Sinking Ship

17 Capítulo 15


Apesar de minha mente estar pulsando como uma bomba relógio a todo o momento, e apesar das lembranças passadas estarem à tona em meus sonhos, eu estava feliz. Estava feliz de uma forma que eu nunca imaginei estar.

Trazer Jo para morar comigo estava sendo totalmente diferente, e tamanhamente encantador a cada dia que passava. Era como se fôssemos velhas amigas, muito mais que mãe e filha.

Mas os dias iam passando, e eu ia percebendo, quando Jo não estava gargalhando ou sorrindo, que parte dela estava sozinha e nostálgica, e que ela continuava sentindo – e sentiria eternamente – falta daquela pessoinha em especial.

Eu podia a entender, ela estava sozinha, distanciada de toda a vida que teve, é como se tivesse mudando-se do céu para o inferno abruptamente.

E eu acabava ficando da mesma forma por ela.

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Chovia monstruosamente lá fora, e eu estava perdida em meio as lágrimas, relembrando Kath, nossas tardes felizes, Matt... E suas piadas sujas e estupidamente engraçadas, e seu jeitinho infantil e desengonçado... Robert, e suas drogas, suas loucuras, aquele com quem se cantava “Bert é um bom companheiro...”, e meu pai, e meus avós... E tudo que eu abandonava aos poucos, lentamente. Ia sentindo o coração pesar, a cada lágrima e lembrança.

E então eu percebi que estava pensando comigo mesma que as coisas vão, fogem de nós... Olhe para Kath. Foi aí que eu resolvi encarar a chuva e os trovões, eu encontraria Matt... Eu precisava de velhas palavras e bobagens amigas.

Bati na porta do quarto de minha mãe e falei pelo vão:

- Vou sair, depois eu volto...
- Vai aonde? – perguntou.

Não respondi e apanhei o guarda-chuva ao lado da porta, e saí correndo do apartamento, enquanto as lágrimas tornavam minha visão abafada e dolorida.

Esperei em frente ao prédio, mas a rua parecia deserta. Nunca vira tanta água cair do céu como aquele dia.

Mas... Onde estaria Matt? Ele continuaria lá, naquele Novo México... Ou ele voltaria pra casa? Ou ele desistira... Será que ainda estaria entre nós?

Pensar nisso me trouxe um novo aperto ao peito, que não passou ao relembrar algo engraçado, muito menos enquanto o sol aparecia aos poucos entre o céu, ainda pesado de nuvens escuras cheias d’água.

Resolvi, por fim, procurar Matt na casa dele. Apontei o dedo na rua, enquanto ia caminhando, esperando por um táxi. Dois minutos depois um senhor parava ao meu lado.

Entrei e bati a porta, despindo o capuz e olhando para o motorista, com ar carrancudo.

- Desculpe-me pelo banco – disse, apontando os bancos molhados.

Ele virou-se e me fitou, sorrindo em seguida.

- Não é nada, minha jovem.

Sorri fraquinho e atirei-me no banco, movendo-me para o lado e escorando a cabeça no vidro, observando a chuva cair lá fora.

- Problemas? – perguntou com um sorriso compreensivo, me fitando pelo retrovisor.
- Alguns. Tamanhos para ocupar o que resta de mim.
- Problemões... – disse, em vão, então continuou – Não me disse onde quer ir.
- Oh – me apoiei sobre os bancos – Estava contando?
- Desabafo grátis – ele deu um risinho, e eu não pude deixar de acompanhá-lo – Pois bem...?
- Travessa Todd MacFarlane, número 8504 – falei rápido o endereço anotado mentalmente.
- Não faço idéia de onde fique. Tem referências?
- Pode me deixar na Avenida...
- Indique-me o caminho, a levarei.
- Não é necessário...
- Ora, é claro que é. Sem delongas.

A rua era estreita e a casa de Matt, ao contrário da em que cresci, era pequena e fazia parte de um condomínio. A mãe costumava morar com ele, mas havia morrido à algum tempo, então a tia costumava aparecer de vez enquanto.

Lembro-me muito pouco de ter visitado-lhe, sempre convivemos juntos e agora me parecia que aproveitar, não tinha o feito. Apesar de seus costumes infames, Matt era um bom rapaz, e eu pretendia impedir que ele se envolvesse com coisas piores, como fizera meu pai e Robert.

Caminhei pela rua empoçada até a segunda casa à esquerda. Era de tijolo á vista escuro, e de portas simples e brancas – agora amareladas – e poucas janelas – como todas as outras ao longo da travessa. Havia uma sacadinha aberta, com cortinas brancas esvoaçando para fora, e se via um sofá xadrez velho e coisas espalhadas no chão. O alto barulho de televisão também podia ser ouvido.

Chovia pancadas e eu apertava-me contra o agasalho. Subi as poucas escadas que separavam à casa da calçada e procurei com os olhos a campainha, nada vi, então bati à porta.

Nenhum movimento, nenhuma batida de porta, sequer alguma aberta. Cogitei a idéia de estar dormindo, ou de ter ido a algum lugar, mas como chovia tamanhamente, acabei por descartar a idéia. Era certo de que andava por casa, a televisão transmitindo desenhos animados não se dava engano.

Sentei-me ao batente da porta, decidida a esperar, quando um Matt de cabelos escorridos, e calças folgadas, apareceu sem camisa à minha direita, surgindo de uma passagem que eu imaginei levar aos fundos da casa.

- JO!
- Você é louco? – o olhei, devia estar morrendo de hipotermia.

Corri em sua direção, então o abracei forte, quase cravando minhas unhas sobre suas costas nuas, sentindo a pele macia e fria em contato com as pontas de meus dedos. Passei-as carinhosamente sobre seus ombros, então o fitei. Eu estava chorando mais uma vez.

- Me desculpe por ter lhe deixado... Eu errei.
- Você fez o certo, estou irradiante de ter voltado. Como me encontrou aqui?
- Não me pergunte – sacudi a cabeça negativamente, mordendo os lábios – Mas você vai congelar. Ficou louco?
- Poupe-me dos detalhes, venha! — disse, pulando a grade da janela da cortina esvoaçante, puxando-me junto para dentro.

Senti instantaneamente o cheiro de mofo ao fitar o ambiente escurecido, e cocei o nariz, ele me olhou sorrindo, então falou:

- Um instante, já volto. Senta! – apontou o sofá.

Sentei no tapete fofo e fitei os papéis espalhados. Certidões e documentos velhos. Tava explicado o cheiro.

Embaixo da papelada vi uma ponta vermelha e a puxei. Curiosidade mata, Joanna. Era um disco de vinil antigo, havia um envelope amarelado e um bilhete da mesma cor pendurado a ele. Dizia algo como:

“Sei que vais gostar, deixo-te como maior tesouro, mas não mais do qual amor guardo por ti. De quem te amou, e apesar de distante sempre irá te amar

sua Mãe.”


Achei lindo e inspirador, então sorri. Havia uma dúzia de atestados de óbito sobre a mesinha, engoli em seco. Resolvi fitar a TV. Tom & Jerry?

- Perdão pelo desenho – Matt falou, carregando duas chícaras médias em uma mão e um moletom e cobertor na outra – Tome – estendeu-me o chá.
- Moço prendado – brinquei, sorrindo debochada.

Ele riu abobalhado, fitando-me com um sorriso no rosto e logo me cobriu com o cobertor, aconchegando-me sob ele.

- Não sou muito bom na cozinha, mas no chá...
- Você se garante – concluí após levar a xícara aos lábios e sorri – Como vai a vida? – continuei, observando seus olhos iluminarem-se.
- Bem... – ele falou um pouco perdido – Acho que bem. Digo, está tudo calmo, mas todo esse silêncio não me parece bom – tentou sorrir.
- E papai? – perguntei preocupada, pousando a xícara na mesinha.
- Não o vi mais. Talvez eu tenha fugido também, não sei... Mas...
- Você fugiu? – arregalei os olhos.

Suspirou e prosseguiu:

- Jo – estaquei ao mencionar meu nome, ele aproximou-se um pouco mais de mim. Nossos joelhos se tocavam e ele olhava fundamente em meus olhos – Acontecerem muitas coisas as quais você nem imagina.
- Como? – franzi o cenho.
- Eu não preciso lhe falar muito, no fundo você sabe. Só o que você, e imagino, sua mãe devem saber, agora, é que Moss está perdido. Ele se mantinha em pé por você, e pelas tentativas frustradas de ver sua mãe.
- Ele nunca, sequer, nos procurou, mas... Desculpas já não me convencem. Realmente...

- Seu pai acabou com nossas vidas tentando se aparar. – falou, levantando e circulando a sala – Nada é como antes, verões e San Francisco não existirão mais – uma lágrima desprendeu-se de seus olhos e rolou pela face pálida e de barba mal feita.
- Matt – olhei-o e senti meus olhos formigarem, instantaneamente.

Ele me olhou e virou as costas, passando as mãos pelos cabelos. Aquele não era o Matt que eu conheci. Não era o Matt bobalhão, com problemas mentais, não era...

- Você quer saber o que me trouxe aqui, não quer? – ele falou, ainda de costas, eu podia sentir sua voz embargada.
- Matt... – sussurrei chorosa, me aproximando.
- FOI VOCÊ! VOCÊ ME TROUXE AQUI! POR QUAL OUTRO MOTIVO EU VIRIA? Por isso que estou aqui – sua voz foi diminuindo e tornando-se um sussurro -, cuidando de uma casa e de uma vida a qual já não sustento mais!
- Matt – senti as lágrimas, as malditas lágrimas acumularem-se sobre minhas pálpebras e cerrei os olhos e as deixei cair lentamente – Me olha aqui... – disse, segurando seus braços.

Ele virou-se e fitou-me. Tentei sorri.

- Não brinca comigo... Nunca! – eu disse, sentindo as palavras queimarem-se em minha garganta.
- Jo, Eu... – sibilou olhando-me horrorizado.

Olhei-o no fundo dos olhos e atirei o cobertor no chão, virando-me e saindo correndo, enquanto ouvia-o gritar ao longe.

A chuva escorria pelo meu corpo enquanto eu o locomovia pesadamente, cheia de medos, traumas e dúvidas.

Jovem e depressiva.