Sinhá Diva O/
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Capítulo 1
[Brasil, São Paulo, 1724]
Em uma rica fazenda de café, vivia um menino rico e mimado, chamado David Desrosiers. Sua pele era muito branca, ao contrario da pele de seus escravos, pretas, como seus cabelos. Seus olhos eram diferentes, coloridos, ao contrario da maioria dos olhos que o rondava, sempre castanhos ou pretos. Seus olhos eram penetrantes, bondosos, porém mandões.
— Báá, onde vosmecê está? – Perguntou David, dentro de sua tina, em pleno banho matinal. – a água já esta esfriando! Estou ficando com frio!
— Calma patrãozinho, já estou indo... – ouviu-se, vindo do andar de baixo. Poucos segundos depois uma velha, negra, adentrou aos aposentos de David.
— Que demora, Bah! – falou David, ficando em pé na tina e colocando as mãos na cintura.
— Vosmecê me discurpa patrãozinho, mas é que a Bah já esta ficando muito velha e lenta... daqui a pouco eu não vou estar mas ajudando vosmecê... Eu vou ficar imprestável...
— Que imprestável que nada, Bah! – David riu e Bah entregou uma toalha a ele – Agora vosmecê pode se retirar.
— Com licença, patrãozinho – Bah se retirou e David secou-se rapidamente, vestindo sua roupa.
Desceu as escadas em direção à sala de jantar onde seus pais deveriam estar esperando-o para tomar o café da manhã.
— Bom dia, filho – seu pai ergueu a cabeça do jornal que lia – Sente-se.
— Bom dia papai – David senta-se em frente sua mãe, que bufa.
— Filho, precisamos conversar – começa seu pai, sorrindo, enquanto sua mão fecha a cara – Bom, eu e sua mãe concordamos que a Bah está muito velha e que precisamos de outra pessoa para cuidar de você.
— Ah não, pai! – David levanta-se bruscamente da cadeira, fazendo-a cair – Eu quero a Bah e só a Bah! Não, não e não, não quero outro empregadinho.
— Quanto não, David – suspira sua mãe, olhando-o com desprezo – Seu pai me convenceu dessa idéia maluca e será isso mesmo. Pode ir escolhendo alguém para substituí-la!
— Não, eu já disse. – berrou mais alto enquanto Bah entrava no aposento – Bah, não me deixe! – ele corre até ela e a abraçou forte para que ela não o deixasse – Diga a eles que vosmecê vai continuar cuidando de mim!
— David, Bah já está velha e cansada – seu pai, com toda a paciência do mundo, explica-lhe o motivo milhões de vezes – Tememos que ela esteja fraca demais e possa prejudicar-se.
— Mas ela agüenta, pai! – David coloca as mãos na cintura e faz gestos estranhos (?) com as mãos, assustando as pessoas ali presentes – Eu não quero nem saber, eu só quero a Bah, só ela sabe cuidar de mim direitinho e blábláblá.
— David... – seu pai continua, pouco nervoso
— Já chega! – sua mão põe-se de pé, segurando em seu braço – Escolha imediatamente uma outra pessoa para cuidar de vosmecê David Phillippe Desrosiers, isso é uma ordem!
David se assusta com a atitude repentina da mãe e dá de ombros, soltando Bah que o beija delicadamente na bochecha e se retira, chorando.
— Olha o que vocês fizeram, a Bah estava chorando – os olhos dele começam a formigar de forma ligeira, e ele rapidamente seca as poucas lágrimas que escorrem – Se é assim tão importante para vosmecês, eu escolho outra pessoa.
Caminharam até o cafezal onde David, com toda sua feminilidade passou por todas as escravas até...
— Papai, eu quero esse. – ele apontou para um moreno alto e forte, que apesar de filho de escravos, era praticamente tão branco quanto David. Tinha traços bonitos, olhos pequenos e castanhos vivos e bochechas rosadas extremamente cativantes. O garoto foi até ele, medindo-o de cima a baixo e sorrindo inocentemente.
— Mas filho, vosmecê não prefere uma moça jovem que possa cuidar de você? – perguntou seu pai, indo em direção aos dois rapazes – Como é seu nome, escravo?
— Pierre – sussurrou, quase que inaudível.
— Olha papai, ele tem um nome bonito – Pierre sorriu, fazendo David derreter por dentro – Vamos, ele pode ser agora meu empregadinho e pode muito bem cuidar de mim.
— Filho, você está certo disso? – suspirou pesadamente, enquanto a mãe de David lançava-lhe um olhar ameaçador.
— Sim papai, sim! – ele pulou afeminadamente e agarrou Pierre pelo pescoço, apertando- contra si – Vamos, temos muito que fazer.
Nisso ele deixou seus pais no cafezal, enquanto ia com Pierre até seu quarto para mostrar-lhe onde, a partir de agora, ele trabalharia.
— Esse é meu armário, essa é minha penteadeira e essa... – mostrou um enorme colchão, ao lado de uma imensa cama – é sua nova cama.
Pierre deitou no colchão, que, Apesar de estar no chão era muito macia e confortável.
— Eu até queria providenciar uma cama pra vosmecê, mas você é um escravo, acima de tudo.
— E qual o problema? – Pierre encarou-o pensativo, se encolhendo no colchão.
— O problema é que vosmecê é um escravo! – jogou-se na cama, cruzando as pernas e pousando a mão no queixo – Mas então, eu preciso te conhecer, pois vosmecê agora é meu empregadinho.
— O que quer saber sobre mim? – o empregadinho Pierre sentou-se no colchão no chão virado para David com um sorrisinho.
— Quem são seus pais? – David sorria largamente de uma forma pura – Quantos anos você tem? Onde você nasceu? Como é seu nome inteiro?
— Acalme-se! – Pierre, apesar de tudo, tinha um vocabulário muito cheio. Ele ainda sorria de forma pavorosa – Minha mãe é Louise, uma escrava do cafezal. Meu pai eu nunca ouvi falar dele e também não me interessa – Nessa hora David soltou um gritinho agudo, igual ao de uma menininha e Pierre riu – Eu tenho 16 anos e nasci aqui no Brasil mesmo.
— Vosmecê não sabe nada sobre seu pai? – ele levantou-se e sentou-se ao lado de Pierre, que abaixara a cabeça – Vosmecê não conhece ele?
— Minha mãe nunca se preocupou em me dizer nada sobre meu pai – suspirou pesadamente, agora fitando o nada – Mas me diga David, vosmecê tem quantos anos?
— Eu? – ele riu, vibrando sobre o colchão – Tenho 15. Mas vosmecê ainda não me disse qual é seu nome completo.
— É Pierre Charles – ele sorriu novamente e David fez o mesmo – Vosmecê costuma tratar seus empregados tão bem assim?
— Geralmente não. – ele pôs a mão no queixo, levemente pensativo – Mas como vosmecê tem praticamente a mesma idade que a minha e é bonito – devemos citar que, nesse momento, as bochechas já rosadas de Pierre saltaram para um tom extremamente vermelho – E que eu gostei de você porque vosmecê não é igual aos outros escravos, eu pretendo te tratar bem.
— Isso quer dizer que somos amigos? – o sorriso de David se alargou ligeiramente – Quero dizer, vosmecê precisa de mais amigos?
— Eu não tenho amigos – David se aproximou, colocando a cabeça nos ombros largos e fortes de Pierre – Meus amigos acham que eu sou mandão e afeminado. – ele fez bico e Pierre riu abertamente – O que foi? Vosmecê também me acha mandão e afeminado?
— De forma alguma. – ainda ria do que David havia falado – Eu te acho pequeno e frágil, mas não afeminado. E comigo vosmecê até agora não foi nem um pouco mandão.
— Estais tomando liberdades demais comigo, escravo. – Pierre o olhou assustado, se afastando – Own Pierre, eu estou apenas brincando com vosmecê.
Mas agora Pierre não tornou a se aproximar, pois Bah havia acabado de entrar com roupas e toalhas em mãos. David foi saltitante (?) até ela, pegando tudo que ocupava as mãos da negra e a abraçando.
— Bah, vosmecê voltou! – choramingou no pescoço da mais velha – Vai cuidar de mim e do Pierre ainda?
— Não, não patrãozinho, eu agora cuido apenas do seu quarto. – David largou-se sobre o colchão de Pierre, ainda chateado – Mas eu prometo visitar vosmecês sempre que puder.
Ele apenas sorriu e pediu que ela se retira, enquanto Pierre se encarregava de guardar as toalhas e roupas no armário que David havia indicado.
— Pode deixar ai, depois vosmecê guarda. – ele indicou uma poltrona e sentou-se na cama, espalmando-se sobre ela – O que vosmecê gostaria de fazer?
— Não deveria ser eu a fazer essa pergunta? – Pierre olhou-o curioso e ao mesmo tempo, assustado – Quero dizer, eu pergunto o que o patrão deseja fazer e no caso, vosmecê é o patrão.
— Mas eu não quero ser um patrão mandão. – ele riu e saltitou até Pierre – Vamos passear pelo jardim.
Foram até o jardim, passeando pelo cafezal, a senzala e todos os locais que Pierre conhecia muito bem. Eles riram, se divertiram e Pierre poderia dizer que nunca havia se divertido tanto em todos esses tempos de escravidão que ele fora submetido.
— Obrigada por trazer alegria ao meu mundo, patrão. – David sorriu e pegou nas mãos de Pierre ao ouvir Bah chamando-os para o almoço.
— Pode me chamar de David, Pie. – o maior sorriu ao ouvi-lo chamado daquela forma, algo raro em seu cotidiano, afinal, todos o chamavam apenas de ‘escravo’ – Vamos almoçar.
Ao chegar na sala de jantar, o queixo de Pierre caiu. Ele nunca tinha visto TANTA comida na sua frente. Milho, frango assado, frango cozido, carne, verdura... E 3 tipos diferentes de bolo. Tapioca, fubá e bolo de ovos.
- O que vosmecê tem, Pierre? – Falou David, de um jeito doce, fechando a boca de Pierre.
- Eu... Nunca vi tanta comida em minha vida! Eu só comia os restos que vosmecês deixavam pra nós escravos, era feijoada todo dia.
David deu um de seus melhores e doces sorrisos e falou algo sobre “os escravos não tem vida e blá-blá-blá”. Sinceramente, Pierre estava hipnotizado pelo cheiro delicioso da comida e nem ligava para o que David dizia.
Verduras...
— Pierre...?
Milho...
— Pierre...?
Frango cozido...
— PIERRE, ACORDA!
Chicotada!
— AAAU DAVID! Isso doeu! – Falou Pierre, massageando seu braço, onde levara uma chicotada. O local estava começando a ficar vermelho.
— Era pra doer mesmo. Eu posso te dar algumas liberdades, escravo, mas se tem uma coisa que eu ODEIO é que não prestem atenção em mim.
Pude ver a cara de espanto de Pierre com minha atitude. Ele fica lindo assim, e me da vontade de... DAVID DESROSIERS, ele é um escravo e te desobedeceu! Merece um castigo!
— Olha aqui escravo... – David levantou ameaçadoramente o queixo de Pierre, que, por
instinto, sentou em uma cadeira – Você pode ser lindo e simpático. Mas não se esqueça que o patrão aqui sou eu. E vosmecê terá que obedecer algumas regras. E a 1ª delas é NUNCA – nessa parte ele gritou BEM alto — NUNCA me deixe falando sozinho. Você SEMPRE – Pierre se assustou com a cara de mau que seu “patrão” fez – Terá que me ouvir. Entendeu?
— Sim, patrão... – Respondeu Pierre, com um pouco de medo. “O que será que se esconde detrás daquela carapaça frágil e afeminada?” Foi o que pensou.
— Ótimo. E não me chame de patrão **
— Desculpas, David.
— Estás perdoado. Agora vá para cozinha comer com a Bah, vosmecê está muito gordo, não precisa comer de tanta fartura, não hoje.
David, apesar daquela falsa pose de machão, ficou com pena de Pierre. Aquela carinha de decepção... Pelo visto ele queria MESMO comer.
— Problema, quem mandou não prestar atenção em mim? Você não deveria ficar com pena de um escravo, Desrosiers. Ele é SÓ um escravo. – Falou David, para o vento, a caminho do seu quarto, depois de ter almoçado.
— Mas ele é tão bonito e...
— O que importa, é só um escravo!
— Mas você gosta dele...
— Ahh, vá te catar, consciência.
Levei um tempo conversando comigo mesmo sobre os dotes do meu novo “empregadinho”, até que ele chega, ofegante, vermelho e lambuzado. Lógico que eu pensei que ele estava... bom...
— Desculpa a demora, David.
— O que significa isso, Pierre?
— Nada não patrãozinho... Eu, depois que comi, fui até o jardim pra pegar uma coisa e entregar isso pra vosmecê...
Nisso Pierre me estende uma linda rosa. Pude ver um pouco de sangue em seus dedos.
— Pierre, vosmecê está ferido!
— Não é nada, foi só o espinho da rosa que me furou e...
Pierre ficou vermelho e se calou, pois David começara a chupar seu dedo, pra estancar o sangue.
— Pronto, deve parar de sangrar.
— Muito... Obrigado... – Suas bochechas estavam pra lá de vermelhas.
Passaram a tarde conversando, e nisso caiu a Noite. Jantaram e resolveram ir dormir. Pierre se segurou ao ver seu patrão se deitar, só de ceroulas. Apagou a vela e ficou observando o menor dormir. David pensava que estaria seguro, mas mal sabia ele que dormiria sozinho.
Fale com o autor