Notas iniciais
Enquanto todo mundo insiste em enxergar Daniel como o certinho da escola, o garoto tenta mostrar que as coisas já não são mais as mesmas há bastante tempo. (na foto, pela ordem: jaime, paulo e daniel)

Marc Robillard — "Time With You"

Exatamente às 6:49, Daniel abriu os olhos, pegou o celular e desligou o alarme antes mesmo de tocar. Caso tocasse, o dia seria ruim. Esse era o jogo, e por isso todos os dias ele abria os olhos antes da hora marcada, experimentando o gosto da vitória antes de colocar os pés no chão. O pé direito, no caso. Pra dar sorte.

Ao se virar pro lado, alguma coisa caiu no chão. Ainda com os olhos pregados, tentou enxergar que objeto estranho era aquele e, forçando a vista ao máximo, viu a imagem de uma modelo deitada em cima de uma mesa, de pernas abertas e com um olhar misterioso por trás de uma máscara de borracha. Por um segundo, pensou em apanhar a revista e demorar um pouco mais pra levantar da cama, mas o primeiro dia de aula do terceiro ano começaria em uma hora e ele jamais permitiria se atrasar por um motivo tão banal.

Abriu o guarda-roupa, tirou uma caixa de madeira que ficava embaixo de um fundo falso e colocou a revista dentro. Sua coleção de pornôs tinha crescido bastante nos últimos anos e já não dava mais pra esconder todo aquele material de baixo da cama. Pôs a caixa de volta no lugar, tirou a cueca e entrou no banheiro. Daniel tinha um banheiro só pra ele, no quarto, e isso era uma das suas maiores conquistas adolescentes. Mais até que o término com Safira, uma namorada que tinha desde o oitavo ano e que todo mundo dizia ser o par perfeito pra ele.

O problema de Safira era ser perfeita demais, uma espécie de espelho que refletia os piores defeitos dele. O que poucas pessoas sabiam, e Safira nunca fez parte desse grupo seleto, era que Daniel, com o passar do tempo, começou a odiar a si mesmo por conta de nunca poder fazer nada errado. Sempre que os seus amigos matavam aula, ele era o responsável por ficar e mentir para os professores, quando todo mundo invadia a garagem de alguém pra fumar maconha, ele tinha que ficar na porta vigiando. Até os seus pais podiam encher a cara nos fins de semana e ele não. E depois de vários meses de saco cheio, com Safira e o resto da humanidade esperando que ele fosse o garoto perfeito, tomou coragem e deu um fora nela, numa festa na casa do Cirilo, onde virou uma garrafa inteira de vodka, de uma vez só, e fez tudo que sempre teve vontade. Depois disso seus amigos passaram a enxergá-lo como ele realmente era, um jovem de dezessete anos cheio de testosterona e vontade de aprontar.

Terminou de tomar banho, escovou os dentes, tirou a barba e se enxugou rapidamente. Pôs uma calça larga, uma camiseta preta manchada de tinta, uma camisa cinza desbotado por cima e pegou o celular. Havia uma mensagem do Paulo, dizendo: "esquenta no pântano antes da aula, topa?". Abriu a porta do quarto e desceu as escadas apressado. Seus pais estavam calados tomando café na cozinha e, por uma fração de segundo, viu o senhor Zapata escondendo uma garrafa de conhaque por baixo da mesa. Provavelmente os dois estavam bebendo desde que levantaram. Era a única forma de não brigarem na frente do filho e fingirem ainda ser um casal que se ama.

— Você não vai ficar pra comer, filho? — perguntou a senhora Zapata.

— Não, mãe. Eu tô atrasado pra aula. Mas deixa um pedaço de bolo na geladeira que eu como na volta.

— Tudo bem. Boa aula pra você.

Dava pra sentir o cheiro forte da bebida mas Daniel fingiu não ter percebido nada. Tudo o que ele menos queria era que eles se separassem, portanto sempre os deixava resolver os problemas da maneira que achassem melhor. Pelo menos quando estavam bêbados pareciam sentir alguma coisa um pelo outro e, se estavam se esforçando pra esconder a situação, era porque imaginavam que aquela fase ruim iria acabar um dia.

Paulo morava num trailer no meio de um campo abandonado, com plantas baixas e bem verdes, uma árvore daquelas que não dão fruto nenhum e um monte de bicho que de vez em quando entrava por baixo da porta e acabavam morrendo à chineladas, quando baratas, ou à pauladas, quando ratos. Por conta disso, o pessoal passou a chamar o lugar de "pântano" e era pra lá que Daniel caminhava apressado, com as roupas folgadas sacudindo no vento.

— Perdi alguma coisa? — perguntou Daniel entrando sem bater na porta.

— Vem cá minha linda. Vem dar um beijo no papai, vem? — Jaime rastejava pelo chão seguindo o rastro das formigas até o canto da parede.

— Que porra é essa que você ta fazendo, Jaime? — Daniel chegou mais perto, bem devagar.

— Ele tá chapado, hahaha. Você devia acender um também — Paulo surgiu de repente detrás de uma cortina cheia de pequenos crocodilos desenhados.

Daniel olhou em volta e notou o cigarro em cima da mesa. Estava pela metade. Procurou o isqueiro no bolso e percebeu que tinha deixado em casa.

— Segura aí — Paulo jogou seu isqueiro com cuidado.

Daniel deu um trago razoável, soprando uma nuvem de fumaça no teto. Jaime sentou numa cadeira e começou a rir do nada, olhando pra cara dos amigos.

— O que foi, gordinho? Parece que nem as formigas querem alguma coisa com você. Hahahah! — Paulo puxou a gargalhada e os dois acompanharam.

O tempo foi passando e os três permaneceram sentados, rindo da cara um do outro e esperando o tempo passar. Daniel foi o primeiro a olhar a hora no celular e ver que eles estavam atrasados. Paulo correu pro quarto pra trocar de roupa — ele tava só de cueca — enquanto os outros dois comiam restos de pão com geleia que estavam jogados ali por cima, sabe-se-lá desde quando.

Só faltavam dez minutos pra aula começar. Daniel e seus amigos estavam correndo desesperados pelas ruas semi desertas que cortavam o caminho. Naquela manhã ventava muito e o frio, embora não tão forte quanto nos outros dias, fazia com que tremessem de vez em quando.

— Pra quê correr se a aula vai ser a mesma droga de sempre? — perguntou Paulo enquanto fazia uma pequena pausa.

— É... Você tem razão — Daniel parou um pouco mais na frente e se voltou para os amigos. — A melhor parte de não ser mais o garotinho perfeito da escola é não ter que me preocupar com nada.

— Gostei de ver. Esse é o Daniel que eu gosto — comentou Paulo procurando alguma coisa na bolsa. — Rapazes, o que vocês acham da gente terminar o nosso aquecimento pré primeiro dia de aula?

— Ai, não. O que será que ele vai tirar dessa bolsa... — Daniel olhava pros lados, preocupado.

— Tcahran! — Paulo tinha agora uma garrafa de vodka nas mãos. — Relaxa, Daniel, você tá em Bristol. Um lugar maravilhoso onde o álcool e a maconha são os melhores amigos do homem. Ninguém vai te repreender por causa disso.

— O Paulo tem razão, Daniel. Se você realmente mudou, não tem pra quê ter medo — disse Jaime com os olhos vidrados na garrafa.

— Hm... — Daniel pensou um instante — Bem... Se vocês dizem... Passa logo essa garrafa pra cá!

Daniel tomou um gole enorme e soltou um gritinho que parecia o uivo de um lobo perdido na floresta. Paulo e Jaime também se serviram e os três começaram a uivar enquanto andavam em direção à escola.

Estavam cantando alegremente, há mais ou menos três quadras quando de repente um carro avançou o sinal e partiu pra cima deles. Daniel deu um pulo pra trás e caiu por cima de Paulo. Jaime foi atingido em cheio, indo parar em cima do capô do carro. Com o barulho da freada, algumas pessoas saíram de suas casas mas logo viram que nada demais tinha acontecido. "Ah, bom. É só um garoto em cima de um carro", falou uma das senhoras antes de fechar a porta, ainda com roupas de dormir.

— Ai meu Deus! Você tá bem? — Perguntou uma mulher de dentro do carro, olhando fixamente para o rosto de Jaime, que se contorcia na tentativa de resistir à dor.

— Você podia ter matado ele, sua maluca! — Gritou Paulo indo checar se estava tudo bem com Jaime.

A mulher saiu do carro com as mãos na cabeça como se uma grande desgraça tivesse acabado de acontecer.

— Ai que ódio! O Miguel vai me matar quando ver o estrago que eu fiz no carro dele!

— E você ainda tem a cara de pau de falar no seu maldito carro ao invés de prestar socorro ao meu amigo! Vem cá, você tá bêbada, por acaso? — exclamou Paulo enquanto tentava tirar o amigo de cima do carro.

— P...Pa...Paulo... Tem sa...sa...sangue saindo da minha perna — grunhiu Jaime.

Outra pessoa saiu do carro. Uma garota completamente vestida de preto e com uma maquiagem perfeita para o Halloween.

— Ele deve ter quebrado a perna, só isso — a menina chegou perto do garoto machucado e começou a apalpar bem perto da ferida.

— Aaaaai! — gritou Jaime tirando a mão dela de perto.

Daniel assistia a tudo aquilo sem dizer uma palavra. Por um instante achou que ainda estava chapado e que tudo aquilo fazia parte de uma alucinação. Porém, quando aquela menina abriu a boca, seu coração disparou no mesmo instante. De uma forma que nunca havia acontecido antes.

— E você é médica, por acaso? — Perguntou Paulo com um sorriso no rosto. Ele sim ainda estava bastante chapado.

— Eu não te devo satisfações. Agora vê se deixa de ficar aí parado e coloca ele no carro — ela virou para o lado onde Daniel estava e mirou bem nos olhos dele — você também.

No carro estava tocando Nirvana, a banda favorita da senhora Medsen, no volume máximo, o que provavelmente ocasionou a colisão. No banco de trás, Daniel e Paulo permaneciam em silêncio enquanto Jaime sofria de dor com a perna estirada no colo deles.

A menina fechou o som abruptamente e continuou olhando pra frente. O seu perfume deixava os três marmanjos completamente enfeitiçados.

— Então quer dizer que vocês estudam na Escola Mundial? Hoje é o primeiro dia da Maria Joaquina lá.

— Quem é Maria Joaquina? — perguntou Jaime, com a voz fraca e dolorosa.

— DÂA! Quem você acha, seu burro? Claro que é a gatinha aí da frente — falou Paulo ainda chapado e sorridente.

A menina engoliu à seco e virou pra trás, apalpando mais uma vez a perna do garoto acidentado.

— Você teve sorte. Da última vez ela mandou o cara direto pro hospital.

— Filha! Não fala uma coisa dessas! O que os rapazes vão pensar de mim? — exclamou a senhora Medsen enquanto ajustava o espelho retrovisor — Ainda mais agora que eles vão ser seus futuros colegas de classe.

— Você também tá indo pro terceiro ano? — perguntou Daniel.

— Pela carinha de boneca eu diria que ainda é do primário — disse Paulo procurando aprovação no rosto dos amigos, porém dessa vez a piada pareceu ter ido longe demais.

— Não liga pra ele. Deve ter tomado alguma coisa estranha no café da manhã — Daniel tentava ao máximo consertar a situação.

— Eu imagino — disse a menina, novamente olhando no fundo dos olhos dele. — E sim, eu tô indo pro terceiro.

— Legal... — comentou Jaime. — Eu só espero que você não acabe se tornando amiga da Margarida que nem todas as meninas bonitas da classe.

— Hahaha. Tem razão, Jaime. Ela tem cara de patricinha mimada mesmo — completou Paulo.

— Nossa! Vocês realmente não conhecem a minha filha. Hahahaha — a senhora Medsen olhou pra filha e ambas começaram a rir.

Um pouco depois, o carro parou em frente a Escola Mundial, onde os quatro iriam ficar. Daniel saiu primeiro e apoiou Jaime em um de seus ombros enquanto Paulo se despedia da senhora Medsen com um aperto de mão gentil. Depois disso ele também ofereceu o ombro para o amigo e assim os três entraram na escola. A menina, por sua vez, ficou para trás e resolveu seguir seu próprio caminho. Se tinha uma coisa que ela odiava pra valer era o cheiro de hospital, mesmo quando vinha de uma mera enfermaria de escola.

Na enfermaria, os três discutiam sobre a menina que acabaram de conhecer. Uma enfermeira de ar tímido e ao mesmo tempo sério fazia os preparativos para engessar a perna de Jaime.

— Ela com certeza tá na minha. Vocês viram a cara de prazer que ela fez quando eu chamei a mãe dela de bêbada? — perguntou Paulo, encostado na porta e tamborilando ansioso os dedos na maçaneta.

— Que nada. Ela tava preocupada comigo o tempo inteiro. Se duvidar a gente tran… — Jaime olhou para a cara furiosa da enfermeira e engoliu as palavras. — A gente sai junto qualquer dia desses.

— Hahaha. Você? O gorducho mais atrapalhado e burro que eu conheço? É mais fácil ela sair com um porco do que com você — Paulo sorria sem se preocupar com a cara de incômodo da enfermeira.

— Tem razão — disse Jaime baixando a cabeça. — E você, Daniel, o que achou da… Ai! Vai devagar com essa droga aí, tia! — gritou para a enfermeira, que massageava a ferida com um gel incolor.

— É, Daniel. Você tá aí paradão nessa cadeira desde que a gente chegou aqui. Fala alguma coisa — Paulo pôs as mãos nos bolsos. O frio estava começando a castigar seu corpo.

— Eu só fiquei assustado com todo esse lance de atropelamento. Anda, deixa o Jaime aí com a nova amiguinha dele. Vamo tomar uma café ou algo do tipo.

A enfermeira suspirou profundamente e ficou encarando o menino como se fosse expulsá-lo só com o olhar.

Daniel se levantou bruscamente e abriu a porta. Paulo fez um gesto para Jaime, insinuando alguma coisa sexual entre ele e a enfermeira e saiu em seguida. Lá fora, os dois caminharam até a lanchonete sem dizer uma palavra.

— Você não devia fazer isso — Alertou Daniel ao ver o que Paulo estava fazendo.

Os dois estavam sentados em uma mesa da lanchonete, no pátio da escola, observando as garotas passando. Paulo estava tomando uma xícara de café misturado com vodka, com cuidado pra que ninguém visse a garrafa em suas pernas. De alguma forma isso fez com que Daniel lembrasse do seu pai na mesma posição, um pouco mais cedo.

— Relaxa Danizinho. É só uma gotinha de nada. Você devia fazer o mesmo, inclusive.

— Obrigado pela dica mas eu prefiro o meu café puro. — Daniel mantinha um olhar de reprovação no rosto.

— Pelo visto você nunca vai deixar de ser o santinho da escola...

A frase veio como um tiro. De fato, Daniel ainda estava longe de ter uma vida como a de Paulo, mas o que ele realmente queria era ser ele mesmo. Mas quem era Daniel Zapata, afinal?

— O que foi? Pra onde você vai? — perguntou Paulo ao ver seu amigo se levantar de repente.

— Procurar algum lugar mais tranquilo pra matar aula.

Daniel saiu sem olhar pra trás. Era a primeira vez que matava uma aula na vida e as dúvidas sobre aquela decisão estavam lhe corroendo por dentro.

Nick Drake — "Pink Moon"

Daniel estava deitado na arquibancada da escola, onde aconteciam as cerimônias. Era um lugar enorme, com bancos de cimento e uma paisagem linda ao redor. Os pássaros pareciam dar risadas uns para os outros e as nuvens formavam rostos engraçados. Provavelmente ainda estava sob os efeitos da maconha.

Seus olhos acompanhavam o movimento de uma nuvem específica, no formato de seus pais, ambos com uma garrafa de vodka nas mãos. Aos poucos, aquela imagem foi se desfazendo no ar e suas pupilas dilatavam como se estivesse dormindo acordado. O rosto de uma garota tomou conta da sua visão, e os cabelos dela, com um cheiro doce de outono, encostaram na sua pele.

— Bu!

Automaticamente, Daniel despertou do transe e viu que de fato tinha uma garota com o rosto bem próximo ao dele. Com um pouco de esforço, esfregou os dedos nos olhos e viu que se tratava da menina do carro.

— O que foi? Nunca viu uma garota chegar assim tão perto da sua boca?

O rosto dela foi se afastando, fazendo com que Daniel pudesse se sentar e contemplá-la melhor.

— O que você tá fazendo aqui? Era pra você tá na aula, sabia? — Ela disse com uma expressão maliciosa.

— Você também — foi só o que conseguiu dizer.

— Eu não consigo achar a droga da sala. O mapa que me deram tá todo errado. Dá só uma olhada.

Daniel pegou o pedaço de papel das mãos dela e viu que se tratava de uma brincadeira de mal gosto. No mapa, a Escola Mundial tinha o formato de um pênis ereto, cuja sala 403, a do terceiro médio, ficava bem no meio do testículo esquerdo.

— Deve ter sido uma brincadeirinha de algum dos seus amigos. Olha que fofo — a menina começou a fazer carinho no desenho, observando atentamente o olhar espantado do garoto.

— Quem te deu isso? — perguntou Daniel, escondendo o volume que se formava em sua calça.

— Um cara alto e ruivo. De início eu achei ele bem estranho mas, como eu não conheço ninguém aqui, achei melhor pegar o mapa mesmo assim.

— Só pode ter sido o idiota do Adriano. É a cara dele fazer esse tipo de coisa — deu um longo suspiro. — Bem… A primeira aula deve tá acabando. Vem comigo que eu te mostro onde é a sala. Qual é o seu nome mesmo?

— É Maria Joaquina. Mas pode me chamar de MaJo. O seu é Daniel, não é?

— Isso — Daniel não conseguia dizer muita coisa. De alguma forma aquela menina mexia com ele e isso não era nada bom. Por um momento, pensou em Safira e no quanto as mulheres são insuportáveis. Mas aquela menina nem de longe parecia com a sua ex. A MaJo tinha algo de especial. Algo escrito nas linhas de mistério que contornavam a sua face.

Os dois esperaram alguns minutos no corredor, em silêncio, até o professor da primeira aula sair da classe. Após isso, entraram juntos, chamando a atenção de todo mundo.

— Hmmm. Olha só quem tá de namoradinha nova — gritou alguém lá do fundão.

— Divide ela com a gente, Daniel safado!

As vozes começaram a se sobrepor enquanto ele tentava achar uma cadeira pra ela sentar.

— Nossa, quem diria que o certinho do Daniel iria arranjar uma mina tão daora.

— Será que ele pede licença pra ela antes de beijar?

A turma inteira riu.

Daniel começou a ficar vermelho de raiva. MaJo, do seu lado, parecia se divertir com a situação. Ou era isso, ou ele ainda estava sob os efeitos do café da manhã na casa do Paulo. De qualquer forma, isso foi suficiente pra ele perder a cabeça e levantar a voz diante de todos.

— Quem abrir a boca mais uma vez vai sentir o peso da minha mão bem no meio da cara!

A sala ficou em silêncio, de repente.

— Ih… Qual foi, cara. Não aguenta uma brincadeirinha dos amigos não, é? — falou Mário, o capitão do time de futebol.

— Cala a boca seu idiota! — A voz de Daniel saiu como um espasmo.

— Como é que é? — Gritou Mário, cortando o silêncio como uma navalha.

Mário era um pouco mais alto que Daniel e achou que por conta disso poderia intimidá-lo ao levantar. Seus passos firmes se aproximavam devagar, acompanhados por dezenas de olhos curiosos.

— Eu não tenho medo de você — disse Daniel, completamente paralisado.

A essa hora, MaJo já tinha achado um lugar pra sentar e, de onde estava, assistia tudo aquilo com bastante entusiasmo.

— "É impressão minha ou essa garota tá rindo da minha cara? — pensou Daniel, de punhos cerrados e olhar frio — "Calma Daniel, você não pode fazer nenhuma besteira. Tá todo mundo olhando pra você".

Mário continuou caminhando lentamente na direção de Daniel e, se não fosse pela chegada repentina do professor Bloods, os dois teriam começado uma briga ali mesmo.

— Algum problema, jovens? — perguntou o professor olhando firme nos olhos de Mário.

— Nada não, professor. Foi só um mal entendido. Não é mesmo, Daniel? — disse Mário, retornando para o seu assento.

Daniel precisou de alguns segundos para se acalmar e, mesmo na frente do professor Bloods, permaneceu de pé na frente de todos.

— Tem alguma coisa errada, Daniel? — perguntou o professor.

Sem dizer nada, Daniel sentou na primeira cadeira da fila, onde costumavam ficar os nerds. Talvez aquele fosse o seu verdadeiro lugar. Ao lado dos grandes perdedores da turma. E nem mesmo Paulo poderia transformá-lo no garoto que ele gostaria de ser. No fundo, ele ainda sentia a necessidade de fazer tudo certo e de estar perto de pessoas que o aceitassem do jeito que ele era.

A aula começou e a sua atenção foi direcionada totalmente para o professor Bloods. Era aula de matemática, sua favorita.

Quando a aula acabou, Daniel arrumou suas coisas e saiu em direção à porta. No caminho, foi barrado por MaJo.

— Você tá bem?

— Me deixa. Eu quero ficar sozinho.

— Nossa como você é grosso — MaJo saiu da frente e deixou ele passar.

— Pelo menos eu não sou falso que nem você — disse, antes de irromper porta afora e deixá-la pra trás.

Daniel atravessou o corredor de forma agressiva, esbarrando em todos que atravessavam seu caminho. O que mais queria naquele momento era chegar em casa e "ler" uma de suas revistas pornôs.

Antes de ir embora, resolveu passar na enfermaria pra ver se estava tudo bem com o seu amigo. Chegando lá, deu uma espiada na porta e viu Jaime com a perna engessada e um cigarro na mão. Do seu lado, Paulo continuava bebendo vodka enquanto desenhava um pênis enorme na perna de Jaime.

Sem fazer barulho, Daniel deu meia volta e seguiu em direção à sua casa. Por um momento sentiu inveja dos seus amigos, que mataram o primeiro dia de aula bebendo e fumando na enfermaria, enquanto ele assistia aula e se comportava como o velho nerd de sempre.

Ao cruzar a porta de saída, pôde ver MaJo sentada em um banco na frente da escola, provavelmente esperando alguém vir buscá-la.

"Pelo menos os meus pais não vêm me deixar e me buscar na escola como se eu fosse uma criancinha" — pensou.

De onde estava, MaJo cravou os olhos nele por um ou dois segundos e em seguida voltou a mirar o horizonte. Ele assentiu desapontado, como se ela tivesse deixado de ser, de uma hora pra outra, a garota com cheiro de outono e ar de mistério que fez seu coração disparar como uma bomba.

"Ela é igual a todas as outras" — lamentou em silêncio.

Chegando em casa, subiu as escadas apressado e foi direto para o quarto. Chegando lá, percebeu vozes vindo lá de dentro e resolveu ficar atrás da porta ouvindo a conversa.

— Só pode ter sido você que escondeu essas coisas aqui! O Dani seria incapaz de consumir esse tipo de… esse tipo de porcaria! — gritou a senhora Zapata.

— Mas Sandra, isso é normal na idade dele. Você é que não tinha que andar mexendo nas coisas do menino! — o senhor Zapata tinha uma voz cansada como se aquele tipo de discussão fosse rotina.

— Eu já disse que o Dani jamais compraria esse tipo de coisa. Já você vive cheio de segredinhos. Aposto que esse é mais um deles. E olha só que ridículo usar o guarda-roupa do próprio filho pra esconder essa nojeira!

— Sandra… Para, de uma vez por todas, de ser essa mulher chata e controladora que você se tornou. Você definitivamente não é mais a pessoa com quem eu me casei.

Daniel desgrudou o ouvido da porta e limpou a lágrima que escorria no seu rosto. Até quando teria de suportar aquela situação? Seus pais na iminência do divórcio, suas revistas prestes a irem pro fogo, sua vida social afundando numa completa bagunça.

Snow Patrol — "Open Your Eyes"

Desceu as escadas e abriu a porta. Seu coração batia forte e na sua garganta havia um grito entalado. Fechou a porta com toda a raiva que podia suportar e saiu sem dizer nada. Da janela do quarto, o rosto preocupado do senhor e da senhora Zapata surgiram, aturdidos.

— Dani, meu filho! — falou a senhora Zapata disfarçando o nervosismo.

Daniel começou a correr, completamente sem rumo. Dava pra ouvir os gritos ao longe. Provavelmente seus pais colocando a culpa um no outro. Mas agora nada daquilo importava. Em seu pensamento só existia a vontade de fugir de tudo.

Sem perceber, estava percorrendo o caminho da escola. Há duas quadras de lá, viu uma silhueta estranha. Foi chegando mais perto até notar os risos e alguém chamando seu nome.

— A gente te procurou em tudo que era canto — falou Paulo com um grande sorriso no rosto. A garrafa de vodka ainda estava em sua mão.

Jaime estava com o braço por cima do ombro de Paulo, tentando evitar ao máximo que a perna engessada tocasse o chão. Daniel respirou fundo, ao encarar os amigos. Seu corpo parecia um vulcão descontrolado, prestes a explodir.

— Eu sinto muito. Eu não posso mais... — as palavras engasgaram na sua garganta — Eu não sei ser descolado que nem vocês, ou simplesmente deixar que as coisas aconteçam. Eu só sei me preocupar em fazer tudo certo e estudar e…

— Shh… — Paulo fez um sinal para que Daniel se calasse. — Toma. É disso que você precisa.

Na garrafa de vodka ainda tinha um restinho, suficiente para um gole. Daniel pegou a garrafa e virou de uma vez. Sentiu o líquido quente tomar conta do seu corpo ao ponto de fazê-lo tremer.

— Você me ajuda? — Jaime estendeu o outro braço para se apoiar em Daniel.

Juntos, os três saíram alegres. Rindo de tudo e fazendo de conta que eram os reis do mundo. A rua continuava vazia. A diferença agora era o lindo pôr-do-sol que caia sobre aquelas terras esquecidas como uma grande bênção divina. Os pássaros riam, as árvores cochichavam e as nuvens faziam caretas. E tudo, exatamente tudo, parecia estar no seu devido lugar. Até mesmo as coisas que não mudam nunca. As feridas abertas e as cicatrizadas. Expostas ou escondidas embaixo da pele.

Notas finais
Bem, por enquanto é isso. Espero que tenham gostado!