Sinking Ship
6 Capítulo 4
Eu estava parada ali, ao batente da porta, esperando a mesma ser aberta, mas não somente isso. Esperava que da pessoa que a abrisse, um sorriso fosse formado na face, e esperava que os olhos brilhassem, e esperava um abraço caloroso e verdadeiro.
O marrom já estava me enojando, e eu sentia o estômago embrulhar. A porta abriu, mas quem a abriu eu não sabia quem era.
- Er, quem é você? – a garota perguntou, em seguida tossiu, lançando-me um mínimo sorriso.
Tinha os cabelos loiros escuros, meio acinzentados, e os olhos verdes... Verde esmeralda. O cabelo exibia um aspecto levemente sujo, e estava sem brilho e hidratação alguma. Carregava ao pescoço uma correntinha, que eu conheci como o símbolo da DCMA. Vestia uma camiseta apertada, azul marinho, com a face de um soldado estampada à frente, em silk screen. As calças eram largas, largas o bastante para darem maior imponência ao corpo frágil. E eram pretas. O All Star azul marinho completava o visual. Mas perdi-me em meus pensamentos quando vi o cigarro cair ao lado e o mesmo tênis pisá-lo.
Olhei pra cima novamente, e vi a porta ser empurrada, sendo eu junto.
- Hey, espera – empurrei a porta de volta.
A garota me fitou e franziu o cenho.
- Joanna está? Eu... precisava falar com ela.
- KATH! Kath, quem é? – a voz rouca, mas tão profunda perguntou, e aquilo despertou-me mais uma vez.
A garota surgiu na sala, e estava tão bonita...
- Ka— — estacou e ficou me fitando.
Deveria ser forte. Deveria ser forte ao menos uma vez. Tomei postura e a olhei. Ela era tão linda, e... apesar de ser o pai de saias, lembrava-me também. Seus olhos eram idênticos aos do pai, mas a boca fina e delicada pertencia a mim, e as bochechas também eram minhas... os cabelos ondulados e loiros claríssimos... e o corpo bonito, as mãos pequeninas...
- Jo – comecei, um pouco rouca. Ela me fitava em dúvida, e doía ver que não queria conversar. Aproximei-me dela – Jo, entenda-me, precisamos conversar...
Depois de alguns segundos piscando, ela torceu um pouco a cabeça, e sorriu. E aquilo foi como se o sol aparecesse depois de anos, como se... por alguns segundos, não houvessem mais problemas... e o palpitar do coração tornou-se contagiante, e um vago sorriso abriu-se. Eu pude sentir o corpo esquentar, ganhar um calor gostoso... mas ainda faltava...
- Jo, me dê um abraço... – minha voz saiu em som de súplica, aproximei-me um pouco mais...
Ela baixou a cabeça e tornou a levantá-la. Olhou-me no fundo dos olhos, estendi um pouco os braços. Parecia um cachorrinho sem dono, esperando por ser adotado, e me olhava com um quê de confusão na face.
- Precisamos conversar, Rose – aquilo doeu. Mas ela sorria, e isso reconfortou. Indicou-me o sofá, sentei-me.
Eu não conseguia olhá-la por muito tempo. A cabeça latejava e...
- Eu não consigo, Jo – falei baixinho, parecia uma adolescente contando os problemas. Talvez ela própria fosse mais madura que eu – Eu... eu tenho passado dias em claro, dias doídos, e dói de mais. Dói mais do que qualquer doença, e dói ainda mais por saber que fui eu mesma que a causei. Eu sinto tanto por tudo, sinto tanto por nós, e quando digo nós, digo por nossa família... Às vezes chega a ser insuportável. Eu não tenho um caminho! Não sei nem ao menos se tenho destino, porque os anos se passaram e eu acabei deixando as coisas essenciais e importantes pra trás... e quando digo isso, me refiro também a você, Joanna.
— Mãe... – inclinou-se um pouco em minha direção.
- Eu sei que errei – continuei. As palavras agora queimavam minha garganta – Eu sei que fui uma idiota, me lamento com mim mesma a todo momento por isso. E... eu me odeio por ter te deixado, sempre foi difícil, foi difícil te olhar, mas também te deixar... e isso acabou tornando-se insuportável. E Jo, desde aquele dia – uma lágrima agora escorria por meu rosto, e a visão tornou-se embaçada – desde o dia em que acordei na cama de seu pai, e te vi falando aquelas coisas...
- Mãe, eu estava transtornada...
Levantei a mão em protesto.
- E te vi falando aquelas coisas, eu não me atingi exatamente pelas palavras. Porque eu merecia aquilo, merecia tudo e muito mais. Mas me atingi apartir do momento que vi você, você estava tão fraca, pálida, e seus olhos transmitiam dor... e isso foi o que mais doeu. É o que mais dói – outra lágrima -. E sabe, Jo, nesses dias em que passei por aí, eu acabei descobrindo o porquê de tanta dor. Não sabe como dói ver uma pessoa tão parecida com você... – então eu sorri – em quase tudo, porque eu me vestia exatamente igual a você e sua amiga – ela abriu um sorriso lindo e reconfortante – quando tinha sua idade, e às vezes ainda me visto... mas... ver em você a dor que eu sinto em mim, é demais – rolaram mais uma, e mais uma, e então mais algumas lágrimas.
Ela segurou minha mão. Ela segurou minha mão! E doía, porque o calor que ela me passava era reconfortante, mas me fazia lembrar da mão pequenina presa à minha há quatorze anos atrás, me fazia lembrar da dor pela qual passei, do transtorno pelo qual lutei, e de tudo que me atingiu desde então. Mas a felicidade bateu a tristeza, ao menos uma vez na vida, e eu senti-me alegre, e um sorriso enviesado completou-me.
Não falava. Percebi que faltava alguma coisa.
- Me—
- Rose – enterrompeu-me -, eu não quero que ache que eu te odeio. Dói, você sabe como dói. Mas você é minha mãe, seu sangue corre por minhas veias e eu sei que dói da mesma forma em você. Eu não posso te dar um abraço agora, dizer que te amo, fingir que tudo está bem... porque não está. E você sabe disso. Eu estou bem assim. Eu fico bem quando esqueço dos meus problemas com você. A dor sempre está lá, você sabe como é, mas eu consigo camuflá-la. Eu consigo camuflá-la quando estou com meus amigos, quando estou na escola, ou até mesmo na delegacia... E não se apavore disso – completou assim quando viu meu lábio crispar-se – você perdeu muito da minha vida nesses anos todos, Rose. Eu apenas quero que saiba que eu não te odeio. Eu não seria capaz de sentir algo tão forte por você. Porque você nunca foi relevante na minha vida pra isso – e então doeu tanto em mim -. Eu só quero que entenda isso. Deixe-me. Eu sou nova ainda, mas eu tenho princípios. Aprendi muito mais comigo mesmo do que com você. Não quero que me peça desculpas. Elas não vão esconder nada, tapar nada, não vão acabar com nada... com a dor. Eu só quero dizer que sinto muito, muito.
Não agüentaria olhar em seus olhos nem sequer mais meio minuto. Puxei a bolsa pelo ombro, me levantei, acenei a cabeça em comprimento à amiguinha e saí dali.
Mas eu não desistiria... Não tão fácil.
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