Singelas Ameaças
6 Reflexos
Notas iniciais
Seu reflexo no grande espelho de uma das salas de ensaio do clube, hipnotizava. Com sua perfeita aparência, short preto de um tecido macio e que marcava seu quadril, uma camiseta larga também preta que cobria quase o short inteiro e um tênis esporte preto e branco. Mesmo simples, ela é arrebatadora.
Assim que chegamos ao clube, que estava fechado por ser cedo demais, ambas se retiraram para o camarim, para arrumar para o ensaio, deixando a mim e Dinah sozinhas. Eu poderia até tocar a felicidade de Dinah.
— Ok, ela será minha. Só minha. Eu quero. — Minha risada ecoava na sala de ensaio, repleta de espelhos. O olhar em Dinah era de sonho misturado com determinação, e eu tenho certeza que realmente, ela teria o que tanto almejava. Preciso apenas confirmar se Normani gosta mesmo dela, pois essa irmandade que elas tanto me excluem, logo irá ter uma líder.
— Vai com calma, DJ. Deixa rolar, lembra?! — As meninas chegaram rindo, Normani com um collant branco e um shorts vermelho, combinando com um tênis esportivo. Junto as duas, encontrava-se aquela que todas chamavam de Allycat, a quem Lauren disse ser muito próxima, mesmo sendo subordinada, porque Ally é a gerente do clube.
— Prazer rever vocês, meninas. Vão ficar para festa?! — A mesma voz empolgada combinava perfeitamente com sua imagem. Pequenina, roupas casuais e feição bem tranquila.
— Ah, vamos apenas ver o ensaio... — Apesar de que não seria má ideia ter Lauren rebolando pra mim de novo.
— Ah, qual é, Mila?! Vamos ficar, sim! — Eu já sabia que Dinah iria protestar, pois adora uma farra. Ainda mais agora que tá caidinha pela Mani.
— Dinah, a Sofi. Daqui meia hora preciso buscar ela no balé. — Dinah revirou os olhos e concordou, pois eu era sua carona pra casa. Apesar que não seria mesmo ruim ficar com uma Lauren me olhando de cima a baixo.
— Quem sabe na quarta vocês não possam vir?! Teremos um show especial. — Logo num dia de semana.
— Bom, é que... temos aula nesse dia. — Informou uma Dinah muito chorosa, que logo foi amparada pelas mãos de Mani em suas costas. Elas realmente fazem um casal muito bonito.
— Podemos fazer um especial no sábado, né, Allycat?! — A proposta surgiu de Lauren, que ganhou um aceno positivo de Dinah e com certeza eu disse sim. Parece que Ally gostava de ajudar suas amigas, pois aceitou a proposta e se retirou, dizendo que iria mudar a grade da semana de performances.
— Então, você fazem show todos os dias?! — Perguntei a Normani, recebendo um aceno de cabeça como resposta e um sorriso malicioso lançado a Lauren.
— Que tal mostrar a ela o porque abrimos todos os dias, Laur?! — Uma troca de olhares e eu já sabia que elas comunicavam-se com o olhar. Eram amigas de longa data e claro, eu já estava ciente de que viria mais provocações.
Assim que se postou em frente ao espelho e ajeitou o cabelo, a música começou. Não sei por onde veio pois a imagem a frente me hipnotizava. Lauren começou com passos simples, sempre acompanhados por reboladas e mexidas no cabelo. Eu não reconhecia a melodia que tocava, pois era apenas uma batida suave com um ritmo acelerado.
Por ter uma irmã que é apaixonada por balé, reconheço alguns passos. E Lauren não dançava apenas por dançar, fazia realmente um show. Passos simples, passos complexos, passos que eu não fazia ideia de que ela saberia fazer, pelo estilo de dança que elas costumam fazer. Foi quando mudou a melodia para música clássica. Mozart misturado com uma batida de hip hop. A música Sonata, se não me engano.
Sua postura era impecável! A fisionomia combinava com todos os movimentos, mesmo aqueles que eu já tanto conhecia por Sofi fazer. Lauren também dançava balé e quase certeza que ela também sabia jazz clássico. Eu não imaginava que uma dançarina de clube saberia realmente a arte da dança, mas percebi que para todas elas, não era apenas dança. Era arte, era sua vida!
Em tal momento de contemplação de seu reflexo e do corpo perfeito que movia-se graciosamente, percebi seu olhar em mim. Apavorei-me quando senti suas mãos nas minhas, me puxando para o centro da sala, em frente ao espelho. Não vi pessoas ao redor, não vi o espelho me encarando, não ouvi mais nenhum som a não ser aquela melodia clássica, com uma leve batida remixada. Seu corpo me embalou num abraço, segurando firmemente minha cintura.
— Você sabe dançar?! — Sua voz branda cantou em meu ouvido. Não respondi, apenas movi meu corpo para longe do seu o suficiente para encarar aquela imensidão verde que consumia todo meu ar. Fiz alguns movimentos básicos que a caçula de casa me ensinou e outros que lembrei quando eu mesma fazia balé. Suas mãos foram para meu quadril, acompanhando o movimento deles e reproduzindo no próprio corpo. A música acabou em uma nota baixa, e mesmo assim ela não parou de mover seu corpo, parando atrás de mim, com uma das mãos em minha nuca e a outra no meu baixo ventre, fazendo o calor dos nossos corpos chocarem-se e criarem uma bolha ao nosso redor. Uma bolha quente que fez meu corpo acompanhar seu movimento rápido e assim, ficar exatamente na altura de seu pescoço convidativo.
— Eu não danço, Lauren. — E como ponto final, meus lábios atingiram seu pescoço, sentindo a sua veia pulsar no ritmo do seu coração e mesmo não querendo, um sorriso atingiu meu rosto quando os pelos daquela que já pertence aos meus pensamentos.
— Okay... uau. — Não sai de minha posição confortável junto ao seu corpo, apenas mirei Dinah, que estava em uma posição bem relaxa, mesmo que ainda fosse em pé, junto a Normani que encontrava-se agarrada ao seu braço direito, ambas com as bocas abertas. Acho que fizemos mesmo um pequeno e íntimo show.
— Você poderia investir no seu potencial na dança. Tem... — Lauren quase sussurrava, apenas para que eu ouvisse. Suas mãos encontravam-se por cima de minha lombar e ela me olhava intensamente. Quase como se fizesse sexo comigo apenas com os olhos. — ... muito talento. Muito mesmo.
— Elas estão se comendo com os olhos, Mani. Isso devia ser proibido! — Normani apenas riu quando DJ quase caiu tentando se equilibrar em apenas uma das pernas, enquanto tapava os olhos teatralmente.
— Deixa de ser chata, babe. Vamos, tô com sede. — Mani piscou para gente, enquanto saia arrastando uma Dinah resmungona.
— Sabe, Camila. Eu gosto de você. — A sinceridade na sua voz foi tão grande, que minha boca se abriu involuntariamente. Seu sorriso era tamanho que fazia com que seus olhos diminuíssem, fazendo assim com que minha boca imitasse a dela.
— É, Lauren. Parece que gostamos uma da outra, então. — Inesperadamente seu corpo apertou o meu em um apertado e quente abraço. Foi nesse abraço que percebi que eu realmente gostaria de descobrir cada vez mais coisas sobre essa menina mulher, que pode encantar sendo adorável ou excitar sendo sensual.
— Eu sei que tem uma rotina e tudo mais, mas... — Suas bochechas começavam a corar e ela desviou o olhar, brincando com a minha camiseta. — ... será que poderíamos sair amanhã?! Pela manhã, talvez...
Meu corpo gritava sim, entretanto, minha mente lembrou que tinha que ir para o trabalho mais cedo pela segunda-feira. Minha "chefe" apesar de bacana para uma chefe, ainda sim era exigente.
— Eu gostaria muito, Lauren, mas amanhã é segunda e minha chefe exige chegar 20 minutos mais cedo na segunda. — Pude ver explícito em seu rosto a decepção e aquilo, por mais brando que fosse, me machucou também. Nunca vi em seu rosto um olhar triste, apesar de conhecê-la a pouquíssimo tempo. — Mas sabe, poderíamos amanhã a tarde, antes de ir para a faculdade. Quem sabe comer alguma coisa...
— Seria brilhante, Camila. Eu me apresentaria muito melhor também. — Seu sorriso aquecera meu corpo, fazendo com que me aconchegasse novamente perto do seu pescoço, sentindo seu aroma cítrico de novo. Suas mãos começaram a desenhar círculos em minhas costas, por debaixo da camisa, fazendo com que me arrepiasse inteira. Ela percebeu e soltou uma risada abafada, beijando em seguida meu pescoço. — Você precisa sair agora para buscar sua irmã?!
— 10 minutos. — E meu corpo agiu sozinho. Meus braços envolveram seu pescoço com muita intimidade, enquanto o aperto em volta de minha cintura ficava mais forte. Nossos lábios se conectaram suavemente, fazendo com que ambas ofegassem. Seu beijo era lento e altivo, fazia com que meu corpo respondesse de uma forma que eu nunca havia experimentado antes.
Lauren foi me guiando até encostar no espelho gelado, fazendo meu corpo arrepiar ainda mais, deixando escapar um breve gemido pela minha boca. Suas mãos subiram levemente pelas minhas costas, deixando vários suspiros pularem da minha boca para ecoar apenas em seu ouvido. Minhas mãos apertavam seu ombro e sua nuca, a fazendo gemer baixinho também.
— Lauren... — Meus suspiros pareciam não querem mais parar de sair entre meus dentes, que vez ou outra, mordiam a orelha quente da morena. — Lauren, acho... acho melhor eu ir.
Deixando meu corpo ainda preso entre o espelho e seu corpo quente, apertou minha cintura, olhando profundamente em meus olhos. Depositou vários e incontáveis beijos curtos em meus lábios que, provavelmente, encontravam-se inchados.
Conseguia sentir, indescritivelmente, seu carinho. Em tão pouquíssimo tempo eu realmente estava me encantando ou até deixando-me encantar. Claro que havia medo, mas lá no fundo, pois a descrença sempre irá existir. Porém... não conseguia pensar simplesmente em nada desde que a conheci. Preciso de mais tempo com ela. Preciso conhecer tudo.
— Camz, de onde você veio?! — Claro, retórica. Mas me fez rir, principalmente pelo apelido inusitado, que a deixou corada. Parece que sou para ela, o que ela é para mim. Algo irreal, que chegou do nada, fazendo um escândalo no coração e na alma.
— Me pergunto a mesma coisa, Lolo.
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