Siren

20 Viagem para Fratris


Rosé chorou ao se despedir de Dahyun, seus soluços ecoando pela floresta. Entre lágrimas, pediu a Jin que cuidasse bem da pequena, e o elfo, com um sorriso gentil, garantiu que a levaria em segurança para casa. Após as despedidas emocionadas, cada dupla seguiu seu caminho: Jin e Dahyun partiram em direção às terras quentes do norte, enquanto Jisoo e Rosé seguiram para o leste, rumo a Fratris, a cidade comercial de Amicitia.

Enquanto caminhavam, Jisoo observava Rosé à sua frente, o silêncio pesado entre elas. Sentindo o olhar de Jisoo queimando suas costas, Rosé parou e se virou para encará-la, os olhos ainda brilhando com as lágrimas recentes.

— Tudo bem, Chichu? Está tão calada… sente dor em algum lugar?

Jisoo suspirou tristemente e olhou para o chão.

— É que… — Jisoo não conseguiu terminar sua frase, então Rosé a abraçou.

— Está tudo bem, Chichu — Rosé entendia sua frustração — Eu estou bem, e a culpa não foi sua. Na verdade, não foi culpa de ninguém. Aquele humano nojento tinha muita maldade no coração. Chichu, você não pode ser minha babá e ficar o tempo todo me protegendo. Preciso aprender a cuidar de mim mesma, então não se culpe.

— Não sei… é que eu me sinto tão…

Rosé interrompeu o silêncio com um beijo, selando seus lábios brevemente. Jisoo a olhou surpresa, sem esperar aquela atitude dela. Rosé, com os olhos ainda brilhando de emoção, sussurrou:

— Ao invés de falar essas besteiras, você pode me beijar. O que acha? Sinto falta dos seus beijos — Rosé sorriu timidamente.

Jisoo segurou sua cintura e a puxou mais para perto, diminuindo a distância entre elas até quase não haver espaço algum. Então, ela deu um longo e demorado beijo em Rosé, que a abraçou, correspondendo com intensidade. Rosé sentiu o quanto Jisoo ansiava por seus lábios, pois a beijava com uma paixão tão ardente que fez seu corpo inteiro estremecer, uma deliciosa sensação de calor a invadindo por completo.

…

Não estavam muito longe de Fratris, e levaram em média dez dias andando a pé para finalmente chegarem à bela e rica cidade. Olharam deslumbradas para as gigantescas muralhas que a cercavam, trabalhadas com detalhes em mármore e gesso, e com portões adornados com ouro branco. Ao se aproximarem dos portões, pensaram que seriam barradas, mas, surpreendentemente, os portões se abriram e elas entraram livremente. Fratris era uma cidade onde todos eram bem-vindos, independentemente de sua raça.

Ficaram longos minutos admirando a beleza da cidade: as grandes mansões exuberantes, os jardins coloridos e as belíssimas praças. A cidade estava repleta de pessoas, tanto comerciantes quanto turistas, tornando-a um local muito visitado, até mesmo mais do que Regium City, onde ficava o castelo do Rei de Amicitia.

Elas entraram em várias tavernas na esperança de obter informações sobre Jennie e Lalisa, mas em todos os lugares ninguém parecia ter visto as duas. No último estabelecimento, elas perguntaram ao atendente, que também disse não ter visto ninguém com aquelas descrições. Desanimadas, quase desistiram quando um senhor de cabelos brancos, abdômen proeminente e fumando um cachimbo, se aproximou das duas com um sorriso amistoso.

— Desculpem a intromissão, nobres donzelas dos mares — Começou ele, sua voz rouca e calorosa — Mas ouvi vocês falando sobre duas moças. Talvez eu possa ajudar.

— O senhor as viu? — Perguntou Jisoo.

— Venham comigo — Disse ele, retirando-se do local. Elas se entreolharam desconfiadas, mas seguiram o homem, pois não tinham encontrado outras pistas.

— Senhor? — Jisoo o chamou quando saíram do estabelecimento e ele a olhou, esperando ela falar — O senhor viu nossas amigas? Uma tem os cabelos castanhos e a outra tem os cabelos brancos com mechas azuis.

O homem a encarou.

— Sim, eu as vi.

— Viu? — Perguntou Rosé, esperançosa e com um sorriso enorme — Onde?

— Levei elas para o mar. Elas me contrataram para esse serviço.

— Levou elas para o mar? Por que?

— Isso eu não sei, só sei que também são sereias. Elas me pediram para levá-las no exato local do mapa. Sou apenas um marinheiro aposentado que usa a pesca como uma renda, então elas me pagaram com algumas moedas de ouro para que eu as levasse lá. Ao chegarmos no local marcado no mapa, elas pularam do meu barco e eu não as vi mais. Se quiserem posso levá-las até lá.

— Obrigada, obrigada, ficaremos agradecidas — Jisoo sentiu uma pontinha de esperança por saber que poderia encontrar as amigas.

O homem preparou o barco, e logo zarparam para o local onde ele havia levado Jennie e Lisa. Quase uma hora depois, já estavam distantes da costa, mas ainda podiam vê-la ao horizonte. O homem parou o barco e as olhou com seriedade.

— Foi aqui que elas pularam — disse ele, com um tom grave na voz — Diz a lenda que há uma cidade submersa aqui embaixo, mas nenhum humano é capaz de chegar lá para saber. Mesmo não conhecendo ao certo o que tem ai, quero que saibam que o lugar provavelmente é perigoso. Não sei o que as suas amigas encontraram por lá, mas desejo boa sorte. É aqui que nossa viagem juntos termina.

— Agradecemos muitíssimo a sua ajuda. Que muitas bênçãos recaiam sobre o senhor — Jisoo agradeceu.

As duas pularam na água e logo se transformaram em sua forma original com suas longas caudas. Acenaram uma última vez ao senhor e então mergulharam.

— Me desculpem — Disse o senhor tristemente depois que elas sumiram no mar.

…

Jisoo e Rosé mergulhavam cada vez mais fundo nas águas de Fratris. A temperatura agradável da superfície dava lugar a um frio penetrante e a escuridão envolvente conforme se aproximavam do fundo. De longe, puderam avistar as ruínas, mesmo com a escassa iluminação. Parecia tratar-se de uma antiga cidade, ou do que um dia já foi uma cidade, agora submersa no mar.

Elas nadaram cautelosamente em direção às ruínas, observando as diversas estruturas que um dia pareciam ter sido enormes e luxuosas mansões, agora transformadas em um lugar sombrio e coberto por algas. Mantinham-se próximas ao solo, passando pelas ruas submersas e examinando tudo ao redor, cada detalhe sendo analisado minuciosamente enquanto tentavam desvendar os segredos daquele lugar abandonado.

— Será que elas vieram pra cá? — Perguntou Rosé temerosa, sua voz cautelosa saindo baixa, quase num sussurro.

— Boa pergunta — Jisoo olhou as velhas casas cobertas de musgo e algas — Consegue sentir algo? A presença delas ou de mais alguém?

— Meus poderes ainda não estão completamente de volta, mas vou tentar, aqui no mar fica mais fácil.

Rosé fechou os olhos e se concentrou. Sentiu a energia ao seu redor, cada peixe, cada plâncton, tudo o que era vivo. Sua expressão refletia uma leve dor, os lábios torcendo-se enquanto ela se esforçava para captar as vibrações e os sinais do ambiente submerso.

Ela se concentrou mais profundamente, tentando conectar-se com qualquer vestígio de Jennie e Lalisa. A energia era intensa e caótica, mas Rosé tentava filtrá-la, buscando desesperadamente uma pista, uma presença familiar que pudesse indicar o paradeiro das amigas. O esforço exigia muito de suas forças já esgotadas, mas ela não podia desistir.

— Chae? — Jisoo a chamou, preocupada — Conseguiu sentir algo?

— Chichu — Rosé abriu os olhos lentamente — Achei elas…

— Isso é ótimo! — Disse Jisoo com empolgação — Vamos lá Rosé, vamos encontrá-las!

Rosé a segurou pelo braço e fitou o chão, sua expressão soturna.

— Tem algo errado, Chichu…

— O que houve? — Jisoo tocou seu rosto.

— A energia delas… está fraca demais.

— Isso significa que elas estão…

— Sim — Rosé a interrompeu — Isso significa que elas estão morrendo… precisamos achá-las logo.

Rosé se esforçava para sentir a energia de Jennie e Lalisa, que parecia estar muito fraca, dificultando sua detecção. Fazia pausas frequentes, fechando os olhos para se concentrar melhor. Quando conseguia captar algum sinal, nadava rapidamente na direção certa, com Jisoo logo atrás. Cada vez que se aproximava, a energia das duas amigas se tornava mais perceptível. Ela "farejava" a água, sentindo a presença delas cada vez mais próxima. Finalmente, chegaram a uma pequena vila submersa, onde as casas estavam esverdeadas e cobertas de algas. Rosé apontou para uma das casas, informando a Jisoo que era de lá que vinha a energia das amigas.

Elas entraram na casa em ruínas, que um dia fora o lar de alguém. O local estava escuro, sem a luz do sol, mas a visão de Rosé e Jisoo no escuro era melhor que a dos humanos, permitindo-lhes ver um pouco do ambiente ao redor.

— Jennie? Lisa? — Jisoo as chamou enquanto nadava pelo cômodo e olhava tudo em volta.

— Não entendo, eu sinto a presença delas aqui, mas elas não estão aqui — Rosé olhava em volta, confusa.

— Elas estão aqui, tenho certeza, seus sentidos são apurados, vamos procurar por algo.

Continuaram examinando todo o local. Rosé parou de repente ao encontrar um alçapão em um dos cômodos, chamando Jisoo com crescente euforia, sentindo a esperança de que Jennie e Lalisa estivessem lá embaixo. Jisoo nadou rapidamente até ela e a ajudou a abrir a porta do alçapão. Juntas, fizeram força e conseguiram abrir a pesada porta. A abertura revelava uma escadinha que descia ainda mais na escuridão, mais profunda e sombria que o restante da casa.

— Sinto que elas estão lá embaixo — Disse Rosé com a voz trêmula.

— Então vamos lá. Vou descer primeiro e você vem logo atrás — Suspirou para tomar coragem e mergulhou para dentro da escuridão — Jennie? Lisa? — Jisoo as chamou no escuro, quando ouviu uns murmúrios ficou parada e fez silêncio, ao constatar que era a voz de Jennie, foi tomada por uma alegria crescente — Meu deus! Chae, elas estão aqui!

Jisoo seguiu os murmúrios, como estava muito escuro, foi tateando até tocar no braço de uma delas.

— Graças a deus, nós te achamos — Jisoo achou estranho elas não responderem. Tocou no rosto de uma delas, e sentiu que sua boca estava amordaçada. Pelos barulhos de correntes imaginou que estivessem presas, e de fato estavam.

— Jennie, Lisa! — Rosé falou com empolgação se aproximando delas e as abraçando. Jennie e Lalisa, por sua vez, debatiam-se tentando dizer algo.

— Vamos ter que quebrar essas correntes — Disse Jisoo — Acho que consigo fazer isso, ainda não estou tão forte, mas aqui embaixo d’água me sinto melhor.

Com um grande esforço, Jisoo conseguiu quebrar as correntes que aprisionavam Jennie e Lalisa. Sem perder tempo, ela as tirou daquele escuro alçapão, levando-as para os cômodos de cima. Na fraca luz que penetrava o local, puderam ver o quanto Jennie e Lalisa estavam machucadas e em péssimas condições. Jisoo rapidamente tirou as mordaças de suas bocas, pois ambas choravam desesperadas, querendo falar algo.

— Jisoo — Disse Jennie com dificuldade — Precisam ir embora… agora.

— É o que vamos fazer, vamos!

— Não posso ir, leve Lisa com vocês.

— Que conversa é essa, Jennie? Vamos embora.

— Não posso, logo ela estará aqui — O semblante de Jennie além de cansado, estava repleto de tristeza.

— Ela quem? — Perguntou Rosé curiosa, sem perceber uma presença desconhecida se aproximando.

— Ora, ora, vejo que estão falando de mim… — Ouviram uma voz vindo de trás delas. Rosé e Jisoo se viraram abruptamente e totalmente surpresas por não terem conseguido notar a presença da mulher. Jennie e Lalisa olhavam para o chão tristemente, parecendo ter desistido de tudo.

— Quem é você? — Perguntou Jisso, colocando-se na frente das três.

A mulher sorriu de forma maldosa, seus longos cabelos castanhos emoldurando seu rosto, e sua cauda dourada brilhando na penumbra. Sua aparência era de uma sereia belíssima, com traços que sugeriam uma juventude eterna, mas também uma maturidade experiente. Sua expressão era suave e passava um ar majestoso, porém, a energia que emanava dela era carregada de maldade e negatividade, fazendo com que elas sentissem um arrepio de inquietação.

— Vocês invadem meu local e ainda perguntam quem sou eu? Os jovens de hoje em dia são tão mal educados — Ela sorriu.

— Não sei quem é a senhora e isso também pouco me importa, só viemos buscar nossas amigas — Disse Jisoo com convicção.

— As duas ali? — A mulher apontou para Jennie e Lalisa — Lamento informar, mas não sairão daqui com elas.

— Você só pode ser louca — Jisoo sacou sua espada, pois sentia que aquela sereia era perigosa — Chae, tire as duas daqui e leve-as para um lugar seguro, mas vá para a superfície e fique longe do mar.

— Mas Chichu, e você?

— Vou segurar nossa “amiga” aqui, pelo visto ela não nos deixará ir embora facilmente.

Rosé estava dividida, sem saber o que fazer. A energia perversa que emanava da mulher era palpável, e Rosé sentia o poder grandioso que ela possuía. Naquele momento, nenhuma das quatro estava em condições de lutar: Jennie e Lalisa estavam quase desmaiando, e ela e Jisoo ainda não tinham recuperado seus poderes após o envenenamento no terrível circo. Rosé não queria deixar Jisoo sozinha, mas também não podia arriscar deixar Jennie e Lalisa ali se aquilo se transformasse em um campo de batalha.

— CHAE! — Jisoo chamou sua atenção, encarando a mulher e mantendo-se em posição de luta — Agora! Tire-as daqui! Eu encontro vocês lá em cima.

Rosé ficou parada, confusa com toda aquela situação, sem saber o que fazer.

Notas finais
E ai Rosé? shurastei ou shuragou? Hehe