Sinfonia do Predador
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O hospital erguia-se como uma carcaça de ferro e concreto contra o céu cinzento, com sua fachada desgastada pela chuva e pelo tempo. As janelas eram olhos mortos, refletindo apenas fragmentos de luz, enquanto um vento gelado carregava o cheiro pungente de antissépticos misturado com algo mais sombrio. Miguel estava ali, parado, como uma sombra à frente do prédio. O olhar fixo, quase hipnótico, desafiava o policial postado na entrada. Não era medo que sentia; era a excitação do perigo, o pulsar do controle absoluto que estava prestes a exercer.
Dentro, o hospital era uma amálgama de murmúrios apagados e passos ecoando em corredores infinitos. O som da 5ª sinfonia de Beethoven retumbava em sua mente, mas não com a grandiosidade usual — era distorcida, frenética, como se os violinos fossem gritos de almas torturadas.
Miguel caminhava devagar, com a elegância meticulosa de um predador. Sua mão tocava o bolso do jaleco, sentindo o metal frio da seringa ali dentro. A certeza de sua presença era um mantra. Ele podia jurar que o objeto pulsava em uníssono com os batimentos de seu coração.
Quando Lorena o abordou, ela parecia uma vela prestes a ser apagada pelo vento. O terço em suas mãos tremia, assim como sua voz. Miguel ouviu as palavras dela, mas seu interesse estava na fragilidade que emanava daquela jovem. Ela era como vidro trincado: bastava um toque para estilhaçá-la.
Ao entrar no quarto de Dona das Dores, o cenário se transformava. As paredes pareciam mais próximas, quase sufocantes. A luz fluorescente oscilava levemente, lançando sombras que dançavam no rosto da paciente idosa. Miguel abriu um sorriso tão gentil quanto o de um enforcador prestes a apertar a corda.
— Posso fazer essa dor passar agora, se a senhora quiser. — Sua voz era um sussurro, mas nela havia algo de inumano, uma promessa velada de tormento.
O ato foi meticuloso. Quando a agulha perfurou a veia de Dona das Dores, ele se demorou. O líquido dentro da seringa, que não era dipirona, brilhou com uma viscosidade quase sobrenatural sob a luz pálida. O sofrimento dela foi um espetáculo: os olhos arregalados, o desespero mudo enquanto tentava desesperadamente puxar o ar que seus pulmões não recebiam.
Para Miguel, era arte. Ele observava a transição entre a vida e a morte como um maestro ouvindo a última nota de uma sinfonia perfeita. Quando tudo terminou, o silêncio que se seguiu foi quase religioso.
Ele retirou o colar da vítima com delicadeza, como um ritual. Guardou-o no bolso do jaleco e chamou as enfermeiras com uma atuação tão convincente que poderia enganar até o mais cético dos observadores.
Quando encontrou Lorena na sala de espera, o verdadeiro prazer começou. Ele a observou se despedaçar com a notícia, cada lágrima um tributo à sua obra macabra. A garota gritava e implorava por respostas, enquanto ele, impassível, apenas observava.
Mais tarde, em seu apartamento, Miguel se permitiu relaxar. No escritório, o cofre guardava sua coleção de troféus, cada objeto carregado com a energia das vidas que ele extinguira. Ele retirou o colar de Dona das Dores e o adicionou ao baú, acariciando cada item como um amante revisitando memórias proibidas.
A 5ª sinfonia de Beethoven ainda soava em sua mente, mas agora ela o embalava para o sono. Um sono profundo e satisfatório, pois sabia que amanhã, o jogo recomeçaria.
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