Skyfall
1 Put your hand in my hand and we'll stand
Notas iniciais
À noite, Nova York conseguia ser ainda mais fascinante, com todo aquele movimento, todas aquelas luzes, a energia que pairava no ar. Mas para Poseidon era apenas mais um dia de trabalho que estava acabando, ainda bem!
Depois de ser capaz de tudo para chegar ao cargo de redator-chefe, sua posição não lhe trazia mais nenhuma satisfação. Só aumentou seu trabalho, sua dor de cabeça, sua vontade de sair correndo. Para quê mesmo ele quis aquilo? Ah, sim. Claro que, para um jovem que acabou de se formar, aquela oportunidade era de ouro, mas a competição acirrada que tivera com aquela garota desde os tempos de estudos o deixara sanguinário.
Garota. Agora ela era uma mulher, uma linda mulher por assim dizer, que trabalhava bem no prédio da frente, a concorrência. Poseidon ficara tão cego em sua luta pelo poder dentro daquela empresa que não percebera quando uma melhor ainda contratara sua concorrente.
Uma batida na porta fez com que o homem de meia idade sentado em sua confortável cadeira reclinável se sobressaltasse.
- Entre!
Hermes, um simpático aprendiz, adentrou sua sala. Ele usava óculos e carregava uma pasta nas mãos.
- Senhor, já se passam das dez, senhor... o senhor não vem, senhor? – o garoto se sentia incomodado e ansioso em sua presença, mas não de um modo ruim.
Poseidon sorriu cansado e assentiu. Ele gostava do espírito de Hermes.
- Já, já eu vou, Hermes. Pode ir para casa...
O aprendiz assentiu e disse um fraco “tudo bem” antes de se retirar. Por entre as persianas Poseidon observou as luzes da empresa se apagarem, até restar apenas sua luminária. Indo até a estante e abrindo a porta de um pequeno armário, ele puxou uma garrafa de whiskey. Derramou um pouco em um copo e bebeu lentamente, encarando a rua lá fora. Estava começando a chover e, naquele exato momento ele viu uma mulher loira e de corpo esguio sair do prédio da frente.
Enquanto sua expressão ficava mais dura e o gosto da bebida descia queimando em seu interior, Poseidon a acompanhou com o olhar. Não era apenas pelo emprego que ele se ressentia, mas por sua postura arrogante, por ela andar sempre de nariz empinado, como se fosse melhor que os outros.
Por tê-lo rejeitado com tanta veemência. Ele a odiava. Poseidon a odiava com todas as suas forças por ela tê-lo feito parecer um idiota na frente de todos.
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Athena se sentia frustrada por não conseguir um mísero táxi. A chuva começava a piorar e sua roupa já estava encharcada, seus cabelos grudentos e sua visão estava ficando embaçada. Ainda bem que não tinha trazido trabalho consigo, estressada do jeito que chegaria em casa não teria cabeça para fazer mais nada, isso se ele chegasse inteiro.
Ela sempre viveu constantemente com um humor ruim e isso se dava ao fato de trabalhar de frente para o seu arqui-inimigo. Depois de levar um fora, ele ainda teve a capacidade de tentar competir com ela.
Athena não sabia ao certo o porquê de tê-lo rejeitado – ele não era tão ruim, apenas infantil, imaturo, ridiculamente orgulhoso -, mas, mesmo assim, isso foi motivo suficiente para que ele se sentisse no direito de persegui-la pelo resto da vida.
Bufando, ela deu um passo para trás e tentou ficar sob a marquise já lotada. Odiava carros e odiava dirigir, por isso se encontrava naquela situação, mas odiava ainda mais trabalhar na frente daquele... ser.
Um táxi havia parado do outro lado da rua. Sem pensar duas vezes, Athena saiu correndo em seus saltos agulhas e tentando se proteger com a bolsa. Então, o sinal abriu, e tudo virou um borrão.
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Ele estava parado na saída do prédio quando aconteceu. Achou que era coisa de sua cabeça, vê-la ali, em sua frente, tão nitidamente, como não via fazia tempos. Tudo se passou em câmera lenta depois de Poseidon ver Athena começar a correr como a louca que é e ir de encontro com um carro cinquenta vezes maior que ela. Pronto. O estrago estava feito.
Poseidon não conseguiu assimilar na mesma hora, apenas ficou lá, boquiaberto. Ele deveria estar pulando de alegria, rindo, festejando. Mas todo aquele sangue... seu corpo todo dobrado... o cabelo grudado no asfalto e o monte de pessoas que estava se juntando ao redor.
Aquilo parecia, de algum jeito, errado.
Quando a vida voltou aos seus membros, a única coisa em que ele podia pensar era correr. Não para longe, não para casa e, definitivamente, não para um bar. Correr para ela. Ele empurrou as pessoas ao redor e gritou para passar, e ela estava lá. Era Athena. Era a mulher que assombrava seus sonhos desde sempre. Que fazia seu sangue ferver, de um jeito ou de outro. Ela estava lá, jogada no meio da rua em uma poça de sangue circundada por câmeras, flashes, idiotas.
Ninguém pareceu se dar ao trabalho de chamar uma ambulância, ninguém a socorreu. Por causa da era de tecnologia, ninguém mais pensava em fazer algo que não estivesse relacionado com propagar a informação. Ele sabia, ele era jornalista.
Poseidon não se importou quando ficou coberto de sangue. Não se importou com seu carro, nem com os olhares curiosos. Não se importou nem mesmo com sua própria consciência gritando em protesto. A única coisa com que ele se importava era com os batimentos cada vez mais fracos da mulher que carregava.
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No hospital, mandaram-no esperar. Ela tinha chegado em estado crítico, já que não tinha recebido nenhuma ajuda médica ainda. Malditos. Não servem nem para chamar uma ambulância.
Poseidon andava de um lado para o outro da sala de espera. O que estava fazendo? Por que estava ali? Parte de seu ser queria acreditar que era porque ele não poderia ficar de braços cruzados enquanto outro ser humano se esvaía e ninguém fazia nada. Mas era mentira. Em seu íntimo, ele sabia.
Ele estava enchendo o copo de café pela terceira vez quando vieram lhe avisar que Athena passaria por uma cirurgia. Poseidon respondeu diversas perguntas, falando que não era da família e não tinha nenhum contato.
- O senhor não conhece alguém por quem possamos procurar? – perguntou a enfermeira pela milésima vez. Se segurando para não virar os olhos, ele respirou fundo e lhe disse a única coisa que Athena uma vez deixara escapar.
- Olhe, até onde eu sei ela ainda tinha a mãe, Métis, que morava na Grécia, mas isso foi há muito, muito tempo. – seu olhar ficou perdido em algum ponto acima da cabeça da enfermeira e essa assentiu, finalmente conseguindo alguma coisa.
- Iremos tentar entrar em contato. Obrigada, senhor.
Poseidon se deixou cair numa cadeira e olhou para cima. Essa seria uma longa noite.
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Ele acordou sobressaltado pela vibração do celular em seu bolso. Passavam das dez da manhã e ele não tinha aparecido na empresa. Merda! As setenta e cinco mensagens e quarenta ligações perdidas provavam isso. Estava todo mundo louco atrás dele.
- Poseidon falando.
- É, eu sei que é você, depois de muito tempo, né? Onde. Você. ESTÁ? – Perséfone, sua assistente sempre muito educada, parecia prestes a ter um ataque.
- Não é porque vai se casar com meu irmão que tem o direito de falar assim comigo, ouviu? – Poseidon suspirou. – Ocorreram imprevistos... não vou poder ir hoje, desmarque tudo. Quer saber, desmarque tudo amanhã também.
Perséfone fez um barulho que parecia ser de incredulidade.
- Mas o que você está-
Pronto. Poseidon desligou a ligação sem dó nenhum na cara da mulher e depois desligou o próprio celular. A não ser que sua assistente tivesse ficado esperta da noite para o dia e rastreado a ligação, ninguém o encontraria. Poseidon não tinha parentes além do irmão, Hades. E se nem mesmo este o encontrasse, nunca descobririam que estava no hospital depois de dormir na sala de espera aguardando notícias de sua arqui-inimiga e ex-paixão adolescente depois que ele a salvou de um acidente.
Realmente, tudo estava fazendo sentido.
Até quase morta essa mulher ainda prejudica meu emprego.
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Eram quatro da tarde. Poseidon passara o dia inteiro vagando pelo hospital, comendo na lanchonete e se enchendo de café. Ele estava quase achando que tinham esquecido de sua existência quando uma enfermeira veio correndo e parou a sua frente.
- Então? – Poseidon quase sacudiu a mulher que tentava recuperar o fôlego.
- O senhor é quem veio... com a mulher... loira? – ele praticamente gritou em afirmação. – Procurei... por toda... parte! Ah. Ela está estável, senhor. A cirurgia foi bem sucedida. Não conseguimos o contato de sua mãe na Grécia, mas acredito que alguém a avise depois.
O mundo de Poseidon parecia que tinha parado. Se fosse inteligente, poderia pedir sigilo e ir embora naquele momento. Ela nunca descobriria, seu papel estava feito. Mas por que a simples ideia de fazer isso lhe parecia um soco no estômago?
- Eu posso... vê-la? – não, não, não, cale a boca!
- Venha comigo.
Poseidon mal viu o labirinto de corredores, apenas se perguntava como sairia daquilo depois.
- Geralmente não deixamos visitas entrarem tão cedo, mas o senhor parece se preocupar com ela. Por favor, não a perturbe.
Então, de repente, eles estavam sozinhos. Athena mal se mexia e estava ligada a diversos tubos, mas o aparelho ao seu lado indicava que estava viva.
Ele se aproximou da cama devagar, não querendo em hipótese alguma ser flagrado por aqueles olhos cinzas tempestuosos e espertos de que se lembrava tão bem em uma situação daquela. Nunca.
Dormindo, tão fragilizada, Athena não parecia tão perigosa e mortal. Ela era uma mulher bonita. Poseidon, na verdade, a achava linda, estonteante, como sempre. Claro que era um segredo guardado a sete chaves, mas...
Ela tinha um cabelo louro encaracolado e comprido, uma pele clara e macia, um pouco dourada de bronze, seu corpo era tão sem defeitos.
- Eu não sei o que estou fazendo aqui. – ele sussurrou. – Te ajudei e ponto, o que mais posso esperar? Você nunca vai descer desse pedestal.
Poseidon abriu um sorriso fraco e sentou na beirada da cama. Ele balançava a cabeça enquanto se lembrava dos velhos tempos.
- Entendo porque nunca me deu uma chance. Eu era chato, irritante, como todo menino daquela idade. Você merecia algo melhor.
Athena continuava em sua ignorância, silenciosa e em um mundo muito distante dali.
- Tenho uma vida miserável, sabia? Consegui o que queria e agora não há mais nada.
Poseidon, em um lapso de consciência, pegou sua mão e a segurou. Estava quente, sinal de que Athena vivia, de verdade mesmo. Ele a tinha salvado e isso fez algo novo e, ao mesmo tempo antigo, brotar dentro dele.
- Um dia, talvez... se nós pudéssemos... – seu olhar era de súplica, mas a mulher continuava dormindo, sedada por algo mais forte que sentimentos. Poseidon abaixou a cabeça e percebeu o tamanho do nó que tinha na garganta. Ele deu uma risada fraca e sem humor. – Quem imaginaria que depois de tanto tempo nós acabaríamos assim, não é?
Então, a enfermeira bateu na porta levemente e a abriu.
- Desculpe, senhor, mas é hora de ir. Ela precisa descansar.
Limpando as lágrimas com as costas da mão, ele tentou parecer apresentável, como se nada tivesse acontecido.
- Ahn... hm... é... será que eu poderia deixar algum recado para ela? – ele engoliu em seco. – Em um papel? Não é grande coisa.
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Já fazia uma semana que Athena estava no hospital. Para ela, não estava recebendo visitas e não se importava com isso. Mas todos os dias acordava sentindo aquele mesmo perfume. Um perfume forte e masculino, levemente familiar.
As enfermeiras se recusavam a dizer como ela havia ido parar ali, o que lhe parecia errado, já que era seu direito entender a situação. Mas isso tudo mudou depois de uma semana.
Athena estava pronta para receber alta, mas teria de continuar sendo cuidada em casa por uma enfermeira particular ou parentes próximos, e não parecia que sua mãe viria da Grécia tão cedo.
Quando estava saindo do quarto, uma enfermeira veio até ela, com um ar conspiratório e um sorriso, e, sem dizer nada, entregou-lhe uma pequena tira de papel dobrada. As únicas palavras que estavam ali eram:
Isso poderia ser um recomeço.
Não era preciso assinatura, não era preciso endereço, nem mesmo o nome de seu salvador. As peças se encaixaram sozinhas em sua cabeça e o dono do perfume ganhou um rosto.
Abrindo um pequeno sorriso, pensando em como a vida era cheia de surpresas, ela sussurrou para o nada:
- Poseidon.
Se ele a tinha salvo, não era mais o garoto que ela tinha conhecido. Esse homem, sim, merecia uma chance.
- Sim, Poseidon, isso poderia ser um recomeço.
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