– O que disse, Sorento ? – perguntou Julian, arregalando um pouco os olhos.

Sorento apertava sua flauta com força (mas não a ponto de quebra-la, o que seria fácil devido ao seu cosmo poderoso que andava reprimido). Ele mal conseguia olhar nos olhos de Julian, com medo da reação que ele poderia ter.

– Compus pensando em você, Julian. A Sinfonia do Amor foi feita em homenagem à você, a pessoa com quem mais me importo no mundo.

Os olhares deles se cruzaram. Julian permanecia imóvel, com os olhos arregalados, enquanto Sorento o olhava com certa timidez.

– O que você está tentando me dizer é que... gosta de mim... mais do que como um amigo ? – perguntou, com dificuldade.

– Sim, é exatamente isso. – respondeu Sorento, agora mais determinado e confiante. Olhando-o diretamente nos olhos. – Eu tenho sentimentos por você assim como a sua mãe tem pelo seu pai, e assim como você tinha pela Saori.

– Eu... preciso tomar um ar fresco. – disse Julian, saindo. Parecia sério.

Sorento o viu se afastar, sentindo como se seu coração estivesse se despedaçando. Mal conseguia se conter perante tamanha rejeição. Logo ele, que há alguns meses ainda era um poderoso general marina, estava se sentindo dependente do carinho de um homem. Não conseguia mais se segurar e teve que ir atrás de Julian, depois de ficar uns dois minutos praticamente imóvel.

Chegou na varanda e viu Julian de costas, olhando para o horizonte. Era impossível saber qual era a sua expressão facial.

– Me perdoe, Julian. Quer dizer, senhor Julian. Eu agradeceria se pudesse fingir que nada disso aconteceu.

– Mas aconteceu, Sorento. – respondeu, sem se virar para olhá-lo. – Eu só queria entender por que você se apaixonou por mim.

– Não é sempre que podemos controlar o que vem do coração. Às vezes os sentimentos nascem contra a nossa vontade e nos sentimos humilhados quando não há possibilidade de serem correspondidos.

– Eu entendo. – respondeu, lembrando-se de quando Saori lhe rejeitou. – Mas nós dois somos homens, Sorento. Como seria possível haver amor puro entre dois homens ?

– O nosso sexo nem sempre é o mais importante. Acho que uma pessoa só pode ter certeza que ama outra quando sabe que a amaria independente de ela ser um homem ou uma mulher. O gênero é determinado pelo corpo em que nascemos, mas nossas almas não. Assim como a alma de um deus pode encarnar num humano, almas sem um sexo definido podem encarnar em um corpo aleatório. – enxugou a testa úmida com a manga. – Eu sei, nada disso parece fazer sentido.

De repente, tudo ficou em silêncio. Um silêncio extremamente desconfortável. Era demais para Sorento continuar naquela situação. O melhor seria deixar Julian sozinho por um tempo e rezar para que esse episódio caia no esquecimento.

Fez uma reverência para Julian, que ainda estava de costas.

– Perdão pelo incômodo. Eu vou me retirar, senhor Julian.

Sorento saiu andando. Com os lábios trêmulos e lágrimas teimando em cair, dirigiu-se até o quarto de Julian.

Entrou naquele aposento grande e particular, que Julian odiava que entrassem sem sua autorização, e se jogou na cama. Abraçou o travesseiro e o pôs junto ao rosto. Queria a todo custo sentir aquele perfume natural de Julian que ficava impregnado em seu travesseiro e em sua cama. As lágrimas continuavam a cair, manchando um pouco o travesseiro.

– Julian... Por que com tantas mulheres bonitas e ricas entrando e saindo desta casa o tempo todo, eu fui sentir algo logo por você ?!

Qualquer um que olhasse, jamais acreditaria que há cerca de um ano ele era um general marina frio e calculista que apoiava o fim da humanidade.

Levantou-se, já recuperado do choro. Olhou de relance para uma cômoda e não resistiu à tentação de se aproximar. Segurou um porta-retratos.

– Somos nós.

Olhou com certo interesse e nostalgia aquela foto. Era uma foto em que ele e Julian Solo estavam juntos, com um apoiando uma mão no ombro do outro, formando um meio abraço. A foto havia sido tirada em uma praia, e os dois estavam apenas de sunga. Julian pôs o porta-retratos de volta no lugar, se perguntando por que Julian tinha aquela foto num porta-retratos em seu quarto.

Ia se retirar, pois Julian Solo poderia ficar muito bravo se o visse em seu quarto particular. Mas ao lado do porta-retratos havia um tipo de caderno aberto. Era o diário de Julian. Sorento não queria invadir a privacidade dele tanto assim e chegou a dar dois passos para fora do quarto, mas não resistiu e voltou para ler o que estava escrito. Havia chamado a sua atenção o fato de ter lido seu nome em alguma parte da página. Pegou o diário e começou a ler as últimas páginas.

Enquanto lia, Sorento ia se impressionando cada vez mais. Especialmente com o seguinte parágrafo:

“ Sorento está muito estranho hoje. Ele não quis sair do quarto de jeito nenhum. Tomara que amanhã ele resolva sair de lá para podermos passar um tempo juntos. Afinal, ele é a única pessoa com quem posso conversar sem me importar de ser tão formal. Dias como hoje mostram como me sinto incompleto na ausência dele. Ele é único para mim. ”

Ouviu passos no corredor e deixou o diário onde estava. Deixou o corpo ereto como se fosse um soldado quando Julian entrou no quarto.

– Ah, então é aqui que você está. – disse em tom sério, mas sem aparentar mal humor.

– Desculpe pela invasão de privacidade, senhor Julian. – fechou os olhos. – Eu estou disposto a receber uma punição pela minha...

Antes de terminar a frase, sentiu uma mão impulsionar sua cabeça de encontro com a de Julian Solo, aproximando seus rostos e unindo seus lábios.

Notas finais
O próximo capítulo será o último.