Sinking Ship

29 Capítulo 27


O sol estava opaco e o céu ligeiramente alaranjado. Algumas aves voavam ao longe, e o mar estava escuro e bravo ao nosso redor. As ondas chocavam-se contra o pedregulho brutalmente, e nós sorriamos abobalhados um para o outro, contra a claridade.

- Olá, Billy.

Olhávamos-nos com paixão, com dor, mas iluminados pelo sol, e nossa vontade era de correr e abraçar um ao outro, passar conforto...

- Eu preciso falar com você, Jo.

Avancei um passo, e algo me bloqueou. Eu queria alcançá-lo, e simplesmente não podia. Uma onda veio e adentrou sobre a superfície, impossibilitando-me a visão.

- Não venha me falar coisas sobre ela.

Observei com dificuldade, temerosa, e flores nasciam ao redor. A onda se dissolveu e observei Moss caído, com os olhos altos, olhando-me com dor.

- Eu não quero ouvir suas desculpas esfarrapadas, não quero mais...

- NÃO! – levantei, ofegante, respirando fundo e sentindo a cabeça latejar.

O quarto estava imóvel e sombreado, mas os móveis pareciam dançar sobre minha visão, e eu sentia uma dor incômoda no peito. Ouvi vozes vindas da sala. Um sonho.

- Entenda, Jo, eu só quero o melhor pra vocês!

- Você quer é ver minha mãe feliz, isso sim.

Franzi o cenho e apanhei um casaco, levantando-me e indo em passos lentos até a sala.

Jo estava sentada no sofá, com o olhar fixo na televisão, emburrada. Billy estava sentado nos banquinhos do bar, tomando um copo de água e com uma expressão bruta.

- Olha, Jo, se não quer me ouvir, tudo bem, não ouça. Mas eu vim aqui pra te ajudar. Por favor, não seja mal agradecida.

- Você vive aqui, mais uma visita não faria diferença, faria? – disse, virando-se para ele, e após terminar fitou a televisão novamente.

- Meu vôo sai daqui duas horas.

Ela virou-se rapidamente ao ouvir a palavra vôo.

- Vôo? – perguntou baixinho.

- Vou entrar em turnê durante três meses, talvez mais, mas não quero que sua mãe saiba que vou me demorar. Quando eu voltar, quero ver vocês duas de acordo. Não seja infantil, e nem deixe sua mãe ser também – concluiu, levantando-se e beijando a testa de Jo – Se cuida, e cuida da Rose também – deu um sorrisinho e saiu pela porta, batendo-a em suas costas.

- Belíssima lição de moral – sussurrou desgostosa.

Fechei os olhos e respirei fundo, tentando me controlar, e tentando controlar as lágrimas, da mesma forma.

Não, nada era novo, eu estava acostumada com tudo aquilo. Ou, ao menos, estive alguma vez, mas agora, tudo parecia retornar, e, como sempre, eu me sentia perdida, sozinha nas dúvidas, sem saber o que fazer.

Mas... Tudo aquilo fora ficando repetitivo, as mesmas lembranças, os mesmos sentimentos, as mesmas dores, os mesmos problemas! Desmanchavam-se e voltavam mais traiçoeiros, e, a única coisa que eu queria era ser feliz.

- Jo – falei, certa de que minha voz sairia calma e dolorosa, mas, do contrário, saiu rude e desprezível. Engoli em seco.

- Ho! – exclamou – Era só o que me faltava. Lá vem a perfeita com suas lições de moral. O que foi, agora deu pra ouvir em entrelinhas? – me olhou irônica – Ficou com medo que eu seduzisse o seu aman—

Avancei em passos rápidos e segurei seu braço, com força, fazendo-a olhar nos meus olhos. Pela primeira vez, seus olhos não me lembravam Moss, mas lembravam-me eu mesma, revoltada e indefesa.

- Eu. Sou. Sua. Mãe – falei pausadamente, olhando em seus olhos.

- Jura? – desafiou-me com a voz fraca.

- É, Joanna, eu sou sua mãe e quero do fundo do coração que você não seja tão ignorante – falei, largando-a no sofá brutalmente – Como eu fui.

Saí correndo dali. As escadas pareciam turvas e perigosas, sob meus olhos embaçados. Sacudi a cabeça e as desci, com pressa, com dor, remoendo-me e sentindo as coisas sumirem ao meu redor.

Correndo pela rua, tropeçando em pessoas, segurava-me própria, segurava o nó entalado em minha garganta, e aquela sensação de que nada mais existia.

Empurrei o portal envidraçado antigo do prédio onde eu e Moss costumávamos morar. Vi de relance o antigo porteiro olhar-me como se eu fosse um fantasma. E eu corria, escadas acima, em busca de amparo, de um abraço... Eu corria em busca da felicidade.