Notas iniciais

Era um dia como outro qualquer. Uma noite como outra qualquer. Era como se o mundo estivesse parado, como uma noite penumbra e sombria cuja aura seria de desespero. Pergunto-me eu porque o mundo seria como ele é. Tantas mortes, tantas leis, tantas injustiças. Observar isso daqui, de cima da montanha da costa de Musthirial, é divino.

Divino. Porque divino? Porque desgraças seriam divinas em tamanha tristeza? Porque é da desgraça que surgem grandes poderes, grandes pessoas.

A explicação era simples, clara. Não me vejo no direito de julgar as pessoas pelo modo como agem, ou o medo que elas sentem.

- Carmélia, precisamos ir. – Um timbre masculino surgiu, quebrando o silêncio. – Precisamos sair daqui. Estão atrás de nós, lembra-se disso? – Indagou em fúria.

- Certo, Micaellys. Eu já entendi, vamos embora. – Contrariada, levantei-me e prontamente dei início os meus passos.

- Estamos em guerra, lembra? Não seja criança, “princesa”. Nosso reino foi destruído pelo reino de Ammon, PRECISAMOS nos vingar e você insiste neste comportamento. – Esbravejou o mesmo. Ele estava irritadiço, e isso me afetava. Me irritava profundamente.

- Olha só, “Mica”, dá pra você parar? Não me importo com essa maldita guerra. Eu não quero mais me envolver neste conflito. Não é óbvio que já éramos para ter parado com isso? Nossa família foi destroçada. O clã de Hamithiel la Boume foi destroçado! Chega disso. Tudo começou porque meu pai tinha os mesmos pensamentos que você. Essa ideia de vingança eterna... Não acha que isso já foi longe demais?! – Vociferei em resposta.

Senti meu corpo em queda, logo se chocando ao chão. Sentia dor na maçã de meu rosto, lugar onde estava extremamente avermelhado. Sorri em ironia. Ele tinha me dado um tapa.

- Cale sua boca, princesinha imbecil e mimada. Você não sabe nada sobre essa guerra. Seus pais foram assassinados, seu reino foi tomado, todos a quem você conhecia e adorava foram mortos e tudo o que você tem a dizer é que está tudo bem? Que você está bem com essa situação? Sua coroa foi tirada! Tudo o que você mais prezava foi destroçado e você se comporta de jeito tão inescrupuloso? Sua imbecil retardada! Quer saber? Você não faz a mínima diferença. Em você, não existe honra, não existe nada. A maior dádiva de um nobre é sua honra! Nem mesmo isso você tem! Espero que definhe em meio de pensamentos tão incoerentes. – O mesmo terminou a frase ofegante. Bufou de raiva e como um último ato, pegou-me pelo cabelo e esfregou minha face na lama. – Que você fique com os porcos, pois é onde você merece estar. – Gritou e se afastou, com passos pesados e rápidos.

Sentei-me e olhei para o céu. Ele parecia chorar, como eu. Lágrimas escorreram pelo meu rosto e tudo o que eu pensava era no que perdi por causa de uma guerra por tronos, por terras. Perdi tudo na minha vida em questão de horas. Fazia um ano que minha vida desmoronou. Será quer era pedir demais ter paz? Bufei. Não era tão fácil viver neste mundo.

Ouvi um estrondo e uma faísca vindo ao longe, na direção onde Micaellys insistiu em ir solitário. Ele só me arrumava problema. Já era um homem mas comportava-se como uma criança a qual o doce fora tirado. Ele precisava crescer e amadurecer. Levantei com rapidez e corri em direção aos estrondos. Micaellys estava lutando. Era uma luta comum... Exceto pelo fato que ele estava perdendo. Sorri com a situação e andei lentamente até os dois. Me pus em frente ao Micaellys e esperei o próximo golpe. A garota usou sua espada e cortou o ar vindo em minha direção com rapidez. Ela era ágil e pela velocidade e barulho que a lâmina fez ao cortar o ar, era forte também. Segurei a espada com a mão esquerda e empurrei Micaellys com a direita para trás. O impacto foi extremamente forte, mas consegui segurar. Olhei nos olhos da menina, seu olhar era cinzento e sem vida. Com uma face inexpressiva, a mesma continuou os ataques. Não eram vagos, muito pelo contrário, eram ágeis e previam meus próximos movimentos. Corri na direção oposta e senti ela me seguindo. Dei um impulso na rocha a minha frente e girei meu corpo em direção ao dela, acertando sua face com um chute. Por fim, ela cambaleou para trás, coisa que me deu chance de atacar mais uma vez. Erro meu... Ela fingiu desequilíbrio e investiu um chute que acertou meu estômago, me jogando para trás. Meu corpo sobrou com tudo no chão e antes que eu pudesse ao menos identificar onde a mesma estava, sua espada já estava apontada em direção ao meu pescoço.

- Qual o seu nome, menina? – Perguntou a mesma com expressão extremamente séria.

- Carmélia Hamithiel la Boume Tarmyen. – Respondi sua pergunta, tossindo em seguida.

- Você luta razoável. Melhor que aquele imbecil ali. – Olhou para Micaellys jogado ao chão, desmaiado. – Seus passos são muito previsíveis e creio eu que não saiba manusear uma espada ou qualquer outra arma, pelo jeito que se moveu. – Pronunciou-se com destreza e começou a andar rapidamente, guardado sua espada. Reparando a mulher, ela era muito bonita, até. A única coisa que não combinava com sua beleza era sua expressão... Era uma mulher alta, esbelta, com um corpo “volumoso”. Seus cabelos eram louros prateados e seus olhos cinzentos. Era branca com lábios rosados e desenhados. Não usava armadura, apenas um vestido que deixava um decote a mostra e uma abertura deixando uma das coxas a mostra. A única coisa bruta que lhe cabia era a espada e seu olhar. Precisamente, brutalidade não parecia se encaixar com ela.

Me levantei com dificuldade e percebi o corte que exibia um líquido vermelho saindo de si. Quando ela me atingiu, além do chute? Andei até Micaellys e percebi algo de diferente em suas mãos. Era um pingente entreaberto. Dentro havia uma pintura de dois jovens, uma garota e um garoto. Abaixei e o observei melhor. Foi esse o motivo da briga, afinal? Peguei o pingente e uma sensação percorreu meu corpo. Algo estava errado...

A mulher mostrou seu olhar relutante. Seus olhos cinzentos e mórbidos já não demonstravam mais expressão, mesmo ao tentar, jamais conseguiria devolver vida a si mesma. O brilho de uma vida que, uma vez tenha conhecido a morte com suas próprias mãos e a tristeza com os próprios olhos, se perdeu em trilhos psicóticos. O céu era inquieto, a brisa que ricocheteava a areia se locomovia com rapidez e indiferença quanto à delicadeza em que o corpo dela parecia demonstrar. Suas pernas se moviam em certa lentidão. Cansaço talvez? Não corpóreo, mas sim áurico. Suas íris cinzentas se tornaram violetas. Seu olhar se tornara caloroso ao observar, mesmo ao longe, um detalhe peculiar no local. O objeto jogado no chão a chamou atenção. Um cordão entreaberto cuja foto era visível aos olhos da garota. Ela se aproximou, observou o objeto banhado em sangue, jogado ao lado de um corpo sem vida de uma criança cuja a idade não ultrapassaria 13 anos mesmo que tentasse. A foto que o pingente carregava mostrava dois jovens, um garoto que segurava uma jovem de vestido azul pela cintura. A garota sorria meiga e o garoto dava-lhe um beijo carinhoso na testa, com seus olhos fechados e um sorriso no canto dos lábios. A mesma já não se lembrava quanto tempo já se passara, há quanto tempo não era dona de sorriso tão singelo, tão sincero. Já não lembrava quando havia perdido sua passagem para a felicidade tomada pelas mãos do destino. Após suas lembranças cujo coração carregava tão escondido, ver retornar tão depressa, a mesma desviou o olhar para o local, observando mais atentamente aos detalhes do cenário a sua volta. Queria esquecer que um dia fora feliz, que um dia já fora aquela garota. O local era deserto e apenas uma fonte de luz iluminava o recinto. A lua mais prateada do que seus próprios deixava à mostra os corpos abatidos no campo de batalha. Mais de 800 mil pessoas estavam sem vida ao redor da garota. Ela voltou seu olhar para a lua, deixando seu rosto ensanguentado visível. Sua espada brilhava em um liquido avermelhado. Seus lábios visivelmente corrompidos pela dor se estreitaram em uma tentativa de um sorriso. Sua expressão se mostrava perdida. Seu apelo era a dor de sua perda. Seu adeus foi a única lágrima derramada após seu único arrependimento deslizou por sua face. Em um movimento brusco, ela pegou sua própria espada e a cravou em seu corpo, a ferida trasbordava seu sangue. A espada atravessara seu corpo como papel. O corte vinha da vertical, da altura de seu peito até sua cintura, representava o tamanho de sua espada. Mesmo que soubesse que não poderia morrer, ela tentou. Tentou tudo para que a verdade não passasse de uma reles mentira. Aquela dor não se igualava à dor de uma perda e o peso da eternidade por culpa de sua maior tragédia. Seu corpo desabou em meio da escassez arenosa. A mesma estreitou seus olhos em dor e logo os fechou. Ela lembrou dele. E morreu para acordar pensando nele.

A cena passou como se eu fosse a garota. O que era aquilo? E... A garota na visão que eu tive era a mesma que me enfrentou? Se era ela, como ela pode estar viva? O corte que ela provocou em si mesma deveria ser fatal.

Desabei no chão. Estava sentindo a mesma dor que ela sentiu quando fincou a espada em seu corpo. O meu, por outro lado, não sangrava, mas doía da mesma fora. Meu corpo caiu como uma carcaça no chão e meus olhos se estreitaram em dor. Afinal, o que tinha acontecido? No fim das contas, desmaiei por causa da dor.

E a única pergunta que permaneceu, depois de tudo, era... Quem afinal era aquela mulher?

Notas finais
Obrigada por ler >.
Comentrios, pf!!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.