Sitra Ahra

4 A Árvore da Vida


Amanda passou a morar ali no apartamento de Thomas, que se tornaria seu mestre, ela ficou no quarto que era feito de biblioteca, havia espaço o bastante para colocar uma cama e era bom que ela dormisse ali, Thomas disse que viver entre livros seria de grande benefício para a mente aprendiz dela, algo sobre o contato com as energias abençoadas com conhecimento e ciência ter influência sobre ela. Ele definiu um rígido calendário para a aprendiz logo no dia seguinte, o empresário costumava ser bastante organizado, sendo que foi essa uma das principais causas para o absurdamente bom desempenho dele na vida profissional, o calendário definia os compromissos de cada dia, incluindo horários de refeições, de banho e de sono, quando Amanda viu aquilo faltou pouco para que gritasse.
— Como assim, eu preciso dormir 7 horas por dia e não tenho mais do que 15 minutos de tempo livre durante o dia?
— A Deusa é severa e exige disciplina, não se preocupe, isso será apenas nos primeiros meses, você é uma marginal de rua no momento e vivia uma terrível desregrada e imoral, para cuidarmos disso precisamos começar impondo regras duras para te equilibrar.
— Por que me insulta? Achei que fôssemos amigos, não posso nem ao menos ir pra cama com você e me divertir antes de dormir?
— Não, uma relação entre mestre e aprendiz com certeza não pode envolver contato sexual.
— Eu tenho necessidades, Thomas, por favor, eu vou morrer se ficar mais de dois dias sem...
— Vê? É exatamente por isso que precisa de um calendário severo e rígido, você é uma escrava dos desejos, certamente é uma magista habilidosa, com talento e capacidade, mas se guia pelos desejos mais baixos, e é sobre isso que vamos falar agora, faltam duas horas para o almoço, é o bastante para que te explicar algumas coisas.
— Ah, tá bom, vai. — Ela se sentou na no sofá, havia dois ali na sala, ele se sentou no outro, ao lado do dela, começou a explicar devagar:
— Há nesse mundo uma coisa chamada Lei Universal, que usualmente chamamos de Deus...
— Espera, Deus não existe, não tem como existir nesse mundo mau. — Ela o interrompeu, parecia agitada e se balançava, curvando o corpo para frente e para trás no sofá.
— Fica calada, Amanda, apenas escute, comente ou pergunte depois que eu te der permissão. Certo? — Thomas repreendeu com seriedade embora não parecesse perder a paciência.
— Tá, continua, chefe.
— A Lei Universal é Deus, é a força primordial do universo imanifesto que se reflete no universo manifesto através de diversas formas, que vão de um nível mais alto e primitivo que nossa razão humana não pode alcançar, descendo até níveis menos sutis que se tornam mais acessíveis para nós. A Lei é única mas se diferencia em todas as formas existentes no universo manifesto.
— O que você quer dizer com universo manifesto e com imanifesto?
— Manifesto é tudo que existe, imanifesto é o que não existe, o que não é, a forma mais primordial de Deus que não pode ser imaginada de forma alguma. Por isso vamos esquecer o imanifesto e pensar apenas no manifesto, que se manifesta em dez formas diferentes, que são simbolicamente representadas pelas Sephiroth da Árvore da Vida.
Cada Sephirah representa uma determinada força da existência, e tudo o que existe pode se identificar com uma das Sephirah, é um mapa que classifica toda a criação e demonstra conexões e fatos que não poderíamos perceber sem esse conhecimento. Se você conhecer uma sephirah, seus símbolos, atribuições, forças, a natureza dela, você pode desvendar muitos mistérios.
— Isso é muito complicado, você teria um exemplo mais simples para que eu entenda melhor? Não sou bem estudada como você.
— Deus antes de criar tudo estava em um estado latente, imanifesto, como energia potencial que espera para se tornar em energia cinética, ele saiu desse estado latente se manifestou ao criar o universo, tanto o visível quanto o espiritual, aqui ele se diferenciou em diferentes níveis que vão de cima para baixo, o mais elevado é Kether, que é um nível muito sutil para ser bem compreendido pelo homem, o mais baixo é Malkuth, que é o mundo fisico.
— Aaaaaah, sim, estou entendendo, continue por favor.
— Esses níveis são as Sephirah, da mais alta para a mais baixa são exatamente:
Kether
Chokmah
Binah
Chesed
Geburah
Tiphareth
Netzach
Hod
Yesod
Malkuth
Cada uma tem que características muito específicas, mas também estão conectadas com outras, quando você medita sobre uma Sephirah você pode adquirir iluminação e poderes daquela esfera, cada Sephirah tem seus símbolos, sua letra, seus deuses, seus anjos, espíritos planetários, a deusa Selene por exemplo pertence à Sephirah de Yesod, assim como também a esfera planetária da lua e atividade de reprodução celular. Elas se ligam a tudo que existe, desde o processo físico mais fundamental, até as atividades existentes nos planos mais elevados e inalcançáveis do mundo espiritual, desvendar uma esfera te dará dons que envolvem todas essas dimensões de poderes e conhecimentos.tudo
— Então se eu puder compreender Yesod eu serei uma boa reprodutora por ter uma verdadeira ligação com essa esfera lunar da reprodução celular?
— Sim, é exatamente isso, aliás cada pessoa tem mais facilidade a se conectar a uma outra esfera, pessoalmente a minha é Tiphareth, acredito que você seja de Yesod, por isso ela será a primeira que vamos desenvolver em você quando formos para a parte prática do treino, o que não será tão cedo, precisamos de muita teoria agora, só preciso que saiba que conhecer as Sephiroth te dará impressionantes poderes mágicos e te tornará uma pessoa melhor e mais equilibrada em diversos sentidos. Hoje te darei uma aula demorada sobre cada sephiroth, darei uma visão geral delas, depois quero que vá na biblioteca e procure pelo livro A Base das Sephiroth Sagradas, leia ele inteiro até o fim do dia de amanhã e faça um resumo sobre cada uma das esferas, amanhã você não vai ter aula, leia sozinha, o que te falarei hoje vai ser o bastante para que tenha esse aprendizado hoje. Pois bem, fique em silêncio a menos que tenha perguntas, vou começar. Primeiramente sobre Kether...
Amanda morreu de tédio na primeira meia hora mas prestou atenção desde o início, depois começou a se acostumar em se manter atenta, o que era difícil para uma garota tão indisciplinada até então, mesmo assim sentiu prazer com o conhecimento que Thomas transmitia com tanta clareza, ele com certeza era um bom professor, e cada vez que ela perguntava, respondia-lhe com a maior paciência do mundo. Depois da aula eles tiveram uma refeição e então ela teria que ler o livro que ordenou, o calendário definido não valeria ainda, ela simplesmente tinha que ler a obra e fazer um resumo até as duas horas do dia seguinte, não interessava a Thomas se ela dormiria ou não naquela noite, simplesmente precisava cumprir a tarefa dada.
E ela cumpriu, leu aquele livro de mais de 300 páginas antes do amanhecer seguinte, claro que ela não dormiu, as letras eram pequenas, as ideias complexas, mas Amanda mesmo que tivesse desperdiçado sua vida quase inteira com vícios e desespero, tinha inteligência e talento muito acima da média para ter um aprendizado extraordinário, é claro, a Deusa de nome desconhecido que Thomas venerava não poderia estar errada afinal. O ceifeiro da bovespa ficou satisfeito com o resumo de três páginas entregue pela garota, a linguagem era um pouco grosseira e muito simples, mas perfeitamente clara; os dias foram passando e ele sempre dava aulas pessoais e depois mandava que ela lesse livros, fizesse resenhas e às vezes até que assistisse vídeos, havia só treino teórico e com frequência Thomas fazia com que Amanda fizesse tarefas domésticas do dia a dia, incluindo cozinhar e lavar, ela se revoltou no começo por sentir que estava sendo explorada e que seu mestre era uma machista, a única resposta que recebeu foi suficiente para que não reclamasse nunca mais sobre isso: — Te dou teto, comida, aulas, o mínimo que você pode fazer é fazer nossa comida, além do mais isso é bom para treinar sua disciplina. — E não havia qualquer hipocrisia na explicação dele já que não o próprio Thomas fazia essas mesmas tarefas algumas vezes, mas preferia deixá-las para Amanda.
Depois de três meses de severo estudo teórico e aulas, Amanda mal podia se aguentar de tanta ansiedade para começar a praticar os novos conhecimentos mágicos adquiridos, levou ainda mais uma semana se aprofundando no conhecimento específico de sua própria Sephirah, Yesod, antes de ter seu primeiro exercício prático, em que seu mestre a orientou a se ficar deitada ao ar livre em uma noite de lua cheia, ela precisaria manter-se com o olhar fixado diretamente para a lua, o planeta protetor de sua Sephirah, e pensar em todas as coisas que eram atribuídas aquela esfera: fertilidade, amor carnal, água, a lua, o prazer, sexo, as deusas Hécate, Diana e Selene, entre tantas outras coisas. Thomas ficava por perto só para garantir que a garota pudesse se concentrar sem ter nenhuma preocupação com algum espertinho querendo se aproveitar de uma jovem bonita e desprevenida na rua de madrugada, bom acentuar que ele tinha uma arma embora ela não fosse registrada, o milionário desde muito novo já era um empolgado partidário da desobediência civil, desobedecia qualquer lei que considerasse injusta desde que soubesse como não ser punido por tal infração, como ele tinha contato direto com a deusa da justiça, era difícil supor que seu próprio senso de justiça estivesse equivocado.
A profunda meditação feita por Amanda fez com que se sentisse suave e leve, por alguns momentos foi como se seu corpo mergulhasse na água e boiasse delicadamente com uma paz deliciosa, ela observava a lua, só piscando algumas vezes, sentia-se conectada ao astro, as imagens simbólicas que lhe foram ensinadas sobre Yesod fluíam naturalmente por sua mente mesmo em nível inconsciente, os sentimentos que a dominavam eram sentidos pela primeira vez e não saberia descrevê-los nem com palavras, nem com imagens. A experiência foi bem sucedida, de alguma forma, a impaciente Amanda não teve dificuldade em ficar várias horas deitada, sem se mexer e nem se distrair, mantevese muito tempo de olhos abertos olhando para a Lua, mas a certo momento, quando o fluxo lunar de emoções inundava até as profundezas de seu corpo de uma forma tão estranha e etérea, que adormeceu, a partir daí encontraria sua verdadeira iniciação.
Caminhou na borda de um riacho em uma bonita planície muito verde em que pequenas plantas rasteiras cheias de vida cresciam em abundância, seguiu sem pressa o curso daquelas águas sem pensar no porquê e muito menos em para onde, apenas seguia uma intuição inexplicável e irracional que a guiava; alguns minutos depois se encontrou com uma mulher alta e magra usando um longo vestido branco e um chapéu fúnebre que cobria da cabeça até seus ombros com um véu escuro, de forma que não se podia ver um único traço dessa área.
— Você é a deusa Yesodiana?
— Sim, meu nome é Selene, sou a lua no paraíso, estou impressionada que tenha chegado até mim novamente, já fazem alguns séculos, da última vez você estava muito diferente.
— Séculos? Ah sim, encarnação, Thomas disse mesmo que vivemos várias vidas e não lembramos das anteriores a menos que façamos um treinamento muito duro, ele lembra das dele, mas por favor me diga quem eu fui, estou curiosa, senhora Deusa.
— Como você pode perguntar sobre a outra vida? Logo você, minha pequena Yesod, eu te vi gerar pequenos mundos, gerar morte e esperança, gerar vida e agonia, lembro-me de cada um dos seus rostos, um eterno conflito entre luz e as trevas, minha pequena Yesod, você é como a Lua que quando está cheia brilha cheia de luz, mas que quando está nova mergulha na mais profunda escuridão. Beije meus lábios, pequena Yesod, eu te lembrarei do seu nome, você é tão lua quanto eu sou, venha. — Cada uma das palavras daquela divindade era tão suave quanto as águas do riacho, por essa razão Amanda teve certeza de que não era ela quem Thomas adorava.
— Tudo bem, eu beijo. — Não sabia porque aquilo mas simplesmente aceitou, chego bem perto da deusa, que ergueu o próprio véu para trás e revelou uma mulher belíssima com cabelos negros e olhos com cor de mel, era muita branca como se esperaria de uma deusa da lua, o que dava uma sensualidade especial ao contraste entre pele e cabelo; Amanda encostou os lábios nos dela e sentiu um terror profundo misturado com o prazer sexual que a dominava naquele momento, o prazer vinha do toque frio da boca vermelha da deusa, o terror das imagens que foram transmitidas para ela, viu haréns, prostíbulos, hospícios, prisões, sarjetas imundas; assim como também viu palácios, jardins, plantações, florestas e confortáveis lares familirares; tudo isso com o aspecto de épocas e ambientes tão diferentes que poderia afirmar com toda a certeza que aquelas cenas eram suas memórias, com certeza não eram de menos do que algumas dezenas de vidas.
— Yesod? Meu nome é Yesod? -Perguntou ao afastar a boca de Selene, pois essa palavra tinha sido tão profundamente cravada em sua mente que não conseguia mais pensar em outra, mesmo assim não sabia o que eram aquelas imagens, não lembrou de vidas passadas, teve apenas flashes totalmente confusos.
— Sim, não esqueça disso, agora volte para Malkuth.

Amanda voltou a si imediatamente e abriu os olhos assustada. — Não acredito que eu beijei uma garota.
— Então, você se encontrou com a deusa da lua?
— Sim, a Selene, ela me beijou e me mostrou imagens de vidas passadas, mas eu não entendi nada, estou boiando até agora.
— Então foi tudo correto, sente alguma coisa nova?
— Não sei, deixe-me ver. — Balançou os braços algumas vezes. — Acho que não, só me sinto mais... huuum... disposta ou algo desse tipo.
— Disposta? Vamos para casa, pode dormir até mais tarde e depois voltaremos ao treino.

Depois daquela primeira prática fizeram várias outras, mas algo sem dúvida nenhum em Amanda após seu encontro com Selene, sua intuição se tornara muito bem desenvolvida e era capaz de desvendar o significado de símbolos desconhecidos com muita facilidade, o seu nível inconsciente estava bem desenvolvido, um dos benefícios da sua esfera sagrada, por isso aprendia com muita facilidade e se mostrou uma aluna excelente tanto no estudo quanto na prática. Infelizmente ela ainda sofria por dentro, aquela noite lhe havia marcado com uma insuportável preocupação com as imagens que viu, precisava saber quem foi nas outras vidas, o que tinha vida, a maior parte dos cenários visualizados eram especialmente desagradáveis e isso a incomodava, não tanto por achar que fez coisas más, mas por querer saber. Pediu ajuda a Thomas para que lhe ensinasse especificamente a recuperar essas memórias, ele deu um livro para ela chamado "Rememorando Vidas Passadas" e lamentou que mesmo ele não conseguia fazer isso, que tinha tentado por alguns meses usando o aparentemente eficiente (pois fora aprovado pela Deusa falando aos seus ouvidos) método daquele livro, escrito por um guru indiano muito renomado na área oculta. O treino dela para tentar lembrar de vidas passadas era adicional ao programa definido por Thomas, já que ele mesmo não tinha condições de ensinar algo que não sabia como fazer, a aluna tentou por seis meses em vão e finalmente desistiu, tentando então esquecer daquela curiosidade cruel; mesmo falhando nessa tarefa, Amanda se desenvolveu muito bem como uma aprendiz de mago, e ao final desse tempo, Thomas se empenhou com um esforço fora do comum em educar aquela garota, por todo aquele tempo ela foi sua única atividade, eles viviam com modéstia naquele apartamento largo, e a única tarefa profissional que ele executava eram compras e vendar independentes de ações algumas vezes por semana que lhe rendiam dinheiro o bastante para perder poder aquisitivo com aquele seu longo período de "férias do trabalho".

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.