Sugestão musical: Stay Tonight — Kasino

(Começou a festa. O pátio de concreto, próximo ao jardim, estava coberto de barracas com bebida liberada e universitários de todos os tipos. Babi chegou acompanhada de Naty, que permanecia retraída)

Babi: Vamos, Naty, se solta. (viu-a sorrir, ainda acanhada)

Naty: Me dá um tempo, apressada. Hoje eu tenho é que beber menos pra não pagar mico!

Babi: É, até porque essa festa está muito mais cheia!

Naty: Muito mesmo.

Babi: Uhul, amo essa música, dança comigo, menina!

Naty: Beleza! (um tanto endurecida pela vergonha, tentava acompanhar os passos dela, até que avistou o terceiro elemento que faltava para a noite estar completa): Vem, Dan, dança com a gente!

Dan: Nossa! Vocês duas, hein, estão muito gatas. Muito! (enfatizou o elogio de um modo sugestivo só para reavivar o ar brincalhão necessário a que fizessem as pazes)

Babi: Gostou? Contente-se com a Blenda!

Naty: Ai, vou pegar um suco! (saiu de perto, na intenção de ficar de fora da briga iminente)

Babi: Tá, mas cuidado que o suco pode...

Dan: Você está com ciúmes, não é, Babi?

Babi: Eu? Quem te dera! Vai lá comer seu macarrão sem sal e não enche, tá, “Danizinho”?

Dan: Ok. (deu de ombros): Se eu comer, tô no lucro.

Babi: Você não era assim! Eu era a tarada do grupo!

Dan: Ah, então esse é o problema? Pensei que vocês me quisessem mais homem.

Babi: Eu gostava de você antes. Já saio com cafajestes, não preciso ser amiga de um, também. Gostava de você exatamente por te achar diferente, apesar das brincadeiras.

Dan: Então "franguinho e bobo" é melhor?

Babi: Você não é bobo! É atencioso, engraçado, um ótimo amigo. Nunca agiria como está agindo agora. Muitas vezes me dá a impressão de que você não está sendo quem é de verdade, e é uma pena, porque deve ser muito especial. Não sei o porquê de se esconder. (fitou-o com afeto ao pousar a mão sobre o seu rosto)

Dan: Vai ver, você só me conhece pouco.

Babi: O Dan que eu conheço pode até pegar alguém com segundas intenções, mas nunca enganando uma menina ou sendo grosso com suas amigas. Esse estilo pode colar pro Alex, mas ele só ganha futilidade em troca. Alguém gostar de você pelo que você é não é o que importa? (ergueu-lhe o queixo, evitando que baixasse a cabeça): Olha pra mim. Nós adoramos você. Aquilo que dissemos não foi de propósito. É que a gente tá tão acostumada a falar droga pra você que acabamos falando muito. Foi sem querer! Desculpa se te deixamos chateado. Nunca foi a intenção. Podemos zerar esse assunto?

Dan: Tá bom, eu desculpo vocês. Mas, se fizerem de novo, vou ter que agarrar as duas pra mostrar o que eu sei! (retomou o sorrisinho de malícia, o qual foi retribuído com um idêntico dela, além do empurrão dado no ombro)

Babi: Esse é o meu garoto! Somos suas mulheres de novo?

Dan: E eu vou desperdiçar essas gatonas? (abraçou-a com força ao vê-la se aproximar sem a pose habitual de indiferença): Desculpa, também, se me irritei além da conta. Só foi meio chata a intromissão. Eu sei o que eu estou fazendo, numa boa. Não me importo que me zoem, só não gosto quando querem tomar as minhas decisões por mim.

Babi: Eu entendo. Tá tudo certo. Vou até admitir que estava com saudade de você. (revirou os olhos, tentando não rir)

Dan: Ah, linda! Eu também estava, mentora favorita. (retomou posse dela, num abraço balançante, como início de uma quase dança): No estilo podre de bêbado! (aos risos, levantou uma das mãos para o alto e cantarolou um trecho da música que tocava naquele instante; Stay Tonight da banda Kasino): Look into my eyes and say... (olhe nos meus olhos e diga)

Babi (entrou na brincadeira, apontando para ele ao continuar a canção quase aos berros): I wanna be with you! (eu quero ficar com você)

Blenda: Eu sabia! Daniel! (separou os dois, com expressão de poucos amigos e timbre de voz de uma histérica)

Dan: Ih, que é?

Blenda: Solta essa garota. Ela é...

Dan: Ah, não começa! Ela é minha amiga. Se não quiser sair comigo por isso, não saia. Nunca vou deixar de andar com ela por sua causa. Aliás, nunca vou deixar de fazer nada por sua causa nem por ninguém, numa boa. Para de fazer queixinha pra mim o tempo todo, cara. Isso enche o saco.

Blenda: Nossa, que atitude! Agora quero mais ainda sair com você. Tão macho! (conseguiu dele um erguer de sobrancelha e a emissão de um “ham?” bastante confuso)

Babi: É masoquista! (concluiu ao som de boas gargalhadas)

Blenda: Então? Vamos, Danizinho? (perguntou, ignorando a presença da outra)

Dan: É só dizer pra onde. Quer dizer, tem um cantinho mais reservado mais pra lá...

Blenda: Ótimo! (lançou-lhe um olhar sedutor e o puxou pela mão enquanto Dan, sem que ela notasse, permanecia um tanto aparvalhado com as suas ações)

Babi: Ui, hein! Manda ver! (fez um gesto obsceno em incentivo e saiu à procura de Naty, finalmente. Quando a encontrou, surpreendeu-se, e muito, com o estado dela: a loira estava dançando em cima de um dos bancos de concreto, completamente bêbada): Minha nossa! Que babado!

Naty: “Ul”, danço muito! (rebolava com as mãos no cabelo, nitidamente livre da timidez)

Babi: Putz! No meio da discussão, não disse que o suco deveria ser gummy batizada com bebida da braba. Cara, ela tá ainda mais doidona do que no churrasco! Deve ter se afogado nessa gummy. Pensando bem, até que gostei disso! (subiu no banco, juntando-se a ela, apesar de estar sóbria. Fortes gritos masculinos instantaneamente ecoaram para incentivar a iniciativa e um pouco além: “É isso aí, gatas! Tira! Tira!”. Em provocação, a morena tirou o casaco sensualmente, alucinando-os cada vez mais)

Sugestão musical: Girlfriend – Avril Lavigne

Michele: Tinha que ser a piranha! (bateu palmas em congratulação irônica, o que fez com que a rival descesse do banco no mesmo instante e lhe apontasse o indicador)

Babi: Do que você me chamou? Repete! Vai, repete se tiver coragem!

Michele: Não aponta esse dedo para mim! (afastou-lhe a mão com brutalidade): Chamei de piranha. Pi-ra-nha. Você começou tudo isso, agora aguenta!

Alex: Ei, ei, ei. Sem brigas na festa! Aqui nós resolvemos as coisas no jogo de vira.

Michele: Você tá doido, né, Alex? Tá achando que é circo!

Babi: Eu topo! Vai ser moleza ganhar da fedelha que só toma Danoninho! (olhou-a de cima a baixo com aquele sorrisinho sarcástico que era muito aborrecedor)

Michele: Ah é? Vamos ver se com cachaça a sua arrogância desce mais fácil, faladora!

(A multidão se aglomerou, então, em torno das duas ao passo em que Alex tirava as bebidas mais fortes de um esconderijo na barraca que administrava. Após as quatro primeiras rodadas de vodca, todavia, ao contrário do que se esperava, nenhuma havia desistido)

Alex: Tá páreo duro hoje.

Xavier: Dá logo algo mais forte pra elas ficarem loucas sem acabarem com a bebida, moleque! (sugeriu de imediato ao rapaz que havia adotado há certo tempo como "aprendiz")

Alex: Pode crer. Morte-súbita: uma rodada de capeta! (um uníssono e prolongado “uh” de instigação tomou conta do ambiente)

Babi: Tô nessa, gostosão! (tirou bruscamente da mão dele o pequeno copo de plástico com a bebida e o entornou pela garganta com destreza)

Michele: Ele é m-e-u namorado e... Aff! Deixa! Dá logo o copo! (fez igual a ela. No entanto, não teve a mesma sorte de permanecer “de pé” depois disso): Tô passando mal, não dá mais. Chega.

Nicole: Michele! Calma, a gente te leva pro seu quarto. Olha pra mim, não apaga! (segurou-a com firmeza para que não caísse e depois colocou os cabelos dela para trás)

Alex: É, temos uma vencedora!

Babi: E quem duvidava? (piscou para ele e lhe beliscou uma das nádegas, ao mesmo tempo em que a namorada oficial saía da festa carregada por alguns colegas)

Naty: Você acabou com ela! Mandou ver! (gargalhava mais do que todas as hienas do filme Rei Leão juntas; a morena, por sua vez, também se perdia entre risos quase insanos)

Babi: Tá tudo rodando! Uau, você tá gostosa hoje!

Naty: Eu sei! Quem é quente?

Babi: Nós somos!

Naty: Uhul! Eu te amo, cara! Sério, te considero muito!

Babi: Eu também. Você mora aqui, ó! (bateu no próprio peito para sinalizar o coração)

(Ligeiramente embriagado e na ausência da namorada, Alex se aproximou a fim de tirar proveito do efeito desinibidor da bebedeira de ambas; envolveu-as, então, pela cintura, cada uma com um braço, como se fosse um verdadeiro sultão diante do harém)

Alex: Qual das gatinhas vai me acompanhar? Se quiserem, pode ser as duas! (soltou a loira, entretanto, ao vê-la ter uma crise de riso medonha): É, você não, já bebeu demais. E aí, Bárbara? Quer dar um rolé?

Babi: Ih, sem papo furado, garoto! (puxou-o com força pela gola da camisa, enlaçando-o em um beijo mais do que inesperado; duradouro igualmente)

Alex: Que isso, hein! Sabe, meu quarto tá tão pertinho e...

Babi: Nem fala nada! Já tô indo, é só levar a Naty embora.

Alex: Ela já se arranjou! (apontou para a sulista, que estava em uma intensa troca de beijos com um desconhecido que brotou “do nada”)

Babi: Cara, tô muito bêbada! Quase vendo dois de você! (encostou a cabeça no ombro dele, queixosa, e de repente tornou a gargalhar): Gatos em dobro!

Alex: Relaxa, eu também. (aproximou-a de si, tocando os lábios em seu pescoço)

Babi: Você não era assim, não. (ficava encantada com o movimento em negação do próprio dedo enquanto ele a beijava desde a orelha até o queixo)

Alex: Vestibular acabou, fiquei mais esperto! (tomou-a nos braços de um modo que só se intensificaria até o alvorecer da manhã seguinte; ou um bocado mais tarde: massageando as têmporas, Babi olhou desnorteada ao seu redor assim que despertou, cheia de pensamentos e lembranças dos mais confusos)

Babi: Cara, que dor de cabeça! Nem me lembro direito de como vim parar aqui. Será que..? (encontrou um volume ao seu lado com os dedos, que tateavam a cama): Ih, que coisa fofa é essa? Ai, deve ser a bundinha do Alex! Cara, ontem me dei muito bem mesmo, não alucinei! Finalmente! (apalpou com vontade a nádega descoberta, fazendo com que o rapaz virasse na sua direção e a abraçasse por trás)

Dan: Blenda, para com essa droga se não quiser que eu acorde e revide! (soltou uma série de resmungos sonolentos próximo à orelha da garota, que, então, arregalou os olhos)

Babi: Eu conheço essa voz... (voltou o rosto para ele e o encarou ao som de um grito histérico)

Dan: O que é que foi? (entreabriu os olhos e, por reflexo, se afastou num pulo assim que percebeu a situação): Que merda é essa?

Babi: Meu Deus! Você, eu, não é possível!

Dan: Por que você tá quase sem roupa e abraçada comigo na minha cama? (franziu o cenho, ainda atordoado demais pela lentidão matinal para entender o que quer que fosse)

Babi: Se eu soubesse não teria gritado, né, Sherlock!

Dan: Mas a gente não... Como?

Alex: Bom dia, gostosa. E aí, cara? (entrou no quarto, enfim, tomando uma garrafa de isotônico)

Babi: Alex, como eu parei com o Dan? (perguntou ao único ser calmo ali no cômodo, que se divertia, e muito, com toda aquela confusão)

Alex: Relaxa, gata, foi comigo que você dormiu.

Babi: E por que, diabos, acordei na cama errada?

Dan: Devo estar sofrendo de amnésia, não é possível! Eu nem bebi!

Alex: Sem grilo. A Blenda e eu tivemos que sair cedo por causa do jogo que teve aqui de manhã. Quando eu saí, você ainda estava na minha cama. O porquê de estar aí agora, não faço ideia. Deve ter levantado meio doidona e pensado que era eu, sei lá. (deu de ombros, sem fazer a menor questão de prender o riso)

Babi: Que alívio!

Dan: Valeu, hein!

Babi: Ah, não chora, não. Eu ainda apertei a sua bunda sem querer! Aliás, só pra comentar, ela é um arraso! (estendeu o polegar, enfática)

Dan: Péra aí. Então, enquanto eu estava dormindo com a Blenda, você e a Babi...?

Alex: Não sei como você não acordou. Ela é um escândalo!

Babi: Ei, eu ainda estou aqui!

Alex: No bom sentido, relaxa. Eu realmente devia estar muito bêbado para não ir contigo pra um lugar vazio, mas agora tanto faz.

Babi: Vou embora. Tá muito estranho ficar só de calcinha e blusa, vendo o Dan de cueca.

Alex: Nós nos vemos depois, então.

Babi: Espera. A Blenda me viu aqui?

Alex: Ora, óbvio. Por quê?

Babi: Ela é a melhor amiga da Michele. Aquela perua vai surtar quando souber de nós dois! (comemorou, deslumbrada com a vingança)

Alex: Que nós dois? Não entendi.

Dan: Ih, tô saindo. (abotoou a bermuda sobre a samba-canção mais rápido do que o outro ergueu a sobrancelha; tratou de sair logo dali)

Babi: Eu pensei que, depois do que aconteceu, fôssemos sair mais vezes.

Alex: Gata, eu sei que eu sou muito bom no que faço e, quando digo muito, quero dizer muito mesmo, mas eu namoro a Michele. Nosso lance foi só curtição, você sabia disso.

Babi: É brincadeira, né? Você não me quer por causa da Michele?

Alex: Sabe como é, ela tem segredos que eu ainda não desvendei, e você já me é um livro aberto.

Babi: Sabe, nunca fui de me prender a ninguém, porque sei como os homens são, mas juro que por essa eu não esperava! (cerrou os olhos, esforçando-se em não demonstrar um sinal de fraqueza sequer)

Alex: Ah, Bárbara, qual é! Logo você? A mais liberal, divertida.

Babi: Que não serviu pra você.

Alex: Achei que você entendesse melhor do que ninguém que eu tava a fim, você também, e pronto, acabou. Sem nada que nos amarre.

Babi: Eu também achava, mas você é burro demais pra ver o óbvio e entender. Eu mais ainda por ver e ignorar. (deu-lhe as costas ao bater a porta)

Dan: Que foi? Você tá bem?

Babi: Pensei que ficar com ele me deixaria nas nuvens, mas eu mesma não me conhecia.

Dan: Ninguém se conhece por completo.

Babi: É, agora é superar!

Dan: Dou dois segundos para você estar que nem louca pela faculdade de novo.

Babi: Ah, quer apostar? Estou caída demais para dar uma de doida.

Dan: Cinco reais?

Babi: Claro, por que não? (apoiou-se no tórax dele e suspirou, expondo o desânimo)

Dan: Ganhei.

Babi: Mas eu não fiz nada ainda!

Dan: Você está no corredor do dormitório masculino só de blusa e calcinha!

Babi: Cara! Não acredito que deixei a minha calça e o meu sutiã lá dentro! Que mico! Ah, ele não vai ficar com o meu sutiã de zebrinha como recordação, não! É o meu favorito! (retornou, então, ao cômodo, cheia de determinação)

Dan: Não tô falando? Piradinha!

Alex: Ah, eu sabia que você iria voltar. Podemos conversar como adultos agora?

Babi: Não vim te ver, vim por uma causa maior: esse sutiã é muito caro!

Alex: Bárbara, deixa de criancice! Você vai ficar bem com o tempo e...

Babi: Querido, eu já estou bem! Você que ainda vai ter que me superar um dia. Para mim, nenhum cara é inesquecível! (interrompeu-o de um modo ríspido, já em término de se vestir)

Alex: Porque você ainda não tinha ficado comigo. (ouviu-a emitir um pigarro debochado assim que disse essa bobagem)

Babi: Já vi e já provei. Não é tão bom assim! Tchauzinho.

Alex: Só está dizendo isso porque ficou bolada. Duvido que já tenha tido melhor!

Babi: Nada que eu não tenha visto maior ou melhor. Com licença. (retirou-se, deixando-o feito bobo e a se autoafirmar sozinho)

Dan: E aí? Você demorou.

Babi: Só estava colocando a régua escolar dele em seu devido lugar: “O melhor que você já teve”, faça-me o favor!

Dan: Você me assusta...

Babi: É só o meu charme!

Dan: É, está de volta!

Babi: Não fui a lugar algum. (conduziu-o indiscutivelmente à ala feminina, pois já havia passado tempo demais entre os homens)

Naty: Ai, Babi, que susto! Onde você esteve?

Dan: Essa menina nunca foi a festas mesmo.

Babi: Eu dormi com o Alex. (empolgou-a de imediato com a fofoca)

Naty: O quê? Ah, menina, me conta! Como foi?

Babi: Não se anima, não, Naty. O cara, além de babaca, é propaganda enganosa.

Naty: Bem que você avisou para eu ter cuidado.

Babi: Querida, se eu soubesse que os meus conselhos eram bons, eu mesma os teria comprado!

Naty: Estou com tanta dor de cabeça que nem lembro o que fiz ontem!

Babi: Acho que você tava de amasso com um cara. Não vi direito, não lembro bem.

Naty: Sério? E se ele vier falar comigo? Não sei quem é! E se ele for feio? (ficou com o timbre agudo e os olhos arregalados; quanto a Dan, por outro lado, prendia o riso)

Dan: Mulher não sabe beber mesmo, hein, cacete!

Naty: E homem sabe?

Dan: Pelo menos eu lembro com quem dormi ontem.

Naty: Você dormiu com a Blenda? Não acredito! O pior é que eu bebi tanto que sonhei que vocês dormiram juntos.

Babi: Não sonhou, previu.

Dan: Previu? De novo isso? Vocês têm algum pé na magia negra, por acaso? Ou na cachaça? Acho que na segunda opção!

Babi: Ih, foi mal! Ele não sabia, né? Ops!

Naty: Babi! Sua linguaruda! Você prometeu! (portou-se ainda mais repreensiva do que o tapa na boca que ela mesma se deu)

Babi: Conta pra ele, não tem problema. É nosso amigo, pode confiar!

Naty: Eu sei que posso, mas não quero que ele me veja como anormal!

Dan: Contar o quê? Me fala. Já te contei coisas a meu respeito também.

Babi: E não contou pra mim?

Dan: Depois eu conto, sossega. Fala, Naty, juro que não vou te achar anormal.

Naty: Ai, Dan é que eu, desde pequena... (levou a mão à testa, à procura das palavras certas): Como vou dizer?

Babi: É uma criança doida e bizarra que, ao invés de brincar de boneca, fofoca a vida dos outros sonhando! (fez com que ele contorcesse uma careta confusa e muito cética)

Naty: Tenho previsões enquanto durmo! É isso!

Dan: Ai, cacete! Pra quê eu converso com mulheres de ressaca?

Babi: É sério! Ela adivinhou sobre o assalto que eu sofri e tudo! Você só vai acreditar vendo mesmo.

Dan: Péra aí, ela disse que dormimos juntos... Que bizarro! Ela prevê mesmo as coisas!

Naty: Vocês o quê? Mas você não dormiu com o Alex?

Babi: Sim, mas acordei com o Dan.

Naty: Como? Suruba? O que foi isso? Babi, o Dan?

Dan: Ainda tô aqui. Só pra lembrar.

Naty: Não é isso, vocês são amigos!

Babi: Ainda somos só amigos. A única coisa que mudou é que agora eu sei que a bunda dele é um arraso! (olhou para ele com uma malícia brincalhona)

Dan: Agora tá sabendo. (exibiu um dos seus sorrisos laterais após dar uma piscadela)

Naty: Ham? Cara, vocês transaram! Isso é tão estranho! (sentou-se no colchão, ainda inconformada com a notícia que poderia mudar tudo entre eles)

Babi: Ninguém disse isso. Eu dormi com o Alex mesmo. Só que ele e a Blenda saíram cedo por causa do jogo universitário. Eu levantei alguma hora, bêbada, sabe-se lá o motivo, e quando voltei achei que a cama vazia era a do Dan e que quem estava dormindo era o Alex. Deitei do lado dele e quase morri quando acordei. Foi isso.

Dan: Coitada, quase morreu quando viu que o sonho tinha virado realidade!

Babi: Deixa de ser mala. (deu-lhe uns tapas só para constar; machucar nunca era a intenção)

Naty: E eu que sou bizarra?

Dan: Bom, está tudo certo agora, tudo explicado. Vocês são doentes, e eu sou gostoso. Fim de papo!

Babi: Eu não disse gostoso, disse bunda gostosa.

Dan: Você só experimentou essa parte, então, a aprovação foi de cem por cento!

Naty: Vocês têm sérios problemas!

Babi: Nós? Naty, você tem um dom muito especial, cara. Não deveria ter vergonha disso.

Naty: Por favor, gente, esqueçam isso. Não contem para ninguém. E não quero nenhum dos dois me tratando diferente.

Babi: Morre aqui, pô!

Dan: E por que trataríamos diferente? O que mudou?

Naty: Vocês agora sabem que não sou como os outros, ué.

Dan: Não sabíamos que era vidente ou seja lá o que for, mas já tínhamos a certeza de que era muito especial.

Babi: Disse tudo! Fechei contigo!

Naty: Own, eu adoro vocês dois! (finalmente relaxou e enlaçou ambos em um abraço apertado)

Babi: Só vê se não vai embolar a nossa vida no estilo “As visões da Raven”!

Naty: Não, não. Comigo o fenômeno é muito diferente e mais raro de acontecer. (sorriu aliviada para Dan, que lhe afagava o ombro para tranquilizá-la)

Dan: Amém por isso! Assim consigo me acostumar.

(Após as férias de julho, começaram as primeiras aulas do segundo semestre, e o reencontro havia sido o mais doido possível. Naty ainda estava impressionada com o “menino tão gracinha” que tinha visto no estacionamento, que, na verdade, era Daniel, que mudou durante o tempo em que não se encontraram. Quanto a Babi, estava igualmente surpresa, apesar de já ter reparado antes na beleza do amigo. Agora, com o cabelo recuperado do corte mal feito e o corpo começando a mostrar os efeitos da rotina de exercícios adotada desde o fim do vestibular, era outro, e todas as mulheres notavam isto. Só ele parecia não perceber a própria mudança do mesmo modo)

Naty: Chatice! Semana de trotes de novo! (puxou qualquer assunto para conseguir parar de encarar Dan e deixá-lo mais à vontade. Ainda estranhava tudo. Até o fato de não vê-lo usar mais o boné que, antes, não tirava de maneira alguma)

Babi: Não sei do que você está reclamando. Nunca levou um grave.

Naty: É, mas este ano vão me encher para dar um nos outros.

Dan: Não dá, ué. Você não gosta e pronto.

Naty: "Alá" aqueles coitados. Já pintaram um de pantera cor-de-rosa. (apontava os calouros trotados, quando Bruno chegou correndo)

Bruno: Daniel, caraca! Neste semestre, um grupo de calouras aceitou o trote de beijar um veterano!

Dan: Já vieram trouxas, essas aí. Vão durar pouco aqui. Ninguém contou que só jogam verde e que esse trote é boato?

Bruno: Cara, você não tá entendendo.

Dan: Realmente. O que você quer?

Bruno: Uma delas viu você chegando agora e pediu pra beijar você!

Dan: Ham? Eu? Qual é a piada?

Bruno: É sério! E ela é muito gostosa.

Dan: Caraca! Então, tô com sorte e... Ei, péra aí! Deve ter algo errado, não gostam tanto assim de mim lá em cima!

Babi: Valeu, pegador! Essa aí deve ter visto a bundinha de longe. (zombou dele, com um sorrisinho implicante a tomar conta dos lábios)

Dan: Esquece a minha bunda, menina!

Babi: É, vai dar não. (constatou após olhar para baixo, cheia de cobiça)

Dan: De novo, você me assusta!

Bruno: “Vambora”, cara!

Babi: Pega ela, bundinha!

Naty: Ele ainda não se tocou de que virou um dos alvos da mulherada? (sussurrou para a morena, enquanto Dan era arrastado pela impaciência do outro veterano)

Babi: Vai se tocar nunca. Sabe que ele é lerdo com isso! Só ele não percebeu o quão gracinha ele tá agora.

Naty: Só ele mesmo.

Babi: Vamos assistir, Naty, vem!

Dan: Tá, tá. Quem é a caloura? Só quero ver.

Bruno: É aquela ali. (mostrou uma garota de sensualidade tão familiar que ele até ficou estático): Viu como é gostosa?

Camila: Oi, Pitucho. Recuperado dos efeitos do vestibular? Tão lindinho como antigamente.

Dan: O que você faz aqui? (foi tudo o que conseguiu ou se limitou a dizer)

Camila: Eu vou estudar aqui. Não sabia?

Dan: É, lá em cima não gostam nada de mim!

Camila: Senti sua falta.

Dan: Que linda! Pena que não posso dizer o mesmo!

Bruno: Ei, vocês estão estragando a diversão dos trotes!

Dan: Tá bom. Eu já estava de saída.

Camila: E o meu trote?

Bruno: É mesmo, cara. Não vai beijar a gostosa por quê? É veado, pô?

Dan: Não te devo explicações.

Babi: Ele é meu namorado! (beijou-o de improviso, deixando ambos os amigos sem qualquer tipo de reação. Afinal, ela era a única dos três que tomava esses tipos de iniciativa justo quando ninguém esperava)

Camila: Quê? Namorada?

Babi: É. Por quê?

Camila: Só não acredito. Você não é o tipo dele.

Naty: É, o tipo dele é Raimunda!

Camila: Tá dizendo que eu só sou uma baranga gostosa?

Naty: Gostosa é a seu critério, né? Dei uma moral só para não acabar com a sua autoestima.

Bruno: Mas ela aceitou o trote do beijo e escolheu o Daniel!

Babi: Ela já escolheu o trote, e você ainda deixa escolher com quem? Seu banana! Desde quando caloura manda em algo? Estou aqui há mais tempo que você, sou do quarto período, e você do terceiro. Então, eu posso escolher!

Bruno: Vai estragar a parada... (expressou contrariedade em um resmungo)

Babi: Já trotei a Naty e o Dan, posso trotá-la também. A não ser que o veterano Daniel queira fazer isso. Afinal, ele foi o escolhido.

Dan: Quero nada com essa garota.

Naty: Só não faço isso porque sou contra!

Babi: Bom, mas eu não sou. Então, quer beijar um veterano, né, fofinha? Eu escolho o Lula Molusco pra você! (sinalizou Henrique, o tal Lula Molusco, que comemorava a decisão)

Camila: Como é que é?

Babi: Você tá vendo. Nem preciso explicar por que o apelido dele é esse, né? (esboçou um dos seus sorrisos mais angelicais às recusas dela): Quem é a veterana aqui?

Camila: Só porque eu sou a ex do Daniel! É ciúme!

Babi: Não importa, o Lula tá esperando.

Henrique: E aí, gata? É só um beijinho! (passou a mão por cima do ombro da caloura)

Babi: Já te contaram que trote leva quem aceita beijar veterano e dá pra trás? Você pediu, agora seja mulher e banque. (ficou completamente satisfeita em vislumbrar o olhar condescendente de Camila, que enfim se deu por vencida e cumpriu o trote designado): É isso aí. Bom, gente, resolvido! Vamos, gato? (pegou a mão do rapaz)

Dan: Tá, vamos. (acompanhou-a, junto com a sulista, até a cantina)

Naty: Babi, você ferrou com ela! Achei bem feito!

Babi: Não foi? Sempre quis fazer essa cena ridícula da falsa namorada, que nem em filminho americano. Usei os chiliques da Michele como inspiração. Me saí bem em ser vaca. (conteve uma risada, quase aplaudindo a si mesma): Mas e você, Dan? Gostou de dar o troco? Ou eu fui longe demais?

Dan: Ah... (sentou-se em um dos bancos): Tanto faz. Já disse que sou indiferente a ela.

Naty: Tem certeza de que você está bem? (abaixou-se para poder olhá-lo nos olhos): Eu sei o que ela significou pra você. E ainda é cara de pau de te deixar nessa situação!

Dan: Tô, sim. (sorriu ao trazê-la para si e beijá-la na testa): Não se preocupa, não, videntezinha. (levantou-se, então): Quer dizer que tô namorando e não sabia?

Babi: Como não? Até já acordou comigo!

Dan: Mas, me conta, como eu arrumei uma gata dessas? Preciso fazer isso mais vezes. (forçou a brincadeira para conseguir tirar logo aquele assunto chato da cabeça)

Babi: Simples: ótimo senso de humor e uma bunda linda!

Dan: Falei que ela me queria...

Naty: Desculpa não ter ajudado na hora, eu não pensei tão rápido.

Dan: Ah, Naty, você é linda, sabia? Nunca vi você ofender alguém. (abraçou-a em gratidão por tê-lo defendido ainda há pouco): Sério, não esquenta.

Naty: Ela me irrita! Como fez aquilo com você?

Dan: Sendo dada? Não tem lá muito mistério.

Babi: Esse garoto é dos meus!

Dan: Dos seus? Segundo o que você disse, sou O seu!

Babi: Gostou, né?

Dan: Minha mãe me ensinou desde pequeno a ajudar as pessoas a realizarem os seus sonhos.

Babi: Ah, seu miserável! Tá ficando muito folgado, hein, bundinha!

Dan: Para com isso. Tá ficando esquisito.

Babi: Tá... Já deu de te zoar por hoje. Ah! Como me esqueci de perguntar? Já estão sabendo? Neste semestre vai ter a festa de pulseiras e máscaras! Todos os garotos têm que ir irreconhecíveis com alguma fantasia, e todas as meninas usam uma pulseira de cor diferente das demais. Tem um jogo, e cada uma vai beijar, cheirar ou tatear um mascarado, que fica com a pulseira. No final, se ela adivinhar quem era o par, os dois ganham entradas para um paintball.

Naty: Que legal. Tão misterioso!

Dan: E se o mascarado for alguém feio como o Lula?

Babi: Faz parte. Azar da garota, assim como um garoto pode ser escolhido por uma baranga. Ninguém vai morrer por isso, né?

Dan: É, tô nessa. Vou pensar numa fantasia.

Babi: A propósito, até assustado você beija muito bem, hein. (balançou levemente a cabeça com um quê de aprovação)

Dan: Você também, zebrinha. (segurou uma mecha dentre os cachos da veterana assim que a aproximou de si)

Naty: Estou saindo. O clima tá esquisito...

Dan: Precisa não, Naty. É só o mesmo tipo de brincadeira de sempre. Não mudou nada.

Babi: É, claro! Deixa de bobeira! A gente tá só de implicância, nem foi um beijo mesmo não. Pensei que ele fosse ficar sem graça, mas nem rolou.

Dan: Já estou ficando vacinado, linda. Mas, bom, vamos pra aula?

Babi: Vão na frente. Eu não tenho aula com vocês mesmo. (despediu-se deles, permanecendo no local por mais alguns minutos na companhia apenas de seus próprios pensamentos)

Michele: Pensando em que relacionamento vai estragar hoje?

Babi: Nossa! Eu mal banco a vaca, e me vem logo a original! Era o que faltava! A lei do retorno não falha. O que você quer, hein?

Michele: Sua cabeça! (apontou-lhe o indicador furiosamente)

Babi: Quando eu nascer homem, eu te empresto, querida! (sorriu com sarcasmo, como costumeiramente fazia. Em especial, quando se tratava da ruiva)

Michele: Você entendeu, sempre tão infantil! Você dormiu com o Alex! Eu não quis acreditar nas fofocas que ouvi na época, mas, depois de todo esse tempo, a Blenda me confirmou. Então, não se faça de sonsa, tá? Se você teve a cara de pau de ir lá transar com ele, não negue agora!

Babi: E daí? É, transei mesmo. E não foi nada de mais, acredite.

Sugestão musical: Stop Crying Your Heart Out – Oasis

Michele: Por que você faz essas coisas? (tentava manter a pose, mas era denunciada pelos olhos marejados; uma vulnerabilidade tão inusitada que até fazia Babi sair do estado de deboche defensivo)

Babi: Nossa, desculpa, sério. Você é mais sensível do que eu pensava. A gente se conhecia de antes, sabe? O Alex e eu. Eu gostava dele há muito tempo e...

Michele: Pelo menos agora você sabe que não pode competir.

Babi: É, você venceu mesmo. Parabéns, o canalha é seu!

Michele: Bem que você o queria para si a todo custo, né?

Babi: Não sei por que brigamos por nada, cara! Michele, olha pra você. Você pode ser um porre, mas é bonita demais para chorar por homem. Você faz melhor, é só estalar os dedos!

Michele: Ham? Eu sou o quê? (franziu o cenho, incrédula com os elogios vindos dela)

Babi: É isso aí, você consegue quem quiser. Ele é disputado? E daí? Você também!

Michele: O que te deu? Tá zoando comigo?

Babi: Parei para olhar e vi opções melhores do que brigar com você pelo Alex; a solidão é uma delas. Ele queria as duas e conseguiu. Perdemos as duas, ele venceu.

Michele: Não, ele te quis por uma noite. E você se submeteu a isso porque achou que esse era o caminho mais fácil de acabar com o meu namoro. Não se vitimize.

Babi: Que seja! Agora ele é todo seu. Não vale a pena. (deixou-a sozinha, pelo menos até a chegada quase simultânea do assunto, que a cumprimentaria com um estalinho)

Alex: Oi, gata. Que bom ter encontrado você aqui! Tava pensando num programa legal pra gente fazer hoje, sabe? Só nós dois. Descolei o lugar perfeito pra gente poder ficar juntinho, jantar, conversar a sós... (abraçou-a pela cintura, beijando-lhe os lábios com uma intensidade não retribuída, no entanto): O que foi? Cara, eu sei que você é pé atrás com essas coisas, quer que seja especial, mas pô! A gente se gosta, namora tem tempo, e eu programei uma noite romântica com tudo que tem direito! O que você quer mais?

Michele: Respeito era um bom começo. Não minta mais, eu já sei da Bárbara...

Alex: Sabe? Pô, gata... aquilo não foi bem traição. Eu gosto de você de verdade, mas você faz jogo duro, e eu sou homem! Apenas acabei com certas necessidades fundamentais. Você sabe que sentimento mesmo é com você. (tentou beijá-la de novo a fim de fazer as cores fortes da infidelidade esmaecerem, mas ela o afastou, para o seu desagrado)

Michele: Difícil acreditar assim. Você não podia esperar?

Alex: Fácil dizer!

Michele: Não, não é. Eu estava esperando também.

Alex: Só acho que não tinha mais nenhum motivo pra tanta retranca sua.

Michele: Nenhum motivo? Você se achava confiável? Sério? Só confirmou com isso tudo o que eu não queria admitir: que você usa as mulheres como se fossem coisas!

Alex: Ela que ficou se jogando! E não se compare com ela, você é diferente!

Michele: Sim, eu sou a corna! Eu sou aquela que passou mal e nem a sua ajuda recebeu! Aquela pra quem você mente com a maior cara deslavada do mundo!

Alex: Ai, o que é, hein? O que te deu? Só reclama! Se eu sou tão ruim assim, cai fora, ué. Eu arranjo outra rapidinho. Questão de segundos!

Michele: Talvez você deva!

Alex: Como é que é? (estranhou a reação quando ameaçar término sempre foi a chantagem mais eficaz a manipular qualquer outra mulher com quem havia saído): Tem muita garota esperando essa chance! Vai dar mole por bobagem?

Michele: Então dê a chance! Uma fila me espera também. Tchau! (saiu em retirada, revestida por uma carapaça de orgulho. Preferiu fingir não saber que, em um piscar de olhos, Alex de fato teria outra consigo; como se ela não importasse... Imaginar um sofrimento duradouro lhe era mais reconfortante naquele contexto de humilhação)

Notas finais
Se estiver lendo, por favor, dê um sinal de vida. Eu não mordo e fico triste de "falar sozinha" aqui; por favor, me salva desse mico, haha.