Singelas Ameaças
13 Mesmo que seja Perigoso
Notas iniciais
Point of View – Lauren
A dor consumia todos meus pensamentos. Meu corpo, assim que o senti, latejava. Abri os olhos com dificuldade e não fazia ideia de onde estava, mas sabia que era um casa arrumada. Deitada numa cama com lençóis azuis, olhei em volta e apenas reparei na cruz pregada na parede, que de algum jeito parecia me encarar... Parecia expor meus pecados e fazer com que entendesse que se eu estava ali, era apenas o que tinha feito da minha vida.
Tirando esses pensamentos da cabeça, reparei melhor no quarto. Arrumado, perfeitamente em harmonia com as cores, cuidadosamente limpo. Alguns móveis rústicos, bem antigos, porém, bem conservados. A janela, fechada. Havia pouca claridade no quarto, porém, reparei na luz acesa. Luz amarela, dando ao ambiente um tom ainda mais sombrio.
Ouvi passos perto da porta branca e em seguida, Dio apareceu. Sorrio sarcasticamente pra mim, bufando e fechando a porta. Andou pesadamente até a janela e abriu com as duas mãos, fazendo perceber que já era dia. Eu não fazia ideia do tempo em que estive ali, desacordada.
— O que vocês fizeram? — Minha voz saiu rouca por ter acordado agora e claro, admito, medo. Estava com medo do que ele foi mandado fazer. Dio era um capanga, apenas mais um. Mas não fazia ideia de que trabalhava para "os dois lados".
— Você realmente tem sorte, Michelle. Eles trabalham juntos! — Sua gargalhada escandalosa ecoou em meus ouvidos. Demorei a entender o que ele queria dizer e ele continuava rindo, provavelmente por saber muito mais do que eu.
— Então o chefe sabe que devo? — Ele soltou mais uma risada, mas dessa vez foi uma risada forçada, quase cansada.
— Ele sempre soube de tudo, Michelle. Você que é muito idiota pra perceber! Eu disse que precisava falar contigo, tá bem? — Passando a mão nervosamente pelo cabelo bagunçado, suspirou cansado e se recostou no móvel escuro que estava de frente pra cama, embaixo do crucifixo. — Eu tentei avisar.
Um estalou ecoou em minha cabeça. Ele está coberto de razão! Eu fui muito idiota.
— Você... Mas Dionísio, você... — Ele riu mais uma vez, caminhando até a cama. Suspirou e sentou de frente pra mim, tirou do bolso meu celular. Colocou o aparelho em minhas mãos e piscou um dos olhos escuros.
— Avise suas amigas, você vai precisar de ajuda. Eu preciso fazer o que eles mandam, Michelle, mas... Eu não quero ter que te machucar. — Suas mãos frias apertaram as minhas, fazendo com que minha cabeça pesasse.
— O que tá acontecendo? O que eles vão precisar fazer? — Meu desespero era nítido, porém, minha voz falhava de tão baixa. Não queria que Dio se encrencasse em apenas tentar me ajudar. — É o Théo, né? Veio me cobrar os cliente que ele não conseguiu salvar sem mim?!
— Você é muito convencida, Lauren Michelle, mas... Sim. — Soltamos risadas baixas e olhei nos olhos escuros, que pareciam cansados. Evitava reparar nos capangas dos meus chefes, tanto quando ainda prestava alguns serviços ao Théo, o traficante que quase fodeu minha vida quanto meu atual chefe, Carol. Não fazia ideia se era homem, mulher, traficante, cafetão ou qualquer coisa do tipo... Sabia apenas o nome do dono do clube, pra quem Ally era como uma filha.
Eu não sabia a história de Allyson completa, até porque, ela sempre foi mais gerente do que amiga, realmente. Ela é companheira e podemos contar com ela pra nos proteger, mas... nós duas somos fechadas. Mesmo quando passei uns dias em seu próprio apartamento, evitávamos falar em assuntos muito pessoais. Somos reclusas, fechadas. Tanto uma para com a outra, tanto para outras pessoas. Normani foi minha primeira amiga, de verdade. Depois, quando conheci Dinah, vi como elas se olhavam e se tocavam... mesmo um simples olhar, denuncia tudo. Até que eu entendi o porque com Camila.
— Eu vou descer e dizer que você ainda está dormindo, ok?! Se estiver com fome, tem umas guloseimas naquela cabeceira. — Levando com sua pose de macho alfa, foi até a porta e parou mais uma vez, encarando minhas mãos. — Liga pra Ally. Ela pode te ajudar, mas... eu vou apenas tentar facilitar pra você sair, ok? Posso perder muito mais que meu emprego de capanga duplo, Michelle. Vê se não fode, tá?
Acenei com a cabeça, já desbloqueando meu celular. Ouvi a porta sendo fechada e logo olhei para a madeira branca. Eu estava muito fodida dessa vez e Camila deve estar surtando... Merda!
—--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Point of View – Camila
— Tá mas e se ela estiver sem créditos ou se o celular dela caiu na água ou algo assim?! — Dinah começou a me retrucar quando comentei que estava preocupada com Lauren, pois a mesma disse que me responderia assim que chegasse em casa e já é de manhã!
— Dinah, você sabe que é muito improvável. Alguma delas fariam contato com a Lauren! Nem a Mani sabe onde ela tá! — Normani acordou Dinah ligando para o telefone fixo da nossa casa. Queria ajudar pra alguém alugar o loft logo e poder passar mais tempo com minha amiga, e quando perguntei sobre Lauren, a mesma afirmou não saber dela até ontem a tarde, quando ainda estava comigo no parque.
— Olha, vamos fazer o seguinte? Você vai trabalhar e como hoje é meu dia de folga no estágio eu cuido do Joker e tento achar a Lauren, ok? Vou tentar ligar pra Ally... — Dinah é a melhor amiga que alguém poderia ter! Apenas não digo isso em voz alta muitas vezes, pois ela é convencida.
— Tá, mas olha, precisa me prometer que assim que tiver contato com ela ou alguém que saiba dela, me liga, ok? — Ela riu do meu desespero e escutei o som da risada da Sofi, na sala. Lembrei que ainda nem tinha tomado café e precisaria levar Sofi na escola. — Vai se arrumar, Sofia! A gente já tá atrasada.
— Corrigindo, você está atrasada, eu já estou pronta. — Engasguei com o café quando ela chegou na cozinha, carregando Joker no colo. Uniforme passado e limpo, cabelo escovado em um rabo de cavalo alto e uma leve maquiagem no rosto, no qual apenas identifiquei pelo batom escuro.
— Merda, vai indo pro carro. — Rindo, pegou a chave do carro das minhas mãos e deixou Joker no colo de Dinah, dando um beijo estralado na bochecha da mesma. — DJ, eu coloquei a papinha de carne pro Joker de manhã, quando acordei e já levei ele pra correr comigo, tá? Quando tiver notícia da Lauren, me liga. — Largando um pedaço de bolo pela metade no prato em cima do balcão, peguei minha bolsa e meu lenço de cetim, saindo correndo em direção da porta.
Acostumei a usar salto alto assim que comecei a trabalhar, meio período, no meu emprego atual, que também servia de horas complementares para a faculdade, e ainda assim, sempre escorregava. Quase cai perto do sofá pela pressa, derrubando o telefone em cima do mesmo.
— Mila, vai com calma! — Ouvi a voz de Dinah gritando da cozinha mas em seguida, bati a porta e corri para o carro, encontrando Sofi gargalhando com o celular perto do rosto, no viva voz, falando com alguma amiga. Ela já havia colocado a chave na ignição, para facilitar, pois várias vezes já sai atrasada de casa. Nunca corria na estrada ou rua pois, querendo ou não, um leve receio sempre me atormentava em questão a carros. A lembrança do nosso carro batendo quando meus pais ainda estavam vivos é, no mínimo, perturbador.
Depois de deixar Sofi na escola, que foi o caminho inteiro tagarelando no telefone com a amiga de infância Jackie, dirigi tranquilamente para o trabalho. Refleti durante o caminho se Sofi não estava gostando da Jackie, que vivia conosco desde que éramos pequenas, pois o bairro era tranquilo para viver, ninguém fofocava – demais -, pelo menos. Nunca imaginei Sofi gostando de uma garota mas também, nunca havia parado para pensar sobre como eu comecei a gostar de garotas, afinal, eu apenas me apaixonava por pessoas.
Assim que entrei na agência, ainda pensando em como entrar em detalhes com Sofi sobre relacionamentos, senti meu celular vibrando no bolso do meu blazer e antes de sentar em minha mesa e esperar minha chefe aparecer, me tranquei no banheiro com bolsa e tudo, largando tudo no chão e atendendo o celular.
— Me fala que tem boas notícias. — Escutei a risada de Dinah, baixa e sem graça, como ela fazia quando queria aliviar as tensões. E se havia tensão, era porque aconteceu alguma coisa.
— Então... — Ouvi uma voz desconhecida perguntar "Parentesco?", e logo depois a voz de Normani começar a discutir sobre parentesco quando, segundo ela, obviamente, elas eram muito mais que sangue. — Mila, eu... acho melhor você sentar.
Escorei meu peso na parede do banheiro e fechei os olhos, suspirando fundo para tentar me acalmar. Minha mente sempre fora muito rápida e criativa, não era a toa que eu estava trabalhando num agência e não estagiando, porém, naquele instante, realmente preferiria não ter a capacidade de imaginar.
Cenas como Lauren inconsciente, em coma, tomando soro, com algum membro quebrado ou gritando por ajuda assombravam minha mente sem nem ao menos Dinah proferir uma palavra. Eu sabia que ela estava apenas esperando eu dizer que estava tudo bem e poderia continuar pois estava pronta para ouvir, mas o fato era que eu não estava pronta para ouvir. Eu apenas queria Lauren bem!
— Dinah... — Minha respiração começou a ficar descompassada e naquele momento, a última coisa que eu gostaria era ficar presa dentro de um banheiro. — Um minuto.
Peguei minha bolsa e sai o mais rápido possível do banheiro, encontrando Bonnie, minha chefe, acabando de entrar na agência, que encontrava-se vazia até então. Sempre fui a primeira a chegar para ser a primeira a sair, por causa da faculdade e minha chefe sempre entendeu isso. Ela sorriu assim que me viu mas logo franziu a testa.
— Tudo bem por aqui? — Sua voz fina invadiu o espaço enquanto eu fechava os olhos. Minha voz morreu em minha garganta e meus olhos logo encheram d'água. — Querida, o que quer que seja, está tudo bem. Depois você me explica mas por favor, não chore. Não aqui, não na minha frente. Seja forte.
Sentindo suas mãos pequenas e firmes em meu ombro, balancei a cabeça, engolindo com dificuldades. Eu já trabalhava naquele lugar a quase 1 ano e todos ali emanavam energia positiva. Bonnie sempre foi muito cordial porém nunca muito afável e mesmo assim, entendia completamente das questões que, na minha opinião, todo chefe deveria entender: O trabalho de um empregado nunca irá ficar bom se o mesmo não estiver 100%. E naquele momento, eu não estava nem 20%.
— DJ, onde você tá? Me explica enquanto eu vou pro carro. — Ouvindo os gritos de protesto de DJ do outro lado da linha, abracei rapidamente Bonnie, que riu de meu nervosismo e me entregou a bolsa que havia deixado em cima da minha mesa. Corri novamente até o carro, gritando com Dinah ao telefone e assim que bati a porta do carro, coloquei o celular no viva voz e coloquei o GPS no painel do carro o nome do hospital que DJ havia dito com muito relutância.
Ainda ao telefone com Dinah, não pedi explicações do que houve, pois queria que Lauren explicasse. As únicas informações que pedi para Dinah foram: Ela está bem? Consciente? Quebrada?
E a resposta foi positiva. Para todas.
Lauren havia quebrado a clavícula, estando ainda em observação por estar com vários hematomas e cortes. Não queria imaginar o que aconteceu para ela ficar desse jeito ou o que ela teve que passar, apenas estava feliz em saber que estava viva e bem.
Quando cheguei no hospital, Dinah já me esperava na porta da recepção, abraçando meu corpo que agia sozinho. Ela começou a falar e falar sobre como Lauren estava e onde ela estava mas eu não entendia nada.
— Eu quero ver. Só isso. — Acariciando meus cabelos, pegou meu documento na carteira que estava no bolso do blazer e foi conversar com a recepcionista. Vi Ally chorando e Normani abraçada ao corpo pequeno da loira, e meu coração começou a bater ainda mais rápido. Dinah voltou com meus documentos, colocando todos no próprio bolso e pegando minha mão, entrelaçou nossos dedos.
— Vem, se acalma. Lauren vai ficar feliz em te ver. — Seguindo seus passos, estanquei na porta do quarto branco com várias camas. A segunda cama, do lado de um balcão, estava Lauren. Lábio cortado, olho esquerdo inchado e com uma faixa que contornava o pescoço e imobilizava o braço direito. Seus olhos verdes fitaram-me e consegui ver o alivio que sentiu. Meus olhos embaçaram e quando dei por mim, já chorava baixinho enquanto acariciava seus cabelos macios, apertando levemente sua cabeça contra meu peito. Senti ela fungando baixo e olhei para as meninas, que estavam na porta. Dinah abraçava o corpo de Normani, que enterrou a cabeça no pescoço da maior e Ally estava com os olhos fechados e parecia orar.
— Desculpa, Camz... — Ri nervosamente, fazendo cafuné em sua cabeça que parecia latejar. Seu pescoço estava inchado e ela abraçava, sem jeito, minha cintura. — Desculpa, eu tentei... eu...
— Shh, Lauren. Eu tô aqui com você, pra te apoiar. Quero saber quando estiver pronto para falar. Só quando estiver pronta, tá bem? — Ela abraçou forte minha cintura com o braço esquerdo, começando a chorar desesperadamente.
Suspirei sabendo que naquele instante, o que quer que seja, eu deveria pensar duas vezes antes de falar. Ela era muito mais sensível do que eu imaginava e precisa mais de mim do que eu sequer fazia ideia. Lauren nasceu para ser amada e não havia conseguido isso até então, entretanto, quando mais entro na sua vida de tsunamis, mais quero ser aquela em que ela pode se segurar. E mesmo não sabendo o que havia acontecido, tinha certeza de que Lauren irá superar e todas nós iremos ajudar.
— Eles estão juntos. O dono do clube e meu... inferno particular estão juntos. Querem algo que eu não faço nem ideia do que é. — Sua voz saiu engasgada e eu não liguei os pontos tão rapidamente mas lembrei sobre o que ela havia me dito sobre as drogas. Provavelmente seu antigo "fornecedor" tinha voltado e queria algo que não estava com ela. Ou estava...
— Baby, eles... fizeram tudo isso contigo? — Ela levantou a cabeça, deixando com que eu percebesse que seu olho lindo estava inchado pelo fato de ter um corte em cima da pálpebra. Não estava pronto para ouvir tudo o que fizeram e, vendo seus olhos marejados e seu queixo tremendo, percebi que nem ela estava pronta. — Deixa pra lá, você precisa descansar e depois a gente vê o que faz.
— A gente vê? — Sorri, tranquilizando sua expressão nervosa, passando a mão delicadamente por sua bochecha.
— Nós. Eu lembro de você falando que nunca teve um relacionamento mas quando me refiro a gente, quero dizer nós duas. Juntas. Seus problemas viraram meus também, Lolo. — Acariciando sua nuca, vi seus olhos fecharem e lágrimas escorrerem pelas bochechas vermelhas. Lágrimas de alívio, por não estar mais sozinha.
E mesmo que ela esteja numa cama de hospital, cortada, quebrada e inchada, ela continua sendo a mulher mais bonita que já conheci. E com toda certeza, mesmo que seja perigoso, quero sua vida junto a minha.
"Mesmo que seja perigoso".
Fale com o autor