Notas iniciais
Capa feita pela linda da Ophelia. Obrigada, darling!

Capítulo 1

Sentei-me no sofá, com a caneca de chá a ferver, de frente para a minha irmã que comia uma fatia da tarte de maçã que tínhamos feito no dia anterior.

—Conta-me lá isso melhor – disse ela, entre garfadas.

—É muito confuso – suspirei. – Mas está bem…

***

—Adeus! – exclamei antes de sair da loja onde trabalhava. A minha faculdade, ao contrário da faculdade da minha irmã dava-nos a opção de escolher os horários, por isso trabalhava todas as manhãs, e da parte da tarde ia para a faculdade. Assim que lá cheguei, fui à sala de computadores para imprimir a minha composição de 400 palavras em inglês. O meu sonho sempre seria ir para Inglaterra e viver em Londres. Infelizmente, tudo não passaria de um sonho, uma vez que a minha vida sempre tinha sido no meu país, e agora, mais recentemente, em casa da minha irmã.

Mandei o computador imprimir o documento. Saí da minha sessão depois de ouvir o som da impressora a terminar o seu trabalho. Quase como seguro de vida, sempre tirava cópia dos meus trabalhos. Abri a tampa da fotocopiadora ao lado, coloquei a primeira página e cliquei no botão para fotocopiar.

A fotocopiadora rosnou furiosamente. Arregalei os olhos, não sabendo o que fazer. O meu mundo eram as Letras, não a Tecnologia, e muito menos uma fotocopiadora que devia de ter o dobro da minha idade. E simples assim, a fotocopiadora parou; tudo o que restou foi uma luz vermelha a piscar incessantemente.

—Oh, não – resmunguei, olhando para o lugar onde a minha fotocópia devia de ter saído. Não havia ali nada. – Não, não, não.

Voltei a olhar para a luz vermelha, incessante, que me estava a enervar. Como é que uma fotocopiadora se atrevia a ser tão chata, especialmente comigo, justamente com a pessoa que não sabia tratar da tecnologia?! Quando o computador lá de casa precisava do antivírus eu e a minha irmã éramos as pessoas que avisavam os rapazes – e por isto eu quero dizer o namorado da minha irmã e o nosso irmão mais novo – que o computador precisava de um antivírus.

Dei um murro no topo da máquina. Bem, não foi com muita força, foi mais uma pancada seca para ela deixar de ser tão preguiçosa. Dei um leve chuto nela, como se estivesse a verificar se um pneu tinha ar – coisa que por sua vez também não sabia fazer, mas fingia saber só para parecer bem.

—Não é preciso tanta agressividade – a sua voz doce e com a ponta de humor certa fez-me sobressaltar. Pensei que estivesse sozinha nesta sala de computadores tão distante das outras aulas. – Ela simplesmente precisa de… — abriu uma porta que eu não sabia que ela tinha – papel.

Não consegui dizer nada. O estranho ser que entendia as necessidades de uma fotocopiadora olhou para mim, talvez procurando pela minha voz, porque eu não a tinha encontrado em lado algum. Fugiu. Viu alguém que tinha conhecimentos superiores aos meus e fugiu, foi procurar outra pessoa para dar a voz.

—Papel – disse ele, finalmente, depois da longa pausa em que o meu cérebro não sabia o que fazer e ele tinha simplesmente ficado a olhar para mim, à espera de uma resposta, uma pergunta, uma exclamação, qualquer coisa!

De alguma forma, surpreendente ou não, ele sabia onde é que as resmas de papel se encontravam. Dentro de um armário ao fundo da sala, claro. Voltou para junto de mim – e da fotocopiadora – e colocou lá o papel. Depois de fechar a portinha, mexeu nalguns botões e a fotocopiadora voltou a funcionar.

—Feito – disse ele, sorrindo.

Oh Meu Deus, mas que sorriso lindo. E que olhos. E que barba loira era aquela e aquele cabelo loiro ligeiramente queimado, mas cortado que nem um militar. De onde é que ele tinha vindo, exatamente? Não podia ser deste planeta, isso era certo.

—Mais alguma coisa? – indagou ele, sorrindo, aquele sorriso que damos de embaraço e queremos ser atenciosos com uma pessoa que não conhecemos, mas pensamos que ela é totalmente maluca. Como eu.

—N-Não. Obrigada – forcei um sorriso e ele veio genuinamente. E olha, a minha voz! Ela decidiu vir com toda a força. – Foste um génio, eu realmente não sei como funcionar com estas coisas. Bem, eu estudo Literatura Inglesa é por um motivo: é porque eu nunca fui boa a matemática, os meus irmãos é que me ajudavam imenso. Bem, também me ajudaram bastante no Inglês, até que eu peguei na coisa e agora… aqui estou eu! Literatura Inglesa! É muito interessante, tenho a certeza que também adorarias. Eu tenho assim uma pequena paixão pelo Shakespeare, e adoro o módulo que estou a ter neste semestre. Na verdade, é isso mesmo que eu estou a fotocopiar: é uma cópia do meu trabalho sobre Romeu e Julieta, uma das minhas peças favoritas, explica realmente o nascimento de um belo “plot-twist”.

Como, eu não sei, mas a verdade é que fiz um monólogo shakespeariano em menos de um minuto. Shakespeare ficaria encantado com isso.

Resfolegou e olhou para o teto, como que procurando uma resposta para algo. Talvez para a minha maluquice.

—Talvez gostasses de me contar melhor essa história do “plot twist” com um café.

—Chá – disse. – Eu só bebo chá. Bem, eu também bebo café, mas o que eu gosto mesmo com o café é uma boa meia de leite.

Sorri. Isto não me estava a acontecer. Voz, vai-te embora! Não preciso de ti!

—Tens aulas hoje? – indagou ele, com os seus olhos azuis a olhar-me fixamente, como que procurando a chave para a minha alma. O problema é que muito provavelmente já a tinha encontrado. Podia ficar a olhar para aqueles olhos dia e noite. Vi-me espelhada neles. Percebi como é que ele estava a olhar para mim.

—Saio às seis.

—Podemos ir ao Chiado, comer alguma coisa – sugeriu ele.

—Ótima ideia. Eu adoro o Chiado – concordei. – Encontramo-nos aqui?

—Em que sala vais ter aula?

—Oh, é uma ao lado da outra, é por isso que eu adoro tanto este horário – cala-te, maldita voz, daqui a nada ele sabe o número das minhas calças. – 325.

—Okay, até já.

Saiu da sala, deixando-me sozinha com o som da fotocopiadora, agora toda feliz por ter o seu papel de novo.

©AnaTheresaC

Notas finais
Espero que tenham gostado!
XOXO