“Paty for Azarados, não perca essa!”

Parei de ler o título, analisando o bom teclado e a preguiça e revisar o panfleto, junto às inúmeras cópias espalhadas pelo bairro. Parece que em vez de “Party”, festa em inglês, engoliram o R, e virou um “Paty”, patricinha na língua coloquial (mas patricinha já é informal). Continuei lendo o restante.

“Se não viajou, venha! Chame seus amigos, também azarados, e curta! Às 7:00 da noite, no sábado!”

Ia ser legal ir, mas não tinha ninguém para me acompanhar lá. Seria muito embaraçoso dançar sozinha.

- Magali! Magali! – era ele, o moleque, o Dudu. Dudu, meu vizinho desde meus sete anos, vindo do Ceará. Tinha uma estranha manha com alimentos, até as guloseimas, mas parece que a cada ano, seu apetite se expande em seu corpo. Hoje, skatista aventureiro, vive abocanhando meus docinhos. É parecidíssimo comigo na infância.

- Nossa, Dudu, o que foi? – o garoto respirou fundo, cansado. Passou por uma corrida e tanto – Respira, com o nariz, moleque! – Dudu tinha essa mania (errada, muito errada) de respirar pela boca quando corria ou se cansava. Todos viviam dizendo para ele respirar pelo nariz, mas é impossível vê-lo cumprindo as ordens.

- Me deixa, Magali! – respirando fundo, olhou para mim – Quer ser meu par pra festa? Por favoooor! – apesar do ar de adulto que ele queria mostrar (e não tinha, claro), havia uma criança interior que o dominava.

- Por que esse estranho interesse por uma festa que... – tentei arranjar uma desculpa para não decepcionar o menino — ... Você não tem idade para ir! É! – apontei para uma pequena mancha que poderia servir como uma censura, mas Dudu não é inocente, nem ao menos burro.

- É que tem uma gatona que eu quero causar ciúmes, e não tem ninguém pra eu poder ir ao baile, então, como você é uma boa amiga, eu vou te convidar! Ela vai pro baile com o namorado, mas ela tá afim de mim, só tá causando ciúmes – Dudu tentou dar uma de “gostosão”, mas não funcionou

- Tá, tá! Dez pratas e um mês sem cuidar de você, fechado? – tirei proveito disso. Afinal, vou fazer um sacrifício por ele, o mínimo de retribuição é umas recomendaçõezinhas. Tinha mais em mente, mas não queria que ele achasse que eu fosse uma judiadora, ditadora.

- Ok... – ele começou a procurar coisas no bolso do casaco. Tirou de lá dois botões, jujubas (na verdade, só o pacote de plástico), dois objetos pequenos e desconhecidos (pretos, com um visual de inseto morto. Que nojo!)... Não acabava mais — ...Ahá! – ele tirou, finalmente, meus dez reais e me entregou – Amanhã. À noite, eu te busco!

- Prefiro ir de táxi – é ridículo aparecer na entrada de uma festa de mãos dadas a um moleque, pois na entrada, todos estão com os olhos voltados às pessoas que entram

- Nããão! Se você entrar sem mim, vão achar que é uma armação! Tem que ser real!

- As pessoas já vão saber que é tudo armação logo que eu entrar com você!

- Então, me devolve os dez reais! – Dudu estava me chantageando

- Tá, eu vou com você. Mas nada de agarração!

- Você acha que sou tarado? Só um mini-gostosão. Fui! – ele foi embora de skate. Afinal, por que ele correu até mim se tinha um skate?