SixHunters (Interativa)

10 O reino das Amazonas


Notas iniciais
--Por Calisto--

Aqui estou eu, em meu trono, como de costume. Nada fora do comum, exceto a visita já esperada de uma velha conhecida. Beth, integrante do clã nórdico Usagi. Apesar de vivermos em polos opostos – meu reino fico na região sul do Necro World e o clã dela vive próximo ao reino dos Mascarados –, posso dizer que possuímos um laço afetivo.

O Necro World é supervisionado por quatro grandes impérios: o império nórdico dos Mascarados, meu império sulista das Amazonas, o império do leste dos SS e o império oeste dos Heroicos. Em outras palavras, quatro grandes reinos sólidos e extremamente poderosos. Desde que o regime conjunto dessas quatro pontas de poder foi instituído, nunca houve grandes conflitos entre nossos impérios. Porém, reforçada por uma profecia suspeita de uma das minhas principais subordinadas, tenho o pressentimento de que tal história está para mudar.

– Senhora Calisto, Beth Usagi e seus convidados estão no salão de visitas aguardando por sua presença. – se comunica Sage, uma das minhas principais subordinadas, justamente quem proclamou a profecia que não sai da minha mente.

Sua pele é morena, levemente mais clara que a minha. Seus olhos são azuis claros, enquanto os meus são azuis escuros como o fundo do oceano. Nossos cabelos são próximos às nossas cinturas e naturalmente de um tom intenso de azul – mas enquanto os dela são lisos e amarrados por uma tiara artesanal feita de dentes de animais e penas, os meus são levemente ondulados e soltos. Nossas vestes, é claro, típicas de uma tribo indígena.

– Conduza-os até aqui, Sage. – peço.

– Sim, senhora. – acata a ordem, dando meia volta e retomando o mesmo caminho que tomou para se aproximar do meu trono.

Antes mesmo das Espadas Lendárias começarem a despertar, Beth Usagi veio ao meu encontro. Contou sobre o fato de que, nesta era, alguns jovens do Mundo Humano estavam sendo escolhidos. Somando esse e outros fatores curiosos com a profecia de Sage e o meu pressentimento inquietante, não consigo tirar do meu pensamento a ideia de que uma guerra civil interna neste mundo está prestes a começar.

"Eu vejo... No futuro... Em uma realidade não muito distante... A traição de um dos quatro Grande Reinos. Uma traição que eclodirá em uma guerra. O equilíbrio entre este mundo e o Mundo Humano será abalado e não haverá alternativa senão contar com as forças de seis jovens guiados pela primeira espada, Excalibur..."

– Seis jovens guiados pela Excalibur... – digo para mim mesma. – Preciso estar cara a cara com esses tais jovens para sanar algumas dúvidas e nutrir outras...

Em poucos instantes, Sage retorna. Atrás dela se aproximam, também, Beth e os jovens do Mundo Humano.

– Aqui estou, Calisto. – diz, se aproximando até certo ponto, mantendo a distância de quatro metros do meu trono, distância padrão. – E os seis jovens que eu garanti trazer comigo.

– Quais os nomes? – questiono, observando-os em um olhar geral.

– Thoma Dales, Lucky Scarlet, Yuru Lazuri, Luna Song, Raviel Vanvid e Sakura Inoue. – Beth apresenta um por um, de modo pausado e tranquilo.

– Sejam muito bem vindos ao meu império, o reino das Amazonas. – declaro, erguendo-me do meu trono.

Noto que o grupo se mostra um pouco apreensivo, em razão da presença do meu animal de estimação, Beast. Trata-se de um tigre que eu mesma domei há vários anos, assentado ao meu lado direito.

– Não se preocupem, Beast é meu braço direito e fiel escudeiro. – declaro. – Ele não fará mal algum a ninguém que eu receber bem em meus territórios.

– Que maneiro! – exclama um dos jovens, o tal Thoma. – Um tigre domesticado!!

– Domesticado? – repito. – Não, domado. Não o confunda com nenhum gato de estimação do seu mundo. É um combatente implacável em batalha.

– Bem, chega de papo furado e vamos logo ao que nos interessa, não é mesmo? – sugere Beth. – Calisto, precisamos da sua ajuda.

– Ajuda? – indago.

– O reino dos Mascarados pretende usar uma jovem inocente do Mundo Humano em tributo ao lacre do Necro World. – declara Beth, para uma certa surpresa da minha parte. – Fomos, inclusive, atacados por um dos Mascarados antes de pisarmos no solo desta ilha. As ações do Mestre dos Mascarados não condiz com a política vigente dos quatro Grandes Reinos.

Direciono meu olhar para Sage, observando-a por alguns instantes. Olho no olho, dispensando qualquer palavra. A verdade é que faz tempo que guardo uma suspeita incômoda sobre o Mestre dos Mascarados. Sage e Beast, quem estão a todo tempo do meu lado, são os únicos que sabem que estou sempre em guarda quando o assunto é o império nórdico deste mundo.

– Por acaso, a ajuda que pede é que eu faça algum movimento para interceptar os planos do Mestre dos Mascarados? – questiono, ao voltar minha atenção para o grupo de Beth, assentando-me em seguida. – Você sabe que seria um processo complicado e, talvez, ineficaz. Se a tal jovem que estão tentando salvar aceitou ir por vontade própria, com toda a certeza, o Mestre dos SS e o Mestre dos Heroicos iriam estar a favor do sacrifício dela.

– Mas a senhora não é uma dos quatro imperadores? – indaga a jovem chamada Lucky. – Não pode fazer nada a respeito?

– Seria um voto contra três. – afirmo. – A política do Necro World funciona sendo mantida de forma democrática entre os quatro imperadores. Não há nada que eu possa fazer contra algo decidido pelos demais.

– Eu já esperava por isso. – fala Beth. – Entendo que, assim, não poderá nos ajudar. Então peço que nos ajude de outra forma.

– Como?

– Quanto tempo é necessário para que o selo do Necro World sofra interferências externas o suficiente para recuperá-lo ou quebrá-lo? – pergunta.

– Primeiramente, se isso for conduzido por uma pessoa despreparada, é preciso um treinamento especial para a mesma. – conto. – Como uma habitante do Mundo Humano, mesmo sendo especial, essa tal garota não teve ter domínio sobre suas verdadeiras capacidades. Sendo assim, ela deve ser levada a adquiri-lo. Além disso, mesmo um dos Grandes Reinos não pode tomar uma decisão tão importante sozinho. Em breve, acredito que o Mestre dos Mascarados convocará uma reunião especial com os três outros imperados, incluindo a mim. Então, será decidido nesta reunião, que tem de acontecer, se o sacrifício de um humano pelo Necro World é aceitável ou não.

– Ou seja... – insiste Beth.

– Não deve levar menos do que seis meses. – suponho. – Considerando todos os processos necessários...

Vejo que o grupo de Beth, exceto a que acredito se chamar Sakura – ou algo parecido – se alivia. Principalmente Thoma, Yuru e Lucky, aparentando uma preocupação ainda mais intensa com a tal garota.

– Pensei que levaria um período de tempo bem mais curto. – admite Beth.

– O Mestre dos Mascarados, seja lá qual forem suas verdadeiras intenções, não pode atropelar as regras deste mundo.

– Mas não precisamos esperar todo esse tempo, não é? – lança Thoma. – Temos que voltar com a Tsuky o quanto antes para o nosso mundo.

– Exato. – a garota que está ao lado direito dele. – Ela é a minha irmã. O homem envolvido em tudo isso é o nosso pai. Assuntos de família não podem esperar tanto tempo para serem resolvidos.

– Como é? – me surpreendo, levantando-me do meu trono mais uma vez. – O Mestre dos Mascarados é o seu pai?! O pai da tal garota?!

– Sim, Calisto. – corresponde Beth. – Acredito eu que o Mestre dos Mascarados, na verdade, não seja o verdadeiro.

– Está dizendo que o atual imperador do reino nórdico trata-se de um impostor? – ainda mais espantada. – Eu já tinha ouvido rumores de que ele possuía "filhos perdidos" no Mundo Humano, mas isso é algo comum entre a elite do Necro World.

E, de fato, é comum. Eu mesma já fui mãe um dia. Dei a luz a um filho homem, mas como homens não são aceitos no nosso reino, preferi enviá-lo a um mundo seguro e sem ameaças do que mantê-lo em qualquer lugar no Necro World.

– Sim, mas mesmo sendo comum, não diz respeito ao caso em questão. – Beth declara. – Há incoerências em toda essa trama que só me levam a acreditar que o pai de Lucky e da jovem Tsuky, de algum modo, substituiu o verdadeiro Mestre dos Mascarados.

– Para ser sincera, não são recentes as minhas suspeitas sobre aquele homem. – garanto. – Não sei quando exatamente, mas em algum momento, eu notei uma leve mudança na postura daquele homem. Jamais cheguei a pensar que teria sido, literalmente, uma "substituição" ou coisa parecida. Afinal, para ter ocorrido tal coisa de forma legal, o Necro World inteiro teria de ser informado. Não sendo esse o caso, posso considerar o império nórdico como traidor.

– Como a senhora se colocará diante de tudo isso? – questiona Sage.

Suspiro profundamente, mantendo meus olhos fechados enquanto isso. Estou mesmo em uma situação complicada. Não posso tomar nenhuma atitude precipitada, por mais fortes que sejam as minhas e as suspeitas de Beth. Por mais que hajam pessoas apontando uma legítima traição da parte do Mestre dos Mascarados, preciso refletir.

Assento-me. Voltando à minha tranquilidade, reabro meus lábios:

– Eu mesma solicitarei uma reunião. Não esperarei que o Mestre dos Mascarados o faça. – garanto. – Levarei comigo todas as informações que acabaram de me dar.

– Peço que o faça o quanto antes, Calisto. – solicita Beth.

– Sage... – e volto minha atenção à ela. – Envie agora mesmo uma mensagem ao Reino Central. Diga que exijo, o mais breve possível, uma reunião com os três imperadores. Urgência classe A.

– Reino Central? – questiona Thoma.

– Trata-se do reino em que ocorrem todas as reuniões, decisões e demais eventos políticos importantes. – conto. – É um reino neutro, onde os outros reinos costumam resolver assuntos compartilhados.

– Com sua licença, senhora, o farei de imediato. – e, assim, Sage se retira do salão, às pressas.

– Além disso tudo que disse, gostaria de falar também sobre os jovens que eu trouxe. – retoma Beth.

– Fale.

– Eles precisam de um treinamento para desenvolverem suas habilidades inatas. – afirma. – Não serão de grande ajuda no que está por vir caso continuem no estado em que estão.

– Assim que Sage retornar, pedirei a ela que os leve ao centro de treinamento da minha ilha. Estarão à disposição as melhores tutoras do meu exército, de acordo com as necessidades específicas de cada um. – deixo claro. – Enquanto isso, o que tiver de ser politicamente decidido, será. Deixem isso por minha conta.

– Agradecemos muito. – Thoma Dales se manifesta mais uma vez. – De verdade! Tsuky é muito importante para nós.

– Diante dos sacrifícios que estão fazendo por ela, não tenho dúvidas de que seja. – disserto. – Reconheço a determinação de vocês.

– Pode nos chamar de SixHunters. – diz o garoto.

– SixHunters? – repito.

– Sim. – confirma. – É o nome do nosso grupo. Podemos ainda ser um sexteto modesto e fraco, mas vamos fazer o que tiver de ser feito por Tsuky.

– Nobres palavras. – opino. – Dignas do guardião da Excalibur. Que seus dizeres tornem-se combustível para vocês, SixHunters. Por outro lado, por mais forte que seja a determinação que os guia, a realidade do Necro World pode ser muito mais dolorosa do que esperam. Preparem-se...

Assim que encerro o meu dizer, Sage reaparece, com a mesma pressa que usou para se retirar. Ao se posicionar ao lado do grupo de Beth, me diz:

– A mensagem foi enviada, minha senhora. Acredito que a Central fará o comunicado de imediato.

– Me informe sobre as novidades, está bem? – peço. – O quanto antes a reunião acontecer, melhor.

– Com toda a certeza, senhora. – confirma.

– Agora, Sage, leve os jovens até o centro de treinamento da ilha. – articulo. – Enquanto não sabemos como as coisas ficarão, eles deverão ser treinados o mais intensamente possível. A forma e os métodos não importam, desde que eles fiquem sob tutela de professoras compatíveis.

Aceitando com um movimento positivo de sua face, Sage se vira para eles. Pede:

– Por favor, me acompanhem.

– Nos encontramos mais tarde. – Beth, por sua vez, incentivando-os a acompanhar Sage.

Desse modo, Sage e os SixHunters se retiram. É quando Beth lança:

– Despertou em você um interesse peculiar pelo Thoma ou foi somente impressão minha?

– Quantos anos ele tem? – indago.

– Completou 16 anos recentemente.

Não. Seria muita coincidência. Coincidência até demais. Melhor nem pensar nesse tipo de coisa. Então, para fugir do assunto, suspiro de leve, questionando:

– O que você acha que realmente está acontecendo?

– Não sei dizer... – admite, parecendo estar tão impactada com o que vem acontecendo quanto eu. – Mas acredito que há objetivos pessoais por trás das atitudes dos Mascarados. O pai de Lucky e Tsuky, atuando como Mestre dos Mascarados, está tentando atingir algo, usando a renovação do selo do Necro World como desculpa.

– Estou cada vez certa disso também. – garanto. – Contudo, ele não irá se safar disso. Manipular os quatro Grandes Reinos e o Necro World em si, além de envolver gente inocente em assuntos deste mundo... Sem contar o que ainda está nebuloso em toda essa história.

– É reconfortante saber que podemos contar com a força e o apoio do seu reino. – admite, parecendo estar um tanto quanto contente com a minha postura diante de tudo o que falou.

– Todas as integrantes do meu exército são mulheres que passaram por experiências traumáticas. Afinal de contas, carregar o gene Amazoness não é fácil. – argumento. – Portanto, sei como certas coisas são dolorosas e difíceis de se lidar. Não é por se tratar de uma garota que eu estou disposta a ajudar a amiga daqueles jovens, mas sim pelo fato de que o que ela deve estar passando é um tipo de história já bem conhecido no meu reino.

Não existe laço sanguíneo conectando nenhuma de nós na ilha das Amazonas. O que nos conecta é, unicamente, um gene que nos diferencia das demais mulheres deste e de qualquer outro mundo. Fazemos parte de um restrito grupo que carrega consigo o peso de ser completamente diferente. Assim como eu fui um dia, muitas das minhas companheiras foram abandonadas e perseguidas.

– Não há compaixão pelo que é diferente. – afirmo. – Isso é uma regra universal. Mesmo no Mundo Humano ou aqui, quando algo ou alguém vai muito além da compreensão padrão, sua existência torna-se uma ameaça para os demais.

– Sábias palavras. – opina Beth. – De fato, está corretíssima.

– É claro, pois vivi isso na pele. – relembro. – Hoje, sou uma rainha. Mas há duas décadas, eu não passava de uma garota renegada que carregava sozinha o peso do rancor, do medo e do desprezo dos outros.

– Não importa o mundo, há sempre rastros de dor e sofrimento. – comenta. – Entendo o seu objetivo de, um dia, promover a verdadeira paz.

– Enquanto escórias imundas existirem, não haverá a paz legítima. Portanto, mais e mais guerras continuarão a ocorrer. – e, então, retiro a espada das minhas costas, passando a manejá-la com minha mão direita. – Acredito que é pela minha busca que a Honjo Masamune me escolheu. Estou disposta a passar por todas essas guerras para alcançar a paz.

Honjo Masamune é a sexta Espada Lendária e a única que permaneceu em um estado desperto, mesmo que imperfeito. Foi ainda hoje que ela alcançou a plenitude, mas não considero como um acontecimento de grande diferencial, já que grande parte do seu poder estava ativo mesmo antes disso.

– Sabe o que me faz ter fé neles? – questiona Beth.

– Refere-se aos SixHunters?

– Sim. – confirma. – O que me faz ter fé neles são as chamas contagiantes nos olhos de Thoma Dales, chamas parecidas com as mesmas que vejo nos seus.

– Chamas contagiantes?

– Exato. – reforça. – Chamas de determinação, de esperança, de vontade de acreditar naqueles ao seu redor e lutar por eles. Mesmo raras, ainda existem pessoas assim, com olhares fortes e sinceros capazes de envolver todos que o cerca. Mesmo sendo Lucky a irmã de Tsuky, são as chamas dos olhos de Thoma que uniu aqueles seis e os trouxe até aqui.

Suspiro mais uma vez. Admito: eu encontrei força de vontade no olhar dele. Parece mesmo alguém disposto a lutar pelo que acredita e pelas pessoas que lhe são importantes.

– A Excalibur não errou ao escolhê-lo. – garante Beth. – Acredito em Thoma Dales. Acredito nos SixHunters.

– Também depositarei nele e naquele grupo as minhas fichas. – estipulo. – E continuemos a lutar por esse futuro de paz...

Notas finais
Quiz do capítulo: quem deve narrar o próximo capítulo? A) Thoma B) Siegfried C) Tsuky D) Beth
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.