Skins - Juventude à Flor da Pele
3 S01E03 - Alícia
Notas iniciais

♪ Is Tropical — "The Greeks" ♪
Os olhos da menina mexiam de um lado pro outro, esperando o sinal. Seus dedos deslizavam pelas rodas dos skates, presos na parede da loja, fingindo estar indecisa, quando na verdade sabia muito bem qual iria levar. O problema era que, pra conseguir qualquer um daqueles, precisaria juntar mais mesadas do que sua cabeça conseguia calcular, não restando opção viável senão a que estaria por vir.
Do outro lado da loja, um garoto conversava com um dos atendentes, enquanto outro experimentava um par de patins. Alícia estava atenta a cada passo que os seus amigos davam, imaginando que o sinal poderia vir a qualquer momento. Suas mãos suavam frio, dando um gostinho a mais na tensão que circulava pelo local.
De repente, um terceiro garoto, que batia os pés, ansioso, próximo ao balcão, começou a se debater, tremendo da cabeça aos pés, até cair no chão soltando uma espuma branca pela boca. Nesse momento, Alícia tirou um skate vermelho e preto da parede e virou de costas para que ninguém a visse. Quando todos os atendentes tinham saído de seus lugares para atender o garoto que se debatia no chão, o menino de pele escura e moleton roxo retirou uma bicicleta amarela da vitrine de demonstração, enquanto o que estava testando o par de patins saiu porta afora gritando: "Chupa aqui, seus idiotas!"
Na rua, Alícia sentia o vento sacudindo seus cabelos vermelhos enquanto seus amigos, Cirilo, na bicicleta, e Adriano, nos patins, acompanhavam seu ritmo, abrindo passagem entre as bancas de frutas e verduras que se espalhavam pelo caminho.
Mais atrás, os atendentes da loja corriam na tentativa de recuperar os itens roubados, alertando a vizinhança inteira que haviam acabado de ser roubados pelo grupo que fugia à toda velocidade.
— Peguem esses marginais! — gritou o mais velho, com um uniforme diferenciado. Provavelmente o gerente.
Os três se esforçavam bastante pra não colidir com os pedestres, mas a medida em que outras pessoas se juntavam ao pessoal da loja pra tentar pará-los, a fuga se tornava mais perigosa. Alícia aproveitava cada segundo de tensão em cima do skate, com o coração prestes a explodir pela boca.
— Você acha que eu deveria dar a volta e pegar o Koki? — perguntou Cirilo, olhando pra trás, observando a multidão que vinha se aproximando.
— Relaxa, ele sempre dá um jeitinho de escapar — disse Alícia, subindo em uma praça, com o skate à todo vapor, abrindo caminho entre os pedestres assustados — É melhor a gente se separar, a partir daqui.
— E a gente se encontra onde? — gritou Adriano, ao ver que a menina estava indo por uma direção completamente oposta.
— De preferência bem longe da delegacia!
Alícia sabia que a multidão provavelmente iria preferir perseguí-la, deixando seus amigos em paz, e isso era exatamente o que ela queria.
— Eles acham que, só porque eu sou mulher, eu sou mais fácil de pegar. E já que é assim, eu vou dar um trabalhinho a mais pra esses idiotas.
A menina parou bruscamente, em meio à feira que se formava todo sábado na praça, e avistou o rosto furioso do gerente da loja, cercado de outros rostos que procuravam a sua localização como verdadeiros cães farejadores. De cabeça baixa, a menina se aproximou de uma lata de lixo, segurando cuidadosamente o skate entre a barriga e o braço. Tirou uma garrafa de vodka, presa à sua cintura, e despejou um pouco do líquido sobre o lixo. Depois tirou um isqueiro do bolso de trás e ateou fogo, alertando a todos que havia um incêndio no local.
Com a fumaça subindo cada vez mais, a população começou a correr desesperada, esbarrando uns nos outros e dificultando a perseguição. Alícia pôs o skate de volta no chão e saiu em disparada pra longe dali.
— VAI SE FODER TODO MUNDO! — ela gritou de braços abertos, no meio da rua, com um sorriso de orelha à orelha.
—
Ao dobrar na esquina da casa do Cirilo, ela avistou três silhuetas no jardim, esperando a sua chegada.
— Nossa, você foi rápido dessa vez, ein — A menina falou surpresa ao ver seu amigo Koki, ao lado dos outros.
— Eu poderia ter sido ainda mais rápido, mas eu aproveitei pra… — Koki fez uma pausa pra recobrar o fôlego. Sua testa estava encharcada de suor, e em sua boca ainda havia um pouco de pasta de dente, usada pra fazer espuma durante a cena do ataque epiléptico na loja.
— Aproveitou pra quê? — perguntou Alícia, segurando o skate com as mãos e caminhando até a porta — Vocês vão ficar aí fora?
— Ui. Entendido, senhora capitã — disse Adriano, debochando do tom de voz da menina.
Cirilo foi na frente pra abrir a porta. Lá dentro, a casa estava numa completa bagunça.
— Credo, parece até que passou um furacão por aqui! — exclamou Alícia, caminhando com cuidado pra não esbarrar nos móveis caídos pelo meio da sala.
— É que a gente fez mais uma noite especial dos brothers, não foi Cirilão? — Adriano bateu no ombro de Cirilo, esperando um sorriso amigável em troca.
— Foi… — Cirilo suspirou.
— O que foi? Seus pais ainda não voltaram de viagem? — perguntou Alícia, espantada.
— Não.
Cirilo ficou em silêncio um tempo, imaginando quanto tempo a mais seus pais iriam passar no Caribe. Já fazia quase dois meses que eles tinham viajado e desde então as festas aconteciam com frequência, deixando a casa suspensa em um mar de sujeira, vômito e móveis quebrados.
— Eu posso falar agora? — perguntou Koki, tentando amenizar o climão que tinha se formado no ambiente.
— Ah, é, o que era mesmo que você tinha pra dizer, senhor marginal epiléptico? — perguntou Adriano, sentando entre as embalagens de salgadinhos e as latas de cerveja espalhadas pelo sofá.
— É que, quando os atendentes da loja saíram correndo atrás de vocês, eu aproveitei pra pegar uma pequena lembrancinha — Koki tirou dos bolsos um bolo de dinheiro, umas notas soltas e uma porção de moedas.
— Caramba, Koki, você é um gênio! — gritou Adriano, levantando às pressas do sofá pra dar um beijo na testa suada do amigo.
— Ual! Podem parar as ligações que nós já temos um vencedor — disse Cirilo, ironicamente, voltando da cozinha com uma lata de cerveja na mão — O troféu criminoso do ano vai para… Kokimoto Mishima!
Koki abriu o bolo de dinheiro e jogou as notas pro ar. Cirilo entregou a cerveja pra ele, como se fosse mesmo um troféu, e os três começaram a pular felizes no meio da bagunça.
— Tá, mas o que vocês tão pensando em fazer com esse dinheiro todo? — perguntou Alícia, acabando com a confraternização dos amigos.
Por não ter partido dela a ideia de esvaziar o caixa da loja, a menina sentiu uma pontada leve de inveja. E enquanto eles permaneciam paralisados, imaginando qual seria a melhor forma de gastar a grana, ela foi até a cozinha à procura de cigarro.
—
— E se a gente comprasse tudo de maconha e passasse um mês inteiro trancado aqui, chapadasso e sem família nenhuma por perto — Sugeriu Adriano, imaginando seu sonho se tornando realidade.
— Ah, claro — comentou Cirilo, sem empolgação alguma — Aí quando os meus pais chegarem a gente convida eles pra nossa sociedade alternativa, à base de fumo e coca-cola.
— Relaxa, Cirilo — disse Koki, sentado no chão, fumando um resto de baseado que encontrou embaixo do sofá — Você nem sabe se eles vão voltar…
A sala ficou em completo silêncio. Os pais de Cirilo não davam qualquer sinal de vida e isso o deixava bastante preocupado. Principalmente porque o dinheiro do cartão de crédito estava acabando.
— Já sei! — Alícia levantou de súbito e se posicionou no meio dos três, tomando toda a atenção para si — A gente pode dar uma festa, só que diferente de todas as outras.
— Diferente como? — perguntou Adriano, confuso.
— A gente invade a escola e faz uma festa lá, com todo mundo que der pra chamar — Alícia precisou de um tempo pra respirar e colocar todas as suas ideias em ordem — Cada um chama uma galera, que chama outra galera, que chama outra… E aí a gente compra maconha, comida, bebida e libera pro pessoal a noite toda.
— Caramba, Alícia, como é que você conseguiu a proeza de ter uma ideia pior que a do Adriano? — perguntou Cirilo, friamente.
— Como assim? — Koki exclamou, completamente empolgado — Eu aposto que todo mundo vai topar e depois disso nós vamos ser reis da escola.
— É — continuou Alícia — Pensa comigo, Cirilinho. Ninguém conhece a gente. Por isso que vocês três não pegam ninguém. Além do mais, os populares da escola nunca convidam a gente pra festa nenhuma. Essa é a chance das nossas vidas!
— Eu ainda não acredito que vocês realmente acham que isso pode dar certo. E se a polícia chegar lá? — perguntou Cirilo, tomando um gole de cerveja e checando se havia alguma mensagem dos pais no celular.
— Se a polícia chegar, a gente termina a festa aqui, no meio da bagunça — disse Adriano, implorando com os olhos — Por favor, por favor…
— Vocês só podem estar malucos… — comentou Cirilo, sem tirar os olhos do celular.
— Cirilinho… — Alícia se aproximou dele cheia de charme e sedução — E se por acaso eu conseguisse levar aquela menina nova, a que você gosta… Vai que hoje é o seu dia de sorte…
— É — completou Koki — A tal da Maria Joaquina… Eu aposto que ela vai ficar gamadinha em você quando descobrir quem tá por trás da ideia de invadir a escola.
Cirilo ficou um tempo pensativo, com os seus amigos encarando o seu rosto, torcendo para que ele aceitasse a proposta.
— Tá bem… Se é pra MaJo me notar… Eu aceito participar dessa loucura.
Alícia comemorou a decisão do amigo e saiu correndo pra casa, se arrumar. A festa ficou marcada pra sete da noite e até lá ela precisaria avisar para o máximo de gente possível.
—
Chegando em casa, Alícia evitou fazer barulho pra não chamar a atenção de ninguém. Deixou o skate no canto da sala, tirou os sapatos e caminhou calmamente pelo corredor. Antes de chegar no quarto, porém, avistou seu irmão, Dudu, espiando atrás da porta do banheiro, onde sua irmã provavelmente estava tomando banho.
— O que você pensa que tá fazendo, ein seu fedelho! — Alícia carregou o irmão pela orelha até a cozinha, enquanto ele esperneava pra escapar das suas mãos.
— Larga ele agora! — Ordenou seu pai, com cara de quem havia acabado de acordar.
— Mas pai, ele tava…
— Eu não quero saber — interrompeu o pai — Eu tô mandando você soltar o menino agora. Anda!
— Alícia — ordenou a senhora Carrilho — Obedeça o seu pai.
— Mas mãe, ele tava...
— É, ele tava me olhando tomar banho- falou Carmen, sua irmão gêmea, entrando na cozinha de roupão e molhando todo o chão — Qual o problema disso?
No momento em que Carmen apareceu, Dudu cravou os olhos no formato dos seus seios, sobre o roupão. Alícia, que ainda estava segurando o menino pela orelha, empurrou ele pra frente, com força, e o derrubou no meio da cozinha.
— Pra quê essa agressividade toda, filha? Ele é só uma criança — a senhora Carrilho levantou o menino e o trouxe pra perto de si em um abraço apertado.
— Uma criança pervertida e imunda! — gritou Alícia, saindo em direção ao quarto.
— Olha só como você fala com a sua mãe, mocinha — o senhor Carrilho a segurou pela mão, como se fosse bater nela.
— Será possível que só eu que levo bronca nessa casa? — Alícia olhou pra cara da irmã, enquanto se soltava das mãos do senhor Carrilho — Aposto que se fosse eu entrando toda molhada na cozinha, vocês iriam me mandar enxugar o chão com a língua.
— Pelo menos eu não chego em plena hora do almoço com bafo de cerveja — disse Carmen, virando as costas pra irmã e saindo da cozinha.
Alícia ficou um tempo calada, olhando pra cara do pai e da mãe, sem saber o que dizer. Os dois a olhavam como se ela não fosse bem-vinda naquela casa. Depois de um tempo, a menina tomou um copo d’água e andou cabisbaixa até o quarto.
— Você devia tratar eles melhor de vez em quando — comentou Carmen, completamente nua, enxugando os cabelos diante do espelho.
— Você não manda em mim. Nem você, nem eles e nem ninguém.
Alícia deitou na cama, uma de casal que dividia com a irmã, e começou a mandar mensagem pra todo mundo da turma que estava em sua agenda.
— O que você tá fazendo? — perguntou Carmen, deitando ao lado da irmã.
Alícia ainda não sabia se devia contar pra Carmen sobre a festa mas como o ideal era chamar o máximo de pessoas possível, preferiu deixar as desavenças de lado e revelou o plano pra ela.
— Invadir a escola? Você só pode ter endoidado de vez — riu Carmen, encostando sem querer a ponta do seio no braço da irmã.
— Dá pra você afastar um pouquinho mais? — sugeriu Alícia, irritada — Eu sei que privacidade é um direito que eu nunca tive nessa casa, aliás, que ninguém nunca teve, mas eu preciso de um mínimo de espaço pra respirar sossegada, se é que você me entende.
— E você acha que eu adoro dividir o quarto com você? — perguntou Carmen, afastando um pouco pro lado — Se você fosse um pouco menos rebelde, quem sabe um dia a gente pudesse ter cada uma o seu devido espaço.
— Como assim? Você tá insinuando que a culpa da gente dormir junta é minha?
Carmen fez uma cara de quem tinha falado demais, mas como a conversa já tinha sido iniciada, ela resolveu ir até o fim.
— O papai e a mamãe acham que se a gente dormir junta, pode ser que você se torne uma pessoa melhor — Carmen disse isso olhando pro teto, evitando um confronto direto com a irmã.
— Você quer dizer uma pessoa que nem você né, a santa Carmen protetora dos nerds e dos perdedores da escola — a voz de Alícia estava carregada de indignação.
As duas ficaram em silêncio por um bom tempo. Alícia continuou mandando mensagens até acabarem os números da sua agenda e, ao lembrar da promessa que havia feito a Cirilo, sobre convidar MaJo, a aluna nova, pra festa, sentiu que não conseguiria cumprir com a sua palavra.
— O que foi? — perguntou Carmen, curiosa.
— Nada… É que eu fiquei de chamar a aluna nova pra festa mas acho que nem vai rolar.
— Você quer dizer a Maria Joaquina? Eu posso conseguir o número dela pra você — Carmen levantou da cama e foi até o computador.
— Como? — perguntou Alícia, seguindo a irmã e ficando em pé atrás da cadeira onde Carmen estava sentada.
— Os funcionários da biblioteca têm acesso ao sistema onde todos os alunos são cadastrados — disse Carmen, digitando a senha e entrando no sistema — Às vezes, ser a santa protetora dos nerds e dos perdedores pode servir pra alguma coisa.
Alícia riu disfarçadamente enquanto acompanhava a desenvoltura com que Carmen mexia no sistema da escola. Por dentro, porém, a inveja começava a disseminar pelas suas veias. Ser irmã gêmea de uma das melhores alunas da Escola Mundial sempre foi um estorvo para a sua vida acadêmica. Os seus pais, seus professores e até mesmo seus colegas de turma faziam piadas com o fato de uma irmã ser tão inteligente e a outra tão… "Desinteressada", como alguns gostavam de dizer.
— Aqui. Maria Joaquina Medsen. O número tá logo ao lado do nome — Disse Carmen, dando o lugar pra irmã sentar.
— Ok. Eu vou aproveitar pra chamar todo mundo que eu quiser. Hoje sou eu que decido quem vai ser convidado e quem não vai — Alícia tinha recobrado a empolgação. Nunca antes teve tanto poder nas mãos e isso fazia com que se sentisse especial, de alguma forma.
— Aproveita e chama o Daniel… Vai que ele olha pra mim ao menos uma vez…
— Ai, Carmen. Falando desse jeito até parece que você é feia. Você só tá um pouco gordinha… — disse Alícia, rindo da cara da irmã e aproveitando pra se sentir melhor em alguma coisa.
— Vai se ferrar, Alícia — Carmen falou, mostrando o dedo do meio pra irmã. Depois abriu o seu lado do guarda-roupa e procurou algo pra vestir.
— Eu tô indo almoçar, você não vem? — perguntou Carmen ao perceber a empolgação da irmã, mandando mensagens pra todo mundo da escola.
— Eu vou já.
Quando Carmen abriu a porta do quarto, Dudu caiu esparramado no chão.
— Olha só o que temos aqui — a menina falou, levantando Dudu com cuidado.
Dudu estava com o rosto vermelho de vergonha.
— Duduzinho, qual de nós duas você acha mais bonita, eu ou a sem graça da Alícia?
— Você, é claro — Dudu respondeu, olhando fixo para os seios da irmã.
— Tá vendo, Alícia — disse Carmen antes de sair do quarto — Até nisso eu ganho de você.
—
Quando a noite chegou, Alícia, Cirilo, Koki e Adriano se encontraram na frente da escola, cada um com um carro de mão cheio de coisas pra festa, como comida, bebida, decoração, som etc.
— Tá. E agora? O quê que a gente faz? — Perguntou Cirilo, olhando pros lados, preocupado.
— Agora a gente faz isso aqui.
Alícia largou o carro de mão e subiu no muro da escola com facilidade. Em poucos segundos já estava do outro lado, com o mesmo sorriso travesso de sempre.
— Prontinho. Agora vocês ficam aí me esperando. Eu vou dar uma volta pra ver se não tem ninguém
Alícia caminhou devagar pelos arredores da escola, se certificando de que não havia mais ninguém ali, e voltou pra entrada com um martelo que encontrou no quartinho de ferramentas.
— Ual. Você tá realmente pronta pra dar essa festa, ein — comentou Adriano, surpresou ao vê-la manusear o martelo.
Cerca de vinte minutos depois, os quatro já estavam ligando o som no jardim onde aconteciam as cerimônias e os principais eventos da Escola Mundial. Cirilo e Adriano mexiam na instalação elétrica, enquanto Alícia improvisava uma mesa onde seriam distribuídas as comidas, as bebidas e tudo mais.
— Peraí… — Alícia parecia estar sentindo falta de alguma coisa.
— O que foi? Tem alguma coisa errada? — Perguntou Koki, começando a ficar aflito.
— Cadê a maconha que vocês compraram?
— Xii — Koki passou a mão na cabeça, preocupado — Eu esqueci no sofá da casa do Cirilo. E agora?
— Agora você vai ter que ir lá correndo buscar né, mané. Sem maconha não tem festa — disse Alícia irritada com o deslize do amigo — E é melhor você se apressar porque o pessoal já deve tá chegando.
Koki saiu correndo na direção da entrada da escola, enquanto os outros três continuaram ajustando os preparativos da festa. Naquela altura do campeonato, a reputação de Alícia estava em jogo, e aquele precisava ser o evento do ano. Em seu coração se encontrava a mesma emoção de sempre, e a sua única preocupação agora era que as coisas não saíssem do seu controle.
—
♪ The Flaming Lips feat. Kesha — "2012 [You Must Be Upgraded]" ♪
Koki só veio chegar com a maconha por volta das sete e meia. E mesmo tendo pedalado à toda velocidade, com a bicicleta nova que tinha pego na loja mais cedo, sua demora causou um pequeno alvoroço. Os convidados, que esperavam já há um bom tempo, estavam ansiosos pra fumar o baseado que havia sido prometido.
— Até que enfim ein — disse Alícia se apressando pra preparar a seda.
— Eu fui o mais rápido que deu — disse Koki encharcado de suor — Agora você me dá licença que eu preciso de uma cerveja.
A música estava bastante alta, e a bagunça já tinha se iniciado. Algumas pessoas pixavam as paredes enquanto outras urinavam atrás das árvores.
— Essa sua festa tá boa pra caramba — comentou uma menina desconhecida enquanto Alícia distribuía os baseados.
Do outro lado, a menina pôde ver que os garotos do time de futebol e o grupinho de vadias que andava com eles pareciam estar curtindo a sua ideia. E quanto mais gente chegava, mais a emoção crescia dentro de si.
— É você que é a tal da Alícia? — perguntou uma voz desconhecida.
— Ah! — exclamou ao ver quem era a dona daquela voz — Você é a aluna nova, né?
— Sim. E ela é suuuuper legaaaaal — disse Bibi se intrometendo na conversa, completamente bêbada.
— Pelo visto, você já se enturmou com o pessoal… — comentou Alícia estendo um baseado pra cada uma.
— É… — respondeu MaJo com um sorriso no canto da boca — A gente ficou amiga depois do trabalho de Biologia. Aquele que era em dupla.
— Ah… — disse Alícia, lembrando que não tinha ido pra nenhuma aula de Biologia desde que as aulas tinham começado.
— E então? Cadê o pessoal que você disse que queria me apresentar? — perguntou MaJo, se referindo à mensagem de texto que Alícia tinha lhe enviado mais cedo.
— Ah, sim, eu já ia me esquecendo — Alícia largou o resto da maconha em cima da mesa, fazendo com que as pessoas que ainda não tinham sido servidas se espremessem pra tentar pegar alguma coisa — Vem comigo.
Alícia guiou as duas até o outro lado do jardim, onde seus amigos estavam sentados, fumando, bebendo e rindo da cara um do outro.
— Gente. Essa daqui é a MaJo. A aluna nova. A Bibi, vocês já devem conhecer, né?
Nessa hora, Cirilo levantou de uma vez, meio zonzo, e fez menção de que iria abraçar MaJo, mas no caminho foi surpreendido pelo corpo de Bibi, que voou em sua direção.
— Oooooi Ciriiiiloooo — disse Bibi abraçando o menino e tentando beijá-lo à força.
— Peraí, Bibi — disse Alícia, tentando segurar a menina, que pendia pra frente como se estivesse sem forças pra se sustentar de pé.
MaJo riu sem dizer uma palavra. Junto ao grupo estavam os garotos que ela havia conhecido no primeiro dia de aula, Paulo, Jaime e Daniel.
— E aí, gracinha. Andou atropelando mais algum gorducho descuidado ultimamente? — Perguntou Paulo olhando para Jaime, que já tinha tirado o gesso da perna mas continuava mancando.
— Não — ela respondeu fria — Agora eu só atropelo gente retardada tipo você.
— Uuuuuuui! — gritou Adriano, rindo da cara envergonhada de Paulo.
Todos, incluindo Paulo, estavam chapados e rindo alto por qualquer coisa. MaJo se afastou um pouco pra fazer uma ligação, enquanto Alícia lutava pra lidar com Bibi, desmaiada em seus braços.
— Deita ela aqui perto da gente — disse Cirilo, ajudando Alícia a colar Bibi no chão.
Alícia pôde por fim se sentar junto dos amigos e acendeu seu primeiro cigarro da noite.
— E aí? Tá todo mundo curtindo a festa? — Ela perguntou, imaginando que a resposta seria positiva.
— Tá muito daora. Só tá faltando uma gatinha aqui do meu lado... — disse Jaime, observando MaJo ao longe.
— Sai fora, Jaime. Hoje eu que vou ficar com ela — disse Cirilo, confiante.
— É verdade, Jaime — disse Paulo chegando mais perto de Cirilo — O Cirilão aqui vai beijar muito a boca da novata, não é Cirilo?
— É… — Cirilo pareceu um pouco menos confiante dessa vez — Quer dizer, eu acho que vou…
— Relaxa. Você só precisa mandar um papo qualquer, tipo "e aí gata, tá curtindo a festa?" e tal, aí quando ela tiver olhando pra você, é só enfiar a língua na boca dela que eu tenho certeza que ela não vai resistir.
Paulo falava como se estivesse imaginando ele mesmo beijando a menina. Ao seu lado, Daniel fazia uma cara de quem não estava gostando nada nada da conversa.
— Falou o rei da pegação da Escola Mundial — disse Alícia, arrancando o riso de todo mundo.
— Nossa, Paulo, essa doeu até em mim — falou Koki, dando mais um trago e segurando uma garrafa de vodka nas mãos.
— Ah é — Paulo arrancou a vodka com força das mãos de Koki e tomou um gole gigantesco — Vamo ver quem consegue pegar mais gente aqui, hoje?
A proposta foi direcionada especificamente para Alícia, que aceitou na mesma hora, sem nem pensar.
— O esquema é o seguinte — disse Alícia, tentando organizar a aposta — O Jaime anota o meu placar enquanto o Koki anota o seu. Assim parece mais justo. Aí no final, quem tiver beijado mais pessoas, tira a roupa no meio de todo mundo.
— Fechado.
Paulo apertou a mão de Alícia e saiu apressado, sendo seguido por Koki. A menina levantou em seguida, sendo parada por Cirilo antes que pudesse sair dali.
— Você vai me deixar aqui sozinho com ela? — perguntou olhando pra Bibi, desmaiada na grama.
— Relaxa, Cirilo, o Adriano e o Daniel tão aí também — Alícia olhou pro lado e viu que MaJo estava voltando — Aproveita pra fazer amizade com ela. Essa pode ser a sua chance.
Alícia pegou Jaime pela mão e os dois saíram pra onde a multidão estava dançando. A festa continuava bombando e a bagunça já havia se multiplicado mais do que se poderia imaginar.
—
♪ Crystal Castles — "Empathy" ♪
Alícia saiu beijando todos os garotos que viu pela frente, enquanto Jaime corria em sua direção, calculando o seu placar mentalmente. A música envolvente ajudava na hora de virar pro lado e beijar o próximo, e assim ela seguiu, cada vez mais bêbada, pelo meio da multidão. Mais à frente, Paulo se agarrava com uma loira magra e alta, provavelmente líder de torcida.
Em um determinado momento, ela ficou com dois garotos ao mesmo tempo, revesando entre a boca de um e de outro. Jaime ficou um pouco constrangido, assim como Kokimoto, por terem sido escalados pra fazer a contagem, mas como assistir aquele festival gratuito de pegação era mais divertido que fumar maconha na grama, eles seguiam os dois sem reclamar.
— O que você pensa que tá fazendo? — perguntou Carmen, puxando a irmã pra longe dos dois caras que a beijavam ela loucamente.
— Me deixa, sua idiota. Eu tô no meio de uma competição — Alícia estava cambaleando pros lados, sem equilíbrio.
— A idiota aqui é você, que tá se agarrando com um e com outro como se fosse uma vadia — Carmen precisava segurar a menina para que ela não caísse.
— Quer saber, Carmen, você só pode tá com medo de eu pegar — Alícia olhou pra onde Jaime estava e achou melhor não tocar no nome de Daniel — Você sabe quem…
— Tudo bem, então. Faça como você quiser — Carmen abriu passagem e deixou Alícia pra trás.
— E então? — perguntou Paulo, chegando agarrado com uma morena, mais chapada que todos eles juntos — Quantos pontos ela fez?
— Ah — disse Jaime, contando nos dedos — Até agora foram oito.
— Hahaha — Paulo sorriu, olhando pra cara da Alícia — Fala pra ela, Koki.
— Nove… — Koki parecia desapontado pela derrota da amiga — Eu sinto muito...
Ao ouvir que estava apenas a um número abaixo, Alícia puxou Jaime pra perto de si e o beijou profundamente, olhando fixo nos olhos de Paulo. Jaime se deixou levar pelo momento e a encostou na parede, aproveitando cada segundo.
— Ei, ei, ei — disse Paulo, encabulado por ter que assistir o beijo meloso dos dois — Chega. A gente tá empatado agora. E aí?
— Hm… Não sei — A menina estava tonta demais pra continuar — Vamo só voltar pra onde tá o pessoal.
Os quatro voltaram pra grama, onde os outros estavam. MaJo e Daniel conversavam empolgados enquanto Cirilo ficava olhando pra ela, sem nem piscar os olhos.
— E aí, turma, alguma novidade? — perguntou Paulo sentando entre Cirilo e MaJo.
Koki e Jaime deitaram Alícia ao lado de Bibi, embora ela não estivesse tão mal quanto a outra. De onde estava, Alícia conseguia ouvir tudo que conversavam, e, olhando atentamente pro rosto de Daniel, notou um certo desconforto no seu olhar.
— Cadê, Cirilo, você conseguiu… aquele negócio? — Paulo piscou pra ele, se referindo à MaJo.
— Tá quase lá — respondeu Cirilo, sorridente.
— Do que vocês tão falando? — perguntou MaJo, interessada no assunto.
— Ah, nada… — disse Paulo, desconcertado. O menina aproveito a deixa pra comunicar a sua situação na aposta — Você sabia que eu e a Alícia empatamos na competição de beijo?
— Ah é… — comentou MaJo olhando pra boca de Paulo, toda suja de batom — E porque você não venceu?
— Ow! — exclamou Adriano — Essa é das minhas!
— Ainda dá tempo — disse Paulo beijando MaJo de leve, bem na cara do Cirilo.
— Como você é escroto, Paulo! — gritou Daniel, levantando em seguida e indo sabe-se-lá pra onde.
— Peraí, Daniel — disse Jaime preocupado com o amigo.
— Deixa que eu falo com ele — Alícia se levantou com cuidado e correu atrás de Daniel.
Cirilo ficou paralisado, vendo Paulo e MaJo se agarrando bem na sua frente. Seu coração estava completamente despedaçado e mesmo assim o seu corpo não conseguia evitar que ele assistisse a tudo, torturado pelo beijo que parecia não ter fim.
—
— Como você é rápido! — exclamou Alícia, cansada de percorrer a escola inteira atrás de Daniel.
— O que você quer? — ele perguntou, sentando no batente entre o saguão de entrada e o jardim.
— Nada… Eu só vim ver se tava tudo bem com você.
Na verdade Alícia estava querendo saber se poderia apresentar sua irmã pra ele, na tentativa de melhorar sua situação com ela, e aquele parecia ser o melhor momento pra isso.
— É que o Paulo passa dos limites às vezes… — falou Daniel, cabisbaixo — Ele inventou de beijar a menina justo na frente do coitado do Cirilo…
— Não fica assim. O Cirilo sabe que…
— É sério que você vai ter coragem de fazer isso comigo?
Do nada, Carmen surgiu diante dos dois, deixando o clima ainda mais conturbado.
— Peraí, Carmen, não é nada disso que você tá pensando — disse Alícia, tentando se explicar.
— Essa é a sua vingança por eu ter te chamado de vadia?
— Não é isso, me escuta por favor! — Alícia se levantou, ainda um pouco tenta, e olhou fundo nos olhos da irmã.
— Você acha que isso vai te fazer ser melhor do que eu? Acorda, garota. Você é uma criatura destinada ao fracasso — o ódio dominava as palavras de Carmen, como nunca antes — E mesmo que você ache que essa festa vai fazer alguém gostar de você, eu duvido que isso aconteça. Você vai ser sempre uma versão minha que deu errado.
Carmen virou de costas e saiu correndo, chorando. Alícia começou a vomitar, após ter ouvido tudo que a irmã jogou na sua cara. Daniel, que não tinha entendido nada da discussão das duas, conseguiu um pouco de água com alguém no meio da multidão e deu pra menina beber. Depois disso os dois caminharam de volta até onde seus amigos estavam. Chegando lá, Daniel reparou que Paulo e MaJo não estavam mais juntos.
— Você perdeu, mocinha — disse Paulo, antes que ela pudesse se sentar — Agora vai ter que tirar a roupa na frente de todo mundo.
— Deixa de ser babaca, Paulo, você não tá vendo que ela tá mal? — disse Daniel, irritado.
— Isso é problema dela. Apostou, tá apostado.
Alícia se soltou de Daniel e se posicionou na frente de todo mundo. Ao seu redor, formou-se um pequeno círculo de curiosos. Seu corpo ainda estava fraco e ela lutava pra conseguir se equilibrar sozinha. Diante de dezenas de olhares ansiosos, a menina tirou a parte de cima da roupa, exibindo os seios pra quem quisesse ver. Paulo assistia a cena se acabando de tanto rir.
— Você não precisa fazer isso — disse Daniel, tentando impedir que ela tirasse a parte de baixo.
— Eu tô fazendo isso porque eu quero.
Quando Alícia fez menção de que iria tirar a parte de baixo, a sirene da polícia começou a tocar e todo mundo saiu correndo em disparada. Cirilo pegou Bibi nos braços e a levou embora, enquanto Adriano e Koki recolhiam todas as garrafas que ainda tinham algum líquido dentro.
— A gente tem que vazar daqui agora! — disse Paulo segurando no braço de Daniel.
Daniel olhou um instante pra Alícia, imaginando se deveria tirá-la dali, mas devido à forma grosseira com que ela o tratou, ele preferiu não fazer nada. Mais à frente, Jaime e MaJo escalavam o muro lateral, seguidos por meia dúzia de rostos desconhecidos.
— Anda, a polícia tá entrando aqui — disse Carmen apanhado a roupa da irmã e colocando às pressas.
— Por que você voltou? — perguntou Alícia, com os olhos cheios d’água.
— Quem disse que eu tinha ido embora, sua boba? — Carmen enxugou as lágrimas da irmã e a levou consigo pro muro onde todos estavam escalando.
No caminho, Koki parecia apreensivo, à procura de alguma coisa.
— O que foi, Koki? — perguntou Alícia, preocupada.
— A bicicleta… Ela sumiu…
— Relaxa. Alguém deve ter roubado ela. Depois a gente arranja outra pra você.
Dito isso, todos pularam o muro e deixaram a escola pra trás, completamente destruída.
—
Já era bastante tarde quando Alícia e Carmen voltavam pra casa. A rua estava deserta e a iluminação falhava de vez em quando. As duas tremiam de frio e se abraçavam, enquanto caminhavam devagar.
— Acho que eu bebi demais — disse Alícia parando pra vomitar atrás de um poste.
— Você fez tudo demais, hoje.
— Desculpa… Eu sou um fracasso mesmo — Alícia limpou a boca com as costas das mãos e continuou andando.
— Você não precisava fazer tudo aquilo pra se sentir importante — Carmen permaneceu no meio da rua, deixando a irmã caminhar por si só.
— Pra você é tudo muito simples... — Alícia parecia estar prestes a desentalar algo que estava há séculos preso em sua garganta — A irmã bondosa e preocupada, a aluna perfeita que tira dez em tudo, a filha maravilhosa que todo pai sonha ter.
— E você é estilosa, corajosa e simpática com os outros. Eu nem sequer chego perto disso. Tudo o que sei fazer é trabalhar naquela biblioteca imunda, atrás de um monte de livro empoeirado, enquanto você tá por aí se divertindo e vivendo uma vida que eu nunca vou ter — Carmen percebeu que a irmã chorava baixinho — Pra mim você é muito especial. Mas eu gosto da Alícia que eu conheço, não dessa pessoa desesperada por atenção que tava beijando todo mundo na festa.
O silêncio durou a noite toda. Ao chegarem em casa, Alícia tomou banho primeiro e deitou. Carmen, alguns minutos depois, apareceu com um prato de comida nas mãos e deixou ao lado dela, em cima da cama.
— Agora é a minha vez de tomar banho, tá? — disse Carmen, se certificado de que estava tudo bem com a irmã — Qualquer coisa é só chamar.
Depois que ela fechou a porta, Alícia se sentou e começou a comer. Sua barriga já estava roncando há muito tempo. De repente, uma mensagem chegou em seu celular. Era de Paulo e dizia: "Você tem uns peitos lindos! junto de uma carinha de desejo.
Alícia olhou pros próprios peitos e sorriu. Pela primeira vez, naquele dia, não sentia vontade alguma de ser alguém diferente dela mesma. Como se o mundo inteiro tivesse deixado de existir, restando apenas ela, um prato de comida entre as pernas e dois peitos que não precisavam da opinião de ninguém pra ser do jeito que ela gostaria que fossem. Dela e de ninguém mais.
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