecer.
– Quando eu der sinal, você fingi cair no chão... Entendido ?
– Entendido.
***
O supermercado era mais fácil de se roubar que eu imaginei, pelo seu estado aposto nem ter câmera de segurança. Era composto por uma porta quase que totalmente comido por cupins e intermináveis goteiras.
Os choros de crianças que tomava o local perfurava meus ouvidos e penetrava em minha cabeça, mas segui segura para a sessão de biscoitos mesmo assim. Em cada prateleira via-se serezinhos se mexendo e relutando para viver. Meu estomago virava só de pensar em encontrar um desses bichos nos pacotes.
Sem escolha pego um pacote de biscoitos de chocolate que eu nunca vira em minha vida, já que nas prateleiras daquele supermercado havia mais insetos que alimentos. De repente uma ânsia de vomito sobe em minha garganta, mas não havia tempo para isso... Tinha que mandar o sinal para Killian que estava olhando as revistas a uma distancia razoável.
Os choros se cessam a gritaria se cala deixando o local em completo silêncio. Um silêncio que me deixaria desconcertada se não fosse proposital. Eu estava no chão grunhido de “dor”, fingindo relutar ao meu certo desmaio. Sinto pessoas se aproximarem. “Merda”, cadê Killian? Oh não, sabia que não devia confiar nele! Agora estou em uma enrascada. Mais pessoas se aproximavam se questionando se eu ainda respirava. Espero que Killian não volte mais para me ver, se não ele é um homem morto!
– Lena?!- Uma voz familiar surge em meio a multidão. Solto um então suspiro aliviado que parece que durou uma eternidade.- Irmã, o que ouve?
– A mina estava pegando os biscoitos e “bum”, desmaiou.- diz uma voz aleatória, parecendo vir de uma mulher.
– Podemos leva-la ao hospital. Se a gente esperar a ambulância, vamu empacotar junto com ela.- Agora era o que soava uma voz de um garoto. Espera? Hospital? Merda, merda!
– Eu levo-a até o hospital, não se preocupem, podem voltar a seus afazeres.- Diz Killian com uma voz alterada que eu chuto ser por causa do nervosismo.
E então sinto ser carregada pelos braços de meu pirata. Abro um dos meus olhos para espiar o local que voltou a sua vida normal de tentar sobreviver a esse bairro enfermo.
Quando ele finalmente me larga no telhado do prédio em que estávamos, luto para por meu semblante raivoso e viro para ele.
– Qual é o seu problema? Eu não disse para você ir até mim assim que meu sinal fosse dado?
– Um simples obrigado resolveria tudo.
– Ah é? Obrigada a quase me por numa encrenca?
– Não “Milady”, à isso aqui...
Chocolates, garrafas de refrigerante , balas e centenas de salgados caíram de todas as partes possíveis de sua roupa. Estávamos ricos. Sorrio com aquele arco-íris caindo em minha frente. Existia o pote de ouro no final do arco-íris e estava bem a minha frente, me chamando para ser comido.
– Sempre soube que havia um pirata em você “pirata”- Falo delirando de alegria.
– Isso não foi pirataria e sim sobrevivência.
– Que seja pirata, vamos nos divertir com sabedoria.- Falo voltando a ficar séria, mas confesso que não tiro os olhos daqueles lindos doces e salgados me chamando para me deliciar.- Um dia os alimentos vão acabar e teremos que mudar nossa tática.
–Formamos uma ótima dupla.- diz ele sorrindo levantando uma de suas sobrancelhas marotamente
– Uma dupla extraordinária
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