Sirius
1 Capítulo único
Notas iniciais
“Sirius é a estrela mais brilhante do céu noturno. Uma estrela de estatura quatro vezes maior que o Sol. Pode ser vista de qualquer lugar da terra, e sua aparição significa que o verão está próximo. É pertencente a constelação de Canis Major – em português, cão maior – e seu nome vem do grego e significa literalmente ‘Brilhante’. Os navegadores utilizavam essa grandiosa estrela para navegação.”
─ Ficarei com você para sempre Kurosake Taigo. É uma promessa. ─ dizia enquanto afagava as madeixas negras de Kurosake.
─ Mas, Kagaho, você está com uma doença incurável, poderá morrer a qualquer momento! ─ gritou chorando.
─ Mesmo depois de partir eu sempre estarei com você Kurosake, como uma estrela.
─ Não diga asneiras!
A verdade era, Kurosake nunca acreditou nessa história de que pessoas quando morrem viram estrelas. Nem mesmo quando sua avó contava:
─ Vovó, como são as estrelas?
Kurosake resolveu perguntar de madrugada, quando ele e sua avó observavam a noite estrelada dentro do quarto escuro. Apenas a luz da lua iluminava.
─ Meu netinho, ouça com atenção. As estrelas são pessoas queridas que já morreram.
─ E ninguém sente falta delas vovó?
─ Claro que sentem. E é por isso que elas zelam pela pessoa amada.
─ Mas... isso não faz sentido vovó. Estrelas são bolas de plasma bem distantes daqui. Como uma pessoa pode simplesmente virar uma estrela? – perguntou o menino de oito anos, indignado. Para ele, nada daquilo fazia sentido.
─ Um dia você entenderá querido. Você encontrará uma pessoa especial, vai cuida-la e ama-la com sua vida. Mas um dia, quando ela partir, virará uma estrela e estará sempre zelando por ti, até o dia que você também vire uma.
─ Isso tudo é baboseira. – o menino inflou as bochechas e cruzou os bracinhos. – É ilógico!
A avó não respondeu. Resolveu deixar para a vida mostrar a ele, assim ganhando experiência.
─ Kurosake, por favor não chore. ─ Kagaho dizia enxugando suas lágrimas e sorrindo. ─ Eu não gostaria de ver meu namorado chorando antes de morrer.
─ Você fala como se fosse fácil! ─ Ele rosnou.
─ Eu prometo Kuro, eu voltarei para você. Serei a estrela mais brilhante do céu noturno. E me chamarei... Sirius. ─ Sorriu abertamente.
O sorriso que Kurosake tanto amava.
─ Por favor, pare Kagaho. Você não irá voltar. Nunca mais... ─ Fechou os olhos e punhos com força.
─ Eu voltarei... ─ Kagaho sorriu e deu seu último suspiro.
O monitor de pulsação cardíaca foi parando lentamente... Até que cessou.
─ Kagaho! ─ Kurosake gritou e se atirou na cama, chorando alto o nome dele. Nada mais importava. Seu amado Kagaho estava morto.
Kurosake ficou duas horas chorando sobre o peito do amado, até que a uma hora da manhã, foi interrompido pelo médico, que entrou com um semblante de tristeza e seriedade.
─ Senhor Taigo, sinto muito. ─ o médico disse tristemente colocando sua mão em cima do ombro direito de Kurosake. ─ Precisamos que venha conosco para assinar o atestado de Óbito.
─ Já estou indo. ─ Kurosake sussurrou com a voz embargada pelo choro.
Kurosake se levantou e segurou firmemente a mão agora pálida de Kagaho. Deu um beijo, e seguiu o beijo até a testa. ─ Descanse em paz, meu amado Kagaho. ─ Sussurrou e saiu da sala com lágrimas grossas.
Ao assinar o atestado de Óbito, Kurosake pegou seu casaco e saiu do hospital. Estava no final do inverno, quase se aproximando o verão, mas o ar-condicionado do hospital deixou sua pele quase congelada! Precisava colocar a cabeça no lugar antes da inumação que aconteceria amanhã. Mas apenas ele e Kagaho, já que o moreno não tinha parentes vivos e os pais de Kurosake estavam viajando para a Grécia e só voltariam no mês seguinte. Amigos? Kurosake não tinha. O único amigo que tinha, não queria chama-lo. Sabia como Masaki era emocionalmente abalado, fora os problemas de saúde. E não tinha muita intimidade com os amigos de Kagaho. O funeral seria feito atrás da casa de Kurosake, pela madrugada, no oculto.
Ao chegar em casa, Kurosake tomou um suco de laranja, mergulhou na banheira e procurou ausentar-se de seus problemas, mesmo que por um instante. Ao sair, colocou um pijama confortável e deitou-se em sua cama, desejando que tudo fosse apenas um pesadelo. Que ele iria ver Kagaho novamente, sentir seus lábios macios roçando em sua pele, e sentir mais uma vez o doce perfume de eucalipto que exalava do mesmo. Mas logo a vida lhe jogou um balde de água fria e o acordou para a realidade. Compreendeu que tudo aquilo realmente estava acontecendo. Que nunca mais iria ver seu amado Kagaho. Tentou dormir, ouvindo a voz serena de Kagaho lhe desejando boa noite.
Pela madrugada, acordou assustado por conta de um pesadelo e sentou-se na cama. Sua respiração ofegava e seus batimentos estavam acelerados. Respirou fundo procurando se acalmar, e olhou pela janela do quarto escuro, assim como na noite que falou com sua avó. O céu estava límpido, variadas estrelas, de tamanhos, cores e distâncias preenchiam aquele quadro. Lembrava Kagaho. Ele adorava observar as estrelas. Era seu passatempo favorito.
─ Esquecer o Kagaho não será fácil. ─ Suspirou e olhou para a janela novamente. – Que estrela é aquela? ─ perguntou-se notando algo diferente.
Em um canto daquele imenso céu, uma estrela brilhava mais do que as outras. Ela realmente se destacava e era linda. Era grande e encantadora. Kurosake ficou fascinado.
─ Eu gostaria de dar um nome para ela... ─ Pensou e pensou, e logo se lembrou do que o amado disse pouco antes de morrer:
─ Eu prometo Kuro, eu voltarei para você. Serei a estrela mais brilhante do céu noturno. E me chamarei... Sirius.
Kurosake imediatamente se lembrou do sorriso radiante que Kagaho deu ao falar esse nome com tanto encanto.
─ Sirius... ─ disse Kurosake encarando a estrela.
Ficou algum tempo encarando a grande esfera brilhante, antes de adormecer novamente.
No dia seguinte, acordou com o barulho irritante do despertador. Acordou ainda abatido pela perda repentina, e tomou um banho e vestiu-se para ir trabalhar, como fazia todas as manhãs.
─ Alô? ─ Atendeu o celular ─ Maki? Estou bem sim... Vou trabalhar hoje, mesmo que a Himari tenha me dado o dia de folga... Obrigado Maki, sei que sempre posso contar com você... Então até o trabalho, mata ne! ─ Desligou e pegou as chaves de casa e a bolsa, saindo pela porta.
O mundo parecia tão diferente. Sem Kagaho, parecia que tudo tinha perdido o brilho. As crianças brincando e as pessoas conversando entre si e dando risada, não mais trazia felicidade ao seu coração. A ida de Kagaho realmente deixou uma ferida enorme em seu emocional.
Ao chegar no trabalho, cumprimentou educadamente as pessoas e entrou no vestiário pegando seu uniforme.
─ Bom dia, Maki-kun.
─ Bom dia, Kuro-kun.
─ Sinto muito. Eu queria tanto ir para te ajudar, mas sabe que posso acabar tendo uma convulsão lá. ─ Masaki disse melancólico e envergonhado. ─ Mas se quiser, eu posso ir mesmo assim. Não quero te deixar sozinho.
─ Eu sei o quanto gostaria de me ajudar Masaki. Mas a sua saúde também me preocupa. Esse momento vai ser intímo, apenas entre mim e Kagaho, tudo bem?
─ M-Mas...
─ Sei o quanto gostaria de me ajudar, amigo. Admiro sua coragem. Mas eu realmente quero fazer isso sozinho dessa vez.
─ Por favor Kurosake, fique bem. ─ Sussurrou. ─ Sabe que me preocupo com você.
─ Acho que Kagaho pode ficar em paz sabendo que fui deixado em boas mãos. ─ Sorriu melancólico. ─ Pode ficar tranquilo, Maki. Eu me cuidarei.
─ O que faz aqui Kurosake? Achei que era a sua folga. ─ Himari perguntou com o rosto preocupado.
─ Eu resolvi vir trabalhar, Himari. Pode ficar sossegada. Eu estou bem, sério.
─ Se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa MESMO, estarei na minha sala. Bom trabalho vocês dois.
─ Obrigado! ─ disseram em uníssono.
No meio do trabalho, Masaki e Kurosake conversavam sobre assuntos do cotidiano. E o loiro conseguiu até arrancar risadas de Kurosake, coisa que foi muito reconfortante para ele.
─ E como está seu relacionamento com o Hideki, Maki? Estão bem? ─ Kurosake perguntou curioso.
─ Eu não contei, desculpe. Ontem a tarde, Hideki convidou-me para sair. Eu não queria contar porque não parecia-me o momento adequado para tal conversa. Lógico que aceitei. Ele é um homem divertido, sempre pronto a te ouvir. Hideki foi muito gentil comigo ontem. ─ Masaki sorriu envergonhado. ─ Levou-me a um restaurante italiano. Ele foi cavalheiro. Abriu-me a porta do carro quando chegamos e puxou-me a cadeira.
Para Kurosake era normal ouvir Masaki falando de forma culta. Masaki cresceu em uma família nobre, logo aprendeu desde pequeno a falar assim.
─ Rimos e conversamos bastante. Confessei estar preocupado com você, e ele pegou a minha mão e disse que ficaria tudo bem e que eu era um amigo incrível. Depois levou-me à uma pequena catarata. Puxou-me para seu colo e disse que amava-me. Pediu-me em namoro com uma linda aliança prateada. Estou tão feliz, Kuro-kun. ─ Sorriu radiante, mostrando a aliança em seu dedo.
─ É muito bom ouvir isso, Maki-kun. ─ Sorriu ─ Estava esperando uma atitude dele a seis meses, não aguentava mais ele falando de como você era lindo. ─ disse debochando.
─ Baka! ─ disse levemente irritado. Mas era bom ver seu amigo bem. ─ Kuro-kun, não gostaria de arranjar outro emprego? Quer dizer, agora que o Kagaho não está mais aqui, o emprego de fabricante de móveis não te ajudará a sustentar-se muito bem.
─ Como poderia arranjar outro emprego?
─ Eu tenho um amigo que precisa de um contabilista. Você fez faculdade de ciências contábeis, não?
─ Fiz sim.
─ Ele é um chefe compreensivo e paga bem. Você irá ganhar torno de cento e seis mil trezentos e quarenta e cinco Yen.*
─ Isso é muito dinheiro. ─ diz assustado ─ Eu não sei se devo...
─ Deve! Eu cuidarei de tudo, pode deixar.
─ Mas e você? ─ pergunta com preocupação.
─ Eu também trabalho lá. ─ Sorriu de orelha a orelha. ─ Sou secretário.
─ Você nunca me disse que tinha dois empregos! ─ Fingiu estar aborrecido.
─ Na verdade tenho três. Trabalho como babá aos finais de semana.
─ Mais alguma coisa que escondeu de mim?
─ Nada, exceto que tenho convulsões todos os dias e não conto a ninguém.
─ É O QUE? ─ perguntou irritado.
─ Desculpe, Kuro-kun. Não quero preocupar-te com os meus problemas.
E o tempo foi passando. Ao final do expediente, Kurosake, pegou seu casaco e saiu porta afora. Estava quase na hora. Ao chegar em casa, pegou velas, um vaso de girassóis, que eram as favoritas de Kagaho e um incenso.
O corpo já estava atrás de sua casa, que os médicos tinham trazido a algum tempo.
─ Oi, meu amor. ─ Sussurrou, sorrindo. ─ Eu sei que não é certo fazer isso sem o consentimento dos seus amigos. Mas eu, sinceramente, não tenho contato nenhum com eles. Esse momento será apenas nosso. ─ Sorriu.
Kurosake estranhamente sentiu que alguém o observava. Olhou em volta e não viu nenhum sinal de vida. Pegou o corpo que estava coberto em um saco plástico na cor preta, e cuidadosamente retirou-o.
Colocou o corpo no caixão que o próprio hospital forneceu e pegou o vaso de girassóis.
─ Eu trouxe flores. Girassóis, suas favoritas.
Delicadamente pegou um a um os girassóis, deixando apenas um de fora, que deixou ao seu lado. Fez um buquê e ajeitou-o. Colocou as mãos de Kagaho no peito e colocou os girassóis, de modo que ele segurasse. Pegou a tampa do caixão, tampando-o e arrastou-o para a cova, tampando com terra e pegando duas velas na mão.
─ As velas não tem nenhum significado especial. É apenas porque está escuro. ─ Riu consigo mesmo ao imaginar a reação de Kagaho.
Pegou o girassol que deixou ao lado, e colocou-o no centro da cova. Pegou o incenso e deixou-o no canto superior esquerdo.
─ Bem, hora de começar. ─ Respirou fundo. ─ Eu não sou digno de dizer alguma coisa, afinal, eu nem cheguei a ser seu noivo. Mas eu estou aqui unicamente porque eu te amo. Você foi a única coisa na minha vida que muitas vezes me fez acreditar no impossível. Você foi a única pessoa que me fez sorrir pela primeira vez. Confesso que depois não parei mais. ─ Riu consigo mesmo. ─ Você era, é, e sempre será a pessoa mais importante para mim.... E eu sinto tanto a sua falta. ─ Lágrimas grossas começaram a descer pelo seu rosto. ─ Você disse que voltaria para mim! Onde está você? ─ Começou a gritar. ─ Você disse que voltaria para mim como uma estrela!
Kurosake estava se sentindo um pouco tonto.
─ Kagaho! ─ Ele gritava, chorando, enquanto olhava para o céu.
Gritou mais algumas vezes sem obter resposta. Bem sabia que tudo isso era asneira. Virou-se, determinado a ir embora quando sentiu uma mão quente e macia sobre seu ombro.
─ Eu estou aqui, Kurosake.
─ Kagaho...
A figura a sua frente... Era seu Kagaho! Estava como sempre, mas seu corpo estava com um tom... Azulado brilhante. E sua aparência não era mais de uma pessoa debilitada, mas sim de um homem completamente são.
─ O que aconteceu com você?
─ Eu disse que voltaria. ─ Sorriu sereno. ─ Eu sinto muito por ter deixado você sofrer todo esse tempo. A última coisa que eu queria era te deixar triste. ─ Segurou o rosto de Kurosake, enxugando as lágrimas que teimavam em cair. ─ Agora, você acredita?
─ Eu... Eu acredito.
Kurosake sentiu suas pernas falharem e ajoelhou-se no chão.
─ Eu senti tanto a sua falta. ─ Começou a chorar novamente.
Kagaho olhou para frente, sentindo um vento forte em seu rosto. Suspirou.
─ Eu gostaria de ter te deixado sem você ficar tão abatido. Mas, infelizmente, nem tudo sai como queremos.
─ Kagaho... Posso pedir um favor?
─ O que quiser. ─ disse suavemente.
─ Eu quero sentir seu beijo mais uma vez. Seu perfume, suas carícias...
─ Mas é claro, meu amor. ─ Puxou Kurosake para um terno beijo.
Kurosake se sentiu nas nuvens. Aquele perfume, o beijo que o deixava louco e as carícias que o excitavam. A mistura de tudo isso o levava ao delírio!
─ Agora, meu amor, pode me chamar de... Sirius. ─ Sorriu abertamente.
O sorriso que Kurosake sempre amou.
─ Tudo bem, Sirius. ─ Riu e puxou-o para outro beijo.
S2S2S2S2S2
─ Papai, algum dia o tio Kurosake vai voltar? ─ perguntou o menininho loiro. ─ Ele já se recuperou do acidente de carro?
─ Não, meu filho. Ele nunca mais irá voltar. ─ Masaki disse ajoelhado, em frente à lápide de Kurosake. ─ Nunca mais.
Masaki virou-se para ir embora, mas sentiu uma mão em seu ombro.
“Não chore Masaki”
Masaki arregalou os olhos e virou-se para trás. Era a voz de Kurosake, mas não havia ninguém ali. Masaki levou a mão à cabeça, achando estar ficando louco. Segurou a mão pequenina de seu filho e foram andando. Nem imaginavam que uma estrelinha pequenina ─ cujo nome era “Sirius B” ─ observava-os com um sorriso nos lábios.
*Moeda Japonesa. Cento e seis mil trezentos e quarenta e cinco Yen seria o equivalente a três mil reais no Brasil.
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