Sinking Ship
2 Prólogo
Prólogo
Naquela tarde, onde achei que tudo melhoraria, onde achei que alguma surpresa um tanto quanto agradável me esperaria, surpreendi-me com a mais triste dor.
Ao abrir a porta do apartamento, ao ver tudo quebrado e as paredes descascadas e cheirando a mofo, deparei-me com as portas dos armários aéreos da cozinha abertas, assim como as portas dos guarda-roupas.
Aqueles dois meses e meio de viagem foram suficientes para que ele se acabasse naquilo, que na época, eu ainda não sabia o quê, exatamente, era.
Haviam toneladas e toneladas de plásticos e pacotes espalhados pela sala. O sofá para que tanto trabalhei para comprar – ainda quando estava no auge da adolescência e perdida em paixão — estava atirado num canto, cobrindo parte de outra pilha de maconha.
Chorei. Não faz idéia de quanto chorei. Eu estava ali, vivendo com um estranho, amando um estranho, morrendo por um estranho.
Entrou rindo, com uma garrafa de cerveja na mão, sem camisa e com as calças baixas, a boxer xadrez escura aparecendo. No pulso, ‘OPM’, tatuado em letras aladas e significamente grandes. Despediu-se de alguém no corredor e virou-se.
Deixou a garrafa cair quando me viu, seu rosto era composto por um misto de fúria e pena. Eu não sabia se me atirava ali, do quarto andar, ou corria para abraçá-lo.
Seu corpo coberto por tatuagens, a pele levemente morena, as pálpebras levemente caídas e a boca, a boca que possuía o contorno mais doce do mercado... Doía tanto.
Corri, mas corri em direção ao meu quarto, onde na verdade haviam garrafas e papelotes espalhados para todos os lados. Atirei-me na cama suja, que soltou pó assim que o fiz e encolhi-me ali.
As lágrimas insistiam em cair, mas a dor que havia lá dentro, queimava como fogo, ardia como álcool, cheirava vingança... fizera-as secar. Um misto de sentimentos tomou conta de mim. E eu só precisava sentir o calor dele, sentir o abraço dele. Mas ao mesmo tempo, queria fugir, queria chorar em algum lugar onde ninguém me visse, onde ninguém falasse ‘Ela é fraca’. Porque dói.
Ele abriu a porta em um baque, me olhou com o cenho franzido e ficou ali, me observando de forma estranha, com as mãos nos bolsos traseiros e o olhar recaído sobre meu rosto prensado no travesseiro.
- Senti sua falta – falou, passando a mão na cabeça e sentando-se a beira da cama, estendendo a mão para tocar-me os cabelos.
Levantei enxugando o rosto – das lágrimas secas que saíram de minha alma, não de meus olhos -, apertando-o com as mãos, lutando para que aquelas que me desmascaravam não caíssem a sua frente.
Fiquei observando seus olhos azuis, seus olhos tão azuis que refletiam a intensidade que sempre conheci.
- Que merda é essa, Moss?
Aproximou mais a mão, meio que vacilando, queria o seu toque mais do que nunca. Com outra mão segurou o cigarro entre os dentes, e, quando vi que encostou as mãos em meus cabelos, gritei:
- Não encosta essa mão suja em mim – falei, sentindo as lágrimas apertarem meus olhos e minha visão embaralhar.
- O que você tem? – levantou e me abraçou, me abraçou forte. Queria-me soltar daquelas roupas que costumava ver jogadas ao chão todas as manhãs, queria me libertar daquele cheiro que invadia minhas narinas de tal forma que me deixava em puro êxtase, o cheiro dele, o cheiro do perfume dele... Fosse ele de cigarro ou não. Era dele, e então, em conseqüência, era meu.
Levei minhas mãos ao seu pescoço, o apertei contra mim, chorei a alma, chorei a dor, por aquilo que já não se resolvia mais com palavras, abrecei-o o forte, mais forte. Abracei-o até perder as forças.
Separamos-nos de forma estranha. Como se fosse a primeira vez. Sempre parecia a primeira vez. Apesar de tudo que passáramos, aquele foi o abraço mais verdadeiro que senti em toda a minha longa e dolorosa vida. Meu maior erro era amá-lo...
- Você vai acabar com sua vida, Moss – sempre o chamava pelo sobrenome, sempre –. Você vai acabar com a minha vida.
- Não, querida – falou em pé ao meu ouvido, baixinho. Senti seu corpo tremer, ele estava mal -. Eu senti tanto sua falta!
Fitei-o. Ele estava tão mal, eu estava tão mal. Mas não dava, já não era o que me reservava. Tem coisas que se apagam pra sempre, mesmo existindo pra sempre.
As marcas nunca se vão, nunca. A dor, talvez... Mas é intenso demais, sempre foi intenso demais.
E eu estava perdida em tal intensidade.
Meu maior erro era amá-lo... meu maior erro era estar morrendo por amá-lo...
Fale com o autor