Sing of the times
12 Love in the Dark
Notas iniciais
Capítulo 13
“I can’t love you in the dark... It feels like we’re oceans apart. There is so much space between us. Maybe we’re already defeated.”
(Love in the Dark — Adele)
A escuridão do quarto principal da mansão Salvatore não trazia descanso, apenas vigilância. Bella abriu os olhos e sentiu o peso do olhar antes mesmo de ver o rosto. Damon estava sentado em uma poltrona no canto, na penumbra, observando-a dormir. Ele não usava pijama; estava com a camisa social da noite anterior, os botões abertos, um copo de cristal na mão.
— Bom dia, Bells — ele disse, a voz suave, quase doce. — Preparei seu café favorito. Estarei te esperando lá embaixo. Temos uma reunião cedo, lembra?
Ele se aproximou, beijou a testa dela com uma ternura que fez a pele de Bella arrepiar de pavor, e saiu. Bella ficou estática. Não era mais o marido ferido; era um carcereiro refinado.
Na sede da empresa, o "bom moço" Damon Salvatore havia sido substituído por uma versão letal, sarcástica e imprevisível. Ele circulava pelos corredores com uma confiança predatória que lembrava seus dias mais sombrios.
Ele não batia na porta da sala de Bella; ele entrava, sentava-se na mesa dela e mexia em seus papéis com uma liberdade insultuosa. Durante a tarde, ele mandou entregar oitenta dúzias de rosas vermelhas no escritório dela — um gesto que, para os funcionários, parecia romântico, mas para Bella era um cerco.
No corredor, ele cruzou com Edward. O silêncio entre os dois era carregado de uma violência que ameaçava explodir as paredes de vidro. Damon sorriu, ajustando a gravata de Edward com uma intimidade agressiva.
— Você devia me agradecer, Edward — Damon sussurrou, o hálito cheirando a uísque e hortelã. — Eu sou um homem generoso. Estou deixando você olhar de longe. Porque o toque... o toque continua sendo privilégio meu. Até que a morte nos separe, lembra?
Edward segurou o pulso de Damon, os nós dos dedos brancos.
— Você está perdendo a cabeça, Damon. E vai acabar perdendo tudo no processo.
Damon apenas gargalhou, uma risada seca e sem alma, antes de se afastar assobiando.
À noite, a reunião aconteceu a portas fechadas no apartamento de Stefan. Bella e Edward estavam de um lado; Alice, Rosalie, Jasper, Emmett e Stefan do outro. A tensão era quase física.
Bella começou a falar. Sua voz tremia enquanto ela contava sobre Londres, sobre o plano de vida que construíram e, finalmente, sobre a metamorfose de Damon.
— Ele não quer o divórcio — Bella disse, as lágrimas finalmente caindo. — Ele disse que se eu sair, eu perco a Charlotte. Ele quebrou tudo em casa, ele me vigia enquanto eu durmo. Ele está usando a nossa filha como uma arma.
O silêncio que se seguiu foi devastador.
— Isso deixou de ser um divórcio complicado — Emmett disse, a voz grave e sem vestígios de brincadeira. — Isso é abuso emocional de alto nível.
Rosalie levantou-se, os olhos brilhando de fúria protetora. Ela não olhou para Edward, mas para Bella.
— Ninguém toca na Charlotte, Bella. E ninguém vai usar uma criança para te manter prisioneira. Se o Damon quer guerra, ele esqueceu que nós conhecemos todos os esconderijos dele.
Stefan estava com a cabeça entre as mãos. O conflito entre a lealdade ao irmão e o horror pelo que Damon estava se tornando o estava partindo ao meio.
— Ele enlouqueceu — Stefan sussurrou. — A obsessão por você sempre foi o ponto fraco dele, Bella. Mas agora... ele cruzou a linha.
Mais tarde, de volta à mansão, o confronto final aconteceu na cozinha deserta. O mármore frio parecia um necrotério. Bella, exausta e no limite de suas forças, caiu de joelhos diante de Damon.
— Damon, por favor — ela implorou, soluçando. — Se você me ama, se sobrou algum resquício do homem que eu conheci... me deixa ir. Não faz isso com a nossa família. Não transforma o nosso passado em um campo de sangue. Me deixa livre.
Damon parou. Ele deixou o copo de lado e caminhou até ela. Ele se ajoelhou e segurou o rosto de Bella com uma doçura infinita. Seus olhos azuis brilharam com uma luz que Bella não via há dias. Ele acariciou as bochechas dela, limpando as lágrimas com os polegares.
— Tudo bem, Bells... — ele disse, a voz tranquila, melodiosa, como o Damon do início da história. — Eu entendo agora. O amor não pode ser uma prisão, não é? Eu estou te deixando livre, meu anjo.
Bella soltou um soluço de puro alívio. Ela sorriu entre as lágrimas, o coração saltando no peito. Ela o abraçou com força, agradecendo repetidamente, acreditando que a pesadelo finalmente havia acabado.
Damon retribuiu o abraço, mas então... ele começou a rir.
Não era uma risada de felicidade. Era uma gargalhada baixa, irônica, que cresceu até preencher a cozinha vazia. Ele se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela, e o brilho de doçura havia desaparecido, substituído por uma malícia cruel.
— Por isso você tem duas opções, meu anjo... — ele disse, a voz voltando a ser um sussurro gelado. — Ou morta... ou sem a Charlotte para sempre.
Bella congelou. O sorriso morreu em seu rosto.
— Eu jurei diante de Deus, na frente de toda essa cidade, que seria "até que a morte nos separe" — Damon continuou, girando a aliança no dedo. — Eu não quebro meus juramentos, Bella. Você devia ter pensado nisso antes de amar outro homem. Você quer o Edward? Pode ter. Mas o preço é o corpo da mulher que eu amei ou a alma da filha que você gerou. Escolha.
Damon subiu as escadas sem olhar para trás. Bella ficou caída no chão da cozinha, o silêncio da casa pesando toneladas sobre seus ombros.
Ela subiu arrastando os pés e entrou no quarto de Charlotte. A menina dormia em uma paz angelical, abraçada ao urso de pelúcia que Edward comprara em Londres. A inocência daquela cena era um contraste violento com o horror que acabara de ouvir.
Bella sentou-se no chão ao lado da cama da filha e desabou em um choro mudo, tapando a própria boca para não acordá-la. Ela finalmente entendia: não estava mais lutando por um final feliz com Edward. Estava lutando pela sobrevivência emocional de sua filha contra um homem que preferia destruir o mundo a perder o trono.
O problema do amor no escuro era que, depois de algum tempo, você já não conseguia distinguir paixão de perigo. E, em Nova York, as luzes estavam se apagando para todos eles.
A atmosfera em Nova York já não era mais de tensão; era de asfixia. Para Bella, cada corredor da empresa e cada cômodo da mansão haviam se tornado extensões de uma cela invisível. Damon não precisava de grades para mantê-la presa; ele usava a sua presença constante, um cerco psicológico que não dava trégua.
Damon não a deixava respirar. No escritório, ele entrava sem bater a cada meia hora, sentando-se na poltrona à frente dela apenas para observá-la trabalhar, um sorriso gélido brincando nos lábios. Ele a acompanhava até o elevador, esperava na porta das salas de reunião e, de forma humilhante, passou a segui-la até a porta do banheiro.
Em um momento de desespero, Bella conseguiu sinalizar para Edward no corredor dos arquivos. Eles entraram em um nicho mal iluminado. Edward a puxou para um abraço urgente, sentindo-a tremer como uma folha.
— Ele não me deixa sozinha por um segundo, Edward... eu estou sufocando — ela soluçou contra o peito dele.
— Eu vou tirar você daqui, Bella. Eu juro. Só mais um pouco e...
A porta pesada do corredor se abriu. Damon estava lá, encostado na moldura, batendo levemente com a aliança no batente de metal. O som metálico ecoou como uma contagem regressiva.
— Você realmente achou que eu não perceberia o sumiço da minha esposa? — Damon perguntou, a voz tranquila, desprovida de qualquer raiva aparente, o que era mil vezes pior.
Ele caminhou até eles, pegou a mão de Bella com uma firmeza possessiva e a puxou para longe de Edward.
— Vamos, meu anjo. Temos um jantar com os investidores. O Edward pode terminar de brincar de esconde-esconde sozinho.
Edward deu um passo à frente, os punhos cerrados, mas o olhar de aviso de Bella o paralisou. Damon a levava como se ela fosse um objeto de sua propriedade, e o pior era que, legalmente, diante do mundo, ele ainda tinha esse direito.
Tarde da noite, Stefan encontrou Damon no escritório da mansão. O ambiente estava escuro, iluminado apenas pelas chamas da lareira e pelo brilho do uísque no copo de Damon.
— Damon, chega — Stefan disse, aproximando-se. — Você não é esse homem. Isso que você está fazendo... não é amor. É tortura. Você está aterrorizando a mulher que diz amar e assustando a sua própria filha. Dê o divórcio a ela. Deixe-a ir.
Damon girou a cadeira lentamente. O rosto que Stefan conhecia, o do irmão protetor e brincalhão, havia sumido. Havia algo quebrado e sombrio em seu lugar.
— Ela era minha paz, Stefan — Damon sussurrou, os olhos fixos no fogo. — Agora, ela vai ser o meu inferno. E eu garanto que não vou arder sozinho. Se eu não posso sobreviver inteiro... ninguém vai.
Stefan sentiu um calafrio. Ele percebeu, com horror, que Damon não estava mais agindo por mágoa; ele estava em um surto de obsessão que beirava o colapso total.
Enquanto isso, em uma sala fechada na residência dos Cullen, o peso de dez anos de segredos finalmente desabou. Stefan, Edward, Emmett e Jasper encaravam Charlie Swan e Carlisle Cullen.
A verdade foi expelida como veneno. A história do aeroporto, o sacrifício de Edward, o reencontro em Londres e, finalmente, a atual situação de cárcere privado emocional de Bella.
Charlie Swan explodiu. Ele se levantou, derrubando a cadeira, o rosto vermelho de uma fúria que fez as paredes vibrarem.
— DEZ ANOS? — ele rugiu para Edward. — Você deixou minha filha construir uma vida inteira de mentiras porque não teve coragem de enfrentar o seu pai? Você tinha quase trinta anos, Edward! Não era um garoto obedecendo ordens! Você destruiu o futuro dela por covardia!
Carlisle não gritou, mas sua voz era como navalha sobre o gelo.
— Nós transformamos amor em estratégia corporativa, Edward. E agora estamos colhendo monstros. Eu falhei como pai, mas você falhou como homem ao esconder isso por tanto tempo.
O sermão sobre a traição foi brutal. Charlie deixou claro que não passaria a mão na cabeça de Bella ou de Edward pelo adultério, lembrando-os de Charlotte e de Damon. Mas então, o tom mudou quando Stefan descreveu as ameaças de Damon e o comportamento abusivo.
Charlie parou. O "Pai" substituiu o "Chefe".
— Ninguém ameaça minha filha usando minha neta — Charlie disse, a voz agora baixa e letal. — Se o Damon Salvatore acha que vai transformar a vida da Bella em um cativeiro, ele esqueceu de quem ela é filha.
Bella chegou em casa de madrugada, os pés doendo, a mente exausta. Ela encontrou Charlotte dormindo no sofá da sala, abraçada a um livro de histórias, esperando por ela. Ao ouvir os passos da mãe, a menina abriu os olhos, sonolenta.
— Mamãe? — Charlotte murmurou, sentando-se. — Por que o papai olha pra você como se estivesse bravo o tempo todo? Eu ouvi ele gritando ontem... Vocês vão se divorciar?
Bella sentiu o mundo girar. Ela caiu de joelhos na frente da filha, as lágrimas inundando seu rosto instantaneamente. Ela tentou sorrir, tentou mentir, mas não conseguiu.
— Por que você parece triste sempre que o papai entra no quarto, mamãe? — a menina insistiu, com a sabedoria cruel das crianças.
Bella a abraçou com uma força desesperada, escondendo o rosto nos cabelos da filha. Ela finalmente entendia: o segredo não existia mais. A dor havia transbordado e estava começando a manchar a única coisa pura que restava naquela casa.
O amor deles sobrevivera ao tempo, à distância e ao orgulho. Talvez o verdadeiro problema fosse descobrir que algumas histórias de amor não terminam quando acabam, elas apodrecem lentamente até contaminar todos ao redor. E em Nova York, o cheiro dessa podridão estava se tornando insuportável.
Fale com o autor