Sinistro

3 Três repórter


Faz mais de uma hora que os policiais estão na casa do prefeito e até agora ninguém saiu. A imprensa já chegou em peso, mas todo mundo sabe o mesmo, ou seja, nada, apenas que o prefeito foi assassinado e que a cena lá dentro não é das mais bonitas. Do lado de fora do cerco policial, é grande a quantidade de pessoas, homens, mulheres, crianças, e mais gente chegando, daqui a pouco vai dar trabalho conter a multidão. Gosto de olhar os rostos, são vários sentimentos diferentes, tristeza, curiosidade, indiferença, excitação... Será que o assassino está entre eles? Provavelmente tem alguém da polícia se fazendo a mesma pergunta neste momento.

Em frente à casa, dentro do cerco policial, os jornalistas se reúnem em grupinhos, repórter com repórter, fotógrafo com fotógrafo, câmera com câmera, parece uma versão indiana da mídia, cada um na sua casta. Todos esperam ansiosos por notícias, mas as notícias, aparentemente, não estão ansiosas em aparecer. O céu, que mais cedo estava azul, agora está completamente fechado, não tarda cai um temporal daqueles. Aqui fora é tudo aberto, não tem nenhuma cobertura, a opção será tomar chuva ou tentar entrar na casa do prefeito. “Polícia deixa jornalistas na chuva” ficaria feio no jornal.

Meu celular toca “vou apertar, mas não vou acender agora”, ou seja, é meu editor, escolhi a música especialmente pra ele. O cara é careta, setentão, pai de oitenta filhos e trezentos netos, e tem os olhos constantemente vermelhos devido a um problema de lubrificação. Vive pra baixo e pra cima com um vidrinho de colírio Moura Brasil e é claro que, às escondidas, todo mundo faz piada disso. “E aí, já tem notícias?”, pergunta, ansioso. Respondo que não, que ainda estamos todos esperando a polícia sair da casa. “Ok, me mantenha informado”, retruca, ranzinza, e bate o telefone na minha cara. Foda-se.

Espero cinco minutos, no máximo, e uma movimentação na porta da casa chama a atenção dos jornalistas. Parece que a polícia finalmente está saindo. Corro para lá, tento chegar perto do delegado, mas sou praticamente atropelado pela equipe de filmagem de uma das tevês locais, por pouco não levo com a câmera na cabeça. Estou na profissão há mais de 15 anos e até hoje me impressiono com o desespero dos jornalistas durante as coberturas, parecem uma manada desembestada. A racionalidade desaparece enquanto todos procuram ficar o mais perto possível do delegado, que olha, com cara de pouquíssimos amigos, as dezenas de microfones, câmeras e gravadores.

Normalmente impecável, hoje o delegado tem o cabelo despenteado, as roupas amassadas, os sapatos sujos e olheiras do tamanho de uma moeda de um real. Dia difícil. Todos perguntam ao mesmo tempo, é evidente que ninguém entende nada, o delegado pede silêncio uma, duas, três vezes, depois perde a paciência e grita um “calem a boca, porra” a todo pulmão. O silêncio é imediato. Com a imprensa, o delegado é quase sempre diplomático, mas o fato é que ele odeia todos nós, jornalistas, e hoje não está em um de seus melhores dias. “Como vocês não têm educação, vou fazer uma declaração oficial e não responderei nenhuma pergunta”, rosna. Mais gritaria, protestos, outro “calem a boca, porra”, silêncio e finalmente o delegado começa a falar.

Ele é lacônico: “o prefeito foi assassinado a facadas, o corpo foi encontrado pela primeira-dama, envidaremos todos os esforços para prender o responsável por esse crime absurdo”. E vira de costas, caminhando em direção ao carro, sob forte protesto de todos os jornalistas presentes. Não disse nada que não soubéssemos, sobretudo sobre como alguém conseguiu matar o prefeito em plena residência oficial. Mas repórter que se preze sempre consegue informação, então vamos à luta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.