Sinestesia
1 Magia do entardecer.
Notas iniciais
Há uma certa magia quando chega o fim de um dia. É um momento de reflexão involuntária, em que as pessoas param, mesmo que involuntariamente, para pensar na quantidade de coisas que ocorrem em um pequeno espaço de tempo, por meio de maneiras muitas vezes inesperadas. Milhões de pessoas, milhares de sentimentos e pensamentos. Surpresa, alegria, descontentamento e decepção.
Descoberta.
Magia!
01/06/01
Aproximadamente duas semanas após seu aniversário de dois anos, Júlio tem seu primeiro momento de estranhamento. Enquanto está sentado no chão da sala, junto com seus pais, o barulho da televisão lhe causa certo atordoamento. Era uma noite chuvosa, então o sinal estava totalmente instável, gerando ruídos sonoros constantes. Os pais da criança pareciam não se incomodar, pois continuavam conversando entre si com a normalidade de sempre, mas para Júlio aquilo parecia um pesadelo. A cada nova queda de sinal, o tremor no som gerava para ele uma espécie de onda visual presente apenas no cérebro, mas que de alguma forma parecia se projetar frente a seus olhos. Aquilo não lhe dizia absolutamente nada, e conforme a chuva ia passando, o sinal se tornava mais estável e o incômodo se dissipou. A agitação da idade o fez esquecer instantaneamente o ocorrido.
X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X
Depois de revirar suas lembranças em busca de algum vestígio anterior, o garoto rememora esse fato. O distúrbio que lhe parecera tão irrelevante naquele momento desencadeou raízes não previstas. Nessa busca, as lembranças passaram a atingi-lo com mais frequência, lembrando-o que o fenômeno de, literalmente, ver sons o acompanha há algum tempo.
X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X
20/02/08
— Formem as filas de acordo com a turma para o juramento à bandeira. Posicionem-se atrás do seu respectivo professor! — Berrava a coordenadora do colégio para as crianças espalhadas pelo pátio.
Para Júlio aquela era só mais uma segunda-feira habitual, então ele seguia seus colegas para a fila de sempre. Quando todos finalmente estão devidamente posicionados e já levando a mão ao peito, o hino começa a tocar e é instantaneamente percebido uma falha na sonoplastia. O hino ecoou por todos os alto-falantes dispostos na fachada do colégio — usados apenas em eventos de alto porte, gerando uma reação coletiva nos alunos e professores, levando as mãos aos ouvidos. O problema tentava ser resolvido, mas o processo acontecia lentamente, com um alto-falante por vez. Todos estavam visivelmente atordoados, mas Júlio, em especial, estava visivelmente mais. Assim que o toque começou, pulsos aleatórios surgiam em frente aos seus olhos, embaçando sua visão instantaneamente. Mesmo que ele soubesse, de certa forma, que eles não eram fisicamente reais, contínuos tentando, em vão, afastá-los da sua frente com socos no ar. As palpitações surgiam em diferentes tons, espessuras e comprimentos, aparecendo, desaparecendo e dando lugar à outra numa frequência absurdamente rápida.
A multidão acabara se acostumando, depois de um tempo, mas o desespero da criança na fila do quarto ano era visível.
— É mais seguro ir ou só esperarmos? — Diz a coordenadora, se inclinando para falar no ouvido de Elisa.
— Júlio! Júlio, você consegue me ouvir? —Gritava Elisa, professora do quarto ano, já correndo para o fim da fila onde o garoto estava. E continuou gritando quando chegou na sua frente, tentando compensar o barulho dos alto-falantes ainda em ajuste. — Você precisa abrir os olhos e parar com os socos, Júlio! — Dizia, enquanto tentava segurar seus frágeis — e ágeis, naquele momento — braços.
O menino havia fechado os olhos com o intuito de afastar os pulsos gritantes, mas não adiantava: eles permaneciam lá, mesmo em meio à escuridão. Ao ouvir o pedido de Elisa, Júlio abre os olhos, enquanto os braços caem rente ao tronco; só há tempo de ver a claridade do dia para, quase instantaneamente, desabar nos braços da professora, enquanto o hino escoa como fundo sonoro.
No instante em que abre os olhos, o branco em excesso do pequeno quarto da enfermaria embaça momentaneamente a vista de Júlio, que volta aos poucos. A janela próxima à sua cama estava aberta, deixando entrar uma brisa leve, fazendo com que ele se questionasse quanto tempo havia ficado ausente. Não houve muito tempo para assimilações, pois Elisa entrou no quarto não muito tempo depois.
Inicialmente a professora tomou um susto, quase derramando o café com leite nela mesma. Depois de superar o espasmo momentâneo, Elisa abre um leve sorriso e se encaminha para a poltrona — branca, como tudo naquele lugar — posicionada perto da janela e, consequentemente, perto da cama. O sol começava a se pôr, dando ao garoto uma leve noção de tempo.
— Ligamos para a sua mãe para informar o que aconteceu hoje pela manhã. — Começou Elisa — A assistente do escritório disse que daria o recado depois que uma suposta reunião acabasse. Até agora não obtivemos retorno.
Júlio não fica surpreso, pois já se acostumou com a mãe ausente na maior parte do tempo por causa do trabalho. Os casos que necessitavam do acompanhamento de uma assistente social haviam aumentado exponencialmente, fazendo com que Judith se fizesse cada vez mais afastada da família. Mas o garoto não a julga por isso, pelo contrário, ele a admira bastante, pois vê a mãe como uma heroína que liberta as crianças de monstros abusivos. Essa é a história que ouve do pai corriqueiramente.
Elisa continua falando sobre todo o processo da chegada de Júlio à enfermaria, mas o olhar do menino se perde em meio à leveza que a luz dourada do entardecer dá aos móveis brancos. Mais uma vez ele lembra do pai, sabendo que ele repararia na mesma coisa. A voz da professora soava ao longe e, ao contrário do que acontecera naquela manhã, os pulsos que apareciam frente aos seus olhos pareciam apenas reforçar a beleza daquele momento.
Há algo realmente mágico no fim do dia.
Fale com o autor