Skyrim: Crônicas do Dragonborn. Vol.I
38 O Carniceiro
– Fus RO DAH!!! (Força EQUILÍBRIO EMPURRAR!!!)
O grito do Draugr espectral ecoou por todo o templo tomado pelo gelo. O bloqueio do escudo de Ysgramor conseguiu manter Lydia com os pés no chão, mas ela sentiu que foi por muito que não foi jogada.
A guerreira estava na região mais profunda das Ruinas de Yngol, uma ruína quase completamente tomada pelo gelo. Ela estava lá acompanhando o dunmer Chebesci Sulnarun, que vinha estudando a cultura Nórdica. Acompanhando-o, ele explicou a ela que aquelas ruínas eram a sepultura do filho mais velho do lendário Ysgramor, Yngol, que morreu em um naufrágio no mar dos fantasmas em sua excursão na volta para Skyrim após a Noite das Lágrimas.
Explorando a ruína, eles esperavam esbarrar com vários draugrs da tripulação de Atmoriano guardando a ruína. Porém, o local parecia quase limpo. Todos os cadáveres encontrados eram cadáveres comuns. O único draugr que encontraram foi a manifestação espectral do próprio Yngol, que tinha brotado de seu esqueleto sentado em um trono na última e principal sala da tumba. Era esse fantasma com quem a nórdica lutava, enquanto o elfo negro se mantia distante, evitando o combate.
A criatura brandiu seu machado de guerra e tentou golpear a lincantropa, que rapidamente bloqueou o ataque com o escudo, o colocando acima de todo o corpo. Se recolhendo, mas vendo uma possível oportunidade, ela tentou lhe acertar com um golpe de sua espada na perna da criatura, porém sua espada a atravessou, deixando a Housecarl confusa.
– Ele é um fantasma! — Gritou Chbesci de longe — Só é possível tocá-lo com uma arma encantada ou feitiço.
Nesse momento Lydia sentiu falta do Wuuthrad. Ela não possuía uma arma encantada em mãos, e não conhecia nenhum feitiço. A sua única esperança era que talvez sua forma de lobo pudesse ferir o espectro de alguma forma.
Enquanto ela pensava, algo a pegou de surpresa. Ela não percebeu quando o Draugr parou de golpear em vão o escudo e mudou sua tática, a fazendo ser atingida pelo machado na cabeça, sendo arremessada e atingindo uma parede com todo seu peso. Se não fosse pelo seu elmo em sua cachola, que voou longe, entortado após ser atingido, a nórdica teria ido pra vala ali mesmo.
Ela tentou levantar, meio tonta e ainda sentindo um pouco do impacto na lateral da sua cabeça. Ao olhar para o lado, viu um cadáver mumificado em um vão na parede. Ela percebeu junto ao cadáver uma espada nórdica antiga. Pareceria uma arma qualquer, se não fosse por um curioso brilho avermelhado que emanava dela.
Foi instintivo. Ela pegou a espada, largou o escudo, e com as duas mãos segurando a espada, avançou com tudo contra o Draugr.
A espada atravessou Yngol ao meio, o seu brilho avermelhado se transformou em chamas que rapidamente se espalharam e inflamaram cada centímetro da manifestação, que soltou um estridente grito de agonia enquanto era consumido pelo fogo, se desfazendo em ectoplasma derramado no chão.
Tendo finalizado o monstro, Lydia cai de joelhos se apoiando com a espada, meio cansada. Ela se levanta quando o dunmer se aproxima dela.
– Oh, muito obrigado, senhorita Lydia! Por um momento pensei que tivesse sido morta.
– Você tem certeza que essa era a ultima sala?
– Tenho sim. eu vi o que parece ser a saida logo a frente. Pretendo ficar aqui depois que a senhorita partir.
– Bem, então acho que falta eu receber a minha parte.
– Su-sua parte? — o elfo começou a suar frio.
– Sim? Você prometeu me contar o que sabe sobre o assassino que tem atacado Windhelm.
– Ah, sim. Sobre isso… — ele começou a coçar a propria nuca, nervoso, o que fez a guerreira fechar o semblante.
– Diga. — ela mandou, com cara de poucos amigos.
– Então, eu na verdade não sei quase nada sobre o assassino. Apenas falei que sabia algo para que você pudesse me ajudar.
– Você está me dizendo que eu enfrentei um fantasma draugr, perdi meu elmo, quase perdi a cabeça literalmente e me distanciei da minha missão atoa?
– O-olha. Vamos fazer o seguinte — ele começou a se aproximar do esqueleto do falecido Yngol, que se encontrava no trono do centro da sala, ainda vestindo sua armadura — vamos fazer o seguinte: eu pretendo levar a armadura de Yngol para estudá-la em meu local de trabalho depois que eu terminar por aqui. Mas você pode ficar com o elmo se quiser. Do que acha.
– Só o elmo? Você me enganou e acha que vou me satisfazer com um elmo?
– OKAY, A ARMADURA TODA! Mas leve só o elmo por enquanto. Eu realmente preciso levar o resto para estudar. Eu juro que quando eu terminar, tentarei entrar em contato com você para que possa levar o resto.
Ela bufa, frustrada, ao mesmo tempo se rendendo.
– Eu não sei se deveria mesmo confiar, mas tudo bem. Eu lhe dou 1 mês, entendido?
– Lhe agradeço, senhorita. Farei bom proveito desse tempo. Não vai se arrepender.
– Eu acho bom mesmo.
Ela então se aproxima do esqueleto e tira o elmo, que era um elmo muito semelhante a um elmo muito usado por Draugrs Supremos, sendo amplo e adornado com longos e chifres apontados para cima, tendo uma leve malha de aço cobrindo a boca como única característica que o diferenciava. Enquanto colocava o elmo em sua cabeça, o estudioso chamou novamente a atenção da guerreira.
– A propósito. Para não dizer que eu não sei absolutamente nada, eu sei que o assassino é conhecido como Carniceiro, e que ele usa ferramentas de embalsamar. Não sei se ele mata suas vítimas com elas, mas as usa nelas.
– Como sabe?
– A alguns dias eu estudei as ferramentas com a velha sacerdotisa de Arkay nas catacumbas de Windhelm, que as usa para preparar corpos, e ela me explicou, enquanto preparamos uma das vítimas do Carniceiro, sobre como os cortes nos corpos delas eram muito precisos.
A nórdica coçou o nariz enquanto raciocinava aquilo.
– Olha, não é muito, mas ao menos já é alguma coisa. Obrigada.
– Otimo! Fico feliz de ser de ajuda.
– Mas ainda vou querer o resto da armadura daqui 1 mês.
– Oh, sério?
***
Nur subia a escada lateral do lado de fora da taverna Hall da Lareira, indo em direção a porta que dava no salão. Ao adentrar, ele se aproximou de uma mesa no canto do salão, onde Inigo, Barbas e Derkeethus estavam, e se sentou junto a eles.
– O que houve? — perguntou o argoniano de chifres — Paressce desanimado.
– Eu tinha feito um acordo com Torbjorn Shatter-Shield. Eu basicamente presscisava levar para ele um amuleto de Arkay. Quando achei esse amuleto na mansssão abandonada, — ele diz tirando o estranho amuleto com caveira de jade em seu centro — pensssei que fosse o amuleto que procurava. Masss aparentemente não é. Torbjorn disssse que o amuleto de Arkay cossstuma ter uma pedra vermelha no sscentro com um adorno em volta em forma de uma essstrela de 8 pontasss.
Ao ouvir o irmão, o argoniano mais claro começou a lembrar de ter visto um amuleto desse em algum momento, apenas não lembrava de antemão de onde.
– Bem, de qualquer forma. Vamosss nosss focar por enquanto na nossssa misssão atual. Vamosss esssperar a Lydia voltar, dissscutir o que achamosss, e então vamosss atrásss de dessscobrir o que é esssse amuleto.
Depois de alguns minutos, a porta do salão foi aberta novamente. E quem adentrou foi Lydia, usando agora um novo elmo em sua cabeça.
– Ah, olha! vosscê finalmente voltou, Lydia — cumprimentou o Dragonborn — E então? Como foi? Desscobriu algo?
A licantropa bufou enquanto sentava à mesa junto do resto da caravana.
– Quase nada. Fui enganada. O cara tinha dito que sabia de algo só para me convencer a ajudá-lo. Sinto muito, senhor Nur.
– Essstá tudo bem. Pelo menosss vosscê conssseguiu um novo elmo. — ele respondeu, indicando com a cabeça para o novo equipamento dela.
– Masss então — o ladino interrogou — não dessscobriu nada messsmo?
– Bem, ele me deu uma informação para eu não sair totalmente de mãos abanando. Ele me disse que o assassino é conhecido como “Carniceiro” e que ele usa ferramentas de embalsamar nas vítimas. Talvez ele até as mate com elas.
Aquela resposta ativou mais uma memória recente do argoniano de chifres.
– Otimo. — disse Nur — Acho que podemosss comessçar a colocar asss nossssasss evidenssciasss a mesa.
***
Nos escuros e espremidos corredores do Palácio dos Reis, a Caravana do Dragão adentrava os interiores mais fundos do castelo, pouco frequentado por aqueles que não eram guardas ou membros da corte. Depois de juntarem as pistas, o grupo estava indo em busca do mago da corte de Windhelm, com o intuito de entender finalmente o que era a única pista que eles ainda não entendiam: o misterioso amuleto de caveira.
Ao chegarem ao fim do corredor, eles encontraram uma sala um pouco mais iluminada, mas ainda bastante escura, iluminada por uma vela em uma mesa no centro da parede paralela a porta. Em frente a essa mesa, se encontrava um velho nórdico de costas para eles, coberto por um largo manto azul escuro, uma vestimenta típica da maioria dos magos.
– Er… Com Lisscenssça.
O homem se vira ao ser chamado. Recebendo seus visitantes de maneira pouco amistosa.
– Quem são vocês?
– Er… Eu sssou o Nur Dragirisss. O Dragonborn. Vosscê é o mago da corte?
– Eu pareço outra coisa para vocês? Wuunferth o Sem Vida, é como me chamam. O que fazem no meu laboratório?
– Bem, nosss achamosss esssse colar que…
– Colar?! — interrompeu o mago — eu tenho cara de joalheiro? Vão embora e me deixem em paz. — ele volta ao que estava fazendo, dando as costas ao grupo.
– Essscuta! — o guerreiro disse, clamando por atenção- Nósss essstivemosss invessstigando o caso do assssassssino em ssserie da sscidade. Achamosss esssse colar em um altar, em uma sssala sssecreta que aparentemente era onde o assssassssino ssse essscondia. Acreditamosss que ele tenha ligassção com algo de natureza mágica, e queriamoss ssaber ssse o sssenhor consssegue identificar.
Ao ouvir aquilo, o nórdico ficou em silêncio por alguns minutos, pensando naquilo. Ele então estendeu a mão, ainda de costas para eles.
– Me dê esse negócio de uma vez.
O dragonborn entrega a joia a Wuunferth, que ergue o amuleto acima da sua cabeça, tentando conseguir uma boa iluminação.
– Tudo bem, vocês têm razão. Eu sei o que é isso. Mas antes, digam, me? Havia mais alguma coisa no altar?
– Apenas uma poça de sangue e um diarrio falando sobrre algo que é chamado de “Atrronach de Carrne”. Porrque a perrgunta?
– Porque esse é o Amuleto do Necromante. Um totem lendário almejado pelos usuários da magia negra da necromancia. Esse um dia objeto já pertenceu ao próprio Mannimarco, o Rei dos Vermes.
O grupo não pode esconder suas expressões atônitas ao ouvir aquilo. Não pelo que aquilo implicava quanto ao assassino. Todos já tinham uma ideia. Não, a surpresa era pela origem de tal objeto. Apesar da peculiar aparência, ninguém da caravana podia imaginar que aquela bijuteria seria tão antiga e que poderia guardar tão profana origem. Inigo sentia até mesmo um arrepio na espinha. Quantas almas teriam sido sacrificadas para a criação daquele artefato.
– Err… Então não tem muita novidade sobrre o assassino em si, não é?
– Bem, para vocês, talvez. Mas vocês não são os únicos investigando o assassino. — O homem então tira de um canto de sua mesa um mapa e o abriu, ainda na mesa. — Em meu tempo livre, eu também vinha investigando o assassino. Como ando muito ocupado com os assuntos da corte, não tenho tido tempo para ir aos locais do crime. Então não conheço suspeitos, não sei como tem matado as vítimas e até a pouco também não sabia seus objetivos com isso. Mas percebi seu padrão de ataque.
– Padrão de ataque? — questionou Lydia.
– O assassino ataca apenas em uma noite de fredas. E sempre em um local diferente.
– Essspera, fredasss? — Derkeethus se espantou — Hoje é fredasss!
– E vosscê sssabe onde ele vai atacar?
– A minha principal suspeita é que será aqui — o velho nordico diz apontando para uma parte da cidade no canto inferior esquerdo do mapa — no distrito comercial da cidade.
***
A Caravana havia voltado para o Hall da Lareira, novamente sentados na mesma mesa, agora reunidos para discutir um plano, tendo em mãos uma cópia do mapa de Wuunferth.
– Bem, nós temos algumas horras até Carrniceirro atacarr. Alguém tem algum plano?
Nur coçava o queixo, enquanto olhava para o nada. Ele parecia ter pensado em algo.
– Tudo bem. Eu acho que eu tenho um plano. — Todo o grupo então se focou nele — É o ssseguinte: Inigo, vosscê e Barbasss farão uma embossscada, ssse sscertificando que o Carnissceiro irá tentar fugir pra Valunssstrad. Lydia, eu te quero esssperando prossxima da porta da casa abandonada. Vosscê impedirá ele de entrar na casa, e a partir daí o farão dar a curva e ssseguir para o outro lado da sscidade. Eu essstarei esssperando aqui — ele aponta para uma residência que ficava depois de uma ponte — na frente da porta desssa residensscia. Quando ele passssar por mim usarei um Thu’um para desequilibrá-lo. Quando isssso acontesscer, Derkeeethusss irá pegá-lo e sssegurá-lo.
– Perfeito! — disse Lydia.
– Mas esperra aí! Como é que serrá essa emboscada do começo do plano?
– Então… Essssa parte pode ssser um pouco complicada para vosscê. A ideia que eu tive é que vosscê ssse disssfarssçassse de mulher nórdica e Barbasss como um cachorro de madame.
Ao ouvir aquilo, tanto Inigo como Barbas encararam o argoniano escuro.
– Como é que é? Porrque eu? O Carrniceirro querr uma nórrdica, porrque não a Lydia?
– Queremosss que paressça uma dama inosscente. Lydia é fisicamente a maisss forte do grupo, e por isso quero ela atrásss de ssseu essscudo e com a essspada em mãosss. Eu e Derky não podemosss porque nossssasss caudass ssão muito grossssasss e rigidasss.
Aquela última frase arrancou uma fraca risada do grupo e de até mesmo algumas poucas pessoas em volta que ouviam. Deixando o dragonborn de cara fechada por ter entendido.
– Como eu ia dizendo… Nossssasss caudasss não ajudariam no disssfarssce. Elasss não sssão felssxiveisss. Já a sssua cauda é fina e prensssil. Vosscê pode juntar ela com uma dass ssuasss pernasss para disssfarssçar. E ssse vosscê mantiver o rosssto essscondido, talvezzz passsse desapersscebido a tempo.
– Você só pode estarr brrincando comigo. Eu não farrei isso.
– Ah, qual é, Inigo. Você e Barbas nem por um… — a nórdica começa a olhar em volta, procurando algo para barganhar com o Khajiit. Ela então acha um Sweetroll em uma mesa ao lado e rapidamente o pega, estendendo para o felino enquanto os que estavam na outra mesa a encaravam incomodados — nem por um Sweetroll?
De repente o estômago do arqueiro ronca, em uníssono com o do cão. De fato, mesmo já tendo comido mais cedo naquele dia, eles tinham viajado por tanto tempo que não tinham mais forças para resistir a qualquer guloseima.
***
– Eu não acrredito que estou fazendo isso.
Inigo e Barbas andavam pelos becos que levavam para o distrito comercial. Sua forma do khajiit, irritado e sem modos, contrastava com o vestido e o espartilho que usava. A vergonha só não era maior porque, com as luas se erguendo imponente acima dele, quase não se via ninguém no lugar.
– Ei, ajeita o passo, cara. Se não vai ficar visivel que é uma armadilha.
O cathay ajeita a postura, contrariado, e continua a reclamar.
– Se eu soubesse que terrminarria assim eu nunca terria aceitado a estadia naquela maldita casa.
– Do que raios você está falando?
– Longa historria.
De repente, o daedra canino parou, atento. Percebendo aquilo, o arqueiro cochichou.
– É o assassino?
– Sim. Não sei onde está, mas sinto sua presença.
Os dois então seguiram caminho, fingindo não terem percebido nada, enquanto as sombras encaravam-os.
***
Nur se encontrava em sua posição no plano, em frente a porta de uma casa com dois andares, sendo que o segundo andar se estendia acima da calçada e se ligava a um muro, formando um arco.
Enquanto esperava na frente da porta, ele começa a ouvir cochichos de trás da porta. Aqueles sons chamaram a atenção do argoniano. Se aproveitando de ter algumas gazuas, ele tenta arrombar a porta.
Uma gazua quebra.
Os cochichos continuavam do outro lado. Havia um tom sombrio neles, apesar de não ser possível distinguir palavras.
Outra gazua quebra.
De repente uma pausa nos cochichos. Essa pausa se prolongou por alguns segundos, até o barulho voltar.
Mais uma gazua quebra.
A quarta gazua finalmente conseguiu abrir a porta. Com isso, o saxhleel começou a se esgueirar para dentro da casa. A entrada dava de cara para uma escada levando ao segundo andar. Passando pela escada, ele percebeu que a casa se dividia em 3 cômodos, sendo o cômodo da escada, o cômodo principal onde ele via uma cama e uma mesa, e um terceiro cômodo que ele não via direito de onde ele estava. Poucos móveis eram vistos, e estava tudo escuro lá dentro, menos o terceiro cômodo, de onde se via uma luz de velas vindo dele.
O Dragonborn começou a se aproximar daquele cômodo, tentando fazer o mínimo de barulho possível apesar de sua armadura pesada. Ao chegar próximo do vão da porta de seu destino, ele se encostou na porta, procurando prestar atenção nos cochichos. Ele percebeu que era uma criança. Uma voz infantil soltava clamores de lá de dentro.
Ao olhar para o lado, para a mesa que ele tinha reparado antes, ele percebeu uma nota ali. Ao pegá-la e a lê-la, ela falava que o Jarl lamentava a morte da mãe de um tal de Aventus Arentino, e que ele seria mandado para um orfanato em Riften.
– Santa Mãe, Santa Mãe. — o garoto soava lá da outra sala — Envie-me teus filhos pois os pecados dos indignos devem ser batizados em sangue e medo.
O guerreiro então voltou-se novamente para o vão da porta, e começou a se aproximar, espionando. Tudo o que conseguiu ver foi a criança de costas para a porta. Ele teve que se levantar para ver. Ao fazer isso, a visão foi aterradora: à frente do garoto, um esqueleto humano com várias velas em volta, formando um círculo. Na mão da Aventus, uma adaga a qual ele usava para golpear repetidas vezes um coração humano colocado entre as costelas do esqueleto. Do lado dele, um livro e uma flor roxa, com marcas de amasso nas pétalas, como se tivessem sido apertadas contra a adaga.
Assustado com o que via, o guerreiro suspirou. O barulho, porém, chamou a atenção e assustou o garoto. Ao levantar e se virar rapidamente, ele se deparou com a figura alta de um argoniano assustador usando uma armadura pesada. Por um instante ele ficou apavorado. Mas rapidamente o pavor foi substituído por uma estranha alegria na voz do garoto.
– EU SABIA!! EU CONSEGUI!! EU CONSEGUI!!
A reação do garoto assustava ainda mais o dovahkiin. Do que aquela criança estava falando.
– Eu já estava achando que não conseguiria, mas eu consegui! Eu invoquei a Irmandade das Trevas!
– Essspera, o que? — aquelas palavras o deixaram ainda mais confuso. — Vosscê procura a Irmandade dasss Trevasss? Porque?
O garoto começa a espremer os ombros e a se retrair.
– Minha mãe, ela… Ela morreu. Eu fui mandado para um orfanato em Riften. Só que eu fui embora, por causa da sua dona. Ela é chamada de Grelod, a Doce. Mas ela não é doce. Ela mal-trata a mim e aos meus amigos do orfanato.
Ao ouvir aquilo, Nur deixou de levar o que Aventus dizia a sério.
– Ah, vosscêsss crianssçasss. Pra vosscêsss, qualquer adulto sssendo maisss rígido essstá tratando vosscêsss mal.
Ele deu meia volta e começou a se distanciar. Mas logo foi puxado novamente pelas pequenas mãos do garoto, que tentavam o puxar com toda a sua força.
– Escuta! Você acha que eu viria de Riften até de volta pra minha casa e assaltaria o cemitério da cidade pra chamar um assassino da irmandade apenas por um adulto me mandar varrer o chão?
O argoniano então para e decide ouvi-lo. Ele não o corrigiu sobre não ser um assassino, esperando para ver onde isso daria.
– Grelod não é só mandona. Ela nos tira comida se não fazemos o que ela quer nos mínimos detalhes. Às vezes ela nos tranca em um armário escuro quando nos rebelamos. joga baldes de água fria na gente se ainda estamos dormindo quando ela acorda. Ela até mesmo fechou o orfanato para adoções. Por isso eu fugi. Mas meus amigos ainda estão lá, e eu não posso apenas deixá-los.
Ao ouvir aquele relato, o saxhleel se compadeceu. As experiências que o garoto contava lhe dava lembranças. Lembranças desagradáveis de um passado que ele queria esquecer.
– Tá sscerto. Aventusss Arentino, correto? Eu vou dar uma olhada lá na prossxima vezzz que eu pisar em Riften, e vou ver o que eu fassço.
A resposta do guerreiro deixou a criança feliz, a fazendo pular de alegria de um lado pro outro, parando para abraçar o “assassino”.
– Muito obrigado, senhor assassino! Quando eu crescer, eu serei um assassino também. Assim poderei salvar um monte de crianças, assim como você!
Aquele comentário deixou o guerreiro embaraçado. Não só pelo estranho sonho da criança, ou por ela realmente achar que ele é um assassino da lendária irmandade, e ainda assim não só o admira por isso como ainda por cima abraçá-lo. Mas também porque aquele comentário ressoava de forma irônica com mais outras memórias de seu passado. Memórias que lhe traziam um desconforto terrível e às vezes até lhe tirava o sono.
– Bem, eu tenho que ir agora. Até uma próssxima, garoto.
– Tchau, senhor assassino!
O dragonborn desceu as escadas, e ao chegar na porta, começou a ouvir passos, em um relance, lembrou que tinha maquinado um plano em ação, e assim que a figura sombria passou correndo por ele, ele instintivamente gritou.
– Fusss RO!!! (Força EQUILIBRIO!!!)
O grito avançou e atingiu o Carniceiro, o fazendo desequilibrar. Esse desequilíbrio foi tudo necessário para ele escorregar em uma pedra na calçada e se arremessar para uma parede perto.
Enquanto tentava voltar a si, o assassino foi rapidamente paralizado por Derkeethus, que surgiu de suas costas, quase como se tivesse brotado das sombras, e o agarrou pelo pescoço e pelos braços, o imobilizando.
Junto de Nur se aproximavam Lydia, Inigo e Barbas, que perseguiram o Carniceiro até ali a partir de seus postos.
– Quer fazer asss honrasss, Inigo?
– Com todo prrazer, Nurr.
O khajiit vestido de mulher estala os nós das mãos, ergue o punho direito para trás, e atirou sua mão contra o rosto do assassino, desferindo um soco tão forte que o fez desmaiar.
***
Era quase de manhã quando os guardas chegaram juntos do chefe da guarda. Eles haviam sido chamados pela companheira humana do Dragonborn. Ao chegarem no local, encontraram o resto da Caravana do Dragão juntos de uma figura misteriosa amarrada pelas mãos e sentado no chão, totalmente coberta por um manto negro e uma mascara escura cobrindo seu rosto. Ver aquilo fez o superior e todos a volta ficarem surpresos. Finalmente, depois de meses a fio com mais e mais corpos indo para o necrotério, o culpado estava lá, diante deles.
– Eu não acredito. Vocês conseguiram! Pegaram o assassino!
– Exato. — confirmou Nur — E agora, poderemosss revelar ssseu verdadeiro rosssto.
– Que na verdade esssse tempo todo era…
Derkeethus começa a se aproximar da figura, pegando na máscara e a puxando para cima. O rosto revelado era de um imperial de cabelos prateados e uma rasa por fazer. Todos identificaram-no como o dono do museu.
– CALIXTO!!?? — Todos os soldados e o chefe da guarda gritaram em uníssono, surpresos.
– Mas porque? Qual o sentido disso?
– Bem… — Derkeethus começou a andar enquanto explicava — Para comessçarmosss temosss que entender o que Inigo encontrou.
– Eu e Barrbas seguimos um rrastrro de sangue até uma casa abandonada em Valunstrrad. Lá, achamos um quarrto secrreto com um altarr e bastante sangue no chão. Também haviam dois diários, um com descrrições sobrre os assassinatos e outrro com instrruções parra a crriação de algo chamado “Atrronach de Carrne”.
Aquele termo causou uma rapida comoção entre os guardas, que foi rapidamente apartada pelo ladino.
– Ssse acalmem, sssenhoresss. Permitam-nosss continuar.
– Também achamosss um amuleto — disse o argoniano com pelas — Conversssando com o mago da corte, dessscobrimoss sse tratar de um artefato que ssse chama “Amuleto do Necromante". Confirmando que o assssassssino praticava necromancia.
– Também descobrimos que o Carniceiro usava ferramentas de embalsamar para arrancar partes de suas vitimas. E provavelmente as matava com elas.
– E tudo isssso, sssenhoresss, casa com o que eu encontrei em uma essxcurssão no museu de curiosidadesss. Lá, enquanto esssse sssujeito aqui me essxplicava sssobre sssuasss essxibissçõesss, notei entre elasss um conjunto de ferramentasss de embalsssamar, e essstranhamente bem limpasss. para completar, quando essstavamosss sssaindo de ssseu museu, ele… Deixou cair… A chave de sssua casa.
– Espera, o que??!! — exclamou Calixto, abismado por saber que não foi isso que aconteceu.
– CALADO, ASSASSINO! — gritou um dos guardas — continue, argoniano.
– Bem, como eu dizia, ele deixou a chave da sssua casa cair, e desscidi invessstigar. Lá dentro encontrei… — ele então tira um pequeno caderno do bolso — esssse diário. Nesssse diario, ele paressce lamentar a morte de sssua irmã. Masss a forma como ele lamenta sssobre isssso é bem… Essstranha. Ssse referindo a ela como sssua “Dossce Lusscilla”. Ele também dizzz essxplisscitamente que essstá coletando as partesss dela com os moradoresss da sscidade, e que em breve ssse reencontrariam. E ssse compararmos a letra desssse diário e a letra dosss diáriosss do assssassssino… — Ele então abre o diario e o aproxima do chefe da guarda, junto do khajiit, que tira um dos diarios e também o abre — … Elesss tem a messsma letra.
– A conclusão que chegamosss — disse o Dragonborn — É que Calixto e Lusscilla eram maisss que irmãosss. Calixto não a amava como sssua irmã, masss como uma mulher!
– E o sentimento era reciproco. — complementou o imperial, com um sorriso malicioso no rosto.
Aquela revelação trouxe repulsa para todos a volta. Aquilo tornava toda a situação ainda mais doentia.
– Quando ela morreu, ele não assceitou — continuou Nur — então foi atrázzz e dessscobriu sssobre a antiga magia de carne. Osss assssassssinatosss foram o meio que ele encontrou para conssseguir osss recursssosss para criar um Atronach de Carne, que ssserviria como avatar para a alma de de Lusscilla. Um novo corpo para ela, em outrasss palavrasss.
– Inclusive — complementou Derkeethus — O motivo dele ter essscolhido vitimasss nordicasss ssseria jussstamente porque ela morreu de doenssça. Então um corpo nórdico ssseria ideal para evitar isssso. Ainda maisss em ssSkyrim e ssseu clima frio.
– Exato! — confirmou Calixto — e nós teríamos conseguido nos safar se não fossem por esses aventureiros incheridos e seu cão-daedra falante!
Aquela ultima parte deixou os soldados surpresos, “cão daedra falante”? Isso também deixou os aventureiros preocupados, temendo o disfarce de Barbas ter sido descoberto. Todos igualmente viraram o olhar para o cão. Que encarou todos por alguns segundos, e tentando manter o fingimento, apenas latiu e começou a expirar com a língua de fora. Indo na onda, Inigo fez um gesto de giro com o dedo no lado da cabeça, insinuando que o assassino apenas tinha enlouquecido.
– Mas espera ai — Lydia chamou a atenção — Ele estava fazendo um Atronach como corpo da irmã, não é? Mas não tinha nada no altar. Nenhum Atronach pela metade, ou qualquer parte humana significante além do sangue no chão.
– bem, sobre isso — O Carniceiro começou a explicar — faltavam ainda alguns pedaços para ela estar totalmente inteira. Até por isso eu tinha saido essa noite. Mas o básico já está funcionando.
– Esperra, o que?
– Eu a levei para minha casa antes do meu primeiro encontro com o khajiit na casa abandonada. Ela estava escondida em meu quarto durante toda a minha excursão do museu com o argoniano. E ele nem percebeu. Levei ela encapuzada, me aproveitando da confusão que vocês criaram quando chegaram na cidade.
– Vosscê essstá dizendo que…
O dragonborn não pode completar. A porta do museu foi abruptamente aberta, e de dentro dela, uma figura começou a sair rastejando lentamente. Conforme ela se arrastava, seu corpo se revelava, e seu vestido não conseguia esconder os remendos pelo seu corpo. Cada centímetro, cada parte de seu corpo tendo um tom de pele e até mesmo uma textura levemente diferente. O seu rosto era o mais chocante: uma colcha de retalhos com olhos, lábios azulados que pareciam que iriam cair a qualquer momento, olhos de cores diferentes e assimétricos em relação a posição um do outro, com um mais aberto enquanto outro quase fechado, como se estivesse caindo no sono. Em um dos lados do rosto, a pele marcava os ossos das maçãs do rosto, enquanto outro lado, inchado, era bastante bochechudo. Seu cabelo caia sobre seus ombros em alguns lugares, enquanto em outros era tão curto quanto a própria cabeça, e a bagunça de cores tornava qualquer classificação de tipo de cabelo inútil, transitando entre o ruivo, moreno, loiro, prateado, o ruivo-quase-loiro e diversas variações de tais tons.
Apenas uma palavra brotou de sua boca.
– Calixto…
– Lucilla.
A criatura se arrastou em desespero em direção ao irmão, tropeçando e caindo sobre o ombro dele. Parecia estar chorando, apesar de nenhuma lágrima sair de seus olhos. Provavelmente sabia o que estava acontecendo e o que iria acontecer.
Aquela visão assustava aqueles que viam. Não era apenas uma aberração. Eram duas aberrações.
O guerreiro se aproxima do chefe da guarda e diz.
– Sssenhor, eu acho que tive o bassstante dessssesss doisss. Então, podemosss apenasss acabar por aqui? Fizemosss nossssa parte, agora fassça a sssua.
O homem suspira e se aproxima do arqueiro.
– Khajiit. Por você e seu grupo terem nos ajudado a resolver o problema do Carniceiro, você está oficialmente perdoado de seus crimes contra a cidade. Está liberado para entrar e sair da cidade sem problemas. Peço que não volte a nos dar motivos para ir para a cadeia.
– Pode deixarr, senhorr.
– Muito bem. Agora… — o nórdico se voltou novamente para o casal de aberrações, e ordenou. — Calixto e Lucilla Corrium. Vocês estão presos por assassinato em serie e profanação de cadaveres dos cidadãos de Windhelm. Guardas, peguem-os. Vamos levá-los para a prisão. Celas separadas, de preferência. Não quero uma terceira abominação sendo criada enquanto marcamos suas sentenças de execução.
Os soldados agarraram os dois pelos ombros, os puxando para ficarem de pé, e começaram a andar, levantando-os para a prisão do palácio dos reis.
Quando a infantaria já havia desaparecido da visão do grupo, o argoniano de chifre se aproximou de seu irmão e o chamou.
– Ei, Nur. Olha sssó o que consssegui — ele então mostra um colar, com uma pedra vermelha no centro adornada por uma estrela de 8 pontas em volta. — Peguei ele no momento em que puxei a mássscara do Calixto.
– O Amuleto de Arkay! Puxa, obrigado, Derky!
– Agora poderá cumprir com aquele trato.
***
No porto da cidade, Explorador-de-Pântanos trabalhava arduamente, carregando um caixote cheio de peixes que seria levado para dentro do galpão de armazenamento. O dia nem tinha começado direito ele já havia carregado uns 20 daquele, alguns até mais pesados. Ele já tinha começado 1 hora antes do sol sair. Ele já estava acostumado a aquilo. Era dia e noite a mesma coisa de sempre. Mas isso não diminuia o desgaste físico e emocional que sentia. E a situação de carestia não ajudava. A pouca comida que pode comer, ainda foi comida muito rápido e não caiu tão bem em seu estômago.
E não havia muita esperança de melhora. Desde que conversou com o forasteiro, não recebeu notícias. Talvez tivesse partido sem realmente conversar com Torbjorn, e agora já estivesse bem longe da cidade. Ele já vinha suspeitando desde o final da tarde do dia anterior, e o temor e rancor só aumentou conforme as horas se passaram.
Porém, ao olhar para o caminho que dava para o portão da cidade, esses sentimentos de receio evaporaram. Ele pode ver o argoniano forasteiro, junto de um grupo formado por outro argoniano, uma nórdica, um khajiit e um cachorro. Além disso, ele vinha carregando um saco em uma de suas mãos. Eles desciam as escadas até as docas quando o argoniano estaleiro lhes abordou.
– HEY!! Vosscê veio! Então… conssseguiu conversssar com Torbjorn?
– Ssse eu consssegui? Não só, amigo. Como consssegui uma compensssassção pela diminuissção do sssalário de vosscêsss! Tome — Nur estende o saco em suas mãos, o oferecendo ao outro argoniano.
O estaleiro, surpreso, pegou o saco e o abre para ter certeza de seu conteúdo, estupefato e incrédulo com aquilo mesmo depois de confirmar. Ele então vira e grita para seus companheiros ouvirem.
– EI, PESSSSOAL! NOSSSSO SSSALÁRIO VOLTOU AO NORMAL, E AINDA CONSSSEGUIMOSSS UMA COMPENSSSASSÇÃO!!! — Logo depois ele jogou o saco para o alto, caindo ao chão de madeira com algumas moedas vazando pela boca, fazendo os argonianos próximos correrem para o saco, gritando de alegria.
A caravana começou a dar meia volta em direção ao portão.
– Ei! — chamou Explorador-de-Pântanos, fazendo-os pararem — Obrigado… Dragonborn.
Aquilo fez o guerreiro girar novamente em direção ao colega saxhleel. Da ultima vez que o viu, ele parecia não saber quem Nur era.
– Como vosscê…
– Asss docasss falam, meu amigo. O que sssai da boca de um marinheiro, entra no ouvido de um essstaleiro e ssse essspalha como fogo.
Entendendo o que ele queria dizer, o argoniano de penas acena e diz.
– De nada, amigo. Sssó fizzz o que era sscerto.
O grupo novamente se volta em direção ao portão, prontos para sair da cidade. Agora, sem nada no caminho deles rumo até Kynesgrove.
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