Uma das mais fantásticas criações divinas foi o corpo humano. Tudo bem que, em minha criação, foi adicionado um pouco de gordura a mais do que em pessoas normais, mesmo assim amo a forma como o peso pode variar com o passar do dia. E, justamente quando ia me pesar pela 4° vez do dia (logo após minhas duas horas e meia de exercícios, ainda de estômago vaziu) Dylan me ligou.

Não, Dylan não era meu namorado. Apesar da crença popular de que meus melhores amigos são Richie e Gus, Dylan é o que mais se enquadra nesse cargo. Tinha cabelos ruivos, sardas e, como todos os garotos que me cercavam, mais de 1,80 de altura. Seria bem atraente se não fosse magro demais, se bem que seu corpo em versão feminina estava bem perto do que eu mesma queria para mim. Há poucos meses ele passara a estudar em casa, após sofrer abusos por sua homossexualidade, por isso não convers´svamos tanto quanto antes, mas continuava o amando.

– Alô bixa louca! — Atendi o telefone, sentando em cima da cama apenas em minhas roupas intimas e tentando ignorar o espelho, que me encarava com aquela mesma imagem gorda e nojenta de sempre.

– Oi princesa, como anda as coisas na escola? — Super bem, Gus só me chamou de peitos umas 30 vezes hoje.

– Antes eram 1000 vezes por dia — Riu — Ele já te chamou pelo seu nome alguma vez?

– Nunca. — Ri, enquanto equilibrava o celular no pescoço e vestia meu roupão. Ficar de calcinha e sutiã no inverno não é uma coisa muito inteligente, mas não confiava em balanças quando vestida.

– Então amore, já está com o corpo de uma modelo? De todas as pessoas do mundo, Dylan era a única que me entendia quando se tratava de dietas. Ele não me apoiava, mas sabia o quão importante isso era para mim.

– Não né, ainda tenho muita gordura para queimar. — Só se for em seu cérebro querida. — Revirei os olhos

– Queria te chamar para fazer compras, mas acho que está ocupada demais com o namorado para antigos amigos.

– Namorado? Eu? — Soltei um riso irônico — Nos conhecemos desde os 12 anos, quando me viu namorar?

– Se desse uma chance para garotos não seria uma virgem aos 17 anos.

– Te odeio, sabia? — Sorri, amava os comentários de Dylan, mesmo que cruéis — E são os garotos que não gostam de mim.

– Fala sério, você me ama. — Ele riu — Que seja magricela, vamos fazer compras ou não?

– Tudo bem, mas não existem roupas do meu tamanho em lojas normais.

– Eu já te disse que você não veste manequim 46... Tudo bem, talvez nos peitos.

– Meus peitos não são tão grandes assim — Forcei a voz para parecer uma criança.

– Que seja, peitos. Passo aí em meia hora. — Tudo bem. — Desliguei, jogando o celular em cima da cama.

Ótimo, não estava em ânimo para sair. Tudo bem que eu amava Dylan, mas eu não era muito fã de compras. Além disso não gostava de sair. Confesso, tinha vergonha de minha aparência. Tomei um banho rápido e coloquei um vestido até o joelho e meia-calça, não gostava de calças pois marcavam muito o corpo. Também não gostava de mostrar os ombros, por isso coloquei um sobre tudo. Ótimo para o inverno e escondia o corpo. Passei novamente a dupla lápis de olho e delineador, minha maquiagem de sempre e esperei por Dylan, que não demorou a chegar.

– Você emagreceu quantos quilos desde que nos vimos pela última vez? — Perguntou, meio espantado.

– Alguns — Sorri e o encarei com meus "olhos congelantes", ele parecia tão fofo quanto antes, e ganhara peso também, o que para mim era decepcionante.

– Que seja magricela, vamos indo porque temos que te achar um vestido lindo para meu aniversário semana que vem.

– Não sei, não estou em clima de festas.

– Nunca está.

– Mas é verdade, não enquanto não emagrecer. — Revirei os olhos, nenhum vestido ficaria bem em mim mesmo.

– Então vá e fique apenas 5 minutos por mim. — Dylan fez um bico infantil, sabendo que eu não resistiria.

– Tudo bem — Cedi — Mas não vou usar nada muito justo.

– Tudo bem, mas eu escolho.

Dei de ombros e saímos.

Para Dylan, escolher algo que não fosse justo ou mostre os ombros era difícil, mas devo admitir que ele fez um bom trabalho. Escolheu um vestido tomara-que-caia prateado que, combinado com jaqueta de couro e meia-calça, formariam esconderia meu corpo obeso sem que eu precisasse vestir uma burca. Porém nada me deixava animada para aquela festa. Seria em uma boate bem no centro da cidade, um lugar muito visitado e perto da casa de Gus. Gus provavelmente seria convidado, e eu teria que assistir enquanto ele galinhava com todas as garotas da festa. Já disse que o odeio?