Sinking Ship
16 Capítulo 14
Notas iniciais
- Mãe, olha só o que eu achei na rua – eu ouvi aquela voz doce e perceptivelmente sorridente invadir todos os cantos da casa. Ah, o verão.
Revirei-me na cama e puxei a colcha para meu rosto, enrolando-me ali e me encolhendo.
- Ah, vamos, mãe, sai daí, deixa de ser preguiçosa.
- To com dor de garganta – falei, e minha voz saiu levemente rouca.
- Quanto mais você ficar aí, mais dor vai ter, agora olha aqui...
Levantei emburrada e olhei pra ela, não vi nada.
- Olhar o que exatamente?
- MONNY! – ela gritou, e um cachorro grande, de pelagem clara cor champagne entrou formoso no quarto, cheio de dengues, mexendo a cabeça.
- Isso é um...? – eu ia perguntando.
- Cachorro. Vamos mãe, não seja má educada, cumprimente-o.
Eu fiz minha típica cara de nojo, era visível que eu odiava animais, é claro.
- Você não vai ficar com essa criatura aqui em casa, vai?
- Ah mãe, por favor – ela piscou os olhos e juntos as mãos.
- Joanna...
- P-o-r F-a-v-o-r – ela enfatizou.
- Jo, onde você achou isso?
- Na rua – ela falou, mordendo os lábios.
- Na rua...? Na rua?
- Tá, eu fui comprar pão hoje de manhã, porque alguém esqueceu de comprar ontem, e eu estava saindo da padaria e uma mulher simpática e aluada vinha com isso – ela apontou e riu da minha cara -, e a mulher foi embora.
- E isso evaporou?
- Não, o cão saiu correndo e a mulher não quis correr atrás, entendeu? Aí eu vi e peguei ela pra mim. Fim – ela sorriu.
- Jo... – a olhei feio – Quem era a mulher?
- Não sei, devia ser uma metidinha, ela era loura e tinha olhos bonitos. E sorriso de menininha. Deve ser uma namorada de algum rockstar...
- Joanna, essa mulher vai colocar um anúncio na polícia.
- FODA-SE! – ela riu e puxou o cachorro para o colo, abraçando-o e acariciando-o.
- Me escuta. Você vai devolver esse cachorro AMANHÃ. Ouviu bem? Amanhã. Ou se não você vai ver o que é bom.
- Não acredito na última parte, mas de qualquer forma, eu vou devolver. E você vai comigo.
- Eu?
- Não, manda seu Eu-Lírico – ela me olhou rabugenta.
Eu simplesmente tive que rir da cara dela, era eu, era eu mesma, 14 anos mais nova.
- Você me lembra eu e meu Eu-Lírico.
- Não quero ficar reclamona quando ficar velha.
- Me chamou de velha?
- Não – disse sorrindo.
Explodi rindo, literalmente.
- Tá rindo do que? – perguntou falsamente afetada.
Em segundos ela se encontrava da mesma maneira. Era sensato afirmar que minha vida tinha ganhado um novo brilho.
No dia seguinte, saímos cantarolando pela rua, em plenas 8 horas da manhã, com aquela coisa que ela chamava de cão esfregando-se ao redor de nossas pernas.
- Como você consegue abraçar esse...
- Cachorro, mãe, cachorro. Eles são fofinhos, sabia? Você devia ter um para aprender a ser mais dócil.
- Dócil? Ora dócil... – falei com meu tom de voz abafado.
- Depois ainda diz que não é rabugenta, faça-me o favor.
- Há! Muito engraçado... – saí andando na frente dela.
Percebi que ela parou de caminhar e ficou sussurrando alguma merda pro cão. Parei e me virei...
- Se você pensa que vai me assus—
Só pude ver aquela pelagem correr em minha direção com a língua de fora, e jogar-se sobre mim.
- SOCORRO! TIRA ESSA COISA DE CIMA DE MIM! ARRRGH. ESTOU SENDO ATACADA! SALVE-SE QUEM PUDER!
Jo estava caída no chão, se matando de rir – não minto -, apontando em minha direção e contorcendo-se toda. Maldita!
- TIRA ESSA ABERRAÇÃO DE CIMA DE MIM, POR FAVOR?
- Relaxa e sente, mãe...
- SENTE PORRA NENHUMA, TIRA ESSA COISA DE CIMA DE MIM, JOANNA, A-G-O-R-A.
Eu só sentia aquela língua gosmenta roçar minha bochecha, e ficava imaginando as pessoas passarem por ali e saírem assustadas, ou talvez pensando em ajudar uma pobre louca desvairada com sua filha delinqüente.
- And don\'t forget me when you\'re gooooone, and don\'t forget me when you\'re gooooone, cause my heart still hurts, my heart still huuuuurts, my heart still hurts! – Jo cantarolava na maior felicidade aquela bendita música, enquanto eu me debatia no chão.
- Huh, er, posso ajudar moça?
- DEVE! – gritei, sentindo a coisa peluda sair de cima de mim – Oh, desculpe-me – disse espanando minha bunda com as mãos – Oh, er, prazer – finalmente virei meu rosto para encarar o nobre cavalheiro, e do contrário que eu imaginei – um príncipe em roupas brancas e cavalo do mesmo tom -, um homem com cabelos levemente compridos e repicados, de roupas pretas e compridas – à comparar com o calor que fazia – estava intacto a minha frente, sorrindo amarelo e estendo a mão para provavelmente eu me levantar.
Ele tinha os olhos contornados de preto, e uma grande mancha escura em volta deles, que eu não tinha certeza se eram olheiras matinais, belos socos ou sombra – e põe sombra nisso.
- Desculpe-me moça, mas esse cachorro é de minha namorada – Ele falou sem jeito, meio preocupado e tímido.
- Oh, meu Deus! Ow, espera – eu disse, levantando a mão – O que me leva a crer isso? Você pode ser um bandido da pior espécie, moçoilo.
- Mãe, você parece uma velha com esse dedo apontado na cara do sujeito. Ah, olá – Jo cumprimentou o homem, estendendo a mão educadamente. Juro que não sei de onde ela tirou tanta simpatia repentinamente.
- Ah, não minha senhora – fiquei furiosa instantaneamente, crispando os lábios e fingindo um sorriso – esse cachorro é de minha namorada, ela o perdeu ontem de manhã por essas redondezas, sinto muito por ele lhe derrubar...
- Pois fique sabendo, mon amour, esse cachorro é MEU – Jo me olhou com os olhos arregalados, abafando risinhos – ouviu bem, M-E-U – soletrei -, e se sua namorada é uma psicopata distraída o problema é seu e dela. Com licença... – virei às costas – Venha, Moony, meu amor...
Ora, que sujeito mais metido e incoveniente, eu o conhecia de algum lugar, mas não me importava saber quem era, mania de pegarem o que é meu. E eu não sou possessiva.
Jo vinha rindo atrás de mim, quase sapateando de tanto de contorcer.
- Você não odiava animais?
- Moony, você é tão lindinho, diz oi pra mamãe – agachei-me no meio da rua acariciando-lhe os pêlos.
O cão latiu e eu achei aquilo encantador. Nunca tinha pensado em ter um cachorro antes. Jo não parava de rir e isso me incomodava profundamente.
Levantei e franzi o cenho, colocando as mãos na cintura, dizendo-lhe:
- Tá rindo de que, exatamente?
Ela calou-se por um momento e respondeu:
- De você – explodiu de novo.
Depois daquele terrível acontecimento nós fomos ao shopping comprar roupas pra Jo, já que ela teimava em dizer que as suas estavam ficando curtas.
Enquanto ela experimentava – eu nunca imaginei que ela fosse tão consumista -, eu estava sentada na praça de alimentação, tomando um milk shake de caramelo, e mexendo o canudo enquanto pensava sobre tudo que havia me ocorrido na última semana. Se eu não parasse pra pensar, eu pirava.
Estava sendo tão bom toda aquela animação, a cada dia que acordava e ouvia aquela voz doce e acolhedora, era como se o sol estivesse nascendo dentro de mim. Mas eu também estava certa de que muitas coisas estavam pendentes, e nem tudo eram mil maravilhas como pareciam ser. Eu sabia que meu coração ainda doía, lá no fundinho, quando eu parava pra pensar, mas eu tinha, ah, eu não tinha esquecido da promessa. Eu não transmitiria essa dor pra Jo.
Ela era um brilho de pessoa, apesar de tudo pelo que passara, mas eu ainda guardava muito medo do que ela ia passar, porque ela só tinha 14 anos, mas uma vida inteira pela frente.
Então eu lembrei de Moss e minha cabeça pareceu inchar subitamente, eu senti os olhos arderem, como se ele estivesse me abraçando e sussurrando lamúrias em meus ouvidos, e meu peito enrijeceu, presenciando todo aquele brilho se esvaziar. Os seus olhos estavam juntos aos meus, e me prendiam num passado que sempre que lembrado me levava de volta, as lembranças, as dores súbitas e as quedas... Aquelas sem cicatrizes.
Ah, como doía. E como eu era fraca.
- Mãe? – Jo sentou-se a minha frente, sorrindo confusa.
Balancei a cabeça mais uma vez e a fitei. Seus olhos azuis estavam brilhantes, cintilavam em felicidade e seu sorriso era confuso. Aquilo me lembrou terrivelmente Moss. Mas era Jo. Era Jo e eu não cairia em sua frente, não, ou eu não conseguiria olhá-la mais.
- Mãe, você está bem? – ela perguntou confusa.
- Estou, Jo, estou – pousei minha mão sobre a dela, passando o polegar de leve e acariciando o anel grosso e imponente que ela carregava.
Ela sorriu e olhou pra baixo, então retornou a me olhar.
- Hoje foi tão bom – ela sorriu verdadeiramente, um sorriso infantil encantador, diferente daqueles instantâneos. Olhou pro lado, corando – Não pelas roupas – levantou a sacola -, mas porque eu nunca tinha lhe visto rir e dar escândalos adolescentes como hoje.
- Jo...
- E eu não conhecia esse seu lado. Isso prova o quando grandiosa você é, só você não percebe.
- Não é assim, Jo... – eu senti meus olhos marejarem.
- É sim, mãe, aceita, as coisas são como são. Se você quiser, vai ser, nada vai impedir. Nada, mãe. Porque você não está mais sozinha, tá bom? – ela segurou meu queixo, mas eu movi a cabeça, não querendo fitar seus olhos. Idiota – Ei, não fica assim. Eu estou aqui, ok?
Eu fitei o milk shake em uma de minhas mãos e voltei a mexer o canudinho, então olhei pra ela e falei:
- Sabe, Jo, eu estive pensando. Você não me disse se me perdoou.
Ela riu fraquinho.
- Digo, não estou fazendo tudo isso, de comprar roupas e rir, ou então me fazer de idiota com um cachorro pra conquistar você, sou eu, e eu estou me sentindo mais viva a cada sorriso.
- Eu sei disso mãe, eu sinto sua energia no ar.
- Mas você me perdoou? – eu mordi os lábios, típica expressão dela.
- Não. Eu estou fazendo um teste para uma universidade, testando as mães de hoje em dia – ela me olhou séria, eu sorri abobada – É claro que sim – ri fraquinho e voltei a fitar o milk shake.
Eu sentia seus olhos atravessarem meu corpo, ela me fitava atentamente.
- Me dá um abraço, vai – ela estendeu os braços, divertida.
Ah, se eu não a tivesse. E não tive por tanto tempo...
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