Diga-me que isso não é verdade. Eu jamais poderia imaginar que toda aquela vida poderia escapar tão facilmente de seus olhos azuis, minha jovem dama. Afinal, eu estava bêbado. Se tentei te atacar foi apenas uma alusão do destino. Oh, minha doce amada. Como pôde partir?

Sempre imaginei sua pele alva borrada com o belo sangue. Você era tão branca, tão pálida, mas suas bochechas sempre coravam quando eu me aproximava.

Minha flor... Minha mais bela flor... Como pôde murchar com um simples corte sendo que eu te dedicava todo meu cuidado?

Seu corpo estava imóvel no chão, o sangue cobria-o por inteiro. Seus lábios estavam vermelhos, tingidos.

Ajoelhei-me, largando o pedaço de vidro, respirando com dificuldade, virando minha cabeça de lado e encarando-a. Seus olhos estavam sem vida, mas como, poderia eu, ter reparado nisso? Para mim, em meu estado de loucura, ela estava olhando para mim... Para mim!

- Meu amor – sussurrei, abrindo um sorriso um tanto maluco ao olhar para ela. Agarrei-me ao seu corpo cheio de sangue. Beijei seus lábios várias vezes, sendo que, em nenhuma delas, prolonguei o beijo, apenas encostava meus lábios quentes aos seus frios – Meu amor – murmurei novamente – Você continua linda... Você está mais linda do que nunca.

O sangue escorria por seu vestido branco, manchando-o.

Eu comecei a rir. Minha risada foi tão alta que deve ter alcançado os ouvidos de todos da vizinhança. Uma risada que parecia um choro. Mas eu ria, mesmo com as lágrimas caindo pelo meu rosto.

- Lizzie – eu murmurei, encostando minha face à dela – Minha pequena e bela Lizzie... Por que não me responde? Passei a mão em meu rosto. As lágrimas não eram mais lágrimas. Eu as enxergava como sangue. Seria o sangue de Lizzie em meu rosto...? Ou seria o meu próprio? Seria fruto da loucura? Seria apenas minha perturbação?

- Oh, Lizzie! – eu a chamei mais uma vez, beijando seus lábios com gosto de sangue, beijando tantas vezes seu pescoço, beijando tantas vezes o machucado que se formara próximo ao seu peito – Minha Lizzie... – parei, separando-me um pouco dela e olhando-a como se zombasse de seu estado – Como poderá agora dizer que quer me deixar? Que não me ama?

Passei uma de minhas mãos em seus cabelos negros e lisos. Tão bem cuidados. Eu costumava envolvê-los com delicadeza. Mas não agora. Agora eu praticamente os arrancava de sua nuca, querendo vê-la abrir sua boca e reclamar. Mas você não iria fazer isso. Não agora.

Você sempre aparecia provocante na minha casa. Usando um espartilho apertado que realçava seus seios. Você aparecia com seus lábios escarlates e beijava minha bochecha demoradamente, indo avançando aos poucos até os meus lábios. Você era linda. Não foi difícil me apaixonar por você. Não foi difícil cair por seus encantos.

Sempre usava cores fortes em seu vestido. Mas, principalmente, ficava linda de vermelho, Lizzie. Talvez porque fizesse contraste com sua pele branca. Mas, independente da cor do vestido, seus lábios eram sempre escarlates. Não sei se é por causa de algum batom, pois ele nunca me manchava. Mas ela sabia me seduzir. Sempre soube.

Ela chegava e sussurrava meu nome em meu ouvido. Ela poderia parecer forte com toda aquela onipotência que transmitia, mas sempre era frágil em meus braços. Então, ela chegou hoje, com um vestido branco, que transmitia toda a pureza que ela não possuía, segurando um guarda-chuva cheio de rendas, se aproximando de mim e dizendo que iria embora, que não poderia mais ficar.

Então, eu questionei a razão. Lizzie ficou pálida, apoiou-se na mesa e ficou olhando-me e suspirou.

- Não te amo mais – foi o que ela disse, num tom normal, tão sério e calmo. Parecia realmente que não estava mentindo.

Como? E todas aquelas juras de amor? Todas as noites passadas em claro? Aquele prazer contínuo? Oh, minha Lizzie, estaria você se sentindo bem para me dizer uma coisa dessas?

Agarrei um tanto sem ar a garrafa de uísque em cima da mesa de canto. Ela ficou me olhando nervosa. Arranquei a tampa com os dentes, bebendo goles grandes.

- Não me ama? – perguntei, rindo um tanto demoniacamente. Ela aproximou-se um pouco de mim.

- Não, Stephan, pare – ela sussurrou próxima a mim, me fazendo desejá-la um pouco mais. Quis de novo possuí-la, nem que fosse por alguns instantes. Ela encostou suas compridas unhas na carne da minha mão, tentando afastar meus dedos com delicadeza da garrafa, tentando segurá-la com a outra mão. Em um ato de fúria, talvez causado pelo álcool, bati meu braço nela, sem medir forças. Ela estava tentando me atrapalhar no meu momento de refúgio, por que não faria aquilo? Ela acabou caindo no chão, encostada à parede. Eu olhei-a, dando mais um gole na garrafa de uísque. Finalmente dei a ela a devida atenção.

- Lizzie... Minha doce Lizzie – sussurrei, me aproximando e jogando a garrafa de uísque no chão, deixando-a quebrar-se em pedaços, abaixei e agarrei um dos maiores, cortando de leve meu dedo ao pegá-lo. Já havia bebido o bastante para me considerar bêbado e fora de mim. Fui me aproximando dela. Ela estava um pouco receosa, afastando-se ainda estirada ao chão, olhando-me estranhamente – Por que me olhas desse jeito? Ela não respondeu, apenas afastou-se ainda mais.

Como se estivesse... Com medo.

Mas... Por que ter medo de mim, Lizzie? Ajoelhei-me, passando meu dedo com aquele pequeno fio de sangue em seu rosto. Ela não pareceu ter medo. Ela até segurou minha mão contra seu rosto, apesar de eu senti-la tremendo.

- Oh, Stephan – ela agarrou-se ao meu corpo, abraçando-me, distribuindo beijos por todo meu rosto. Foi um ato estranho agarrar o corpo dela com força, sentindo novamente o cheiro das flores em sua pele alva – Como poderia eu não te amar? – ela falou aquilo com tal desespero que até me deixou nervoso. Tomei cuidado, mesmo zonzo, para não encostar aquele pedaço de vidro em sua pele, por mais que minhas mãos quisessem apertá-la como nunca.

- Por que vai embora então? – questionei finalmente me colocando em meu lugar, afastando-a de mim. Pude notar as lágrimas brilhando enquanto desciam por sua face.

- Stephan – ela murmurou, engolindo em seco – Você não entenderia...

- Como não entenderia?! – berrei – Mulher, você me confiou todo o seu ser! Como não pode confiar uma simples frase a mim?!

Ela permaneceu me olhando com os olhos bastante arregalados. Depois olhou para as próprias mãos, brincando entre si nervosamente.

- Stephan, meu amor – ela só foi capaz de responder isso.

- Oras, cale a boca! – eu berrei mais uma vez, segurando seu braço com raiva, com a mesma mão que segurava o pedaço de vidro – Você disse que me amava! Que iria ficar para sempre ao meu lado e...

- Stephan, solte-me. Está machucando...

- Agora está dizendo que vai embora – continuei, ignorando-a – Por que irá me abandonar, mulher?! - Stephan, solte-me! – ela berrou, desvencilhando-se da minha mão, fazendo-me abrir um grande corte do meio de seu antebraço até perto de seu pulso – É exatamente por isso que eu não posso mais continuar com você – ela disse, respirando com dificuldade. Cada vez mais as lágrimas corriam por seu rosto. Eu fiquei olhando abobado o machucado em seu braço. Agarrei-o, mesmo que ela tentasse se soltar de mim. Aproximei minha face dele, beijando toda a extensão do corte, sem realmente encostar minha boca, com delicadeza, sem machucá-la – Stephan – ela chorava cada vez mais – Você é doente – arregalei meus olhos, parando de beijar seu braço, prestando atenção em cada palavra que ela dizia – Ficar com você só me faz mal. Eu não posso mais agüentar viver desse jeito.

- Lizzie – eu a chamei, olhando-a quase com um sorriso, embora minha expressão demonstrasse loucura. Por quê? Por que ela tinha de partir? Por que estava me chamando de coisas que eu não era?

Ela tentou levantar-se do chão, mas segurei seus dois braços com força, fazendo-a ficar.

- Stephan, me solte – ela disse certa de suas palavras, mas eu não a larguei – Stephan! – ela repreendeu-me, falando um pouco mais alto dessa vez.

Coloquei-a contra a parede, beijando toda a extensão de seu pescoço, brincando com seus cabelos, enquanto ela emitia palavras de resistência.

- Stephan! – ela finalmente me empurrou para longe.

- Lizzie, por que faz isso agora? – eu perguntei, olhando-a – Se antes era você que me desejava e que me queria por perto, que pedia meus beijos... Lizzie... Por quê?

Seus lábios começaram a tremer, ela ficou apenas olhando-me, receosa de fugir, com medo de não responder minhas palavras ditas com tal desespero.

- Porque... Tudo que não podemos abandonar só nos perturba – respondeu Lizzie – Eu vou te abandonar antes que veja a necessidade de não poder me afastar.

- Será que não percebe que eu já não posso me afastar de você?! – berrei. - Então eu te perturbo – ela refletiu – Exatamente por isso que devo ir embora... Não estou fazendo isso por mim, Stephan.

- Não vá me dizer que está fazendo por mim – eu ri cheio de sarcasmo, olhando-a com um grau de superioridade – Você está ficando maluca se pensa que isso vai me fazer bem.

- Vai – ela tentava ainda, inutilmente, acreditar nas palavras que saíam de sua boca – Com o tempo vai, Stephan. Acredite em mim.

- Com o tempo uma ova! – dizia cada vez mais alterado – O tempo não tem nada a ver com isso, Elizabeth! Você só quer uma desculpa idiota para poder me deixar! Sua hipócrita!

Ela respirou com certa dificuldade, colocando uma das mãos no coração, olhando para mim e deixando a luz do luar dar certo brilho em suas lágrimas. Mesmo assim, tentei evitar seu rosto. O pedaço de vidro continuava em minhas mãos.

- Eu preciso ir – ela disse, tentando deixar sua voz no tom normal e se afastando ainda sem afastar seu olhar de mim, como se eu fosse sentir pena e dar um beijo em sua boca, dizendo-a para voltar. Ela realmente era uma mulher hipócrita.

Quando ela já estava bem perto da porta, virou-se para mim, fungou mais uma vez e disse a gota d’água: - Eu... Não sei como pude te amar, Stephan – arregalei meus olhos e, como uma mulher em fúria, taquei a coisa mais perto de mim em sua direção, que, nesse caso, era o caco de vidro em minha mão. Ela arregalou os olhos ao sentir aquele pedaço pontiagudo perfurando perto de seu peito. Ela levou as mãos até ele, mas sem ter coragem de tirá-lo. Caiu no chão, respirando com dificuldade – Stephan... – ela chamou.

Aproximei-me dela, apenas para aprofundar com meu pé aquele ferimento, fazendo o pedaço de vidro entrar nela com prazer. Mulher... Hipócrita. Eu que não deveria saber como pude te amar.

- Ste... Phan – ela murmurou com dificuldade. Aquilo me fez pisar ainda mais no vidro, fazendo-o adentrar àquela carne. Suas palavras só atrapalham sua beleza, minha querida Lizzie. Então... Cale a boca. Ri um pouco de meu próprio sarcasmo. Porque, se ficar quieta, nunca mais poderá dizer que não me ama. Será como uma boneca em minhas mãos. A mais bela das bonecas.

E pensar, que até o último segundo, eu te amei...

Não aquela boneca em minhas mãos, mas aquela selvagem, forte, que proferia palavras de amor e ódio quando bem entendia.

Te amei como você era, Lizzie. Até o meu último suspiro, te amei como Lizzie.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!