Sinos no Sul

1 Capítulo Único - One Shot


Raoni Uiyara desceu as escadas do avião, acompanhada por sua comitiva usual. Seu terno branco de caimento perfeito combinava com as calças claras e sapatos de grife. Um chapéu branco, adornado por uma tira escura, cobria seus cachos castanhos curtos. Os olhos azuis confiantes, uma expressão de arrogância elegante e a tez naturalmente bronzeada faziam do Boto-cor-de-rosa uma figura memorável. Além dos lobisomens de óculos escuros, seus seguranças, o Boto era acompanhado por um rapaz indígena alto de sorriso largo.

– Seremos vistos juntos. – Kai comentou, ao pisar no chão firme. Colocar os pés em solo o aliviava mais do que gostaria de admitir.

– Não tenho nada a esconder. – Raoni rebateu, embora isso fosse uma grande mentira. – Deixe que falem. – Entrelaçou sua mão na dele. Por seu verdadeiro gênero ser um segredo guardado a sete chaves desde seu nascimento, todos acreditavam que Raoni era um rapaz. Além de monstro, também ser gay faria sua imagem cair um pouquinho mais. Não poderia se importar menos.

O aeroporto de Navegantes, Santa Catarina, fervia de repórteres ansiosos para arrancar alguma coisa do Boto. Afinal, não era todo dia que o jovem líder das criaturas mágicas aparecia em público. Especialmente com um companheiro humano.

– Jovem Uiyara, teria um momento para conversar conosco? – Disse um jornalista, tentando se aproximar.

– Sinceramente, não. – Raoni continuou seu caminho, desviando da imprensa a passos rápidos.

– Vocês estão juntos? – Gritou outra repórter, menos educada.

Raoni parou.

– Não é óbvio? – Disse ela, abrindo um sorriso ferino. – Às vezes, vocês são tão lentos.

***

BRINQUEDO DE NATAL? QUEM É O RAPAZ QUE CAIU NA REDE DO BOTO-COR-DE-ROSA?

– Você pediu por isso.

– Ficou ofendido? – Ela rolava no feed as inúmeras manchetes de fofoca sobre si mesma e Kai, enquanto o motorista os levava até o hotel na BMW preta.

Braços fortes e quentes envolveram Raoni, e Kai sussurrou.

– Quem caiu na rede de quem aqui, Pira’y? – “Peixinho”. O apelido, que fora um insulto, agora tinha um novo significado.

– Que pergunta absurda. – Raoni roçou seus lábios nos dele, o desejo crescendo como chamas no palheiro.

– Senhores, chegamos. – Anunciou o motorista.

Raoni suspirou, os olhos sobrenaturalmente brilhantes, e disse:

– Depois de resolver esse caso, você vai se arrepender por me provocar na hora errada.

Descendo do carro, a dupla foi recebida por uma manifestação, escoltada pela guarda municipal. Carregavam cartazes com fotos de crianças.

– Devolvam nossas crianças, monstros! – A multidão raivosa gritava outros impropérios. Raoni crispou os lábios, contendo a resposta esperta que ameaçava escapar.

Os manifestantes mais coléricos foram mantidos longe pela polícia, enquanto Raoni e Kai entravam na prefeitura, onde foram recebidos por um homem de meia idade, corpulento e calvo, de olhos azuis mais claros que os de Raoni.

– É uma honra receber o líder Uiyara em nossa pequena cidade. Guabiruba não costuma receber… gente de tamanho calibre. – Raoni percebeu a hesitação do homem antes de falar a palavra “gente”. – Sou Carlos Richter, o prefeito daqui.

Raoni sorriu, enquanto apertavam as mãos, e o cuprimentou.

– É uma cidade charmosa, senhor Richter. – Se havia alguma insegurança no semblante do Boto, ninguém percebeu. – Espero que possamos ajudá-los a resolver essa situação.

– Assim espero. – Ele respirou, mais aliviado, após Raoni soltar sua mão rechonchuda. – Sentem-se.

Ofereceram-lhes café, embora Raoni não tivesse a mínima vontade de beber qualquer coisa. Fazia dias que estava tensa, pensando em qual problema a obrigaria a se deslocar a metade do país no meio das férias de fim de ano.

– Já que requisitou meus serviços, – Raoni começou. – o senhor poderia esclarecer quais as circunstâncias que me fizeram vir de tão longe repentinamente?

A ligação veio de uma instância do ministério das relações mágicas, que lidava diretamente com conflitos entre humanos e sobrenaturais. A presença do Boto foi solicitada com urgência em Guabiruba, uma cidadezinha no meio do Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Isso só podia significar um problemão para resolver.

– É claro, Senhor Uiyara.

– Raoni, por favor. – Ela ouvira o pai ser chamado assim por tanto tempo, que ainda lhe causava estranhamento ser chamada da mesma maneira, mesmo que ele tivesse sido assassinado há quase um ano. Seu posto de líder passara a ela: uma mulher, criada como homem. Um boto mágico fêmea, uma abominação da natureza, como diriam os anciãos.

– Um monst– O prefeito pigarreou. – Alguém está sequestrando crianças humanas.

– E vocês acham que é obra de mágicos? – Raoni estreitou os olhos.

– Temos certeza, Senhor… Raoni. Da última vez, houve uma testemunha.

– É mesmo?

– Uma das crianças conseguiu escapar. Estava aterrorizada, mas conseguiu descrever a… Criatura. – Ele pausou para beber um grande gole de café. – A coisa tinha palha no lugar dos cabelos e chifres de demônio. Andava arrastando correntes enferrujadas e… Tocava um sino.

Raoni e Kai se entreolharam.

– Os mbyá-guarani não têm histórias sobre nada parecido. – Kai coçou o queixo, pensativo.

– Temo dizer que eu também não conheço. Os sulistas não são exatamente próximos de nós…

– Nós, mbyá, teríamos histórias se o mágico fosse nativo. – Kai disse.

O prefeito empalideceu.

– Se nem o senhor dos monstros pode resolver…

– Não me entenda mal. – Raoni se levantou, a magia estalando no ar, como energia estática. – Nativo ou estrangeiro, ele está no meu território. Quem, ou que quer que seja, vai se submeter a mim. Isso é uma promessa, Richter.

– Deus nos ajude. – Murmurou o prefeito.

Os olhos azuis de Raoni brilhavam, quando ela e Kai deixaram a prefeitura.

***

Embora o motorista dirigisse com rapidez, Raoni pode observar bem a cidade.

Guabiruba era pequena, mas Raoni não mentiu quando a descreveu como charmosa. As praças eram iluminadas por pisca-piscas coloridos; não havia nenhuma casa que não tivesse ao menos um papai-noel decorativo e uma árvore de Natal. A arquitetura era bem distinta do que Raoni via no Norte. Os telhados de mansarda eram elegantes, embora fizessem a cidade parecer estrangeira.

Entretanto, os cartazes com fotos das crianças desaparecidas, espalhados pelas ruas, quebravam o gostoso clima natalino. Embora Raoni não morresse de amores por humanos, as crianças não tinham culpa pelos erros dos adultos.

– O Natal está chegando. – Kai tirou Raoni de seus pensamentos.

– Sim. Tem algum significado para você? – Perguntou, com curiosidade sincera.

– Não exatamente… – Ele sorriu. – Mas é uma época divertida. Vi você olhando a cidade… Quer passear a pé?

Raoni não respondeu.

Qualquer um reconheceria o Boto e ela sabia que sua fama não deveria ser boa.

– Vamos lá, o que poderia acontecer?

Raoni ponderou um pouco, antes de informar ao motorista que iriam descer.

– Ligo se precisar.

Raoni deixou no banco de couro seu chapéu e o casaco branco. E, assim, eles desceram para as ruas iluminadas, a lua cheia já alta no céu: uma jaxy guaxu, o auge da magia do Boto.

Andaram pelo centro da cidade, as praças iluminadas cheias de famílias, segurando as mãozinhas de suas crianças com mais força do que teriam feito no ano anterior. Era difícil dizer se os olhares desconfiados que os transeuntes lhes lançavam era porque pareciam dois homens de mãos dadas, ou se alguém teria reconhecido ali o Boto. Talvez as duas coisas.

– Tem muitos estrangeiros aqui. – Observou Raoni. – Muito mais que no Norte.

De fato, havia uma quantidade considerável de pessoas muito brancas, de cabelos e olhos claros.

– Bem, estamos no Sul. A maioria dos juruá daqui parece estrangeira. – Kai deu de ombros.

– Ai!

Uma criança veio correndo e esbarrou em Raoni. Quando ele olhou para cima, seus olhos claros se encheram de lágrimas.

– Ei, ei, calma. – Raoni se abaixou. – Onde estão seus pais?

– O Pensinique tá logo ali, tio! – Ele apontou para trás, mas era difícil distinguir alguém específico no meio de tantos transeuntes.

– Pensinique? – Raoni perguntou.

– Afaste-se dele! – Esbravejou uma mulher gorducha, de uns 40 anos. Sua pele era tão branca que as bochechas ficaram vermelho-urucum de raiva.

Raoni prontamente acatou o pedido.

– Não ouse machucar nossas crianças. – A fúria a deixava cada vez mais vermelha. – Sabemos o que você é. E, você, Marco, pare de falar bobagens e não se afaste da gente! Da próxima vez, vai ficar de castigo por 1 mês!

– Estamos aqui para ajudar, senhora. – Raoni delineou um sorriso encantador e, afastando os cachos da testa, sussurrou. – Confie em nós.

A magia dançou no ar, imperceptível para a maioria das pessoas, mas seu efeito foi aterrador. A lua iluminava a todos quase como um pequeno sol. Na lua cheia, não havia criatura mais forte do que o Boto. O olhar da mulher se tornou vago por um instante, depois retornou ao normal.

– Muito obrigada, senhor. – Sua expressão tinha um toque de adoração.

– Não há de quê. – O sorriso mordaz retornou ao rosto de Raoni. A criança e a mãe se afastaram dos dois, sem causar mais comoção.

Kai arregalou os olhos. Era a primeira vez que via Raoni encantar alguém. Ele mesmo era imune aos poderes dela.

– Isso foi um pouco assustador. Se meu animal de poder não fosse o Boto, você poderia…?

– Só faço isso em último caso. – Não havia mais diversão fingida no semblante de Raoni. – Deixando isso de lado, ele disse algo como… Pensinique?

– Vai levar a sério o que aquela criança disse?

– Mas é claro. – Olhou-o como se fosse óbvio. – Vocês, humanos, não ouvem suas crianças?

– É diferente… Ela…

– Só porque é meio estrangeira?

– Os juruás são bombardeados por besteiras na internet desde cedo… Mentem o tempo todo.

– Algo me diz que não era mentira, Kai. Bem, você está com fome?

Ignorando os olhares de julgamento, entraram em um belo restaurante, enfeitado com plantinhas e muitas luzinhas natalinas. Um rapaz esbelto, de cabelos cor de areia e olhos verdes, vestindo terno escuro, recepcionou-os.

– Sejam bem-vindos.

Quando pôs os olhos em Raoni, uma leve surpresa tomou conta de sua expressão.

– Senhor Uiyara, presumo. E seu… acompanhante peculiar.

– Guarde sua opinião para si mesmo. – A voz de Raoni saiu mais áspera do que pretendera.

– Não foi minha intenção ofendê-los. – Mas ele não se desculpou. – Mesa para dois?

***

– Já ouviu falar em “Pensinique”? – Raoni perguntou à recepcionista do Hotel, no dia seguinte.

Ela começou a rir, depois tossiu, tentando disfarçar o riso.

– O senhor não conhece? É o Papai Noel do mato. Uma lenda para crianças se comportarem. O papai Noel presenteia os bons. E o Pensinique pune as crianças más.

Raoni nunca ouviu falar em uma criatura mágica do tipo, mas assentiu.

Quando ela voltou para o quarto, Kai já estava lá, conversando no celular com alguém. A voz do outro lado da linha fez a pele de Raoni se arrepiar.

– Não aja como se ele não fosse perigoso.

– Ele é perigoso, irmão. – Kai concordou. – Você também é e eu, não exatamente por escolha, te amo do mesmo jeito.

Raoni revirou os olhos. Arandu, o irmão mais novo de Kai, era um guerreiro treinado para lutar contra as criaturas mágicas. Ele mesmo tinha enfrentado-a meses atrás, uma derrota que ainda lhe trazia um gosto amargo na boca.

– Querido cunhado. – Raoni roubou o celular das mãos de Kai e disse, a voz envolvente e macia como veludo. – Obrigado por se preocupar com nossa segurança. Estamos muito bem.

E finalizou a ligação.

– Que irmãozinho adorável você tem. – Disse, sarcástica.

Kai suspirou.

– Você ainda não sabe de tudo… – Ele desviou o olhar, não querendo prolongar o assunto.

– Deixando isso de lado, acho que é realmente uma criatura chamada Pensinique que está sequestrando as crianças.

– E algo me diz que você tem uma ideia para pegá-lo.

Raoni sorriu.

– Só precisamos de uma criança má e um disfarce.

– Uma criança má?

– Uma criança qualquer. Qual criança não é um pouquinho má? Amanhã vamos visitar um antro delas.

– Ah não. – Kai já sabia o que ela estava pretendendo. – E você acha mesmo que vão deixar você entrar?

– Não, não acho que deixariam o Boto entrar. – Ela sorriu, um sorriso tudo menos inocente. – Por isso o disfarce.

– Você está passando dos limites, Pira’y. – Ele a puxou para si, rolando na cama. Raoni deixaria Kai tomar o controle naquele dia. Um pequeno presentinho de Natal.

***

– Vocês estão com sorte. – A mulher estava com o olhar cansado de um professor precisando de férias. – Não tem muitas escolas aqui que funcionam nessa época do ano. E mesmo assim, hoje é o último dia de aula. – Aquelas palavras fizeram brotar um restinho de vida em seus olhos. – Vocês não quiseram trazê-lo?

– O Enzo é uma criança tão esperta, mas ele apronta às vezes, não é querido? – Raoni vestia uma peruca longa, de fios negros e lisos com uma franjinha reta acima dos olhos azuis. – Achamos mais razoável deixá-lo com o tio.

O vestido realçava seu busto de uma maneira que, até então, com seu disfarce, nunca tinha sido possível. Para todos ali, Kai e Raoni eram um casal em busca de uma creche para seu filho. E o disfarce era tão bom que nem mesmo seu motorista a teria reconhecido.

Era a primeira vez que Raoni se vestia como a mulher que era. Um misto de surpresa e desejo nublara o olhar de Kai, mais cedo, depois de ela ter posto seu “disfarce”. Ela era linda de todo jeito, ele havia pensado.

Raoni, por sua vez, era um poço de sentimentos conflitantes. Aquele era mesmo um disfarce? Ou era quem ela poderia ter sido, se não tivesse recebido o fardo de liderar todas as criaturas mágicas? Se seu pai estivesse vivo, o que ele diria?

– Ah, eu entendo. – Era um pouquinho de desespero que Raoni detectou nos olhos da professora? – Prontos para conhecer a escola?

A professora mantinha um sorriso cansado, enquanto os apresentava aos diferentes espaços da escola. Viram as salas de aula, o refeitório e, por último, o parquinho.

Kai cutucou Raoni, que logo viu o que ele via: um grupinho de crianças ria enquanto uma, encolhida em um canto, chorava. No grupo, uma delas se destacava: era aquela que incitava o bullying, comandando os demais a intimidar a criança mais fraca.

– Ah, o Pietro, outra vez! Pelo amor de Deus, vamos ter que chamar seus pais no último dia de aula? – A professora ficou enfurecida.

– Espere. – Raoni falou, um toque de magia recheando suas palavras. – Não interfira por enquanto.

– É, é claro. – A professora respondeu, obediente.

– Kai, aí está nossa isca.

***

O fim de tarde se aproximava, e os olhos atentos de Raoni não desgrudavam da criança chamada Pietro. Ela era, definitivamente, uma criança má: fazia birra, intimidava os colegas, desrespeitava a professora e mal tinha idade suficiente para encher uma mão.

Raoni viu a família do menino buscá-lo, sem nenhuma intercorrência.

– Esse tal de Pensinique não parece muito eficiente. – Kai sussurrou, de modo que só Raoni pode ouvir.

– Bem, o que acharam da nossa escola? – A professora parecia repentinamente radiante com o fim do expediente e do ano letivo.

– Entraremos em contato no futuro, com certeza. – Kai deu uma piscadinha para Raoni, que revirou os olhos enquanto a professora não estava olhando. – Obrigado pela recepção.

– Com licença. – Uma mulher, com os olhos quase mais cansados do que os da professora, aproximou-se. – Vim buscar meu filho Diego…

– O pai já buscou, mãe. – A professora a tranquilizou.

– Não, não, ele me pediu para buscá-lo hoje, pois está trabalhando!

– Ele já o levou, ele apareceu aqui tem uns vinte minutos…

– Mas meu marido acabou de me pedir para vir buscar! – O desespero quebrou sua voz. – Vocês entregaram meu filho para outra pessoa?

– Não queremos nos intrometer, mas, podemos ajudar. A escola tem câmeras de segurança? – Kai perguntou, enquanto a mãe do garoto começava a respirar com dificuldade.

Raoni se aproximou dela, sussurrando:

– Vai ficar tudo bem. Nós vamos encontrá-lo.

A mãe relaxou, dando um pequeno suspiro e foi conduzida até uma sala de espera.

– Dê-me algo do seu filho, qualquer coisa que tenha seu cheiro.

– Tenho um agasalho no carro.

– Vai servir.

Depois, Kai os ajudou a conferir as câmeras. Encontraram o menino Diego, acompanhado por uma figura de túnica, a cabeleira loira caindo pelo rosto, com dois pequenos chifres no alto da cabeça. Pensinique repousou a mão acima da cabeça do garoto, um carinho que o fez sorrir. Por algum motivo, ninguém parecia notar a criatura ali.

– Ele sequestrou a vítima? – Murmurou Kai, reconhecendo a criança que estava sendo intimidada mais cedo. – Vamos atrás deles.

– Devemos chamar a polícia! A direção não estava presente hoje… – A professora estava cada vez mais pálida. – Meu Deus, mais um sequestro…! – Disse, colocando as mãos na testa úmida de suor.

– A polícia não vai resolver. – Raoni rebateu. – Você também deveria descansar. Deixe conosco.

O encantamento envolveu a mulher, assim que os olhos de Raoni brilharam. A magia a fez desabar em um sofá na sala dos professores e dormir tranquilamente.

– Hora de tirar o disfarce. Temos um Pensinique para pegar.

Embora gostasse da sensação dos seios livres do binder, seus pés estavam incomodando-a profundamente. Os sapatos de salto eram horríveis.

***

Raoni enviou todos os seus lobisomens atrás do Pensinique. O agasalho do garoto ensinou-lhes seu cheiro. As buscas levaram a noite toda, até que um dos Yawara os contatou, pela manhã.

– Chefe, encontramos ele. – Ele parecia cansado. – O cheiro estava misturado ao de um mágico... estranho.

– Mande a localização, estou indo. – Ela respondeu, enquanto tirava o casaco e o chapéu. – Você fica. – Completou, quando percebeu Kai querendo acompanhá-la.

– Como assim?

– Você fica. – Repetiu ela.

– Não posso.

– Kai. – Ela pegou sua mão. – Não quero que você se machuque.

– Não vou. Eu prometo.

– Isso não é algo que você possa prometer. – Sua voz era um misto de irritação e desespero.

– Então me prometa que vai me proteger. – Kai abriu aquele sorriso que fazia Raoni corar. – Ou você não é capaz?

Ela deu uma risada seca.

– Se meu orgulho o matar, Kai, eu nunca vou perdoá-lo. Vamos logo com isso.

Chegaram no interior do Parque da Serra do Itajaí às 9h da manhã, mas estava escuro como se não houvesse sol. A neblina cobria toda a região, mas era possível visualizar uma casa abandonada. A vegetação densa de mata atlântica era diferente do que Raoni conhecia na Amazônia, mas ela podia sentir os espíritos dali a acolherem. O Boto era bem-vindo no Sul.

Os lobisomens tinham cercado a casa abandonada. A madeira escurecida pela umidade e pelo tempo, e a cerração firme pela ausência de vento fazia a construção parecer um cenário de filme de terror.

– Chefe, ele está lá dentro. Quais são as ordens?

– Eu vou entrar. Se as crianças saírem, capturem-nas. A prioridade é protegê-las.

Os Yawara emitiram um rosnado leve, assentindo.

– Kai, fique com eles. – Raoni dobrou as mangas da camisa até os cotovelos.

– Mas –

– Não discuta comigo! – Ela gritou. – Eu preciso de você aqui. – Disse, o tom de voz mais baixo, enquanto o coração batia descontroladamente. – Por favor. – Raoni suplicou.

– Se você não voltar em–

– Se eu não voltar, você vai fugir, Kainan. – Pela primeira vez, ela usou seu nome inteiro. – Mas… – Ela respirou fundo, e os olhos brilharam novamente. – Vejo que você tem pouca fé em mim.

– Não é sobre isso, Pira’y.

Ela sorriu, os olhos ainda brilhando. E se afastou.

Inspirou fundo, sentindo a energia natural se revolver ao redor dela.

– Eu sou Uiyara. – O vento balançou seus cachos marrons. – O mestre dos espíritos. – Nesse ponto, a energia reunida era quase palpável, até para os humanos. – Vocês aceitarão o meu chamado?

A força invadiu seus membros, fortalecendo-os. A energia era tanta que seus cabelos curtos balançavam sobrenaturalmente.

– Kai, você fica aqui. Eu vou cuidar disso.

Raoni caminhou calmamente até a porta e disse:

– Pensinique, entregue-se. Você está cercado.

– Meu nome é Peltznickel, selvagem!

Raoni riu e chutou a porta, que se estraçalhou em pedaços de madeira podre. O interior era úmido e fedorento. Ela podia ouvir o choro baixinho das crianças, em algum lugar daquela casa.

– Um espírito estrangeiro? – Ela disse, enquanto caminhava para dentro. – Duvido muito. Solte as crianças.

O chão de madeira estava sujo e embolorado, carcomido em diversos pontos.

– Elas foram tãaaaao más.

– Se você fosse atrás dos adultos, eu até poderia fazer vista grossa, Pen-si-ni-que. – Ela enfatizou o nome.

– É Peltznickel! – A voz gritou e ele se materializou bem à frente de Raoni.

O cabelo comprido, cor de areia, parecia mesmo feito de palha. Sua expressão era de repulsa.

Raoni fechou os punhos.

– Como chefe dos sobrenaturais, devo ensinar-lhe as regras desse lugar.

Uma risada escapuliu de seus lábios ressecados. Os dentes amarelos, com aspecto de madeira podre, causaram repulsa em Raoni.

– Eu só obedeço às leis da Rainha, selvagem.

– Que viralatismo barato. Deixe os vampiros cuidarem do que é deles. Eu cuido do que é meu.

– Não vou me submeter a você.

– Ah, você vai.

Pensinique materializou uma corrente pesada, com um velho sino na ponta.

– Onde estão as crianças? – Perguntou Raoni.

O golpe da corrente veio como um chicote, mais rápido que o barulho do sino. Raoni desviou e ela destruiu a parede ao seu lado, lascas de madeira voando por todo lado. A poeira subiu e ela aguçou os ouvidos.

– Estão pagando por terem sido malvadas. São lobinhos em pele de cordeiro. Choram, mas, no fundo, desejam o mal. Veja este último lobinho. – A poeira no ar tomou a forma do garoto que Raoni vira mais cedo, a vítima sequestrada na creche, Diego.

– Tão choroso, tão assustado. Mas ele me invocou! – Sua risada macabra cortou o ar, fazendo desaparecer a imagem da criança, criando no lugar o vulto do pensinique. – Ele queria que eu os fizesse sofrer, que os fizesse sentir o desespero que ele sentiu. Uma criança tão má!

Raoni o deixou falar, tentando entender sua natureza, mas estava claro que não adiantaria conversar. Ele tinha alguns parafusos soltos.

– Você também é mau, Pensinique.

– Como ousa me julgar, selvagem do Norte! – Ele gritou e arremessou uma corrente em Raoni, que aparou com os antebraços, mas a força do golpe a lançou contra a parede, fazendo erguer mais poeira.

– Ficou claro que você é meio maluco… – Disse Raoni, tossindo – Não me deixou outra escolha. Vou arrebentá-lo e procurar as crianças eu mesmo.

O monstro rugiu de raiva.

Raoni flexionou as pernas e murmurou um encantamento, que a impulsionou em menos de um segundo para a frente do Pensinique.

– Submeta-se! – A magia estalou no ar, enquanto Raoni suplicava mais uma vez aos espíritos. – Dobre-se a mim!

Pensinique tentou puxar suas correntes, mas seus membros não o obedeceram. Algo naquele maldito selvagem de olhos azuis, que cheirava como a água doce, o fizera hesitar. Os olhos esverdeados dele se arregalaram, amedrontados pela primeira vez.

– Não!

Raoni intensificou a magia de dominação.

– Não gosto de fazer as coisas dessa maneira, mas você não me deu escolha.

O Pensinique tentou lutar contra ela, mas, naquelas circunstâncias, foi uma tentativa infrutífera.

– Os espíritos do Sul me aprovam. Você vai se dobrar.

Ele se curvou, enfim, rangendo os dentes com tanta força que seus dentes amarelos estavam prestes a trincar.

Raoni sorriu, os olhos azuis brilhantes de poder.

– Vou repetir. Onde estão as crianças?

Lágrimas escorreram no rosto magro do mágico, enquanto ele murmurava.

– No porão…

– Bom garoto.

Após murmurar um encantamento de paralisia, Raoni deu meia volta e ligou para os Yawara.

– Alvo imobilizado.

Assim que o disse, os lobisomens, que cercavam a casa, adentraram-na, seguidos por Kai. Com a magia do Pensinique anulada, a névoa baixou e os raios de sol encontraram seu caminho pelas frestas da madeira na parede e pelo vidro quebrado da janela.

– As crianças estão no porão. – Informou Raoni. – Vocês cuidam disso a partir de agora?

Eles assentiram.

– Você está bem? – Perguntou Kai.

– Foi fácil. – Ela deu de ombros. Libertou a energia espiritual com um último encantamento e vacilou levemente. – Só é um pouco cansativo.

O domínio dos espíritos era algo que ela tinha começado a praticar pouco antes do assassinato do pai. Mas ainda precisava de muito treinamento até ser tão poderosa quanto ele fora um dia.

– O que você vai fazer com ele?

– Vamos enviá-lo para o Norte, para uma ação disciplinar. Ele ganhará uma tornozeleira, vai ser monitorado por alguns anos, até termos certeza que não fará nada de mal.

– E você descobriu de onde ele veio?

– Ele é brasileiro, sulista com toda a certeza. – Raoni respondeu, olhando para o Pensinique, que, imobilizado, não conseguia falar.

Ele balançou a cabeça, negando.

– Não é possível. Eu já disse, nós teríamos histórias.

– Ele parece restrito a esse Vale. Tem aldeias mbyá por aqui?

– Não mais.

– Eu tenho uma teoria. – Raoni explicou. – Essa cidade tem muitos imigrantes e seus descendentes… Eles trouxeram as lendas da Europa do Peltznickel, mas… Ele se materializou por aqui um pouco diferente. Aqui ele é Pensinique, querendo ou não. O poder do imaginário do povo fez nascer um novo sobrenatural. E esse povo é culturalmente misturado, por isso ele ainda está confuso.

– Mas esses imigrantes chegaram há décadas… Por que ele não apareceu antes?

– A Revelação ainda é recente. Ele pode ter agido antes e a polícia não foi capaz de pegá-lo. De qualquer modo, nosso trabalho já foi feito. – Ela suspirou. – O que vier a seguir, não é mais problema meu.

– Isso quer dizer que vamos voltar para o Internato? – Disse Kai.

– Não achei que você fosse querer passar o Natal em um avião.

Kai fez uma careta.

– Você notou?

– Que você tem medo de voar? – Ela riu. – Não enganou ninguém.

– Só não estou… Acostumado. Ah, quer saber? Você tem razão. Eu prefiro passar o Natal aqui na cidade, criando material para os paparazzi.

– Como quiser. – Raoni sorriu.

– Senhor.

O Yawara adentrou a sala a passos largos, carregando uma criança desacordada, seguido de mais lobisomens.

– Feitiço de sono. – Explicou. – Elas estavam em pânico e foi a única forma de resgatá-las.

Raoni assentiu.

– Muito bem.

***

Na noite de Natal, as luzinhas da cidade brilharam na escuridão. Raoni vestia um casaco branco leve, enquanto as roupas coloridas de Kai contrastavam com as dela. Seu cabelo negro curto estava penteado para trás.

Fizeram a reserva no mesmo restaurante que visitaram no primeiro dia e foram recebidos pelo mesmo garçom, que os conduziu até uma mesa. A decoração de Natal estava impecável, com dourado, branco, verde e vermelho se misturando harmoniosamente.

– Vinho? – O garçom loiro perguntou.

– Rosé, por favor. – Respondeu Raoni.

– O que eu esperaria do Boto. – Murmurou o garçom.

Raoni arqueou as sobrancelhas.

– O que isso quer dizer?

O jovem garçom enrubesceu.

– Desculpe, senhor. – Ele pareceu envergonhado. – Você é um ícone na nossa comunidade, então eu fiz uma pesquisa sobre você. Quer dizer… – Ele baixou a voz. – É difícil ser “do vale” em uma cidade pequena por aqui…

– Os brancos não gostam muito do que é diferente deles. Isso também vale para os sobrenaturais.

Jamais se esqueceria de quando conheceu a família real vampírica, a chefia dos sobrenaturais no continente europeu. Aquela princesa arrogante olhou para ela como se Raoni fosse uma mosca. Isso a lembrava que a reunião anual das lideranças sobrenaturais estava próxima.

– Deixarei os senhores à vontade. – O garçom se despediu.

– Obrigado por me acompanhar até aqui, Kai. Sua família não deve ter aprovado.

– Eles terão que lidar com isso. E a sua família?

Raoni sorriu.

– A única pessoa cuja opinião eu poderia considerar está morta. O resto deles… Quando voltar para casa, cuidarei disso. – Conhecendo sua raça, Raoni sabia que um relacionamento com um humano não seria bem visto.

– Deixemos essas preocupações para o futuro. – Ela disse enfim. – Por hora, vamos aproveitar a noite.

Raoni Uiyara sorriu.

– Tem razão.

***

Raoni estava largada na cama king do hotel. Fazia algum tempo que não emprestava a energia espiritual da natureza. O banho recuperara um pouco de sua energia, mas ela ainda estava cansada.

Kai saiu do banho, minutos depois, exibindo seu abdome definido, e o peitoral forte e liso. Raoni engoliu em seco. Aquele homem levava embora toda sua razão.

– Gostou do jantar, Pira’y? – Perguntou ele.

– O camarão estava excelente. – Ela disse, sincera. – E a companhia também.

Kai deitou ao lado dela. Vestia somente uma bermuda. Antigamente, Raoni costumava questionar a definição de “vestido” de Kai. Agora, já tinha desistido da ideia.

– Você vai cumprir o que disse, no carro, quando chegamos na cidade? – Ele abriu um meio sorriso encantador.

Raoni sabia exatamente do que ele falava, mas olhou-o inocentemente assim mesmo, e respondeu:

– Talvez você precise… Refrescar a minha memória.

Ele se aproximou, tocando seu rosto com delicadeza.

– Será um prazer.

E beijou-a com tanta intensidade, que fez uma necessidade urgente crescer em seu interior, mandando-a se aproximar cada vez mais dele.

– Ah, acho que me lembrei. – Os olhos azuis do Boto brilharam. – Eu disse que se arrependeria de me provocar.

– É mesmo?

Os lábios dele percorriam seu pescoço, beijando-a, enviando arrepios a cada vez que tocavam sua pele. Raoni empurrou-o para o lado, ficando por cima.

– Agora quem dita as regras sou eu. – Desta vez, seu sorriso era predatório. – E essa noite vai ser longa, muito longa, Kai.


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!