Quando a minha mão fria se separa dos dedos hábeis e aquecidos da ruiva à minha frente, a porta do elevador se abre revelando um grupo de estudantes parados, esperando pelo cubículo mega rápido que os levaria até o andar de cima. Ficamos sabe lá deus quanto tempo nos olhando enquanto sacolejávamos as nossas mãos unidas e sorríamos. Saio do elevador e, de súbito, sou puxada pelo braço esquerdo. É Sebastian. Eu sorrio para ele, respirando fundo e me recuperando do susto.

– Como foi? Quero dizer... A consulta com a mulher nova. — ele diz, envolvendo as mãos na minha cintura. Olho para trás, onde Isabel me aguardava. Gesticulo com a mão para que ela me espere e volto-me para o meu namorado.

– Foi excepcional. Ela definitivamente não é igual a anterior. Ela me trata, e não me mima, como a Caroline fazia. Eu até chorei, sabia?! — eu sorrio. Estar com ele era ótimo, mas algo me dizia, bem no fundo, que era errado. Talvez eu só estivesse com vergonha porque Isabel estava nos vendo. Ou estava louca.

– Chorou por quê? Eu não quero que você chore. Pode conversar comigo quando precisar.

– Eu sei que sim. Mas, será que podemos falar depois? Estou com pressa. — saio do abraço dele, que me lança um olhar completamente afrontador, como se estivesse bravo. Geralmente os olhos azuis daquele homem me enfeitiçavam, mesmo quando bravos, mas dessa vez algo me contagiou e eu só pude rir.

– Está rindo de quê? Você sempre faz isso. Pode ir, eu tenho que estudar agora e como a sala três lá de cima está vazia...

– Eu sei. — eu interrompo. Enrosco as mãos no pescoço dele, aproveitando a oportunidade para correr os dedos pelos cabelos castanhos e bagunçá-los e dou-lhe um breve beijo na bochecha. Ele sorri docemente, então dou as costas e volto-me para Isabel, que estava olhando para um lugar fixo e sem piscar.

– Hey, Isabel. — eu sorrio e estalo os dedos perto dos ouvidos dela. Ela sorri também, revelando seus dentes maravilhosamente brancos e alinhados. Perfeitos, eu diria.

– Olha só, nem te conheço bem e já fiquei de vela! — ela brinca, me fazendo enrubescer.

– É claro que não! Só estávamos...

– Tá, tudo bem. Podemos tomar um milk shake, pelo menos? — eu engasgo e ela morde o próprio lábio inferior. Como eu poderia recusar um convite feito por uma ruiva misteriosa e com beleza antinatural? Balanço a cabeça, afirmando. Ela toma a minha mão, sorrindo abertamente, e praticamente me arrasta pela recepção fantasmagoricamente vazia do prédio.

Lá fora o clima continua absurdamente quente. Eu não contaria com vinte e oito graus de temperatura em pleno mês de outubro, logo porque ainda era primavera. O campus da Creek era gigantesco; abrangia todas as pequenas suítes projetadas para dois alunos. As suítes possuíam camas, armários, um banheiro que nem sempre funcionava e, se você tivesse algo para enchê-las e um ótimo argumento para consegui-las, estantes de madeira velha e fosca. Sempre me perguntei se todos os outros alunos haviam sido mandados pra cá pelo mesmo bom motivo que eu.

Fora todos esses "quadradinhos" onde dormíamos, havia também um prédio com as salas de aula, direção do colégio e todos aqueles outros cômodos, onde todo o núcleo educador se reunia para decidir coisas. Havia também, perto da piscina onde aos sábados podíamos nos refrescar, uma espécie de lanchonete. Eu nunca comprei nada ali por achar os preços abusivos, mas valeria a pena, pois todos os olhares de pessoas desconhecidas estavam colados em nós.

– Você tá bem? — pergunta Isabel. Fico sem jeito, sinto as minhas bochechas ganharem cor e digo que sim. Percebo então que já estávamos no tal lugar onde tomaríamos milk shake. Está vazio, como tudo estava naquele dia. Sento-me à frente dela, numa cadeira pertencente a uma mesa aparentemente encardida, deixo minha mochila cair no chão, ao meu lado, entrelaço meus dedos uns nos outros e a encaro. Caralho, ela continua sorrindo e me olhando! Meus olhos encontram os dela e eu sorrio, sem poder conter.

– Você não fala muito. Vamos conversar! Já estou cansada dessa gente que só fala de como será perfeito quando meter o pé daqui pro mundo a fora e blá blá blá. Você não é assim, é? – ela me olha com os olhos cerrados, com sarcasmo. Antes de eu responder, a garçonete nos interrompe. O crachá desnecessário preso ao seu avental preto, vestido por cima de uma roupa básica, nos informa que seu nome é Luísa.

– Posso anotar seus pedidos, meninas? – ela pergunta. Sua voz me embriaga, de tão monótona. Isabel pede dois milk shakes de chocolate, e depois que Luísa sai, a ruiva volta-se pra mim, olhando-me como se eu devesse algo a ela.

– E então...?

– Com certeza não. Até porque não será uma maravilha sair daqui. Pelo contrário, eu preferiria ficar. — eu respondo. Com certeza a empolgação dela é impressionante, contagiante. Mas não em todos os assuntos.

– Ah, fala sério. Por quê? — ela pergunta, pousando a bolsa tiracolo sobre a mesa. Olho pra baixo.

– Não sei como vai ser o mundo lá fora. É muito complicado. A minha realidade se resumiu a isso aqui. — ergo a cabeça sem olhá-la e gesticulo, apontando para todos os lados de onde, por anos, foi o meu refúgio.

– Ah, mas você supera né? Tudo passa, aliás. — ela sorri. Sei que não devo me irritar com ela, sei que ela não me conhece e está pensando que sou mais uma daquelas cretinas revoltadas, e não uma vítima da vida.

– Não. Com certeza não. A minha mãe morreu uns dois ou três anos antes de eu me mandar pra cá, Isabel. E o mundo não vai ser a mesma bosta sem ela.

– É... Caralho. Puta merda. Ai, cacete... Desculpa! Eu juro que não quis dar uma de sabe-tudo, porque eu realmente não sei, mas eu não quis insinuar que a solução pro seu problema é qualquer oração de descarrego ou sei lá no que você crê. Eu não sabia e...

– Hey, calma! – eu gargalho. Enquanto a escutava tentar se justificar, não pude evitar rir dela, do nervosismo dela. Isabel corre os dedos pelos cabelos naturalmente alaranjados, penteando-os para trás, e finalmente ri comigo.

– Eu quero que você saiba que eu gostei de você. Quero conhecê-la melhor, e sempre que você quiser chorar, conversar ou só descontrair, pode vir me procurar. Eu vivo no quarto 28 com uma putosa que quase nunca aparece por lá. Eu posso te ouvir sempre que quiser. E, mais uma vez, me desculpe, eu...

– Eu entendi perfeitamente, fique calma. É que, cara... É muito estranho. Pela primeira vez eu não surtei ou me irritei com alguém novo que, apenas supondo o que houve comigo, quer me ajudar de alguma maneira. Você me faz bem, pelo que percebi.

– E você pra mim. É ótimo não ser degolada, sabia? – e rimos novamente.

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Quando estou a mais ou menos 10 passos do meu cubículo, depois de ter competido com Isabel quem bebia todo o milk shake primeiro, posso ouvir o volume ensurdecedor da música preferida de Rachel, minha colega de quarto. Normalmente ela escuta sempre em volumes elevados, então não me surpreendo. Rachel é sobrenaturalmente bela, cuja beleza me provocava uma leve pontada de inveja quando apresentávamos algum trabalho juntas ou quando passeávamos pelo campus, porque os olhares eram sempre fixos nela, em seus seios fartos, corpo definido e cachos louro-avermelhados.

Entro na suíte e tranco a porta. Meus olhos percorrem toda a extensão do cômodo não muito amplo, a procura dela. Mas não a vejo. Penduro a minha bolsa num gancho atrás da porta, jogo meu casaco na minha cama e pego o controle do rádio. Conforme aperto o botão para diminuir o volume, dentro do banheiro os gritos e gemidos de prazer contaminam o quarto, e então percebo que tem mais alguém com Rachel, ou ela aprendeu um truque de diversão individual muito bom. Reviro os olhos e aumento o som novamente. Jogo-me na cama, enfio a cabeça sob o travesseiro fofo cujas fronhas eu havia trocado na manhã anterior e começo a pensar na minha nova descoberta.

O incrível é que, mesmo sem conhecer bem a moça dos olhos verdes e cabelos arruivados, me sinto diferente. Sinto sono sem ter chorado e lembrado de merdas passadas. Sinto-me bem sem ter tomado qualquer remédio que desacelerasse meu cérebro. Sinto-me linda sem maquiagem, sem elogios, apenas sendo eu mesma. Sinto-me leve, mesmo sem ter perdido qualquer peso. Sinto-me limpa. Sinto-me... Apaixonada por Isabel.

Notas finais
Agradeço a Caroline Callegari, cujo sem tamanho entusiasmo, não haveria um capítulo dois. Agradeço a Priscila Costa, cuja ajuda em leituras e correções são fundamentais a cada frase escrita. Agradeço a Glendha Weiss, cujas cobranças por continuação (às vezes irritantes) sempre me motivam, me animam e me ajudam. Agradeço a Jaquelinda Alana, cujos conselhos, incentivos, encorajamentos e COBRANÇAS são sempre reconfortantes. E agradeço a você que leu o Capítulo 2 de Skinny Love!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.