Singularidade
1 Dilatação.
O clima, nublado, típico da estação cobria a cidade. Os ventos balançavam a vegetação, enquanto trabalhava junto aos gritos das crianças na praça. Crianças estas, que aproveitavam seu futebol, no singelo campo de areia; mas que não faziam ideia do quão perto estavam do maior avanço humano.
Ali, atrás do muro que separava a praça de um campo qualquer, um silêncio ecoou. A natureza pesou; e no meio do nada, eis que um ponto surge. Os pássaros moviam-se tão devagar quanto uma tartaruga, as folhas, pareciam nunca tocarem o solo, e isto aumentou, de forma, imensurável, até que por fim, o tempo cessou.
O que antes era um pequeno ponto no meio do nada, agora começa a crescer deliberadamente até dar lugar ao que agora é uma esfera negra, mas que logo se achata, e como uma cortina, abre-se, mostrando a faceta de um homem. Num rápido vislumbre, o homem de trajes estranhos, se vê ali sozinho. Ele leva o dedo ao centro do rosto, arrumando seus óculos e neste mesmo momento, o tempo volta ao normal.
O que parecia uma fenda, não mais ali estava, e o homem agora parecia um pouco confuso. Puxou do bolso algo que seria um relógio, ou algo parecido. Verificou a data e horário e então, voltou seu olhar ao céu, dando uma profunda respirada no ambiente. Passou algum tempo em seus devaneios até ter a atenção chamada por alguns jovens, que lhe perguntaram se o mesmo tinha um isqueiro.
Nosso protagonista lançou-lhes um olhar de nostalgia, seguido de um breve sorriso involuntário, mas rapidamente moveu a cabeça, como que diz não ter nada, e dali, pôs-se a caminhar.
Era inevitável o olhar fascinado pelas ruas em que passava. Aquilo lhe trazia tantas e tantas lembranças. O estranho homem que aparentemente havia surgido do nada, caminhava feito um turista pelas ruas da cidade, mas ao mesmo tempo, era como se já tivesse um destino. Caminhou cerca de 20 minutos, e todas as minúcias daquele lugar, lhe embrulhavam o estômago, até que parou num bar de esquina.
Ele analisava o lugar atentamente, enquanto em sua cabeça, desconstruía as pessoas ao redor. Verificou o horário no relógio da parede, eis que os ponteiros marcavam quase seis horas da tarde.
— O que deseja senhor? Perguntou o dono do estabelecimento, enquanto olhava para as estranhas vestes de nosso personagem.
Distraído, ele não ouviu.
— Senhor? Persistiu o velho barrigudo.
— Ah, perdão! Desculpou-se. Voltando sua atenção ao moço que quebrava sua concentração. – Traga-me duas garrafas pequenas de chá.
O homem olhava atentamente através da janela, para o outro lado da rua, onde somente havia uma parada de ônibus. Pegou os chás e sentou-se nas mesas da parte de fora, onde ficou a observar o lugar.
Não demorou até que tivesse sua atenção atraída para um ônibus, que lotado, parou. Lançou um olhar de extrema expectativa, como se tivesse jogado na loteria, e quando o ônibus finalmente partiu, ali estavam; um pequeno grupo de pessoas, aguardando por atravessar a rua.
Olhou rapidamente para o céu alaranjado, e sabia que era a hora.
Dois jovens atravessaram a rua, parando na esquina para se despedir. Um garoto, aparentemente ingênuo, que visivelmente era apaixonado pela jovem, que presa em seus braços, se desconstruía aos olhos daquele estranho homem.
Aquele abraço durou cerca de três minutos, aos quais pareceu uma eternidade. Uma dilatação do tempo.
Ele adiantou o passo lentamente, enquanto puxou de um de seus bolsos uma chave. Tentando manter-se discreto, lançava rápidos olhares para trás, onde, num destes, viu o jovem ingênuo se aproximando. Apressado, ambos esbarraram-se e o jovem ligeiramente desculpou-se, enquanto ajustava os fones ao ouvido.
— Hey! Bradou o homem. Abaixando-se ao chão. – Deixou cair esta chave.
O garoto, agradecendo ao gesto do homem, pegou a chave, reconhecendo-a como sua.
— Obrigado. Disse o Jovem. Já voltando a caminhar.
— Aproveitando, por acaso você sabe onde fica o Centro de eventos da federação das indústrias? O homem perguntou.
O jovem mandou o homem lhe seguir, pois de fato, conhecia o caminho. O silêncio se fez, e por um bom tempo ficou.
— Quer um chá? O homem puxou uma das garrafas de sua bolsa. – Aliás, esqueci-me de me apresentar, me chamo... O homem hesitou por um breve momento. – Stuart, me chamo Stuart. Disse o homem, oferecendo o chá com a mão.
— Sou John. Respondeu o jovem, guardando o chá em sua mochila, e mostrando-se um pouco desconfiado.
— Novamente, obrigado por mostrar-me o caminho. Haverá uma palestra para professores, e creio estar atrasado.
— Você é professor? Perguntou John, enquanto fuçava em seu celular.
— Sim, na verdade, apenas nos períodos vagos. Trabalho num laboratório na Alemanha. Disse o homem, gabando-se um pouco.
John mostrou-se surpreso, e rendeu-se ao assunto.
A caminhada levou cerca de quinze minutos, e foi o suficiente para eles se darem bem. Era como se Stuart conhecesse John. O garoto, instruiu Stuart a seguir por uma rua, instrução a qual o homem se fez de entendido.
-Algumas horas depois-
Stuart, sentado a janela de seu quarto – alugado — preenchia o vazio de sua existência com uma magnífica obra de Chopin. Enquanto aproveitava da refeição da época, que lhe trazia gostos nostálgicos à boca. Observava também uma papelada que havia trazido consigo. Eram equações matemáticas, algumas conhecidas, outras, inéditas. Ele rabiscava datas, e parecia se deprimir com isso. O homem desdenhou ali até pegar no sono.
— Hey, Doutor Grizzlehain! O senhor pediu que lhe acordasse!
Um homem batia na porta. Era funcionário do Hotel em que Stuart estava hospedado. Tendo seu sono interrompido, Stuart rapidamente levantou-se, espantado, e pôs-se de pé, frente ao espelho, onde demorou a se arrumar.
Enquanto isto, no outro lado da cidade, John, lentamente saboreava a refeição de seu almoço, sozinho. O garoto, ao olhar para o relógio, se viu atrasado, e rapidamente saiu para a escola.
John já conhecia a escola, estudava lá fazia já um ano. No caminho, roubou uma flor de um pátio qualquer, era uma rosa, um pouco mal cuidada, mas ainda, linda. Para a surpresa do jovem, ele se depara com uma figura um tanto quanto familiar. Era Stuart, que seguia o mesmo caminho até a escola.
— John, não é? Perguntou Stuart, falseando um semblante surpreso.
— Oi! Disse o garoto, um pouco abismado.
Eles não demoraram a chegar, e John tomou a frente indo aos braços da garota a qual era visivelmente apaixonado. Stuart, por sua vez, ficou um pouco atrás, enquanto estampava em seu rosto, saudade. O garoto entregou a rosa para sua menina, olhando-a no fundo dos olhos.
— Bem, este é Stuart. Conheci-o outro dia, e adivinhe? Ele é o novo professor de física que faltava. Disse John, quando nem ele ainda havia absorvido a notícia.
— É um prazer, Lucy. Respondeu Stuart, friamente.
— Como sabe o meu nome? Perguntou a garota Lucy, mostrando-se um pouco assustada.
Rapidamente, o agora professor, viu que algo escapou.
— Ah, sim. Como novo professor, estou a par de alguns alunos. Já estive aqui nesta escola. Talvez não lembrem. Stuart agilmente trocou de assunto, e despediu-se, entrando na escola.
— Um pouco estranho ele, não acha? Disse Lucy.
O garoto apenas concordou, jogando seu rosto aos cabelos de Lucy, enquanto inalava ao que ao seu nariz era, um sublime perfume. Através das vidraças da janela, Stuart observava aquela cena, sentindo um frio na barriga, até que, algo em seu bolso vibrou:
— Bep! Bep! Doutor? Disse uma voz robótica.
Algo semelhante a um celular agora estava nas mãos de Stuart, que por sua vez, agora vislumbrava um robô em seu aparelho.
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