Sisters
1 Better things are coming. Or not.
Eu tinha jurado nunca contar está história a alguém. Acho que está na hora de quebrar essa promessa. Oque vou lhes contar agora pode ser classificado como extremamente idiota ou fantasioso. Mas na verdade, tudo isso aconteceu comigo. E por mais surpreendentemente que seja, eu sou eternamente grata por cada mínima coisinha que me trouxe até aqui hoje.
Era 2010. Eu tinha acabado de completar 15 anos quando eu, minhas 5 irmãs mais velhas (isso mesmo, 5) e minha mãe fomos expulsas da casa dos meus avós em Portland, EUA. Nós moramos lá desde que eu tinha 5 anos, quando meu pai morreu e minha mãe não tinha dinheiro suficiente pra manter 5 menininhas na casa onde morávamos. Vovó e vovô nós abrigaram na época com a condição de que mamãe arranjasse um emprego e conseguisse, depois de um tempo, comprar uma casa. Bem, minha mãe nunca arranjou um emprego. Na verdade, ela nunca tentou. Por todos aqueles dez anos, ela saia de casa depois do almoço e voltava a tarde com a velha desculpa "Eu não encontrei nada de novo! Parece que todos os lugares já tem funcionários suficientes. É uma pena mesmo". Meus avôs nos sustentavam até então. Mas eles estavam ficando cada vez mais velhos, e acredito que a ideia de ter que sustentar uma preguiçosa e suas 6 filhas até a morte não os agradava. Pois bem, depois de enxotadas da casa dos meus avós, nós não tínhamos simplesmente nenhum lugar para ir. Foi quando minha mãe teve a brilhante ideia de ligar para uma amiga e pedir ajuda. Stefane abrigou nos com satisfação em sua casa por mais ou menos 2 meses. Até que minha mãe conheceu ele. O cara que ia fazer a minha vida e de minha irmãs virar uma ponte entre o céu e o inferno.
Joseph Engelmann era um homem de negócios na Inglaterra. Minha quarta irmã mais velha, Katherine, disse que conseguia ler a palavra "milionário" na testa dele. Claro que minha mãe logo se interessou, e não posso dizer que Joseph não se interessou também. Minha mãe, mesmo depois de ter dado a luz a 5 belezinhas, tinha um corpo bonito e com várias curvas. Não era como essas modelos de hoje em dia, mas tinha seus atributos. Joseph me pareceu um homem desesperado na época, porque logo pediu mamãe em casamento. E lá estávamos nós, nos mudando da casa de uma amiga em Portland, para um casarão em Manchester, Inglaterra.
Nunca vou esquecer do dia em que estacionamos na frente da nossa casa nova. E que casa. Era um casarão enorme, com um grande jardim e um chafariz. Tinha um cheiro nostálgico, que acredito guardar comigo para sempre. Mary, minha irmã mais velha, não gostou do lugar. Era muito afastado da cidade e dos outros adolescentes. Mary era uma garota extrovertida, gostava de festejar e chamava muita atenção por onde passava. Nunca vou negar que não sentia inveja dela. Ela tinha essa característica única de ser a melhor, e acho que no fundo, todos nós seres humanos almejamos isso.
"Acho que posso dar aquelas minhas 'escapadinhas obrigatórias' em paz aqui, Rose" disse Beatrix rindo com deboche para mim. Ela era minha segunda irmã mais velha, e com "escapadinhas obrigatórias" ela quer dizer, fumar. Todas nós sabíamos desse vício dela, e Mary brigou inúmeras vezes com ela por causa disso, mas Bea nunca parou. É isso que torna Beatrix, Beatrix. Ela era incontrolável. E gostava disso.
Entrando no casarão, estimei em minha mente que ele deveria ter mais de 50 anos. Ou mais de 100. Era velho porém fabuloso, tudo que minha mãe mais queria. Joseph nos disse que geralmente o local é preenchido com centenas de funcionários, mas naquela semana em especial ele resolveu dar uma folga a eles. Lógico, vamos acreditar que ele tem bom coração. Ele mesmo nos mostrou os quartos, e nossa, fazia tanto tempo que eu não tinha um lugar só pra mim. O meu era o menor de todos, para variar, mas dava pro gasto. Tinha uma sacadinha e um armário relativamente grande pra quantidade de coisas que eu tinha. A cama era macia, e o papel de parede era rosa claro. "Para combinar com seus cabelos", dizia Joseph. Eu era a única loira da minha família, sem contar com meu pai. Minha mãe disse que quando eu nasci, rosas começaram a nascer no jardim de nossa velha casa, e por isso foi nomeada como Rose. Meu pai que escolheu. Eu não lembro muito do meu pai, mas lembro que ele costumava nos rodopiar na sala de estar. Eu ainda lembro da sensação de não ter os pés no chão. Com certeza, a melhor sensação que o ser humano pode sentir. "Depois do orgasmo, claro", dizia Katherine. Não que ela já tinha sentido um. Kath era piadista, e seu maior prazer era estragar os melhores momentos com suas piadas sujas. "Não diga coisas assim perto de adultos, Kath!" disse minha irmã Taylor. A terceira. Tay era extremamente inocente e vaidosa. Seu melhor amigo era o espelho e seu hobbie era ver vitrines de lojas. Só ver mesmo, porque nós não tínhamos dinheiro para comprar nada. Tay gostava de se imaginar naqueles vestidos caríssimos de marcas como Channel, Dior e por aí vai. Suas maiores divas eram rainhas da moda e eu sei que no fundo ela queria ser uma também. Tay também tocava piano muito bem, acredito que meu pai tinha a ensinado, porque minha mãe não tinha dom para a música e também nunca contratou um professor ou coisa parecida. Ela as vezes tocava no piano da vovó e Mary e Bea ficavam cantando e dançando como se fossem da Broadway.
"Parece que não vamos mais dividir as camas, little sister! Espero que sinta falta da minha presença majestosa no mesmo cômodo que você!", enquanto arrumava meu novo armário, meus pensamentos são interrompidos por Ísis. Ela só era um pouco mais velha que eu e se achava a maioral. Mas não posso negar que no fundo, ela sempre foi minha melhor amiga. "Rezei muito pra que finalmente esse dia chegasse, e agora que ele chegou, acho que você merece um super abraço de despedida". Ísis odeia abraços, e então eu pulei nela e nós duas caímos no chão rindo. No chão, olhando para o teto branco, paro e penso no tanto de coisas que estão prestes a acontecer conosco e como de um dia para o outro, saímos do status de desabrigadas para ricas e inglesas. Minha mãe nunca nos incentivou no quesito religião, apesar da minha avó ser católica. Mas ali, do lado da minha irmã, eu sentia uma presença, e era como se eu pudesse ouvir uma voz. Uma voz que dizia: Fuja.
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