Skinny Love

1 Cartas de Regina Mills.


Notas iniciais
Olá Cupcakes.

Há algumas semanas, eu postei trechos das cartas no meu twitter e muitas pessoas gostaram. Isso acabou me motivando a escrever a presente história e eu espero, do fundo do meu coração, que ela tenha o poder de entretê-los.

Deixo aqui o meu agradecimento a três incríveis pessoas, que foram essenciais para a existência desta oneshot.

Bea, obrigada por me cobrar esta história. Você foi a primeira pessoa para quem eu contei sobre a ideia e desde o primeiro instante não me faltaram motivações vindas de sua parte. Aliás, você tem sido mais do que incrível.

Thais, minha cobaia de sofrimentos, muito obrigada por também ter lido e me motivado a escrever. Eu proponho tantas ideias que é totalmente compreensível que você se perca entre elas.

Isa, eu teria ficado presa por horas em minha indecisão libriana se não fosse seu espírito aquariano para me auxiliar. Obrigada.

A música que me inspirou e que intitula a oneshot é Skinny Love, Birdy.

Sem mais delongas, boa leitura.

I Carta

Querida Emma,

Desde que você se foi, os meus dias têm sido repletos pelas lembranças dos momentos que ficaram para trás. Lembro-me de sua jaqueta vermelha e de sua touca cinza. Lembro-me, também, daquele seu carro amarelo. Eu jamais imaginei que iria procurá-lo pelas ruas de uma cidade que eu construí, mas que me parece tão vazia sem você. Tão assimétrica e tão perdida. Agora não há quem possa salvá-la.

Você se foi, Emma.

Você, que prometeu não desistir do meu final feliz, levou-o consigo quando cruzou aquele portal. Sinto-me perdida em uma solidão incompreensível que dói a cada vez que Henry me pede que coloque canela em seu chocolate quente. Quando passo em frente àquela delegacia e sei que não adiantará procurá-la por lá. Você não está ali, você não está por perto. A verdade é que você foi embora há muito tempo, Emma. Peço desculpas, pois eu permiti que você o fizesse. Eu permiti que você se perdesse.

Talvez... Se eu tivesse tido um pouco mais de coragem para dizer o que precisava ser dito. Talvez as coisas tivessem sido diferentes. Talvez você ainda estivesse aqui.

Você com suas perguntas tolas e irritantes, com seu jeito quase ingênuo de tentar salvar a todos. Eu não pude te salvar, Emma. Eu vi você se perder diante dos meus olhos, eu vi você se desencontrar em seu próprio destino. Ao final, eu quase não podia reconhecê-la. Onde estava a sua força, Emma? O seu coração, a sua essência e a sua beleza tão sua? Eu lançaria mil maldições se elas pudessem salvar o seu coração, ainda que comprometessem o meu.

Sinto a sua falta, Swan.

Perdoe-me por não ter dito o que sentia, mas eu a amei o bastante para respeitar a sua liberdade de escolher o caminho que desejava. Jamais cogitei revelar os meus verdadeiros sentimentos, pois você merecia algo melhor. Algo mais do que uma Rainha despedaçada, com um coração enegrecido pela dor. Minha solidão, meus demônios e meus pesos devem ser só meus. Eu não seria capaz de prendê-la a eles. Eu não seria capaz de prendê-la a mim.

Mas a verdade é que os meus dias foram mais coloridos com a sua presença, Swan. Mesmo com seus erros e sua falta de atenção. Por que, Emma? Por que você se foi? Agora, eu vivo a procurá-la pelos pequenos detalhes deixados para trás. Eu vejo seus traços em Henry. Leio sua história em um livro que deu início a tudo isso e, inevitavelmente, pergunto-me... Ainda é tempo de escrevermos um novo final?

Gosto de imaginar que você está feliz. Ao menos, você diz estar. Então, por que o seu rosto parece guardar dores não contadas? Eu quero saber de suas dores, Emma. Eu quero ajudar a curar suas feridas. Eu quero tê-la aqui, ao meu lado. Eu mudei e você não está aqui. Agora, você é apenas um fantasma que reside em minhas lembranças. Então por que o meu coração dói?

Você se foi, porém seu rosto continua aqui, preenchendo as lacunas do meu tempo. Eu quero que você volte, mas essa é uma escolha sua. Eu irei esperar por você, Emma. Eu continuarei te amando, mesmo que você não esteja mais ao meu lado. Conto com o destino para nos levar de novo uma até a outra. Você irá me encontrar, você sempre me encontra. Essa é a piada curiosa que seus pais colocaram entre nós duas e que eu levei um longo tempo para perceber.

Penso que, talvez, o meu amor por você não seja para o agora, mas ele será para sempre, Emma. Ele existirá para além do tempo. Mesmo agora, quando verbalizo aquilo que jamais será lido e as lágrimas me queimam o rosto. Eu a imagino com aquele sorriso travesso pintado nos lábios e aquela força tão sua e tão bela.

Sua felicidade será meu final feliz.

Ainda que você não esteja comigo, minha querida Emma, os meus sorrisos sempre serão seus, meu coração sempre baterá por você e minhas melhores lembranças sempre guardarão seu rosto.

Não haverá um dia em que eu não sentirei a sua falta.

A você, Emma Swan, todo o meu coração.

Regina Mills.

II Carta

Querida Emma,

Hoje o dia me fez pensar em você, assim como todos os outros fazem. Por isso, eu estou aqui.

Posso afirmar com convicção que, após anos, minha macieira finalmente está recuperada dos estragos causados por você e sua teimosia incurável. Henry tem sentido muito a sua falta nos últimos dias. Todos nós sentimos, Emma. Ele anda pelos lugares onde você costumava estar e, todos os dias, eu vejo o coração do nosso filho ser quebrado pela sua ausência. Gostaria que as palavras que uso para consolá-lo fossem verdadeiras; mas a grande verdade é que o meu coração se quebra também.

Eu finjo compreensão, Emma. Até mesmo finjo quase te odiar para esconder a ferida aberta que me dói. Não há outra escolha, certo? Por pouco não desejo ainda ter dentro de mim uma pequena dose de maldade, que me permitiria revirar o mundo para encontrá-la. Eu sei que não posso fazer isso, sei que não tenho o direito de fazê-lo, pois você escolheu ir embora, senhorita Swan. Você se foi e me deixou para trás com a presença da sua ausência. Tudo o que me restou foram lembranças que se perdem nas frações do tempo.

Almejo ser feliz, Emma, mas minha felicidade está tão distante de mim quanto você está. Sinto-me bem, não há motivos para não estar. Contudo o vazio que costumava ser ocupado por você está aqui, exposto.

Talvez eu pare de escrever-te em algum momento, talvez os dias, pouco a pouco, apaguem as marcas que você deixou em mim e limpem a minha alma. Mas, agora, eu preciso disso. Preciso do abrigo das palavras que fazem com que eu me sinta mais perto de você. Palavras que te mantém viva dentro de mim. Palavras que impedem a solidão de ser tão massacrante. Todos vocês se foram de diferentes formas. Henry logo irá embora também. Então, mais uma vez, eu estarei só.

Nós fizemos tudo valer a pena, Emma? Ou entregamos nossos destinos ao fracasso?

Pergunto-me se te perder é o preço que preciso pagar por tudo o que fiz. Se estiver certa, garanto aos céus que o castigo está sendo doloroso o bastante.

Esta carta será guardada junto a todas as outras. Armazenadas em uma caixa que contém os meus sentimentos não ditos. Eles deveriam ter sido ditos, porém é tarde demais. Saber disso faz com que o real castigo seja desconhecer o que poderia ter acontecido se eu tivesse tido coragem o bastante para lutar por você. Perdoe-me, Emma. Por favor, perdoe-me.

Não haverá um dia em que eu não sentirei a sua falta.

A você, Emma Swan, todo o meu coração.

Regina Mills.

III Carta

Querida Emma,

Obriguei-me a ir até à delegacia. Estava fechada desde que você se foi, mas um novo Xerife está sendo solicitado. Afinal de contas, alguém precisa se responsabilizar pelos bêbados que lhe causavam tantas dores de cabeça. Sim, eu ouvia suas reclamações, Swan. Eu sempre ouvi todas as suas palavras.

Sinto-me presa em uma espécie de inércia, mas os outros parecem não sentir algo assim ou qualquer coisa próxima disso. Enquanto escondo-me por trás de documentos, eles continuam vivendo e me pedem para que administre suas felicidades. Eu estou cansada, Emma. Sinto que logo chegarei ao ponto máximo da exaustão. Então, sento-me para escrever-te algumas linhas.

Conforta-me imaginar que, a qualquer momento, você irá cruzar a porta de meu escritório. Sua falta de delicadeza a impede de bater. Acostumei-me com isso, Emma. Acostumei-me e, agora, é certo que jamais voltará a acontecer. É doloroso pensar que fiz dos teus detalhes a minha rotina e ausência destes é o meu lembrete diário de sua partida. Você se foi e é certo que ninguém jamais será capaz de desnudar minhas barreiras como você o fez. Permanecerei enclausurada em meu próprio eu.

Recordo-me de tudo, minha querida Emma. Até mesmo do ruborizar de seu rosto e de seus sorrisos contidos. Eu também via esses sorrisos. Acabei me tornando uma excelente perita de seus gestos discretos e quase imperceptíveis. Recordo-me de sua insistência e de sua esperança. Recordo-me de sua crença em mim quando nem mesmo eu a mantive.

Desde que descobri te amar, convenci-me de que não era digna de você. Como poderia ser digna de alguém tão cheio de luz, tão belo e puro? Imagino se o destino confiou-te a mim para que eu não permitisse que nenhuma parte de sua alma se perdesse.

E eu falhei.

Enquanto você me auxiliou na cura de minhas feridas, a resgatar meus pecados e a salvar o meu coração, eu falhei em ajudar-te.

Agora, desprovido de sua vestimenta negra, o meu coração pulsa. Exposto as dores causadas pela sua partida e sua constante ausência. Dizem que os amores nascidos da necessidade de amar são sempre os mais fracos. Sempre passageiros e líquidos. Você fez com que eu a amasse mesmo quando pensei não saber mais como fazê-lo, Emma. Eu a amei sem querer, sem saber e sem esperar. Hoje sou amante dos detalhes deixados, das marcas causadas e das memórias.

Decerto meu único arrependimento e a maior das minhas dores é não saber se amamos juntas, ou se vivi amando-te sozinha. Ainda assim, parece-me certo que ninguém jamais fará com que meu coração descompasse da mesma forma que você o fez.

Mesmo sabendo que jamais sentirá isso, Emma. Mesmo sabendo que sua partida não prometeu retornos e que, talvez, eu nunca mais veja teu rosto.

Não haverá um dia em que eu não sentirei sua falta.

A você, Emma Swan, todo o meu coração.

Regina Mills.

IV Carta

Querida Emma,

O destino ainda me surpreende com suas artimanhas e, confesso, nem sempre sou capaz de compreender seus propósitos. Hoje, por algum motivo, uma caixa com pertences seus foram deixados em meu escritório. Sua jaqueta estava lá.

Aquela curiosa jaqueta vermelha que lhe acompanhou em tantas aventuras, que se tornou uma parte sua e, inevitavelmente, uma parte minha. Vê-la ali, sem você, doeu-me o peito. Doeu-me, pois ela foi abandonada, assim como diversos pedaços seus. Pergunto-me se sou um desses pedaços.

Apesar disso, apesar da dor, em algum momento eu agradeci por tê-la ali. Abracei-a e deixei que seu cheiro, ainda guardado pela peça, fosse o causador de grossas lágrimas. Ela me trouxe um pouco de sua alma. Lembrou-me que meu amor por você não abriga mágoas, cansaços ou desamores. Está aqui, vívido, vencendo, todos os dias, as barreiras do esquecimento.

Falta-me, em momentos de solidão austera, o acalento de seus olhos e o incentivo de sua força. Sua voz preocupada a chamar pelo meu nome. Incapaz de permitir que eu voltasse a me perder, você foi minha salvadora por incontáveis momentos. Continua me salvando, mesmo sem estar aqui.

Henry já não fala sobre você e isso me preocupa. Não tenho dúvidas de que sente sua falta, de que sua ausência provoca um enorme peso em seu peito e que não tê-la aqui lhe dói. Conquanto seu nome não mais completa as frases dele. Eu não sei o que fazer. Questiono-me, pois é certo que sangro um pouco a cada vez que falam sobre você. Sangro quando seu nome é pronunciado, quando detalhes lembram-me de sua presença e quando suas marcas, deixadas em mim, são expostas. Talvez ele também sangre.

Eu não quero perdê-lo, Emma. Não quero ser espectadora da partida de meu filho. Não como fui da sua.

Não sou boa com despedidas, nunca fui. Você sabe disso, eu sei. Vi-te partir em seu próprio caminho, suas trilhas tão distantes das minhas. Fomos separadas por escolhas erradas, por um medo tolo e pelo tempo. O meu medo de dizer-te a verdade é, agora, o medo de jamais ter a chance de fazê-lo.

E eu sinto que o destino será cruel, Emma. Pergunto-me se ele não percebe que já foi maléfico o bastante.

Escrever cartas para você é como nutrir essa esperança líquida. Essa esperança que me faz contar dias, mesmo não tendo um prazo para o seu retorno. Essa esperança que me fez cruzar esquinas procurando por seu rosto, por seu carro amarelo. Essa esperança que me faz sentar em uma mesa qualquer do Granny’s e esperar ouvir seu pedido tolo: “Um chocolate quente com canela, por favor.”.

Lembranças, minha querida Emma. Lembranças que estarão aqui até o dia em que não mais estarão. Até o dia em que eu não mais estarei.

Não haverá um dia em que eu não sentirei sua falta.

A você, Emma Swan, todo o meu coração.

Regina Mills.

V Carta

Querida Emma,

Sinto que a magia está se aproximando. Cada vez mais forte e cada vez mais poderosa. Novamente, seremos lançados para um futuro desconhecido e meu principal temor é que ele me roube àquelas lembranças.

Henry está protegido. Está longe daqui. Eu te disse, Emma, estou só. A minha maldição particular é a solidão que me acompanha, não importa o que aconteça ou o quanto eu tente me redimir. Ela segue meus passos e fareja meus rastros. Ela me encontra e me machuca. Leva para longe de mim aquilo que me é tão importante. Rouba-me os detalhes guardados de uma vida. Dilacera o meu peito sem permissão alguma. Nossa relação tóxica parece ser infindável.

Hoje, eu não tenho muito tempo. Curiosamente, tudo o que mais desejo é continuar aqui. Desejo escrever-te linhas de particularidades, desejo contar meus segredos para o papel branco, desejo ser abrigada pelas palavras que me unem a você.

Espero ainda me lembrar dos seus olhos verdes, Emma. Nenhuma maldição será forte o bastante para roubá-los de mim, eu irei recordar-me de alguma forma.

Amei-te tão profundamente que os romances ralos já não me enchem os olhos. Amo-te tão perdidamente que não desejo sentir menos do que sinto. Vivo os meus dias com a certeza de que irei amar-te do início ao fim de cada um deles.

Não haverá um dia em que eu não sentirei sua falta.

A você, Emma Swan, todo o meu coração.

Regina Mills.

Boston, 2017.

Emma Swan permanecia estática.

Em sua mente, um turbilhão de imagens lutava por se estabelecer e se conectar, mas o que restava era a desordem incompreensível. Sentada no chão de seu apartamento, tentando manter-se firme em sua pensada realidade, Emma caía. Em suas trêmulas mãos, cartas levemente amassadas eram sustentadas. A grafia delicada que completava linhas retas de sentimentos fora responsável por balançar verdades não tão verdadeiras. Emma Swan, que pensava saber tudo sobre a sua vida, descobrira não saber muitas coisas.

Bastou que um nome fosse lido, bastaram seis letras unidas para que eles ganhassem certo sentido. Eles. Aqueles olhos castanhos que fizeram presença em tantos dos seus sonhos e que por vezes deram vida a questionamentos. Regina.

Emma se sentia perdida, completamente perdida. Leu e releu aquelas palavras delicadas e dolorosas. O choque deu espaço às lágrimas, que tomaram seu rosto e expuseram uma dor ainda muito desconhecida. A dor estava ali. Queria dizer à Regina que também sentia sua falta, mesmo ainda tendo certa dificuldade para se recordar de tudo. Recordava-se dos olhos castanhos. Ah, aquela recordação, ela foi o bastante para preencher o peito de Emma. O vazio que se mantinha ali, marcando presença em seus dias mesmo sem um motivo para existir, ele foi justificado quando a loira compreendeu o que estava acontecendo. Aquele vazio era a ausência dos olhos castanhos.

E Henry! Ela se lembrava de um cachecol cinza e vermelho, sendo balançado pelo vento gélido da praia. Lembrava-se, também, de um castelo quase destruído sendo abrigo de segredos.

O que estava fazendo ali? O que estava fazendo com sua vida? Amava Killian, mas esse desconcerto causado pelas cartas fora o mais perto que sentiu de uma genuína realidade.

Amava Killian?

Poderia dizer que o amava após ser preenchida por um sentir tão intenso e tão verdadeiro? Poderia dizer que o amava ao perceber que seu coração respondia às palavras escritas de Regina como jamais responderam às juras de amor dele? Poderia dizer que o amava mesmo sabendo que o vazio, aquele vazio, jamais seria completado por ele? Seus dias seriam acompanhados pela ausência dos olhos castanhos e ela nem ao menos saberia disso.

Quando Killian perguntou o que estava acontecendo e qual era o motivo de suas lágrimas desenfreadas, Emma não o respondeu.

Dobrou suas cartas e as guardou junto de si, não poderia, de forma alguma, perdê-las. Não quando aquele pacote inesperado, entregue sem remetentes, salvo-a de seu desconhecimento.

Estava devendo um perdão, a garantia de uma reciprocidade genuína e a certeza de que ela foi salva.

Quando deu partida em seu carro, Emma sabia que estava tomando o único destino possível para a sua felicidade.

Ela estava indo atrás daquela que era sua salvadora.

Ela estava indo atrás dos olhos castanhos.

Ela estava indo atrás de Regina.

Notas finais
Espero que tenham gostado.
Um enorme beijo.

Twitter: @aloritsor

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!