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1 O desejo de conhecer o mundo é o que une duas almas
Notas iniciais
C A P Í T U L O Ú N I C O:
O que une duas almas livres é o desejo de conhecer o mundo
“Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida é feita de sombra e de luz".
— Anna Kariênina de Liev Tolstói
Esta história começa no outono de 850, quando vi pela primeira vez Merida Dunbroch, a Princesa escocesa, filha de Fergus, o Valente. Era o seu sexto aniversário, e ela brincava de esconde-esconde com sua mãe, a Rainha Elinor.
Para uma garota de espírito indomado, ela era incrivelmente bonita. Cabelos ruivos e encaracolados que caíam pelas costas, revoltos e vibrantes como chamas dançantes. Sua pele era clara e delicada, com feições suaves, e os olhos, de um azul misterioso como o oceano. Vestia um vestido de cetim marrom e sapatilhas combinando.
Eu observava atentamente quando seu pai, um homem robusto e imponente, lhe entregou um presente: um arco de madeira e uma flecha de bétula com pena de ganso e ponta de ferro. Nesse momento, lembrei-me das histórias que meu povo, os vikings, sempre contava sobre os escoceses. Havia uma antiga rivalidade entre a Escócia e a Dinamarca, uma rixa de sangue. Mas o que um garoto nanico de oito anos podia entender sobre escoceses? Eu sabia apenas que eles eram cristãos, e que por duas gerações antes de eu nascer, seus navios tinham atacado nossas costas.
A única certeza que eu tinha era que aquela antiga fúria não estava enraizada em mim. E eu não queria, de jeito nenhum, ser o sucessor de Stoico, o Vasto. Toda vez que meu pai mencionava isso, eu simplesmente montava em Banguela, meu fiel dragão, e fugia. Não tinha paciência para ouvir o mesmo discurso de sempre: "Hiccup, não vou tolerar perdedores na nossa família! Você tem que viver para honrar nosso nome!". Além disso, os pesadelos constantes da minha primeira caçada ainda me assombravam. A memória dos olhos selvagens, a fúria, o cheiro acre, os pelos eriçados cobertos de lama e o som da lança cravando fundo no peito daquele javali, como se eu tivesse sido chutado pelo cavalo de oito patas de Odin. Meu pai cravara sua lança com orgulho e pendurou a carcaça ao lado do martelo de Thor.
Com o tempo, percebi que eu era diferente dos outros vikings, sempre prontos para uma luta. Eu preferia me aventurar pelo mundo a empunhar uma espada e colecionar inimigos. Fui arrancado desses pensamentos quando, por acidente, a flecha de Merida foi parar na floresta. Corri e me escondi atrás de uma rocha, com o coração acelerado. O vento ficou mais frio, as folhas mortas rodopiavam no ar, e eu amaldiçoei mentalmente Banguela por me deixar ali sozinho.
Merida se aproximava, seus passos leves nas folhas de outono, e o pânico me dominava. Estava ferrado. Era como uma lebre indefesa no covil de uma predadora. Se Banguela não aparecesse logo, minha cabeça certamente seria uma decoração nas paliçadas das Terras Altas dos Dunbroch.
Quando a Princesa estava prestes a voltar ao castelo, deixei escapar um suspiro mais alto do que deveria, revelando minha presença.
— Quem está aí? — ela perguntou impaciente, já posicionando o arco e a flecha em minha direção.
Fiquei paralisado. Murmurava em silêncio uma prece para os deuses nórdicos me tirarem daquela enrascada. E parece que eles ouviram! Sorri aliviado ao avistar as grandes asas negras de Banguela.
— É um dragão! — exclamou Merida, abaixando o arco, visivelmente impressionada.
Aproveitei o momento e saí de meu esconderijo.
— Tudo bem, não sou um inimigo — disse, levantando as mãos e sorrindo, tentando parecer amigável. — Me chamo Hiccup, e esse é Banguela, meu melhor amigo. Ele é um Fúria da Noite, uma das espécies mais raras e inteligentes de dragões.
Merida me olhou de cima a baixo, examinando-me com seus olhos curiosos e cautelosos, mas logo relaxou.
— Seu bicho de estimação é um dragão? — ela perguntou, franzindo o cenho. — Pessoas normais têm cães, gatos... Eu, por exemplo, tenho Angus, o cavalo mais rápido que um raio.
— Bom, ter um dragão me torna especial — respondi, sacudindo a terra das minhas roupas.
— Especial não é a palavra certa — ela riu. — Esquisito combina mais com você.
— Quer tocar nele? — perguntei, arriscando.
— Não sei... — hesitou, mordendo o lábio inferior.
— Ei, ele é manso. Olha só! — disse, passando a mão pelo dorso de Banguela. O dragão fechou os olhos, satisfeito com o carinho.
— Se essa lagarta gigante fizer qualquer coisa, eu juro que atiro uma flecha no seu traseiro! — ameaçou Merida, mas eu apenas ri e dei de ombros.
Com hesitação, ela se aproximou e acariciou a cabeça do dragão.
— Oh! É como tocar numa tartaruga! — comentou, surpresa. — Ele é rugoso, mas a textura é... interessante.
— Então... — pigarreei, tentando chamar sua atenção.
— Então o quê? — perguntou, confusa.
— Você ainda não me disse seu nome.
— E por que eu deveria? — ela retrucou, desafiadora.
— Porque é falta de educação não se apresentar — falei, com um sorriso brincalhão.
Ela revirou os olhos, mas respondeu:
— É Merida. Merida Dunbroch.
(...)
A partir daquele momento, formamos um vínculo inesperado. Passei a visitá-la com frequência, deixando que ela voasse pelo território em Banguela e ensinando-lhe mapas, constelações e até a rachar troncos para consertar barcos. Em troca, Merida me ensinou a ler e a escrever em sua língua natal e em latim. Mas o que eu mais amava eram suas histórias, especialmente as sobre Sir William Wallace, o herói que liderou a independência da Escócia.
Nossa amizade cresceu ao longo dos anos, em encontros secretos onde éramos apenas dois jovens explorando o mundo, livres das pressões de nossas origens e de nossas famílias.
— Hic! — ela gritou um dia, quando aterrissamos perto do rio.
Ela ofereceu um doce e, desconfiado, perguntei:
— Tem veneno?
— Não! Só magia o suficiente pra te dar dor de barriga — brincou.
Aceitei, e o sabor doce da geleia de framboesa explodiu em minha boca.
— Muito bom! — exclamei e Merida sorriu.
— Essa é uma sobremesa típica daqui — explicou ela, arremessando duas pedrinhas que tocaram suavemente a superfície do rio. — Eu queria que você experimentasse, porque é meu doce favorito.
Limpei a boca com a palma da mão e pisquei várias vezes, enquanto os raios de sol se intensificavam, iluminando ainda mais os cabelos vibrantes de Merida. Quando percebi, já estava sorrindo de forma boba.
— O que foi? — perguntou, curiosa. — Tem algo errado?
Balancei a cabeça negativamente..
— Esse é o martelo de Thor? — Merida indagou ao notar a tira de couro com o amuleto parcialmente escondido pela minha camisa. Assenti e mostrei a ela o símbolo.
— Ele nos dá força e boa sorte.
— É mesmo? — ela disse, claramente intrigada.
— Ouvi dizer que o Mjöllnir é um martelo de guerra e que Loki quase o quebrou — comentou ela, animada, enquanto penteava meu cabelo. — Thor, o deus do trovão, foi o único capaz de utilizá-lo por causa de sua imensa força. Quando não o usava, o pendurava no pescoço.
— Hum — murmurei sonolento, perdendo-me no toque reconfortante dela. O calor do seu corpo me envolvia enquanto eu fechava os olhos, apreciando o momento.
— É bonito — ouvi Merida dizer, enquanto seus dedos examinavam meus braceletes gravados com runas dinamarquesas.
— Ah, sim — respondi suavemente, quando ela afastou uma mecha de cabelo do meu rosto e beijou minha testa. — O ferreiro de casa é um falso cristão convertido e me conta muitas histórias do seu povo.
Um vento gelado cortou o ar, fazendo-me estremecer. Então, me aproximei mais do calor dela e repousei minha cabeça em seu colo. Lentamente, abri os olhos e notei que Merida estava séria, com o olhar fixo no céu.
— O que foi? — perguntei, levantando a cabeça.
— Você acredita que exista vida após a morte? — murmurou, pensativa.
— Eu acredito — respondi, acariciando sua mão com o polegar. — Valhalla é como o paraíso de vocês, só que mais divertido.
Rimos baixinho, mas logo o tom de Merida mudou.
— Hic… — ela me chamou, e percebi que estava lutando para encontrar as palavras. Respirou fundo e despejou tudo de uma vez, quase desesperada: — Meus pais querem que eu me case com o Príncipe da Inglaterra para manter a aliança entre os dois países.
— O que? — berrei, atônito, enquanto ela apertava as mãos com força, ofegante. Era claro que essa revelação tinha sido difícil para ela.
— Mas não vou! — ela declarou com raiva. — Não sou uma heroína, Hic. Não estou disposta a abrir mão da minha liberdade para me tornar aquilo que mais temo… Uma princesa obstinada. Não quero ser uma mulher como minha mãe. Não nasci para servir ninguém...
Ver Merida desolada me dilacerava por dentro. Sem pensar, a abracei, enquanto seus braços envolveram meu pescoço e sua testa repousou em meu ombro. Ela chorava e tremia desesperadamente, e eu a envolvi com força, ouvindo seus soluços altos.
— Minha mãe vive dizendo que a morte é a libertação do espírito, a salvação para nós, pecadores. Não consigo entender isso, não importa o quanto leia e estude. Por que nossas almas não podem ser livres aqui, em vida? — Merida falou em um tom filosófico, com as palavras embargadas. — Por que não podemos fazer o que queremos? Estou farta disso! De termos limites, de sermos definidos o tempo todo. Não quero ter que morrer para ser quem sou e… Eu não quero te perder, Hiccup. Me recuso!
— Shii… Mer, vai ficar tudo bem… Você não vai me perder, tá? — disse em um tom baixo e rouco, tentando me convencer de que aquilo tudo não me assustava.
Naquele momento, percebi o quanto éramos semelhantes. Desde o seu nascimento, Merida lutava contra o destino de se tornar uma rainha adequada para um futuro rei. Assim como eu, que não tinha vontade de suceder meu pai no comando de Berk. Ambos ansiávamos por liberdade e por explorar o desconhecido, buscando descobrir nossas próprias identidades.
Respirei fundo e apertei com força o Mjöllnir de Thor. Confiava no meu Deus e sabia que meu destino não era aquele, pois havia algo grandioso reservado para mim; eu sentia isso, mesmo sem conseguir explicar. Apenas a consolei, deslizando suavemente a mão por suas costas. Não soube quanto tempo ficamos assim, mas foi o suficiente para o sol se pôr.
Com o nariz avermelhado e os olhos inchados, Merida encostou sua testa na minha, e o sopro da sua respiração quente causou leves tremores em mim.
— Apenas tenha fé! — falei, afastando os cabelos molhados pelas lágrimas do seu rosto. — A fé é mais poderosa do que imagina. É sua força de vontade que move montanhas. Mesmo que não acredite no seu Deus, acredite em você, em sua força. — Peguei sua mão e a coloquei em seu coração. — Porque eu acredito em você. Em nós. Não sei como é o céu ou o inferno, mas uma coisa é certa: vou estar contigo onde quer que vá!
— Tem razão — fungou, voltando a si e se sentindo mais leve. A minha Merida estava voltando a ser a garota temperamental de sempre.
— Eu sempre tenho razão — disse, com um sorriso travesso.
Roubei um beijo, e ela sorriu, com um sorriso enviesado que se formava em seus lábios.
— Idiota! — resmungou, rolando os olhos, enquanto suas bochechas pegavam fogo.
No fundo, eu sabia que aquela princesa era especial e que meus sentimentos por ela eram intensos, mas ainda assim, não conseguia defini-los completamente. E, nossos momentos juntos eram simples, mas preciosos. Sabíamos que o destino nos separaria um dia, mas naquele momento, éramos apenas nós. E isso bastava.
(...)
Inverno, ano de 858. Toda aquela calmaria foi interrompida pelos dinamarqueses. Os navios fincaram em terra firme no Pictland, localizado a leste da Escócia, para não apodrecerem durante a nevasca. Os vikings eram o pesadelo: homens vestidos de couro, com capacetes de ferro, segurando machados, espadas ou lanças em uma mão, e armaduras redondas de ferro na outra.
A revanche dos filhos de Odin finalmente foi concretizada. Pessoas inocentes foram trucidadas, casas e igrejas incendiadas. Ouro, prata, foices e cabras foram saqueados. Mulheres e crianças se tornaram moeda de escambo, e o cheiro pútrido infestava o reino escocês.
— Temos que sair daqui — sussurrei para Merida.
— Não podemos — respondeu a ruiva. Ela estava certa, pois havia uma grande quantidade de homens escondidos entre as árvores, entre nós e o castelo dos Dunbroch.
— Hiccup! — Ouvi a voz grave de Stoico, o Vasto, ecoar pela floresta. Não tive tempo de reagir. Mesmo fora de forma, meu pai tinha uma força descomunal como o deus Vidar. Um punho fechado acertou-me em cheio, fazendo minha cabeça tombar contra o tronco de uma árvore.
— Traidor! — acusou. Vi que seus cabelos ruivos estavam presos, e seu rosto estava coberto pelo elmo com chifres. Ao seu lado, sua tropa e cães de caça.
— Bárbaro! — rosnou Merida, em posição de combate, mirando uma flecha no líder da ilha de Berk. Os olhos verdes de Stoico se dirigiram à Princesa com desprezo e repulsa.
— Com tantas garotas para você fornicar, tinha que ser justo essa escocesa nojenta?! — continuou com rudeza.
Irritada, Merida atirou em Stoico, acertando seu braço.
— Maldita bruxa! — gritou, ao tirar a flecha e parti-la no meio.
— Se tocar num fio de cabelo dela, se considere um homem morto! — ameacei, trincando os dentes e me colocando à frente de Merida.
Vi os gêmeos Cabeça Dura e Cabeça Quente surgirem rapidamente. Eles seguraram meu pai com força para que ele não se soltasse. Mas o líder dos vikings não parava. Seus olhos queimavam de ódio enquanto ele gritava ofensas grotescas.
— Se tocar num fio do cabelo dela, se considere um homem morto! — o ameacei, trincando os dentes, me colocando diante da escocesa.
— Merida! — O Rei Fergus apareceu com sua cavalaria.
— Então é verdade! — disparou Elinor, descendo do cavalo, furiosa. — Um viking!
— O que é que tem? — Merida se exaltou, me empurrando para o lado e encarando a fúria da mãe, olho no olho.
— Como o que é que tem? Ele é um pagão! — grunhiu Elinor entre dentes, sacudindo Merida com força. — Tem noção do pecado que está cometendo ao se envolver com o inimigo de Deus? Já passou pela sua cabeça que esse viking a ludibriou apenas para colher informações sobre seu pai e nossas terras?
A risada amarga de Merida preencheu o local enquanto eu limpava minha boca ensanguentada na minha veste.
— Deus, deus, deus... Se ele realmente existe, por que nunca presenciei um milagre? — Merida rosnou, sentindo-se sufocada pela dor em seu peito. — Hiccup é a pessoa mais nobre que conheci. Muito mais honrado do que todos vocês aqui!
O tapa veio num piscar de olhos. Merida levou a mão ao lado direito do rosto, sentindo o calor irradiar pela pele.
— Odeio você e toda essa merda de realeza! — declarou Merida em alto e bom som, largando o arco e as flechas no chão. — Eu sou uma pessoa, mãe, com sentimentos e vontades próprias. Não nasci para parir cinco filhos e perder minha liberdade só para manter esses acordos políticos ridículos! Sou um espírito livre! E se tiver que renegá-los para ser livre, eu farei!
— Não, você não vai — retrucou Fergus com um olhar sombrio. — Ou eu destripo esse viking na sua frente!
— Se você for matar Hiccup, terá que me matar também! — gritou Merida, avançando contra o próprio pai com uma espada que pegou de um dos soldados.
A discussão continuou por um longo tempo, ambos os lados ameaçando, nenhum cedendo. Os soldados escoceses e os guerreiros dinamarqueses estavam a postos, esperando apenas o comando de seus líderes para iniciar uma nova guerra. Mais uma vez, o destino se impôs diante de mim e de Merida. Foi naquele instante que me dei conta do quanto a amava, mais do que podia admitir para mim mesmo. A ideia de ter nosso relacionamento arruinado era insuportável.
— Hic! — Merida gritou em lágrimas, socando as costas do pai enquanto ele a colocava sobre a sela de seu cavalo negro. — Não me deixe!
— Merida! — gritei em resposta, correndo atrás deles. — Eu juro que vou te buscar!
Derrotado, caí de joelhos, soluçando com as mãos em punhos na terra. Esmurrei o chão com toda a força que possuía, até que vi as botas de couro de cabra à minha frente.
— Já estou farto dessas suas criancices de um lunático sonhador — acusou meu pai, apontando o dedo na minha direção. — Há uma guerra entre os deuses, Hiccup. Uma guerra entre o deus cristão e os nossos deuses. Quando há uma guerra em Asgard, os deuses nos fazem lutar por eles na Terra.
— Quem está vencendo? — perguntei, passando o punho no nariz, ainda com raiva.
A resposta dele foi apontar para os corpos dos escoceses espalhados no capim coberto pela neve manchada de sangue.
Fiquei alguns minutos respirando fundo, tentando esvaziar a mente. Eu deveria me sentir orgulhoso por ser dinamarquês. Todos os garotos dariam tudo para ter uma infância como a minha: ser criado entre homens e encorajado à violência, sem restrições por lei. Contudo, não era assim que me sentia.
Eu acredito num mundo melhor. Um mundo onde as pessoas podem resolver as coisas com diplomacia, sem derramamento de sangue. E se isso me torna um lunático sonhador, como diz meu pai, então serei. Vou continuar a lutar por esses ideais até o fim!
(...)
A ilha de Berk é um lugar especial, construída em duas colinas. A primeira, a leste, era onde a ponte começava, atravessando o rio amplo até os pântanos da margem sul. Parte da sua construção de pedra incluía uma muralha de alvenaria, alta e larga, cercada por um fosso. A segunda colina, também na margem do rio, ficava a oeste, a cerca de oitocentos metros da primeira, com uma única praia que subia até as casas ao longo da estrada marginal.
Sentado no cais, joguei algumas sardinhas para Banguela. Homens transitavam de um lado para o outro, e, em pouco tempo, observei sete ou oito navios partirem.
— Querido. — Ouvi uma voz feminina. — Senti tanto sua falta.
Minha mãe se sentou ao meu lado. Notei que seus cabelos, antes de um cobre escuro, estavam opacos, e sua pele pálida, sem vida.
— Eu também — respondi, sorrindo timidamente enquanto ela distribuía beijos pelo meu rosto. — Mãe, você...
A tosse, seguida de sangue, fez a angústia crescer em meu peito.
— Eu estou bem...
— Não está! — afirmei, franzindo o cenho.
— Sinto que a cada dia minha hora está chegando...
— Não fale isso nem de brincadeira! — A abracei com força, enquanto via Banguela brincar na água.
— Então, você está apaixonado por uma escocesa? — desfiz o abraço e abaixei o olhar.
— Finalmente, o destino o agraciou.
— Destino? — repeti.
— Sim — respondeu ela, alisando meus cabelos para trás. — Queira você ou não, o destino é impossível de ser mudado — começou Valka com a voz suave. — Você é o senhor destas terras, diques, carvalhos, freixos, pântanos e mar. E também o escolhido para pôr fim a toda essa guerra entre dinamarqueses e escoceses.
Minha expressão espantada se voltou para o rosto dela, cujos traços harmoniosos, diziam, eu havia herdado, exceto pelos olhos, que eram iguais aos de meu pai.
— Não sei se tenho essa força.
Ela colocou a mão na lateral do meu rosto e acariciou minha bochecha.
— É porque você não conhece o tamanho da sua capacidade. — Fechei os olhos, sentindo o toque sutil e quente. — Acredite no seu destino, Hiccup. Deixe tudo correr pelo curso natural. Os fios já foram tecidos na árvore da vida.
Alguns dias após essa conversa, fomos atacados pelos escoceses, aliados aos ingleses. Reconheci alguns homens, como o Lorde Dingwall, o jovem MacGuffin e Wee Dingwall, que estiveram presentes naquela noite do massacre de 858, na Escócia. O exército deles era o dobro do nosso. Os campos foram devastados, muitos de nossos guerreiros empalados por lanças ou flechas, e o gramado estava banhado de sangue. Os padres cristãos clamavam a seu deus por força para suas espadas.
O habilidoso comandante da linha de frente, Melequento, morreu na vala atrás de uma parede de escudos. Os saxões comemoravam com gritos de zombaria. O sangue endurecido estava sobre o rosto, cabelos e barba de meu pai, que se enfureceu e passou a duelar contra os cristãos com paixão.
Minhas mãos tremiam diante de tanto sangue escarlate, mal conseguindo segurar minha espada. Quando o inimigo estava prestes a me acertar com uma flecha, Stoico gritou um aviso, mas o alvo acabou sendo minha mãe. Valka morreu em meus braços, e nada pude fazer para impedir essa tragédia. Aquela cena se repetiu inúmeras vezes em meus pesadelos. Naquele dia, o Deus cristão estava acordado, enquanto Odin dormia. Apenas a cautela do inimigo evitou uma chacina, permitindo que os sobreviventes se retirassem da batalha.
“Hiccup, sua mãe morreu para lhe salvar. Não faça o sacrifício dela ser em vão. Torne-se meu sucessor... Seja o viking que nasceu para ser.''
Sentimentos de culpa e remorso me consumiam enquanto remoía as palavras de meu pai. Novamente, as questões sobre se a vida já estava pré-estabelecida inundavam minha mente. Valka costumava me dizer repetidamente que os fios invisíveis da vida eram fiados pelas Nornas — Urd, Verdandi e Skuld — e que o destino era tudo. Então, me lembrei de Merida e sua luta incessante contra o destino que lhe foi imposto muito antes de seu nascimento:
''Não sou uma heroína, Hic. Não estou disposta a abrir mão da minha liberdade para me tornar aquilo que mais temo… Uma princesa obstinada. Não quero ser uma mulher como minha mãe. Não nasci para servir ninguém...''
E aqui estou eu, refletindo sobre o futuro. Mesmo acreditando que fazemos escolhas, será que somos meros joguetes e não senhores do nosso próprio destino? Nossas ações são realmente tecidas e conectadas à árvore da vida?
''Queira você ou não, o destino é impossível de ser mudado. Você é o senhor destas terras, diques, carvalhos, freixos, pântanos e mar. E também o escolhido para pôr fim a toda essa guerra entre dinamarqueses e escoceses. Acredite no seu destino, Hiccup. Deixe tudo correr pelo curso natural. Os fios já foram tecidos na árvore da vida.''
Uma coisa é certa: nunca esqueci o quanto as palavras de minha mãe me fizeram refletir sobre o curso da minha vida. Não podia mais chorar e fugir do meu dever. Por ela, por Merida e pelo povo de Berk, estava disposto a aceitar a imposição implacável do universo sobre mim. Porque, talvez, eu seja aquele que cortará a rixa entre pagãos e cristãos.
(…)
Iniciei a minha educação como um guerreiro. Era obrigado a ficar de pé durante horas, segurando uma espada e um escudo com as mãos estendidas à frente do corpo até meus braços doerem. Os campos de treinamento ficavam sob o céu cinzento da Escandinávia, onde o frio do vento que soprava do mar penetrava na pele, endurecendo o corpo e a mente. Os sons do aço se chocando, o cheiro da terra úmida e das fogueiras queimando madeira resinosa preenchiam o ar. Eu adquiri habilidades com a espada e aprendi a empurrar a pesada bossa de ferro do escudo no rosto do inimigo, sentindo o impacto seco contra seus ossos, vendo o terror e a dor em seus olhos enquanto seu nariz se quebrava e as lágrimas o cegavam.
Cresci, ganhei músculos, e comecei a falar com voz de homem. Os longos invernos nórdicos e os verões curtos, porém intensos, endureceram meu corpo e moldaram meu caráter. O cheiro do salmarinho misturado ao de fogueiras sempre me acompanhava, e, por incrível que pareça, com o tempo, passei a chamar a atenção das garotas.
Astrid Hofferson foi a primeira garota a me ensinar o que é ter uma amizade com benefícios. Loira, dona de uma personalidade forte, e com olhos azuis que refletiam o céu gélido do norte, ela era uma verdadeira dama de ferro. Seu cabelo dourado era sempre preso em uma longa trança, e seus braços firmes mostravam o tempo que ela passava treinando e montando dragões. Astrid não era apenas a jovem mais bela da tribo dos Hooligans, mas também a melhor corredora de dragões. A força dos ventos árticos e a bravura dos vikings estavam nela, e eu sabia que sua inteligência e senso de luta ainda iriam transformá-la em uma guerreira completa.
— Qual é, Hiccup? Você está sentado nesse gramado há quase três horas, sem dizer nada — ouvi a voz de Astrid, em um tom preocupado, enquanto o vento frio fazia as folhas secas das árvores ao redor dançarem.
Ela respirou fundo e sentou-se ao meu lado. O campo onde estávamos era vasto, com a grama verde e úmida após uma leve chuva. O cheiro de terra molhada e sal do mar próximo era familiar, reconfortante. Ao fitar aquelas íris azuis, senti uma calmaria e conforto, pois me faziam lembrar de Merida. O céu acima de nós estava nublado, com poucas aberturas de sol que lançavam raios dourados entre as nuvens.
— Isso o quê? — Fiz-me de desentendido, desviando o olhar para observar Banguela brincando com Batatão e Perna de Peixe. O dragão movia-se com graça, suas asas balançando as folhas enquanto o riso de Perna de Peixe ecoava ao longe. Ouvi um novo suspiro cansado da viking e quase sorri.
— Sabe do que estou falando. De tudo isso... de não querer assumir o que é seu por direito e... sobre a garota, aquela sua amiga de infância... A proibida... — Ela disse de modo suave e gentil, tomando cuidado com as palavras.
Ergui o olhar no instante em que ouvi Merida ser citada, buscando detectar tristeza ou rancor nos olhos azuis de Astrid, mas tudo o que encontrei ali foi carinho.
— Não te incomoda me ouvir falar sobre ela? — questionei, usando minhas mãos para sustentar minha cabeça, deitando-me no gramado para admirar o céu nublado e opressor. O ar úmido trazia consigo o cheiro dos pinheiros distantes, um lembrete constante das terras selvagens que nos cercavam.
— Um pouco — respondeu sinceramente, ajeitando sua trança, que brilhava suavemente sob a luz filtrada do sol. — Em primeiro lugar, sei que posso ser durona, mas quero o seu melhor, Hic. Eu gosto muito de você.
— Eu também gosto muito de você, Astrid — sussurrei, sorrindo para ela.
— Não importa o quanto você tente parecer forte em relação a isso, sei que está destruído por dentro. Você nunca a esqueceu. — Um sorriso melancólico brotou no canto dos lábios dela enquanto observava o formato das nuvens que se moviam rapidamente pelo céu cinzento.
Astrid era uma pessoa maravilhosa. Se eu estivesse no lugar dela, definitivamente odiaria a Dunbroch e a mim mesmo mais do que qualquer outra coisa. Mas quando se trata da minha própria felicidade, admito que sou egoísta. Astrid, no entanto, não era. Minha melhor amiga não culpava ou nutria raiva de Merida, pelo contrário. Ficava claro que ela lamentava o destino da pobre princesa.
— Obrigado. Você não faz ideia de como é bom ter alguém com quem dividir essas coisas — confessei, desabafando o peso que estava em meus ombros.
Fechei meus olhos e deixei minha mente divagar em lembranças falhas do garoto magricela que fui. Busquei, em meu acervo mental, o sorriso de Merida, o espírito selvagem como o de um falcão na primavera, que me atraiu no primeiro momento em que a vi, segurando com firmeza o arco e a flecha no denso bosque da Escócia. Tão concentrada. Era lindo vê-la acertar qualquer alvo. O desespero se instaurou em meu peito porque eu estava começando a esquecer o tom de sua voz, tinha dúvidas sobre a textura de sua pele e, principalmente, tinha medo de amar apenas uma lembrança.
— Príncipe — um novato me chamou formalmente. — Vossa Majestade mandou avisar que a tropa já está a postos e todos estão à sua espera.
Suspirei cansado.
— Hic — Astrid colocou uma mão no meu ombro, sorrindo. — Vai dar tudo certo.
Assenti com a cabeça, assobiei para Banguela, que respondeu ao comando com um rugido suave.
— Tenho que ir — falei, subindo no dragão. — Te vejo por aí.
Ao pegar voo, percorremos um bom caminho até os portões de ferro de Berk. O vento cortante batia no meu rosto, trazendo consigo o cheiro salgado do oceano e o eco distante das ondas quebrando contra os penhascos. As montanhas ao longe, cobertas por uma neblina leve, se erguiam como guardiãs ancestrais do nosso vilarejo. Ao chegar em terra firme, fui rapidamente ao encontro de meu pai, que me aguardava com expectativa.
— Hoje — disse-me Stoico, com ar lupino e a barba molhada de névoa — você vai aprender o jeito viking.
Embarcamos no navio. O mar cinzento estava agitado, as ondas batendo com força no casco enquanto o vento assobiava nas velas. Ouvi os homens planejarem um ataque surpresa para atrair o exército da Ânglia Oriental em direção ao mar, enquanto Ryker, o comandante corpulento das navegações, guiava a tropa terrestre para o sul, vindo de Wessex.
Meu pai encontrou um trecho de terra com um istmo estreito que poderia ser defendido. As montanhas ao redor criavam uma barreira natural, e a floresta densa oferecia cobertura para nossas tropas. Era o lugar perfeito para montar uma emboscada.
Chegamos a uma aldeia, cujo nome até hoje não recordo. As casas de pedra e palha estavam dispostas ao longo de uma estrada de terra batida. Queimamos fazendas, uma igreja de madeira queimada e seguimos em frente, por uma estrada que se afastava da costa. As pessoas daquele lugar não tinham armas nem armaduras. Talvez nem soubessem que havia dinamarqueses em suas terras, pois não estavam preparados para nós. O cheiro de carne queimada e madeira enegrecida enchia o ar, misturado ao som distante do choro de mulheres e crianças.
Alguns homens corajosos tentaram montar uma defesa perto da praia, mas foram trucidados ali mesmo. Capturamos dezesseis cavalos, oito bois e moedas de prata, que reluziam sob a luz fraca do entardecer.
A ideia de meu pai era que as pessoas temessem os dinamarqueses, para que estivessem prontos para se render. Vi quando ele pegou um pedaço de madeira com a ponta em chamas, sua silhueta contra o crepúsculo se destacando como uma estátua sombria.
— Queime, Hiccup — ordenou ele, entregando-me a tocha.
Fui de casa em casa, ateando fogo na palha seca. A chama crescia rapidamente, e o calor das chamas iluminava as paredes de pedra, transformando a aldeia em um mar de fogo. Quando me aproximei da última casa, um homem muito alto saiu correndo pela porta com uma lança, avançando contra mim. Era uma lança com três pontas, provavelmente usada para caçar javalis. Desviei de lado, evitando o golpe. Regido pelas forças de Thor, joguei a madeira em chamas no rosto do homem. Ele se abaixou, gritando de dor, e Stoico me jogou uma lança. A arma deslizou no chão diante de mim, e, ao pegá-la, entendi que ele estava me deixando lutar.
Respirei fundo. O sujeito tinha o dobro do meu tamanho e peso. Nessas horas me arrependo amargamente por entender seu idioma, pois o homem me xingava de bastardo filho do diabo, verme dos infernos.
A última lembrança que tinha de Valka morta em meus braços passou em minha mente num curto lapso de tempo e aquilo serviu de combustão para continuar o que tinha que fazer. Novamente, o inimigo avançou e fiz o que tinha aprendido nos treinos. Desviei para esquerda, esperei até ele baixar a lança, voltei a direita e cravei a ponta afiada da arma em sua barriga e então o peso dele me puxou para trás enquanto rosnava e ofegava.
Caímos, ele arrastou uma das minhas pernas e agarrou meu pescoço, mas retorci saindo da sua vista. Peguei sua lança e finquei em sua garganta. Formaram-se uma poça escarlate de sangue quente e viscoso em minhas mãos, sujando minhas vestes e espalhando pelo chão. O indivíduo estava se sacudindo enquanto engasgava, então puxei a minha lança que estava em sua barriga e acertei em seu peito profundamente. Ele agonizava de dor, não muito diferente do primeiro javali que tive que matar.
Não percebi que meu pai e seus homens estavam impotentes de tanto gargalharem, assistindo a minha tentativa de assassinato.
No fim consegui, suspirei aliviado.
— Como foi a sensação? — perguntou Stoico todo orgulhoso, dando alguns tapas nas minhas costas.
— Boa — respondi francamente, limpando as mãos nas vestes.
(…)
Foi no equinócio de primavera que Stoico finalmente realizou seu sonho de passar sua posição para mim. Assumi, enfim, o que era meu por direito: o comando da ilha de Berk. A tão aguardada posse resultou na maior comemoração do ano, uma semana inteira de comida farta, cerveja derramada em abundância, lutas, risos e homens bêbados desmoronando no chão frio, muitos deles vomitando sobre o solo já encharcado pelos excessos.
A praça central estava viva com o som das vozes vikings, enquanto as chamas das fogueiras dançavam ao vento noturno. O aroma das carnes assadas no espeto, misturado ao cheiro de madeira queimada, preenchia o ar. Os homens de Ryker preparavam-se para a corrida de dragões, combinando suas habilidades com a força dos animais em desafios como o lançamento de dardos a partir das montarias aladas. Acima de tudo, o céu, salpicado de estrelas, parecia testemunhar a alegria desenfreada que emanava do povo de Berk.
Naquela noite, pela primeira vez, fiquei bêbado. Tão bêbado que minhas pernas não correspondiam aos meus comandos e minha cabeça latejava como se fosse explodir. Meu pai explodiu em gargalhadas ao ver meu estado, com o rosto ruborizado pela bebida, algo que só aumentava a euforia que já tomava conta de todos.
Quando a noite chegou ao ápice, acenderam uma imensa fogueira no centro da vila. Heather, uma guerreira implacável e de beleza fria, cantou um grande épico em louvor a Odin. O fogo iluminava suas feições austeras, enquanto sua voz ecoava pelos montes e alcançava as florestas além da vila. Em seguida, um garanhão seria sacrificado e dado como oferenda para o reino de Asgard. Com um único golpe de machado, o animal tombou, suas patas ainda se sacudindo, mas logo silenciadas pela morte rápida. Stoico, imponente como sempre, levantou-se no centro do círculo de sangue e ergueu o machado encharcado para o céu estrelado.
— Odin! — rugiu ele, com um fervor que ressoou em todos os presentes.
A visão de tudo isso me levou de volta a uma lembrança diferente, a uma tarde na Ilha Sagrada de Lindisfarena. O dia estava maravilhoso, o céu límpido, sem nuvens à vista, e o mar, calmo, refletia os tons quentes de laranja e amarelo do sol poente. Os raios solares, intensos e acolhedores, aqueciam meu rosto e o ar fresco do mar preenchia meus pulmões.
Me recordei das palavras de minha mãe, e percebi que ela se equivocou ao afirmar que o destino é inexorável. O simples ato de mudar nossa rota, agir de forma imprevisível, é uma quebra do que se considera pré-determinado. Sim, somos os senhores do nosso destino, e não apenas marionetes nas mãos do acaso.
Respirei profundamente, sentindo a brisa salgada do mar e a areia úmida sob meus pés, enquanto as ondas batiam suavemente em meus joelhos. Liberdade. Uma palavra tão simples, mas com um significado vasto. Meu coração transbordava de emoção ao contemplar a imensidão da natureza, ao mesmo tempo grandiosa e assustadora. Ali, no limiar do oceano, senti-me inteiro, completo. Livre de todas as preocupações que um dia me assombraram, do cansaço que me seguia como uma sombra e, acima de tudo, do medo que antes habitava minha mente.
Espero que um dia, todos, homens e mulheres, possam experimentar esse sentimento de liberdade. Que se libertem das amarras invisíveis que os limitam. Que respirem fundo, sintam a vida em seu corpo e alma, e se permitam experimentar o novo. Abram suas mentes e corações, sem medo!
— Odin! — todos gritaram em uníssono, suas vozes se fundindo à minha.
Agora, sou um viking completo.
Com o passar do tempo, cada ataque surpresa aos reinos vizinhos rendia mais ouro e prata. Isso significava que mais homens poderiam ser enviados para longe, devastando terras e saqueando tesouros. Não me orgulho das conquistas que fizemos em lugares como o País de Gales, Blaland, ao Norte da África, Wessex e Mércia. Foram campanhas violentas e impiedosas. Meu único consolo em meio a toda essa destruição era ter Banguela ao meu lado, voando ao longo dos campos queimados, sempre me protegendo, como o companheiro fiel que sempre foi.
(...)
Com a chegada do solstício de verão do ano de 875, finalmente consegui realizar meu objetivo de vida: ser um especialista em dragões. A viagem até a Escócia não foi fácil, mas cada passo que dei me aproximava da competição que Astrid me contou. Ouvi rumores de que Elinor decidiu organizar um torneio entre os Quatro Clãs mais poderosos das Terras Altas em troca da mão de Merida.
Quando desembarquei nas praias escocesas, a brisa salgada e o cheiro da terra molhada me acolheram como um velho amigo. O céu estava radiante, salpicado de nuvens brancas que pareciam dançar. A excitação no ar era palpável; eu sabia que aquele dia seria decisivo.
Com toda a minha audácia, apareci no evento, não me abalando com as ameaças da Rainha Elinor. Afinal, não sou mais aquele garotinho franzino que ela se lembrava. Cresci e evoluí. Sou um novo Hiccup, um homem tenaz, o melhor guerreiro viking.
Observei enquanto cada um dos Senhores apresentava seus filhos, e para meu alívio, nenhum deles parecia agradar à Princesa. Sua expressão entediada deixava claro o quanto tudo aquilo não passava de uma tremenda chatice sem sentido. Então, Merida escolheu o tiro com arco para os jogos, e meu coração disparou.
— Com todo o respeito, Majestade, não sou como meu pai e não tenho interesse algum em continuar com essa rivalidade — expliquei, chamando a atenção de todos.
— Hiccup — Merida sussurrou, incapaz de falar mais alto, chocada e confusa.
Caminhei, parando em sua frente. Quando ela se inclinou para tocar meu rosto e cabelos, uma onda de nostalgia me envolveu.
— É você! — murmurou, enquanto a lembrança dos velhos tempos me fazia sorrir.
O temor era notável nas faces das pessoas ao nosso redor. Para elas, eu era a verdadeira encarnação da besta, um herege, mas isso não importava. Estava ali por uma razão muito maior.
— Vou participar dessa competição! — afirmei com afinco, minha voz firme e decidida.
— Admiro a sua coragem, rapaz, mas usá-la sem inteligência é sinal de burrice — falou o rei, sua autoridade ecoando em suas palavras.
— Cala a boca, Esquisito! — ordenou a Princesa, enfurecida, quase me fazendo rir. — Pai, o ignore. Esse cabeça de alga não sabe o que está di…
— Se eu ganhar, o Soberano irá jurar lealdade aos dinamarqueses, e sua filha será livre para decidir o que fará de sua própria vida. Isso inclui casar-se com quem ela realmente queira — disse, com a certeza ressoando em cada palavra que proferi. Era minha chance de libertar Merida da imposição patriarcal.
Merida ficou boquiaberta, piscando várias vezes, não acreditando no que acabara de ouvir.
— Isso é uma afronta! — reagiu a Alteza com raiva, apontando para mim. — Guardas, tirem esse pagão daqui! O monarca apenas levantou a mão como um sinal para que seus soldados mantivessem-se em seus lugares.
— Por que se importa tanto em colocar fim nessa rivalidade e com minha filha? — questionou Fergus, semicerrando os olhos verdes e encarando-me.
— Eu quero que haja uma aliança de paz entre os povos. Se houver uma união de um dinamarquês e uma escocesa, que seus filhos quando crescerem não vejam diferença — respondi, falando do fundo do meu coração. — Quanto à sua filha, eu a amo e só desejo a sua felicidade.
Os olhos de Merida brilharam, e seu sorriso me deu forças. O rei, após um momento de hesitação, se pronunciou.
— Está certo. — se pronunciou o monarca —, você competirá com os outros.
Os deuses são testemunhas das noites que passei em claro esperando por esse dia. Agora não podia falhar. Respirei fundo, absorvendo o máximo de oxigênio para meus pulmões, focando no momento.
Com o arco retesado e a flecha em riste, sentia a testa suar, mas minha mão permanecia firme. Pedi proteção à deusa Sif, que sempre apreciou as habilidades de um guerreiro. Sabia que ela não negaria meu chamado, pois minha causa era nobre. Sem hesitar, lancei a flecha, acertando todos os alvos.
— Consegui! — gritei, virando-me para a Princesa com um sorriso vitorioso.
Os trigêmeos, irmãos de Merida, pulavam nas costas de Banguela, e fiz um pequeno comando para o dragão dar um passeio com eles. A alegria naqueles rostos inocentes era contagiante.
— Querido, você não pode atender aos pedidos desse viking! — guinchou Elinor, com lágrimas nos olhos. Ela quis dizer mais alguma coisa, mas o sorriso satisfeito de sua filha a impediu.
— Vou, porque sou um homem honrado e cumpro minha palavra — respondeu Fergus, apertando minha mão e selando o tão almejado acordo de paz.
— Você estragou meu espetáculo — começou a Dunbroch, sorrindo radiante, divertindo-se. O rei nos deixou a sós. — Planejava eu mesma acertar todos os alvos.
Impossível não sorrir da maneira boba como estava fazendo. Merida, com seus cabelos encaracolados, exibia sua confiança. Cada parte daquela memória estava se gravando na minha mente. Merida era só dela. Mas, se mesmo com toda essa liberdade, ela quisesse ficar comigo, já me consideraria o homem mais sortudo do mundo.
— Desculpa por interromper sua brilhante estratégia — zombei, sorrindo de lado, e vi Merida desviar o olhar para as montanhas do norte.
— Você cresceu! — constatou ela.
— E você notavelmente se parece com uma mulher — respondi sarcástico, não conseguindo controlar o riso. A marrenta me acertou um soco bem dado na boca do estômago.
— Au! Mer, você continua com a mão pesada!
— Esquisito! — murmurou, e assim caímos na gargalhada.
Num suspiro, mesmo sem me olhar diretamente, sabia que ela sentia a intensidade do meu olhar sobre si.
Num suspiro, mesmo não me olhando diretamente, sei que ela sente a intensidade de meus olhos sobre si.
— Então, o que você tem feito durante todos esses anos? — inquiri, repousando a cabeça no meu peito. Ignorei o salto que meu coração deu com o gesto.
— Ah, nada demais… — disse descontraído, coçando a cabeça. — Acabei me tornando um especialista em dragões.
— Hic, isso é maravilhoso! — exclamou ela, orgulhosa. — O seu sonho finalmente virou realidade. E seu pai? Ele aceitou sua decisão?
— A luta pela redenção dele foi árdua, mas não falha — respondi, abraçando-a por trás, inebriado com o perfume dos seus cabelos. — No fim, Astrid irá me suceder. Ela é uma lutadora perfeita e pode vencer qualquer exército com sua mente astuciosa.
— Quem é Astrid? — questionou a Princesa, virando-se em minha direção de forma abrupta, ignorando tudo o que havia dito.
— Uma amiga — falei sério, rolando os olhos em tédio.
— Uma amiga? — ela repetiu, cruzando os braços.
— Está com ciúmes? — perguntei de forma retórica, soltando uma risada.
— Eu lá sou mulher para ter ciúmes. — A ruiva fez uma careta enojada. — Ainda mais de um esquisitão como você, Hiccup Haddock!
— Merida, meu coração pertence a você.
— Que seja. — A escocesa fez um gesto displicente com as mãos ignorando novamente o que lhe disse. — Não é porque me ajudou que irei me casar com você!
Perdi-me naquela imensidão envolvente e cheia de coragem que eram seus olhos azuis.
— E quem disse que eu quero me casar com você? — retruquei, sorrindo. — A não ser que você queira — respondi, divertido, quase rindo quando Merida parecia suspirar de alívio. — Mas antes, quero cumprir a minha promessa de levá-la comigo para conhecer o mundo.
Passamos bons minutos apenas contando as coisas um para o outro, falando sobre o rumo das nossas vidas. Ríamos, e eu não ria tão genuinamente como agora.
Gentilmente, meus braços rodearam sua cintura e as mãos da dela vagam pelos meus cabelos.
— Eu senti falta disso… De nós — confessou ela, ruborizando. — Me desculpe, eu… — sussurrou a Princesa, recuperando o fôlego arfante e seus olhos estavam fechados.
Peguei sua mão e depositei um beijo casto, sentindo-a estremecer apenas com aquele toque. Alarguei o sorriso ao sentir os lábios dela se encontrando com os meus. Suspiramos juntos com o contato quase ao mesmo tempo.
Todo o meu corpo, especialmente meu coração, gritou em resposta. Minha mente nublou quando a língua dela adentrou a minha boca, roubando toda a sanidade, me beijando com suavidade, mas com amor e saudade tão palpáveis que chegavam a doer. Estávamos tão mergulhados naquele contato íntimo que nada mais importava. Gentilmente, meus braços a envolveram, puxando-a mais perto, enquanto os sons da competição ao fundo tornavam-se um mero eco distante.
— O que foi isso? — Merida perguntou, corando.
— O início de uma nova era — respondi, satisfeito.
Dali em diante, não havia mais barreiras, e eu sabia que juntos poderíamos transformar o mundo. Assim, nossa história estava apenas começando. E quanto ao futuro? Ele é um mistério que ainda se desenha, mas de uma coisa tenho certeza: enquanto as chamas de nossos corações arderem, lutaremos com bravura. Merida e eu somos eternos viajantes, moldando nossas vidas a cada passo que damos. O desejo de explorar o mundo e tudo o que ele nos oferece uniu nossas almas, e enquanto estivermos juntos, nada nos deterá.
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