Sklr.w
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Eu não sei como, mas eu acordei às 16h da tarde. Meu pai chegaria em casa em 15min, eu coloquei uma calça e fui caminho da sala. Eu deveria estar com uma aparência horrível.
No corredor havia um espelho, parei por 3 segundos para chegar a minha situação. Eu estava com a cara inchada, meus poucos cabelos estavam desarrumados de uma forma totalmente assustadora, e acho que meu cheiro não era nem de longe agradável.
Quando cheguei no fim da escada eu encontrei meu irmão jogando vídeo game com meu primo no sofá.
Mas que porra?
Quando ele me viu, lá parada com uma provável cara de perdida, ele deu pausa no jogo e se virou.
Patrick: tia Rita tá na cozinha.
Ele me julgou com os olhos, e o meu primo segurou o riso e me olhou com cara de quem no fundo sabia o que tinha acontecido, bom, óbvio que ele sabia.
Mas eu tinha mais o que me preocupar no momento, minha tia estava aqui, era só o que me faltava, puta merda. Fui até a cozinha desejando que aquilo fosse uma brincadeira, mas não, era verdade.
Uma grande mulher, e quando eu digo grande, é grande mesmo, fazendo comida na minha cozinha, cantarolando musicas que Hitler usava para torturar os judeus. Eu mexo um copo para ela notar minha presença, e logo sou bombardeada de beijos e abraços da velha tia Rita. Como eu adoro isso. Notem a ironia, por favor.
Tia Rita: Eu cheguei e você estava dormindo, seu irmão estava jogado no sofá assistindo TV, então decidi fazer um belo café com biscoitos para quando seu pai chegar.
Era surpreendente como a Tia Rita conseguia sorrir tanto. A cada frase, até mesmo quando estava com raiva, ela sorria mais e mais.
Tia Rita: não se preocupe, não vou contar ao seu pai que você dormiu até agora, mas sugiro que vá tomar um banho para tirar esse cheiro de álcool seu do corpo.
Puta merda.
Eu: como você...?
Quebrei meu silêncio com a voz tremula e baixa mas alto o suficiente para ela entender e rir.
Tia Rita: Querida, eu sou mãe do Dylan, não tem cheiro que eu não reconheça.
Eu ri tímidamete.
Então ela piscou e sorriu, ela podia ser uma velha chata e louca as vezes, mas pelo menos ela não me dedurava, nunca.
Uma vez ela viu minha conversa com uma velha amiga, falando sobre sexo, digamos que não era uma conversa tão inocente, mas ela apenas disse para eu me cuidar. Se fosse meu pai, eu nunca mais mexia na internet ou saía de casa de novo.
Subi as escada correndo, tomei um mega banho, passei todos os perfumes possíveis. Meu pai tinha um mecanismo especial detector de rebeldia adolescente, e se a velha tia louca percebeu, imagina ele.
Quando eu saí do banho, ele já estava em casa, coloquei uma roupa qualquer. E com roupa qualquer, eu quero dizer quaisquer roupas pretas que tiver no meu caminho, que é só o que eu tenho nessa vida.
Desci a escada, meu cabelo tava molhado, não que eu tivesse muito cabelo para me preocupar, essa é a vantagem de não ser tão vaidosa, não perde tanto tempo cuidando do cabelo ou cara.
Velha tia louca, vulgo Rita, e meu pai conversavam sentados na cozinha, eu fiquei parada na segunda entrada, onde meu irmão não conseguia me ver, antes de eu entrar eu escutei algo sobre "liberdade para sair".
Bom, prestando a atenção na conversa, escondida antes da segunda entrada, eu pude entender que meu pai esta pensando em deixar eu sair mais vezes, isso é bom. Mas parece que a velha-tia-louca-Rita disse que ele precisa pensar mais sobre o assunto. Acho que se o diretor e a tia Rita formassem uma liga de vilões e fossem os líderes, o mundo estava perdido, vaca hipócrita. Eu pensei em aparecer nessa hora, mas eu iria xingá-la, então fui para a sala falar com os garotos.
Meu irmão e meu primo jogavam algum jogo com zumbis, não identifiquei na hora, mas prestei atenção.
Meu primo parecia se divertir mais que meu irmão de 10 anos. Ele se chamava Dylan, tinha uns 19 anos. Ele só morava com a minha tia ainda porque tinha reprovado na escola, e talvez porque esteja em liberdade condicional por pichar a casa inteira do professor de matemática dele.
Ele raramente vinha aqui, mas digamos que conversamos o suficiente para uma boa relação de primo e prima.
Eles gritavam algo sobre matar logo esses zumbis filhos da puta, não sei com quem meu irmão aprendeu essas palavras...
Pai: Sky, venha aqui um minuto.
Me. fodi.
Fui até lá e me sentei de frente para eles, minha tia sorria como sempre, meu pai me olhou com uma cara estranha.
Pai: com a ajuda da sua tia, eu cheguei a grande conclusão de que, como você já tem quase 16 anos, e é uma menina bem inteligente, você poderá tomar algumas escolhas importantes sozinhas — quando eu ia agradecer, ele levantou um dos dedos — ...porém, todas as coisas devem passar por mim antes do decreto final. Essas coisas incluindo, obviamente: coisas sociais, coisas acadêmicas, coisas pessoais, coisas de saúde e principalmente coisas de... você sabe... meninos.
Eu pude ver o terror em seus olhos quando pronunciou a palavra meninos.
Eu juro que o dia que eu pensar em ter um namorado, meu pai já vai saber por telepatia, e ele vai matar ambos com sua arma que é guardada no cofre a sete chaves em seu quarto.
Eu fiz que sim com a cabeça, me levantei e o abracei, então olhei para a minha tia, que piscou para mim, eu sorri e pisquei de volta.
Eu voltei para o meu quarto e me joguei na cama. Peguei meu celular e tinha uma mensagem no bate papo.
eviedoesntlikeu: voltei para o mundo da internet.
sklr.w: finalmente, senti uma humilde falta nesse mundo grandioso.
eviedoesntlikeu: eu sei.
Evie ficou três semanas sem utilizar redes sociais, aplicativos ou coisas fúteis da internet, por causa de uma promessa que fez aos seus pais. De não ultilizar eletrônicos sem que seja para pesquisas acadêmicas até os trabalhos finais acabarem.
eviedoesntlikeu: Alguma novidade espetacular enquanto eu estava fora desse mundo intelectual?
sklr.w: acho que não.
sklr.w: kanye west lançou música nova.
E assim se passou umas 4h conversando com ela, sem parar. Como sempre fazíamos antes dela sumir. Era impossível não tem assunto com a Evie, conversávamos sobre anatomia humana mas também sobre cadeiras e seus formatos modernos, ou seja, poderíamos falar sobre tudo. E ela sempre tinha uma curiosidade para compartilhar.
O único momento em que parei de responder Evie foi quando meu primo apareceu no meu quarto, me encontrou deitada de ponta cabeça em uma cadeira, se isso é possível ou não, eu o fiz.
Me ajeitei depressa e ele riu. Logo então ele fechou a porta e se sentou na ponta da minha cama, de frente para mim.
Dylan: o que você estava fazendo no paraíso ontem?
Aquela frase ficou ecoando na minha cabeça por longos segundos, até o silêncio ficar totalmente perturbador e eu ter que dizer alguma coisa.
Eu: o que você estava fazendo lá?
Dylan: eu não estava lá.
Eu: bom, nem eu.
Sorrimos maliciosamente.
Na segunda, como sempre, a rotina desgraçada e o desejo pela morte.
Na entrada da escola eu fui recebida pelo comitê oficial do "bom dia". Rebecca e suas amigas entregando panfletos sobre o baile. Eu não entendo como essas garotas conseguem ser lindas e bem arrumadas às 7h da manhã.
Rebecca: Use algo feminino uma vez na vida, Sky.
Ela disse sorrindo, na minha imaginação eu responderia vou usar um vestido tingido pelo sangue que vai sair da sua garganta quando eu cortar ela, sua puta. Mas na verdade, eu não disse nada, só peguei o folheto que ela praticamente enfiou na minha mão e joguei no lixo.
No corredor a Evie e a Lizz não calavam a boca sobre o baile. Eu não sou nenhuma anti-bailes, só acho que esse vai ser uma bela bosta, por alguns simples motivos:
1) Essa escola tem um sistema extremamente rígido contra qualquer tipo de diversão;
2) Só tem garotas, e a maioria são umas vacas;
3) Baile, ao olhar do diretor e seu sistema: Todas as alunas com vestidos caros no meio do enorme ginásio, com algumas músicas caretas. Junto com bebidas nada alcoólicas e comidas chiques demais para um baile de colégio;
4) Bailes são um lixo;
Aqui jaz meus motivos com muito conteúdo e estudo.
Como o combinado pelo diretor, fomos todas até o auditório, que era gigante o suficiente para receber todas as mil e poucas alunas, sim.
O papo foi o mesmo de sempre, nada disso, nada daquilo, comportamento, cuidados e blá blá blá. Algumas meninas cochichavam sobre o possível comparecimento de meninos e outras sobre o que fariam com o cabelo, eu falava com a Lizz sobre a minha possível falta no grande baile de finalização, ela tentando me convencer de que seria uma boa noite para rir das garotas que estão esperançosas de encontrarem seu príncipe encantado, e de se divertir zoando algumas delas, me convenceu um pouco. Evie prestava atenção, sempre. Quando tentávamos falar com ela, ela colocava o dedo na frente da boca e dizia "Shh..". E nos ríamos do comportamento de aluna exemplar dela.
Logo a vice-diretora começou a falar sobre meninos no baile.
Vice-diretora: Será permitida a entrada de garotos...
Nesse momento, eu juro, eu quase tive meus tímpanos estourados.
As garotas ficaram loucas, começaram a dar mini gritinhos de "Viva!" e a cochichar sobre quem trariam ao baile. A vice-diretora precisou de uns bons minutos de recuperação para voltar a falar normalmente. Explicando que era apenas um garoto por aluna, que não seria permitido nenhum contato além de abraços e danças e que todos os professores estariam la para supervisionar a noite. Era de se esperar, claro. Isso não mudou muito o fato de que eu não teria ninguém para chamar, nem mesmo sei se teria coragem ou auto-estima o suficiente para chamar alguém. Mas admito que fiquei impressionada com a flexibilidade do sistema, permitindo garotos entrarem aqui, e ainda mais para um baile.
No fim acabamos ficando umas 2h lá só ouvindo aqueles velhos falar sobre como é importante o comportamento decente perante a situações desse tipo. Acredito que nenhuma garota em sã consciência, e que estuda nessa escola com esse sistema projetado pelo demônio, iria fazer alguma besteira comprometendo seu futuro, ou pelo menos sua reputação.
Aquela foi a segunda-feira menos irritante e talvez a mais estranha até hoje, com certeza não foi por essa palestra disfarçada de orientações, e sim por que no fim da aula, lá estava ele, parado na frente da escola, com seu provável carro, olhando para mim enquanto eu desço as escadas da entrada, ele esta sorrindo quando eu chego mais perto.
Tyler: Quer dar uma volta?
Eu me pergunto: como diabos ele soube onde eu estudava? como diabos ele tem coragem para vir aqui? e como diabos ele acha que eu vou aceitar aqui na frente da Evie e da Lizzie, que estão me olhando esperando a minha resposta?
Eu: Mas que diabos...
Eu sussurro o mais baixo possível, mas de modo que seja entendível para ele.
Tyler: Vem, vai ser divertido.
Ele fez a mesma cara que fez antes de irmos na fogueira.
Eu sei que eu não devia, que talvez eu morra por causa disso, (sim, eu sou meio exagerada), porém eu entrei no carro.
No caminho ele não disse nada, apenas ligou o rádio, estava tocando uma música de uma banda que eu não conhecia, mas era boa.
Fomos parar em uma lanchonete, alguns km da escola. Ele saiu do carro e eu também.
Tyler: Eu até iria abrir a porta para você, mas você foi mais rápida.
Ele disse se aproximando, eu ri um pouco, e então entramos.
Era um lugar tão bonito, era uma lanchonete retrô, nos sentamos no fundo. Tinha um espelho enorme, porém estreito, na parede do fundo onde estávamos.
Ele pediu o que eu queria, eu pedi um milkshake pequeno de morango, ele pediu um de chocolate. Ele ficava sorrindo para mim, não pude deixar de lembrar da velha tia louca, que não para de sorrir, assim que nem ele.
Minhas pernas tremiam, eu não sabia o que estava fazendo ali, passando vergonha, eu só queria ir embora. Me perguntava a cada 10 segundos se eu continuava ali ou saía correndo tão depressa que ele não conseguiria me alcançar. Depois eu me mudaria para para o Haiti e nunca mais ficaria tão nervosa de novo.
Nossos milkshakes chegaram alguns minutos depois, ele começou a tomar mas eu nem toquei no meu, eu estava imóvel, a não ser minhas pernas que tremiam como se estivesse tendo um terremoto de magnitude alta como uma explosão atômica no estado vizinho. Ok isso não fez o menor sentido, para de pensar merda Skyler, respira e haja como uma garota normal agiria nessas situações.
Enquanto ele falava sobre coisas que eu estava desinteressada e nem sequer prestava atenção, eu fiquei me questionando o por quê de eu estar tão nervosa. Porque, olhando para o Tyler nesse instante, eu percebi que na verdade eu não é por causa dele, normalmente eu estaria louca e morrendo de vontade de o beijar por ter me trazido aqui e estar tomando um milkshake comigo, mas enquanto ele fala sobre... Espera.
Tyler: ...por isso eu acho que os Lakers...
Enquanto ele fala sobre esporte, eu apenas fico conversando comigo mesma e tendo devaneios, querendo apenas que dê logo 18h para eu dizer que preciso ir embora sem estar mentindo.
Acho que fiquei tempo demais o ignorando, ele ficou me olhando até eu perceber.
Eu: desculpa.
Eu digo apenas com o movimento dos lábios.
Ele ri.
Tyler: tudo bem, mas devia falar mais.
É, eu acho que não.
Tyler: Tá afim de ir na minha casa?
Eu não sabia como dizer que não sem parecer que eu estava imaginando ele me estuprando. Então só fiz uma cara negativa.
Tyler: Calma, só quero te mostrar uma coisa.
me. mostrar. uma. coisa.
E ele realmente queria me mostrar uma coisa, sua coleção gigante de medalhas e troféus em uma grande estante da sua sala, puta merda.
Tyler: Dá pra acreditar que dês dos meus 4 anos, eu nunca perdi um jogo de baseball?
Eu: Não mesmo.
Tyler podia ser muito bonito e gentil, mas não parava de falar sobre coisas pelo quais eu estava cagando. Eu não sei, algo fazia eu não querer ficar com ele naquele momento.
Tyler: Vem cá.
Ele pegou na minha mão e me levou até o seu quarto, que ficava no segundo andar. Sua casa era bonita. Tinha muitas janelas com cortinas longas e escuras, de camurça. E não tinha ninguém nela além de nós.
Chegamos no seu quarto, e é óbvio, estava cheio de coisas de baseball, mas era um quarto bem legal.
Ele se sentou na ponta da cama e eu fiquei olhando algumas miniaturas de jogadores famosos que haviam em um suporte acima de sua cama.
Então ele chamou minha atenção agitando as mãos. Quando eu o olhei, ele se inclinou puxando minha mão até eu estar completamente na sua frente e colada nele, que ainda estava sentado, e eu em pé. Então nos beijamos.
Naquele momento eu esqueci o quanto estava entediada. Ele começou a me puxar fazendo com que eu me sentasse em seu colo, e o beijo continuava.
Ele estava começando a me apertar e a levantar a minha camiseta, por algum motivo eu comecei a ficar nervosa novamente.
Ele começou a se deitar, me levando com ele. Então quando ele estava quase tirando a minha camiseta toda eu me sentei, ainda no seu colo.
Eu: Preciso ir.
Tyler: Fica só mais uns minutos. Não vai demorar.
Eu: É sério.
Eu disse com, provavelmente, a expressão mais apavorada do mundo na cara. E ele percebeu por riu.
Ele se sentou e me beijou, então ele se afastou e sorriu para mim, era difícil dizer não àquele sorriso. Voltei a beijá-lo.
Suas mãos não descolavam das minhas costas e da tentativa falha de abrir o meu sutiã, já que toda vez que ele tentava eu recuava para ele não comseguir. Minhas mais, que estavam nos seus ombros, começaram a tremer, eu sabia que se eu ficasse ali mais alguns segundos ou eu me arrependeria de fazer algo que eu não queria, ou de discutir sobre isso. Parei um pouco, mas ele voltou a me beijar e a me apertar constantemente.
Eu recuei drasticamente, ele parecia ter ficado com raiva daquilo, me levantei, senti uma lágrima se formando no canto do meu olho.
Eu: tenho que ir para casa.
A sua expressão de raiva misturado com confuso se tornou apenas uma expressão de ódio. Ele realmente parecia estar puto comigo.
Tyler: Então vai.
Ok, eu não sou burra, eu entendi o que ele quis dizer.
Peguei minha mochila no chão, dei uma última olhada para ele que ainda estava me olhando com raiva.
Quando cheguei na rua eu pude ver ele na janela do quarto, me olhando friamente como se estivesse pronto para me matar. Então ele fechou a cortina rapidamente. Eu não entendo como umas pessoas parecem ser tão legais, e no fim são umas idiotas.
Eu não sabia onde eu estava, não fazia ideia do caminho de casa, nem me localizar se precisasse chamar a polícia eu saberia.
Comecei a andar reto por onde viemos, uma hora eu chegaria em algum lugar.
Parecia ser um bairro calmo, e ainda estava de dia, pelo menos. Havia crianças brincando na rua e umas mulheres conversando mais a frente.
Parei perto delas e pedi onde eu estava, elas me olharam como se eu estivesse bêbada. bem, nesse momento eu bem que gostaria de estar, para aguentar essa barra.
Acabei descobrindo que eu estava longe de casa, bem longe, mas elas me explicaram como chegar ao centro da cidade, e de lá eu daria um jeito, indo sozinha ou ligando para o Hayden.
Ok, má ideia. Ele perguntaria onde eu estava antes, eu até poderia tentar mentir, mas ninguém mente pro Hayden e sobrevive para contar a história. Se é que me entendem. Eu também poderia contar a verdade, mas isso geraria perguntas que eu não estava nem um pouco afim de responder.
Depois de uma hora e vinte e três minutos andando e tentando ignorar o fato de que eu havia acabado de estragar um possível relacionamento por não querer fazer sexo com ele e sentindo raiva e ódio do Tyler, eu cheguei no centro da cidade. Pude ver as lojas que eu normalmente ia com a Cassie ou com as meninas da escola, nas sextas-feiras depois do trabalho ou da aula.
Eu estava cansada, então me sentei em um banco perto da loja de livros. Eu não tinha tido vontade alguma de chorar até agora, mas naquele momento eu senti meus olhos se encherem de lágrimas, as quais não fazia sentido estarem ali, eu não queria sentir raiva ou tristeza, mas eu realmente estava puta da cara com essa situação. E acho que um pouco aliviada de ter conseguido ir embora.
Só fiquei mais aliviada quando vi Evie na loja de livros perto do caixa, falando com a mulher que estava lá. Eu fui até ela, que me recebeu com uma cara confusa, e acho que minha cara devia estar mil vezes pior, porque ela simplesmente me abraçou, sem dizer nada. Evie evitava, assim como eu, muito contato físico, mas ela evitada 10x mais, como podemos perceber até agora. Fiquei surpresa dela ter me abraçado, mas fiquei muito feliz e retribui fortemente.
Eu não contei a ela o porque de eu estar ali e estar com uma cara de merda, não acho significante a ponto de precisar contar à alguém. E ela não fez perguntas. Isso que eu mais gosto na Evie, ela se importa sem precisar saber o porque, ela simplesmente se importa.
Ficamos um bom tempo na loja de livros, era uma loja pequena, mas era uma das minhas preferidas, tinha livros antigos e clássicos que essas lojas grandes nem fazem ideia da existência porque estão ocupados demais lançando livros da moda atual.
Comprei um livro sobre zumbis, no caso, um livro bom sobre zumbis, para o meu irmão. E estava a procura de um sobre alienígenas para mim. Gosto diferenciado? Não mesmo, os alienígenas fazem parte de um assunto encantador, é difícil alguém não gostar deles, porém, é mais difícil eu gostar de alguém que não goste deles.
Me afastei da Evie por uns minutos enquanto escolhia o livro que fosse melhor, ela estava na área dos romances. Eu acho que fiquei meia hora olhando todas as sinopses e nomes de todos os livros da área de ficção. E nenhum me chamou tanta atenção a ponto de gastar o pouco dinheiro que me restava para o resto do mês. Eu poderia levar todos esses livros para casa, mas pra isso, eu precisava ter mais que 20 pratas no bolso.
Eu comecei a ficar desanimada, pensando que eu apenas levaria o do Patrick hoje. Mas de repente, e foi DE REPENTE, na parte mais alta da estante de livros de ficção, eu vejo um livro pequeno, com uma capa totalmente branca escrito 51. eu. quero. esse. livro. Comecei a me esticar para tentar pegar o livro, mas infelizmente minha altura é a mesma que de uma criança de 7 anos. Procuro uma cadeira... uma escada... ate mesmo uma caixa... nada. Então eu continuo tentando me esticar, até que me vem a brilhante ideia de colocar um dos meus pés em uma das colunas, para conseguir alcançar o maldito livro. não. vou. sair. daqui. sem. ele. Eu pensava a cada suspiro.
No fim eu estava com a bunda no chão, por ter caído. Mentalmente eu estava rindo, mas por fora eu fiz uma cara de bosta.
voz: quer uma ajuda ai?
Eu me virei, ainda sentada, e tinha um garoto encostado na parede do fim do corredor (que no caso eram 2m a minha distancia). Ele usava um crachá da loja, estava com um sorriso de deboche, provavelmente rindo internamente de mim, até que finalmente soltou uma risadinha, provavelmente pq eu estava tentando me levantar sem sucesso. Até que me levantei com raiva, limpei minhas roupas e saí. Última coisa que eu queria era alguém rindo de mim.
Encontrei a Evie sentada em um sofá no centro da loja me esperando, me senti por alguns segundos com ela, então pegamos nossos livros e fomos no caixa.
O mesmo garoto estava lá, mas estava de costas para nós, ele que colocou nossos livros em sacolinhas recicláveis, pagamos para a mulher que estava atendendo.
Ele se virou, entregou nossas sacolas e sorriu timidamente, eu não fiz questão de sorrir de volta, apenas murmurei um obrigado.
Nós tomamos um café antes de ir para casa, quer dizer, Evie tomou um café, eu tomei um suco, faço parte do 0,000000007% da população problemática que não bebe café. Simplesmente porque não gosto, e também porque me deixa muito ansiosa.
Rachamos um táxi para ir para casa, Evie queria pagar sozinha, mas eu preferi que não. Ela pode ter muito dinheiro, e muito mesmo, para sair distribuindo, mas eu odeio sair a custo dos outros.
Depois que eu cheguei em casa, só deu tempo de trocar de roupa até meu pai chegar com o meu irmão, e obviamente com a pizza.
Aqui em casa o cardápio da janta varia entre Pizza e meu bom humor para cozinhar, ou seja, pizza everyday.
Depois da breve janta em família, que não era nada mais e nada menos do que sentarmos na sala, assistir a um documentário/filme ou a um jogo de qualquer esporte interessante que estiver passando na TV enquanto comemos e cuidamos para não sujar nada, porque ninguém ta afim de limpar, e isso é um bom isentivo aqui em casa. cagou? limpou.
Eu subi para o meu quarto e peguei a sacola do livro, então desci.
eu: presente.
Joguei a sacola em seu colo e ele a abriu animado.
Patrick: Um livro? — ele fez uma cara de bosta, então eu cruzei os braços — quer dizer... um livro!
Foi falso, mas quando ele viu que era sobre zumbis ele ficou animado de verdade.
Patrick: O que é isso?
Ele disse mexendo na sacola de papel, ele tirou de dentro um pequeno livro branco. Tinha um post it amarelo em cima.
Patrick: "Desculpe a risada. Boa leitura.", quem é?
Ele disse lendo o que estava escrito no papel amarelo, eu peguei o livro de sua mão. Não tinha assinatura, mas eu acho que sabia quem havia escrito. Obviamente.
Com certeza eu não ia ficar com ele, mas eu iria pelo menos ler.
Li metade do livro naquela mesma noite, teria lido mais se já não fosse tão tarde e não tivesse aula no próximo dia.
Ah, a aula no próximo dia, acho que vou começar a desejar a explosão do sol antes do mesmo nascer desta vez.
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